O QUE SE CRIA E O QUE SE ESTABELECE
Ninguém vem ao mundo como homem; torna-se homem através da luta e do exemplo transmitido. Há quem defenda que a justiça deve ser ensinada através da agressão, e nesse caso, o aprendizado se transforma em destruição. Toda legislação que engana começa de forma refinada: inicia prometendo equidade e termina impondo fardos. Quem reside no edifício está ciente de que a fachada não consegue conter a chuva.
Gabriel G. Oliveira
6/28/202638 min ler


A FERRARIA E A BALANÇA
Comece com uma verdade que a nossa era esqueceu e que é difícil de resgatar: o homem não nasce completo, o homem é formado. Não existe menino que nasça entendendo o que significa honra, coragem, cumprir uma promessa e controlar seus próprios impulsos. Tudo isso é costume, e costume não se transmite pelo sangue, mas sim conquistado através da repetição, do exemplo e do contato com outros homens que já o possuam. Aristóteles mencionou isso na Ética a Nicômaco e afirmou de maneira definitiva: a virtude moral é uma inclinação que se desenvolve por meio da prática, assim como alguém que aprende a tocar cítara praticando, em vez de apenas lendo sobre cítaras. Ninguém se torna corajoso apenas refletindo sobre a coragem. Coragem se conquista ao realizar atos corajosos, até que essa bravura se torne uma reação instintiva. É por essa razão que o menino necessita de um ambiente que o desafie, que o refine, que o faça perceber de forma tangível o que significa ser um homem, pois, na ausência desse contexto, ele não possui uma referência de onde extrair o seu molde.
A arte marcial, por sua vez, é uma das poucas forjas que ainda existem, e isso explica por que atrai tantos jovens que se sentem perdidos. Ali não se cria violência, ali se cria o oposto da violência: ali se cria a norma. O indivíduo irá sofrer no tatame, será estrangulado, terá o rosto esfregado no chão e, após o término da luta, irá cumprimentar aquele que o derrotou e se referir a ele como um igual, pois o oponente respeitou as regras do combate. Ali se aprende uma lição que nenhuma cartilha ensina: é possível perder com dignidade, é aceitável tanto vencer quanto ser derrotado, desde que isso ocorra dentro de um conjunto de regras; a força sem limites é equiparada à criminalidade, enquanto a força pautada por normas é considerada uma virtude. Há honra em um quadro de honra, e só há um homem honrado onde existe um espaço que promova a honra. Encontrei pessoas, no interior, que estavam organizando atividades extracurriculares para ensinar trívio, quadrívio e artes marciais aos jovens da comunidade, precisamente porque a escola pública deixou de ensinar essas disciplinas — e isso não pode ser impedido, e é uma sorte que assim seja, pois representa uma das raras e verdadeiras investidas na educação que ainda permanecem em vigor.
É aqui que reside o problema que batiza a enfermidade de nossa geração: a grande maioria das famílias brasileiras já não conta mais com a presença masculina. A ausência da figura paterna pode ser atribuída a sua expulsão, à sua falta ou mesmo à sua não chegada, resultando em uma grande quantidade de meninos que foram criados exclusivamente por mulheres, sem qualquer exemplo de masculinidade à sua vista. Não se trata de uma ofensa às mães, que muitas vezes realizam sozinhas uma tarefa verdadeiramente heroica. É o reconhecimento de uma ausência. O garoto que só teve contato com mulheres ao longo de sua vida não possui referências para entender o que significa ser um homem, e, portanto, pode acabar imitando aqueles que estão ao seu redor ou criando uma ideia de masculinidade baseada em fantasias que vê na tela. A mulher adquire sua identidade feminina por meio da convivência com outras mulheres, e essa relação proporciona uma continuidade natural que a fortalece. O garoto, de maneira diferente: ele precisa de um homem que o impulsione para cima, e quando esse homem não está presente, toda a forja se torna incompleta. A tendência, e isso é o mais preocupante, é que a situação se agrave, pois a cada ano que passa, há um número menor de pais que assumem seus filhos, menos figuras masculinas presentes no lar, e também há uma diminuição dos quadros de honra onde os meninos podem aprender a se reconhecer.
Atenção, mencionei forja, e não fábrica. Aqui, existe uma distinção crucial que irá fundamentar tudo que se segue, e que eu pretendo manter throughout this text: o fato de que o homem necessitar se moldar não diminui a mulher a uma criatura guiada apenas por instintos, que não requer qualquer tipo de formação. Esta é uma interpretação relaxada e, na verdade, incorreta. A mulher também se desenvolve, também adquire virtudes por meio da prática, e também necessita de exemplos e correções — é só observar os efeitos da falta de correção em qualquer pessoa, independentemente do sexo, para perceber que ninguém está isento da norma de Aristóteles. A única diferença está na jornada, mas a dignidade do destino permanece a mesma. Tanto o homem quanto a mulher são, ambos, seres humanos completos: cada um deles é uma unidade de corpo e alma, dotada de inteligência e vontade, e são iguais em dignidade perante Deus e diante da razão, como a antropologia originada de Aristóteles e aprimorada por Tomás de Aquino sempre se esforçou para afirmar. É precisamente dessa equivalência de natureza que extrairei a energia para o próximo ataque que se avizinha — pois aquele que rebaixa a mulher a um mero instinto está, na verdade, cortando o próprio ramo sobre o qual pretende se apoiar para clamar contra a injustiça.
É sobre a injustiça que preciso me pronunciar, e ela se inicia nos lugares mais inesperados: na lei, que começa a enganar e o faz de uma forma incrivelmente desavergonhada. O artigo 5º, inciso I da Constituição inicia com um juramento de que homens e mulheres possuem os mesmos direitos e deveres, mas em seguida, o restante do texto contraria essa afirmação com a qual se apresentou. Não se trata de uma contradição oculta em um parágrafo perdido. Está exposta à luz do dia, registrada, numerada, assinada, e a maior parte das pessoas transita por essa contradição diariamente sem perceber que o fez. A igualdade formal é apenas um disfarce. A assimetria material é o edifício inteiro que se encontra atrás dela. É neste edifício que se vive, se casa, se perde filhos e se sepulta pessoas.
É fundamental que eu seja sincero em relação ao que digo, para que algum indivíduo astuto não finja que eu afirmei algo que não disse, uma tática que costuma ser a primeira reação dos covardes quando se deparam com um argumento que preferem evitar. Não afirmo que exista um conselho de mulheres, reunido em um porão, traçando os destinos dos homens. Expresso de uma forma mais simples, embora mais difícil de aceitar: a lei, na realidade que se vive além do papel, impõe encargos de um lado e proporciona alívio do outro, e isso não representa igualdade de forma alguma. É uma balança que simula estar equilibrada, com o dedo sutilmente pressionado em um dos pratos. O cego mais lamentável é aquele que se habituou a ter o dedo ali.
Inicie com a Lei Maria da Penha, a Lei 11.340 de 2006, pois é nesse ponto que a questão se torna mais intensa e sensível ao mesmo tempo. Ninguém sensato pode afirmar que ela surgiu sem um problema legítimo por trás. A violência doméstica é real, leva vidas e sua subnotificação é um escândalo silencioso que envergonha a nação. Quem discorda disso ou está sendo desonesto ou nunca presenciou de perto as ações de um homem agressivo em uma casa com a porta fechada. A questão não reside no objetivo da lei. Está na sua essência. Confundir os dois conceitos, o objetivo nobre e a engenharia equivocada, é um engano que aniquila qualquer discussão madura antes mesmo de se iniciar.
É possível que uma medida protetiva de urgência seja concedida hoje sem a necessidade de um boletim de ocorrência, inquérito ou ação penal — a Lei 14.550 de 2023 deixou isso muito claro, dispensando até mesmo a tipificação penal de qualquer ato. Em novembro de 2024, o Superior Tribunal de Justiça, no Tema 1.249, foi além e definiu que tais medidas são de natureza inibitória e possuem um prazo indeterminado, cabendo ao acusado provar que o risco deixou de existir para que a medida seja alterada. Leia novamente, com calma, pois a frase está carregada de significado. Não cabe ao Estado demonstrar a existência de um perigo. É o homem que deve demonstrar que o perigo foi eliminado. Foi acionada a regra de ouro de toda a tradição jurídica civilizada, que afirma que a responsabilidade de apresentar provas recai sobre quem faz a acusação, e nunca sobre quem está sendo acusado.
E é neste ponto que a reflexão profunda se distingue do barulho inconsequente, e eu insisto em me alinhar à reflexão profunda, mesmo quando suas conclusões não favorecem o meu ponto de vista. A ameaça dessa manipulação não é que as mulheres comecem a mentir em grande escala. Isso é uma invenção, e aqueles que a repetem sem ter um único dado oficial em mãos estão fazendo exatamente o que o oponente que desprezam: criar estatísticas fictícias para justificar sua própria indignação como se fosse um fato científico. O risco é sistêmico e é mais grave do que a falsidade isolada, pois a falsidade é a exceção enquanto a estrutura é a norma. Ao reduzir a quase zero o custo de uma acusação e passar ao acusado a responsabilidade de provar sua inocência em um contexto onde é quase inviável demonstrar tal inocência, você estabelece um incentivo. O incentivo não possui ética. O incentivo não questiona se você é bom ou ruim. Só se adapta à forma da estrutura, assim como a água se molda ao contorno do recipiente.
Uma lei desse tipo opera de maneira excepcional para resguardar a verdadeira vítima, que representa a vasta maioria das situações, e também atua, sem que ninguém tenha a intenção consciente disso, como uma arma carregada deixada esquecida sobre a mesa, ao alcance da minoria que deseja utilizá-la em um divórcio contencioso. Ambas as afirmações são verdadeiras simultaneamente, e a sabedoria reside em manter as duas em equilíbrio, sem deixar nenhuma delas se perder. Negar a segunda em prol da defesa da primeira é uma forma de militância desonesta. Negar a primeira em favor de atacar a segunda constitui o erro simétrico, uma falha típica de quem se sente ressentido e que transforma sua própria aflição em uma teoria abrangente. Rejeito ambos, e essa dupla recusa é a única postura sincera que permanece em pé.
Deixe de lado o dramatismo e atente-se à previdência, que é menos cinematográfica e, por isso, mais esclarecedora, uma vez que ninguém defende um caso de aposentadoria em lágrimas na televisão. A Emenda Constitucional 103 de 2019 preservou a vantagem das mulheres na aposentadoria, permitindo que elas se aposentem cinco anos antes que os homens, com a idade de sessenta e dois anos em comparação aos sessenta e cinco da regra geral. A base histórica eram a dupla jornada e a longevidade. É aqui que a realidade insinua uma sutil ironia nos próprios dados que fundamentam a regra. Conforme as Tábuas de Mortalidade de 2024 do IBGE, a expectativa de vida da mulher brasileira é de 79,9 anos, enquanto a do homem é de 73,3 anos. Seis anos e meio a mais. Damos aposentadoria antecipada exatamente a quem, por norma, permanece por mais tempo na espera da vida.
É possível justificar isso com base na verdadeira injustiça que representa o trabalho de cuidado que não é remunerado, e há pessoas sérias que apoiam essa ideia, as quais reconhecem a validade do argumento, sem ignorar sua existência. Não me chame de igualdade uma conta onde um lado chega primeiro e permanece mais tempo recebendo. Chame pelo nome correto: é compensação. Compensar é, por definição, opor à igualdade — é admitir à luz do dia que os pratos da balança não estão nivelados, só que, neste caso, optou-se por inclinar a balança a favor de quem já vive mais. É possível que seja justo. Isso pode ser algo desejável. Não é o mesmo, e quem utiliza a palavra "igual" para caracterizar isso pode não ter refletido sobre o assunto ou pode não querer que você faça essa comparação.
A licença é o exemplo mais claro, pois é o mais simples de ser avaliado com uma régua. De acordo com o artigo 392 da CLT, a licença-maternidade tem duração de 120 dias. Era apenas cinco dias a licença-paternidade, cinco, e só com a Lei 15.371 de 2026 foi aumentando gradativamente até atingir, em 2029, vinte dias. Vinte a mais de cem. Seis vezes inferior. Observe o que essa assimetria transmite, além da simples matemática. Ela afirma que o pai é um complemento na cena do parto. Que ele vem, dá oi, tira a foto e vai embora para a fábrica. A legislação retrata o homem como um provedor dispensável do lar, uma figura cuja presença se limita aos fins de semana. E, em seguida, a mesma cultura que o moldou dessa maneira critica, apontando o dedo, afirmando que os pais são ausentes. Você cria leis para a ausência e, em seguida, exige que estejam presentes. É como prender as pernas de uma pessoa e depois dizer que ela é manca. E perceba como isso retoma o que mencionei no início: a forja paternal se extinguiu em muitos lares, em parte porque a própria estrutura familiar afastou o pai, e, em seguida, nos surpreendemos ao ver tantos jovens sem um modelo a seguir.
Quando o matrimônio chega ao fim, a desigualdade deixa de ser apenas teórica e se transforma em realidade, manifestando-se em uma cama desfeita e na divisão de bens. De fato, a Lei 13.058 de 2014 transformou a guarda compartilhada em norma, e os dados do registro civil mudaram ao longo dos últimos dez anos. A Lei de Alienação Parental, nº 12.318, de 2010, já modificada pela lei nº 14.340, de 2022, está hoje ameaçada de ser revogada por completo — o PL nº 2.812, de 2022, foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara no fim de 2025 e seguiu para o Senado. É nesse ponto que a discussão se torna filosoficamente intrigante, uma vez que ambas as partes possuem um fragmento de verdade que ignoram no opositor. Por um lado, afirmam que a lei foi utilizada para proteger abusadores e silenciar mães que fazem denúncias. Por outro lado, afirmam que a alienação parental é uma verdadeira forma de violência psicológica, na qual se contamina gradualmente a mente de uma criança contra um dos pais, até que ela passe a rejeitar aquele que nunca lhe causou nenhum mal. Ambas as situações ocorrem no mundo. A ocorrência de ambos os casos deveria fomentar um diálogo maduro sobre a forma de diferenciar o abuso genuíno da acusação estratégica, em vez de se transformar, como aconteceu, em uma disputa em que cada parte busca eliminar a ferramenta utilizada pela outra.
Tenho conhecimento desse fenômeno não através de livros, mas pela experiência direta com os vivos. Conheço oito amigos que se separaram e, entre eles, quatro que perderam o filho, não por morte - o que seria mais piedoso - mas sim pelo desgaste gradual de uma cabecinha que se voltou contra eles, dia após dia, comentário após comentário, até que o garoto trocasse o sobrenome do pai pelo do padrasto. Esses homens pagaram pensão para que seus próprios filhos os esquecessem. Um deles me afirmou, e essa lembrança permanece comigo, que pagava mais em pensão do que conseguia para se sustentar, uma vez que a lei não reduzia o valor mesmo após sua renda ter caído drasticamente, e o advogado do lado oposto era um verdadeiro carrasco que pouco se importava com sua situação de fome. Isso não é teoria de folheto. É o depoimento de homens que eu observei chorar em minha presença, e um homem que chora diante de mim não está tentando agradar a ninguém.
Eu não utilizo esse testemunho de maneira alguma, pois é aqui que reside a distinção entre refletir e gritar. Não extrapolo, nesses quatro casos, para a afirmação de que toda mulher é, por natureza, uma máquina de vingança. Isto seria uma mentira, além de ser tolo e, o que considero mais grave, uma traição ao meu próprio método. Eu defendo a ética objetiva, que sustenta que a verdade existe na realidade e é descoberta, em vez de ser estabelecida com base na minha experiência pessoal. Pois "todas as mulheres que eu conheci eram assim", é uma verdade proclamada a partir da própria experiência, que não foi revelada pela observação da natureza das coisas — trata-se de um subjetivismo invertido, o mesmo erro que critico nos sofistas, mas que eu estou cometendo em relação à metade da humanidade. A própria vida me oferece o contra-exemplo na mesma bandeja: a primeira mulher que realmente amei, afastada apenas pela distância de milhares de quilômetros; a amiga que se casou feliz por ter desafiado a regra estúpida que dizia que a mulher deveria permanecer em silêncio; as amigas que, quando eu era jovem, me deram os conselhos mais sinceros que um homem pode receber sobre mulheres. O que o relato dos meus amigos demonstra não é um juízo sobre a natureza do feminino. Explora uma questão mais profunda: há um sistema de incentivos legais que favorece os piores comportamentos humanos e penaliza os melhores. Quando esse sistema recompensa o que há de pior, é natural que o pior se manifeste — tanto em homens quanto em mulheres, independentemente de suas diferenças cromossômicas. O que eu observei repetidamente não é a malícia de um gênero. Isso ocorre com qualquer indivíduo a quem você confere uma arma e isenta do ônus de utilizá-la.
Agora, incline-se em direção ao outro lado da balança, aquele que raramente é pesado, pois fazê-lo atrai menos atenção e não gera campanhas publicitárias. Se a legislação considera o homem como algo descartável, as estatísticas comprovam que ele está falecendo exatamente como o papel indica. De acordo com o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de 2024, 77,8% dos casos de suicídio no Brasil são de homens. Quase 80%. O risco para homens é quase quatro vezes maior do que para mulheres. Os homens representam a grande maioria das vítimas jovens de homicídio — o Atlas da Violência aponta cerca de noventa e quatro por cento nas faixas etárias mais jovens, ano após ano. Os homens falecem em muito maior número no ambiente de trabalho, seja por esmagamento, eletrocussão ou quedas de grandes alturas, em funções que ninguém filma para campanhas publicitárias sobre a igualdade. Mas, ano após ano, a mulher continua a desfrutar desses seis anos e meio adicionais.
Toda a história da humanidade mostra que as mulheres viveram menos, e foi com base nesse fato que foi criada a previdência de Bismarck, no final do século XIX, quando foi elaborada a aposentadoria mais cedo para as mulheres, uma vez que elas simplesmente não alcançavam essa expectativa. Atualmente, a situação se inverteu, e o homem, que antes era sinônimo de durabilidade, passou a ser aquele que se consome. O sexo efêmero não é uma metáfora de rebeldia. É isso que os dados do próprio Estado clamam quando alguém ousa interpretá-los sem temor das direções que indicam. E indicam um local desconfortável: referem-se a uma sexualidade que se entrega ao sacrifício em silêncio, que se autodestrói com mais frequência, que sucumbe mais cedo, que encontra a morte em seu trabalho e nas esquinas, e sobre a qual ainda paira a constante dúvida de ser o verdadeiro vilão da narrativa.
É aqui que surge o movimento que se apresenta como o despertar dos homens, conhecido como a pílula vermelha, a red pill. Vou ser honesto com ela, e ser honesto com algo é a forma mais eficiente de arruiná-lo quando realmente merece, pois tanto o elogio indiscriminado quanto a crítica cega falham pelos mesmos motivos. A red pill identifica corretamente a origem da dor. É possivelmente a única vertente barulhenta que observa essas estatísticas sobre o suicídio, a morte violenta, o fato de que os meninos fogem da escola com mais frequência do que as meninas, e que os homens envelhecem sozinhos, e proclama em alto e bom som o que ninguém se atreve a mencionar: existe um sexo que está a sangrar aqui, enquanto a sociedade finge que esse sangue é apenas uma mancha de molho. Ela tem razão nesse aspecto. A dor é genuína. Aqueles que rejeitam o conceito do "sangue" apenas para não conceder legitimidade à red pill são tão desonestos quanto a própria red pill, que inventa seus próprios dados.
No entanto, a pílula vermelha, após identificar a ferida apropriada, administra o veneno inadequado, e o faz com a confiança de quem acredita que o ódio é uma cura. O verdadeiro veneno consiste em reagir ao desprezo com desprezo, à objetificação do ser humano com a objetificação do feminino, e à injustiça com um ressentimento absoluto. Ela absorve a dor masculina, que é real e quantificável, e a converte em um ódio que desumaniza por completo o outro lado, criando a imagem de uma mulher que é intrinsecamente calculista, predatória e naturalmente enganadora. Ao agir dessa forma, ele comete o crime que afirma estar combatendo. Transforma-se no reflexo oposto do feminismo que tanto detesta: um novo tribalismo, a outra metade da humanidade convertida em adversário de classe, uma crença cega na noção de que existem aqueles que são intrinsecamente bons e aqueles que são intrinsecamente maus, apenas com os papéis invertidos. A red pill não é a solução para o problema. É o sintoma final e mais estrondoso dela. Pois a enfermidade, aquela que dá origem tanto à legislação injusta quanto ao indivíduo amargo que reage a essa mesma legislação, é única, é antiga e possui um nome.
A enfermidade representa a extinção da ética objetiva. É a noção, atualmente tão assimilada que poucos se dão conta de que a adotam, de que o que é bom e o que é justo não são elementos que se encontram na realidade, mas sim conceitos que são criados pela determinação daqueles que possuem o poder de fazer essa criação acontecer. É o antigo veneno dos sofistas, e a primeira vez que foi expresso de forma clara e completa encontra-se em um diálogo que remonta a quase dois mil e quinhentos anos. No primeiro volume da República, Platão atribui a Trasímaco a afirmação que rege a nossa era, sem que esta tenha plena consciência disso: a justiça é aquilo que mais beneficia o mais forte. O sofista afirma que não existe um justo por si só. Só existe o que o forte determina como certo e tem a força para impor. Também está presente Protágoras, ao lado de Trasímaco, com sua afirmação de que o homem é a medida de todas as coisas — não existe régua além de mim, eu sou a própria régua, e aquilo que eu percebo como sendo, torna-se efetivamente assim. Em oposição a esses dois, Sócrates dedicou sua vida a questionar e a se deixar agredir, enquanto Platão apresentou as Formas como resposta, e Aristóteles ofereceu uma resposta ainda mais sólida e prática.
Isso porque Aristóteles, na mesma Ética a Nicômaco em que apresenta a virtude como um hábito, não elaborou uma moral baseada em opiniões ou sentimentos. Erigiu uma ética natural. A virtude é o equilíbrio que se encontra entre dois vícios: um relacionado ao excesso e o outro à deficiência — por exemplo, a coragem se situa entre a temeridade e a covardia, enquanto a generosidade está entre o desperdício e a avareza. Esse equilíbrio não é simplesmente uma escolha arbitrária de cada indivíduo; ele é descoberto por meio da prudência, que é a sabedoria prática capaz de interpretar a situação concreta e identificar o ponto preciso. Cada coisa possui um propósito, um telos, e o bem se encontra na concretização desse propósito de acordo com a natureza de cada coisa. A boa faca é aquela que corta bem. Um bom cavalo é aquele que corre. O homem virtuoso é aquele que realiza o propósito da sua existência como homem — da mesma forma, a mulher virtuosa atinge a sua finalidade como mulher, ambas com igual dignidade e a mesma exigência de caráter moral. Não existe uma régua subjetiva pairando de acordo com a vontade. Existe uma realidade que se revela, e em face dela, a vontade se submete a uma ordem ou se degrada, não havendo uma terceira opção.
Tomás de Aquino aprofundou essa herança ao máximo na Suma Teológica, nas seções dedicadas à lei. Estabeleceu uma estrutura de poder que o nosso tempo destruiu, e é por isso que o nosso tempo está em colapso. Existe a lei atemporal, a razão divina que rege o cosmos. Existe uma lei natural, na qual a criatura racional tem um papel na lei eterna, cujo mandamento inicial é promover o bem e evitar o mal. Existe também a legislação humana, o conjunto de normas que os homens elaboram nos parlamentos, as quais são consideradas verdadeiras leis apenas quando se originam da lei natural. E aqui está a sentença que deveria estar inscrita na entrada de cada tribunal e que o positivismo jurídico apagou da lembrança: lex iniusta non est lex. A legislação que é injusta não pode ser considerada uma verdadeira lei. Uma lei que vai contra a razão e o bem da comunidade não pode impor obrigações à consciência — como dizem as palavras que o Catecismo da Igreja Católica cita de Santo Agostinho e Santo Tomás, é uma violência disfarçada de lei, e não merece o nome que usurpa.
O direito desempenha uma função, que é antiga e quase semelhante a uma tecnologia: incrementar a previsibilidade e diminuir a violência, transferindo a vingança das mãos do indivíduo para uma norma estável que todos possam consultar antecipadamente. É por essa razão que o direito existe, e não simplesmente porque alguém o considere esteticamente agradável. Outra medida que se afasta da justiça objetiva não diminui a violência. Apenas faz uma repartição, tirando de alguns para conceder a outros, e denomina o resultado como paz. Uma legislação que penaliza aqueles que se manifestam de forma veemente e oferece proteção àqueles que provocam, que retira a autoridade parental de um pai sem lhe conceder a oportunidade de se defender, que julga sem evidências ou que inverte a responsabilidade pela prova, não contribui para a diminuição da violência no mundo. Troque o endereço dela e finja que essa alteração é um ato de justiça.
E como o nosso tempo conseguiu esquecer tudo isso, a ponto de considerar normal o que é horrendo? Não aconteceu em um único dia, nem foi determinado por um decreto. Ao longo de séculos, houve uma erosão gradual, e os historiadores da filosofia identificam um momento de mudança que vale a pena mencionar, embora como uma hipótese interpretativa e não como um fato definitivo. Étienne Gilson, seguido por Giovanni Reale e Dario Antiseri em sua História da Filosofia, interpretam em Guilherme de Ockham, do século XIV, o começo da separação. Ockham refutou a existência dos universais. Afirmei que apenas existem pessoas e que as concepções gerais não são mais do que denominações, impulsos mentais sem existência fora de suas mentes — daí o termo nominalismo. E ao eliminar os universais, ao elevar a vontade divina absoluta acima da razão divina, sem querer, semeou a ideia tóxica de que o bem é considerado bom simplesmente porque é desejado, e não porque é desejado por ser realmente bom. Virou o trono. Colocou a vontade no lugar da razão e o decreto no lugar da natureza.
Transforme essa inversão em algo secular, removendo Deus da equação e substituindo-o pela vontade humana, pela vontade da maioria ou pela vontade de quem controla o processo de criação das leis, e você terá a totalidade do nosso mundo diante de seus olhos. Transmíaco terá um visual moderno, com gravata e uma equipe de imprensa. Não estou afirmando, e que fique bem claro, que Ockham foi o responsável pelo surgimento do feminismo, do divórcio ou da Lei Maria da Penha, pois isso seria uma simplificação absurda de uma relação de causa e efeito direta, e quem pensa dessa forma claramente não refletiu sobre o assunto. Estou afirmando que há uma longa tendência, uma corrente oculta que se estende por séculos, que gradualmente substitui a verdade pela vontade, a natureza pelo decreto, e que, no final dessa corrente, o que é considerado justo torna-se simplesmente aquilo que o mais poderoso conseguiu legislar e impor.
E quem detém mais poder em uma democracia de movimentos organizados? É quem toma conta do aparelho legislativo e insere a sua própria preferência no conceito de justiça, e em seguida manda imprimir. Quando um movimento cuidadosamente estruturado incorpora na legislação o benefício do grupo que representa, e se refere a esse benefício como igualdade, ele realiza exatamente o que Trasímaco descreveu há vinte e cinco séculos: disfarça a conveniência do mais forte com as vestes dominicais do direito. Não importa de que ponto do espectro venha quem captura. O funcionamento é idêntico, e pode ser considerado satânico no verdadeiro e clássico significado do termo — trata-se de uma inversão, onde se denomina como bom aquilo que beneficia o poder e como mau aquilo que restringe o poder. A desigualdade legal que mencionei não apareceu do nada, nem surgiu espontaneamente. É o que ocorre com o direito quando ele se esquece de que há uma justiça que o precede, à qual deve submeter-se da mesma forma que um filho se submete a seu pai. Sem essa justiça prévia, a lei se transforma no desejo mais poderoso do momento. A vontade, sem restrições, não sente vergonha.
O casamento representa a materialização de tudo isso em uma instituição bem definida, que se manifesta em uma cama e na partilha entre os cônjuges. Porque o casamento, desde sempre, foi uma aliança — uma comunhão de vida orientada para o bem dos cônjuges e para a geração e educação dos filhos, com a unidade e a indissolubilidade como características fundamentais, e não como meros detalhes que podem ser dispensados quando a paixão diminui. Tratava-se de um acordo que ligava os dois com deveres e privilégios mútuos, um laço que, por ser um laço, proporcionava segurança para ambas as partes. O subjetivismo transformou-o da mesma forma que afeta tudo o que encontra: retirou o conteúdo e preservou a aparência, de modo que, à distância, ainda parecesse o que realmente não era mais.
Atualmente, um contrato pode conceder a uma das partes todos os direitos de sair, enquanto impõe à outra todas as obrigações de permanecer. Um dos lados pode sair a qualquer momento, levando consigo metade do patrimônio acumulado e ainda exigir pensão, enquanto o outro assumiu responsabilidades sem nenhuma garantia mútua de exclusividade, uso ou qualquer outra coisa. Quando um contrato chega a esse ponto, deixa de ser uma parceria e se transforma em uma armadilha disfarçada de pé de página. O homem que reconhece essa realidade, e que, por essa razão, recebe a recomendação de se aprofundar nos estudos sobre a lei antes de contrair matrimônio, visando a proteção de seu patrimônio, e que entra no casamento ciente de que há uma cláusula de rescisão hostil — esse homem não é um cínico desprovido de emoções. Ele é um sobrevivente lógico de uma instituição que foi esvaziada de sua essência, mas que é mantida com uma aparência intacta justamente para que ele não suspeitasse de nada. O cinismo não é sua característica. É dessa cultura que converteu um sacramento em uma cláusula contratual e, em seguida, se surpreende ao constatar que as pessoas passaram a ler as entrelinhas antes de colocar a assinatura.
E agora eu deixo de lado a teoria e vou para a prática, pois foi através da experiência concreta que eu aprendi isso, e a narrativa mais elucidativa que possuo não vem de um tribunal, mas sim de uma igreja. Aos dezesseis anos, encerrei um relacionamento difícil e cheguei à catequese devastado, pois havia perdido a primeira pessoa que realmente amei, que precisou se mudar para o interior de São Paulo, a milhares de quilômetros de distância, sem nenhuma possibilidade de eu atravessar essa distância. Por cerca de três anos, confessei toda a minha vida àquele padre, da adolescência até os dezesseis anos. Fui até ele e declarei que estava exausta, que iria abrir mão de qualquer relacionamento. O padre agiu da mesma forma que um sacerdote contemporâneo lida com a questão mais séria da vida de um jovem: com a mesma descontratação que se tem ao organizar um par de sapatos na prateleira.
Mostrou-me, um de cada vez, três casos que pareciam impossíveis. Uma jovem de dezoito anos, que era dois anos mais velha do que eu, já tinha três filhos quando eu tinha apenas dezesseis anos e não tinha condições de criar sequer uma criança. Ela ainda me afirmou que não desejava ter mais filhos, mesmo quando, para mim, ter filhos e dar continuidade à linhagem era um dos propósitos do casamento. Depois de uma segunda vez, que estava claro que ela não tinha interesse em mim, sendo pressionada pelos pais a sair de casa. Em seguida, houve uma terceira, cuja má reputação era amplamente conhecida na cidade, que estava envolvida romanticamente com três dos meus colegas da mesma turma, e que o padre me ofereceu sem ter a menor noção do passado dela. A questão não é ofender essas jovens, que também tinham suas vidas e seus próprios problemas. A questão é que aquele sacerdote não procurou a família de nenhuma delas, não fez um verdadeiro conhecimento de ninguém e não cumpriu o trabalho básico de quem assume a responsabilidade de unir duas vidas perante Deus. Eu apenas desejava encontrar uma solução para um problema, acomodar o jovem solitário em qualquer lugar que estivesse disponível, assim como se preenchesse uma lacuna com o primeiro material de descarte que se tivesse à disposição.
Saí de lá furioso, quase em lágrimas de tanta raiva, com vontade de agredir o padre, e é engraçado recordar isso agora, mas também é lamentável, sendo as duas coisas ao mesmo tempo. Foi naquele dia que compreendi, mesmo sem conseguir expressar em palavras, algo que levaria muitos anos para articular: que a Igreja, no que diz respeito aos homens, frequentemente os vê como peças a serem encaixadas, em vez de almas a serem moldadas. O aspecto feminino ela geralmente aborda com uma reverência quase sagrada, como se a mulher nunca tivesse cometido um pecado, como se fosse uma criatura que não conheceu a queda. Ela aborda o aspecto masculino como o suposto culpado, que sempre deve arcar com a responsabilidade de demonstrar que não é o vilão. Anos depois, participei de uma conferência da igreja sobre sexualidade voltada para adolescentes e ouvi, de todos os palestrantes, o mesmo discurso repetitivo: a mulher era sempre a vítima, enquanto o homem era sempre o negligente, nunca o oposto, como se a fragilidade habitasse exclusivamente de um lado da rua. É a mesma subversão da lei estatal, agora com vestes eclesiásticas. O Estado parte do princípio de que o homem é um agressor; de maneira similar, uma certa pastoral parte do pressuposto de que o homem é um pecador. E o homem de verdade, o de carne e osso, se encontra apertado entre as duas suposições como se estivesse em um prensa.
Eu testemunhei de perto como essa engrenagem destrói vidas, e, para mim, ela tem um rosto. Luiz era um homem de grande estatura, quase dois metros, e possuía uma aparência que muitos considerariam pouco atraente. Infelizmente, ele nunca conseguiu encontrar uma companheira ao longo de sua vida. Ingênuo, crente, sem desejar problemas com ninguém. Um pastor de fala diabólica o incentivou a ficar com uma mulher que já o maltratava antes mesmo de seu relacionamento iniciar, que o insultava na presença dos outros, e que, durante a separação, não poupou esforços para causar o máximo de destruição possível. Luiz ficou sem nada. Tive que deixar um ótimo emprego em outra cidade, retornar a viver com meus pais, aceitar um trabalho qualquer, e ainda pago pensão até hoje. Ele chegou a considerar a possibilidade de suicídio, e quando afirmo isso, não estou exagerando: um homem esteve à beira de tirar a própria vida. O que desejo que seja compreendido em relação ao Luiz não se refere à maldade de uma mulher em particular, apesar de ela ter sido cruel com ele. Há uma máquina, que é ao mesmo tempo jurídica, pastoral e cultural, que captura o indivíduo mais vulnerável, o mais ingênuo, aquele que tem menos habilidades de defesa, e o lança, sem preparação e sem aviso prévio, em uma engrenagem elaborada para triturá-lo. A responsabilidade não recai apenas sobre aquele que pressiona o botão. É de quem criou a máquina e a manteve ligada. Observe como tudo retorna à sua origem: Luiz era um homem desprovido de um cadinho, carente do ambiente que o teria moldado e ensinado a manter-se firme; e foi justamente a ausência desse cadinho que o deixou vulnerável à maquinaria implacável.
Eu também vi um outro amigo, que tinha uma aparência que muitas mulheres considerariam ideal, com um corpo de quem frequenta a academia, ser ignorado e deixado pela namorada simplesmente porque expressou suas emoções ao chorar no funeral de sua avó. Chorou em um funeral. Ele foi rotulado como fraco, chorão e, por essa razão, foi rejeitado. Em que parte, então, encontramos a afirmação de que o ser humano é o monstro apático, a rocha que não possui sentimentos? O homem que observei com meus próprios olhos recebeu uma punição justa por sentir e por demonstrar, com lágrimas, sua dor pela morte de quem lhe deu a vida. A caricatura falsifica a realidade em ambos os extremos: ela distorce a figura do homem, retratando-o como uma estátua insensível ao amor, e também engana ao representar a mulher como um anjo, totalmente incapaz de qualquer ato de maldade. Uma cultura que se alimenta de caricaturas em ambos os extremos não se preocupa com a verdade de ninguém; ela está mais interessada na confrontação.
Apesar disso — e mantenha isso em mente, pois é precisamente o que me impede de cair naquilo que reprovo — a solução não é o ódio, não é simplesmente virar a página e passar a nutrir aversão pelo lado oposto. Luísa, uma amiga de aproximadamente vinte e sete anos, me ensinou isso de forma mais eficaz do que qualquer livro teórico. Ela quebrou a convenção tola, de origem protestante, que diz que uma mulher deve ficar em silêncio à espera para não parecer fraca, essa besteira de que, se uma mulher expressa seus sentimentos, ela não é mulher o suficiente e ele não é homem o bastante. Foi em busca do homem que amava, Júnior, que na época se sentia muito inseguro devido às constantes rejeições, declarou seu amor por ele, e atualmente está casada com aquele que considera o melhor homem de sua vida, com filhos, uma boa condição de vida e plena felicidade. Júnior admitiu posteriormente que tinha sentimentos por ela há bastante tempo, mas nunca se declarou por receio de receber uma negativa e comprometer a amizade. Se ela tivesse seguido a convenção, provavelmente seria mais uma mulher solitária, quem sabe, mais uma mãe solteira na cidade.
A lição que Luísa nos traz serve como um contraponto tanto à ideologia da red pill quanto ao feminismo, e é exatamente por isso que é tão valiosa. Indivíduos reais, que agem com autenticidade e bravura, conseguem se desvincular das duas ideologias que buscam convertê-los em participantes de uma batalha de gêneros que não lhes diz respeito, mas que, por outro lado, beneficia aqueles que lucram com essa situação. A disputa entre os gêneros é uma falsidade benéfica para ambos os lados que lucram com ela, tanto aqueles que exploram o ressentimento masculino quanto aqueles que se beneficiam do ressentimento feminino. O que é real, além dos panfletos, são indivíduos de ambos os gêneros, iguais em dignidade, criados para se complementarem, distintos e que se completam, cada um sendo uma pessoa plena — cada um uma unidade substancial de corpo e alma, de inteligência e de vontade, capaz de exercer a liberdade justamente por ser capaz de raciocinar. Remover a lógica da equação e reduzir a outra parte a impulso, instinto e cromossomo é exatamente o que essas duas ideologias fazem, e é por isso que ambas são desonestas. É por esta razão que eu me recuso a afirmar que a mulher é impulsionada apenas por emoções e o homem unicamente pela lógica: isso seria aceitar, sob uma nova forma, a mesma falsidade que eu combato.
É importante que eu mencione algo que pode parecer insensível, mas na verdade se trata de uma questão econômica. A economia, em sua essência, é a ciência que estuda as escolhas que fazemos diante da escassez, e essa é a definição mais honesta que se pode oferecer. Não há recursos ilimitados para financiar a educação superior para todos. Ou seja, alguém decide quem vai receber o subsídio, e essa decisão traz consequências que ninguém está disposto a confrontar. Ao debater quem merece receber uma educação custosa e financiada pelo Estado, assumindo erroneamente que homens e mulheres terão exatamente o mesmo aproveitamento ao longo de suas vidas, desconsidera-se o fato de que existem diferenças significativas e quantificáveis, como a média de horas trabalhadas, a aceitação de funções que envolvem riscos ou que são prejudiciais à saúde, e o nível de comprometimento com o trabalho remunerado. Não é de mau caráter fazer esse tipo de observação. É uma questão de aritmética. Uma sociedade que se recusa a realizar cálculos porque isso a incomoda não está sendo justa; está sendo covarde. E a covardia que se apresenta como bondade é a pior forma, pois busca aplausos.
Note também uma inversão que não recebe atenção e que se relaciona diretamente com a forja esquecida do início. Exige-se do jovem que deixe a casa dos pais o mais rápido possível, que se resolva, que busque sua independência desde cedo, caso contrário, poderá ser rotulado como vagabundo, imaturo ou um adulto que ainda se comporta como criança. No entanto, se ele se forma cedo, muitas vezes não consegue arcar com as despesas da faculdade e acaba trocando o diploma por um emprego insatisfatório e uma moradia ainda pior, vivendo sozinho e apertado. Enquanto isso, a jovem mulher não enfrenta a mesma pressão com a mesma intensidade. É por isso que o jovem, durante a adolescência, é como um caldeirão de hormônios, gerando uma quantidade de testosterona que o homem na casa dos trinta já não produz, com os nervos em frangalhos, além de ser pressionado de todos os lados a traçar um futuro que mal consegue vislumbrar. A adolescência masculina é comparada a uma tempestade, enquanto a sociedade a vê como preguiça, e depois se surpreende ao notar que muitos rapazes se desviam de seu caminho. O garoto sem um lar, sem pai, sem reconhecimento, lançado nessa tormenta e responsabilizado como um adulto, é o perfil perfeito da estatística de suicídios que mencionei anteriormente.
E há um aspecto que ilustra perfeitamente a disparidade emocional, e que eu não observei apenas nos outros, mas também em mim mesmo. O homem comum se esforça para se conectar com várias mulheres durante um ano inteiro e, se tiver sorte, conseguirá alguns encontros, ou até mesmo nenhum. A mulher média, por outro lado, é constantemente abordada em grande número, sem fazer nada para isso. Não se trata de uma reclamação, mas sim de uma descrição de um desequilíbrio verdadeiro que influencia comportamentos. Esse desajuste resulta, no homem, em uma autoestima geralmente baixa, algo que a mulher dificilmente consegue entender, uma vez que não passa pela experiência de oferecer e ser rejeitada de forma constante. E foi nessa vulnerabilidade genuína do homem comum que o feminismo, em sua vertente mais negativa, intensificou o medo: o receio de se aproximar, de conversar, de tentar, uma vez que qualquer tentativa de interação pode ser interpretada como assédio, dependendo unicamente da perspectiva de quem a realiza. O que se observa é um grupo de homens que cedeu, que se retraiu, e a sua rendição é então utilizada como evidência de que o homem é a fonte do problema. Criou-se a figura do recluso e, em seguida, culpou-se a reclusão.
Há também um aspecto estético, que é mais sutil, mas o conteúdo que o sustenta é real e passível de verificação, não é uma invenção. Há uma rica simbologia visual que permeia os próprios círculos associados à prostituição e ao trabalho sexual — tatuagens, marcas e sinais comuns nesses ambientes e discutidos abertamente em diversos sites e plataformas do setor, como o Fatal Model, além de inúmeros fóruns. Aqueles que visitam ou estudam esses lugares observam a presença recorrente desses símbolos. O aspecto sincero que, no entanto, distingue a observação da superstição é o seguinte: a presença de um desses símbolos em determinados ambientes não converte o símbolo em um crachá que identifica qualquer mulher na rua. Tomando como exemplo a borboleta, que é uma das tatuagens mais populares entre mulheres de todas as categorias, desde as santas até as pecadoras, é importante ressaltar que, por ser tão comum, essa tatuagem não serve como uma prova ou indicação de nada sobre a personalidade ou caráter de ninguém. O fato de encontrá-la em um perfil de acompanhante, ao lado de uma catequista e na pele de uma avó de família, é precisamente a razão pela qual ela não pode ser considerada uma evidência. O que é veiculado por esses meios é um fenômeno sociológico passível de observação; convertê-lo em um teste para identificar mulheres na rua seria o oposto de um raciocínio rigoroso, gerando uma falsa certeza a partir de uma coincidência estatística. A observação é válida. A superstição que se pretende extrair dela não existe, e aqueles que tentam fazê-lo estão se iludindo antes de iludir os outros — além disso, estão traindo a ética objetiva, que exige que se observe a realidade tal como é, em vez de atribuir significados de acordo com o que é mais conveniente.
É exatamente neste ponto que se revela a força impulsionadora de todas essas questões, o elemento central que as atravessa: a contradição entre a ética objetiva e a ética subjetiva. O verdadeiro sinal de alerta, aquilo que eu consideraria uma verdadeira red flag em um relacionamento, não se encontra na tatuagem, nas roupas ou na aparência. Está na constituição moral do ser humano. É importante discernir se essa pessoa considera o bem e o mal como realidades que existem independentemente dela, que ela precisa reconhecer e seguir, ou se ela os vê como conceitos que ela própria define com base na conveniência do momento. A pessoa com uma ética subjetiva é aquela que acredita que algo bom hoje pode ser considerado ruim amanhã, dependendo da mudança de sentimentos; para ela, a ordem pode se transformar em caos e vice-versa, tudo de acordo com o humor do momento. É exatamente com essa pessoa, independentemente de ser homem ou mulher, que reside o verdadeiro perigo, pois com ela nenhum acordo se mantém, nenhuma declaração é confiável, e nenhuma promessa sobrevive à primeira mudança repentina do desejo. Para chegar a essa conclusão, não é necessário ter nenhuma tatuagem. É necessário ter Sócrates debatendo com os sofistas, Platão, Aristóteles e os métodos tradicionais de identificar quem fundamenta a vida em uma verdade externa a si mesmo e quem transforma a própria vontade na referência para tudo.
A transparência serve como um teste prático e um termômetro constante para medir isso. A principal razão para o fracasso de um relacionamento não é a tatuagem, o passado ou a aparência, mas sim a falta de clareza entre os parceiros. É quando um deles não compartilha com o outro seus pensamentos e sentimentos, ruminando suas angústias em silêncio, criando internamente uma narrativa em que o outro se torna o vilão, e, em um determinado momento, age com base nessa teoria elaborada nas sombras. Eu já testemunhei isso arruinar relacionamentos que pareciam ideais. O conselho mais sincero que posso oferecer a qualquer indivíduo, seja homem ou mulher, é buscar alguém que seja transparente, que tenha a coragem de expressar suas opiniões de forma direta, mesmo que isso cause desconforto. É muito mais valioso receber uma verdade difícil apresentada de maneira franca do que ser surpreendido por uma teoria prejudicial elaborada em silêncio. A transparência é a maneira concreta de se aplicar a ética objetiva entre duas pessoas: é tratar a verdade como uma dívida para com o outro, e não como uma administração do que é conveniente.
Existem pessoas que leem tudo isso e se questionam sobre a fé, que, por sua vez, ocupa aqui um espaço que vai além do meramente ornamental. Quando os evangelhos narram as bodas de Caná, o primeiro milagre, eles revelam Cristo convertendo água em vinho a pedido de sua mãe, mesmo após ele inicialmente hesitar em atender ao pedido, afirmando que sua hora ainda não havia chegado. Há quem interprete esse episódio como uma mera demonstração de respeito filial. Entretanto, há uma lição mais profunda que se relaciona diretamente ao nosso assunto: a conexão entre Cristo e sua mãe é uma relação estruturada, na qual a intercessão materna não compromete a missão do filho nem a antecipam por capricho, e o filho, ao acolher essa intercessão, o faz de maneira voluntária, como alguém que direciona sua própria vontade para o bem, e não como alguém que é forçado por pressão. É diametralmente oposto ao mundo que tenho retratado, onde a vontade prevalece sobre a razão e o sentimento dita a forma. Em Caná, a razão governa a vontade, o filho respeita a mãe sem abrir mão de sua identidade, e o resultado é uma fartura que não leva à destruição. Todo o tipo de antropologia que eu apoio está contido nessa afirmação: a pessoa é livre devido à sua capacidade de raciocínio, e o verdadeiro amor proporciona uma estrutura, em vez de desintegrar.
É por essa razão, em última análise, que a ética objetiva é de real importância, e não como um capricho de um filósofo que aprecia termos complexos. É importante porque é a única coisa que permanece de pé quando tudo ao nosso redor desmorona, quando as instituições se deterioram e as leis se distorcem. Se o que é justo se resume unicamente àquilo que o mais poderoso estabeleceu como lei, então não existe alternativa viável para contestar uma legislação injusta — a única esperança é tornar-se mais forte no futuro e promulgar sua própria versão distorcida em sentido oposto. Esse ciclo vicioso nunca se encerra, resultando em Trasímaco exercendo seu domínio até o fim dos tempos, com cada geração buscando vingar as ofensas sofridas pela anterior. Se houver uma justiça que precede a lei, uma medida que não é o ser humano, mas que este descobre ao silenciar-se e observar a realidade ao seu redor, então uma lei que se revela injusta pode, finalmente, ser chamada pelo que realmente é, e a disparidade pode ser denunciada não em defesa do meu grupo contra o seu, mas em nome de algo que transcende ambos e que os julga igualmente.
O falso testemunho é ainda falso testemunho quando é galardoado pelo tribunal, e o oitavo mandamento, que o Catecismo trata com atenção, não altera seu valor conforme a decisão do juiz. A justiça persiste em ser a entrega a cada indivíduo do que lhe é devido, uma antiga definição que a virtude mantém há milênios, mesmo quando a lei ordena que se conceda a um aquilo que pertence ao outro. A verdadeira igualdade entre homens e mulheres — aquela que se refere à igualdade de dignidade, a única que realmente existe e que merece ser defendida — só pode ser sustentada por aqueles que acreditam que essa igualdade é um fato inerente à natureza humana, e não apenas uma preferência temporária que a maioria atual decidiu conceder, e que a próxima maioria poderá facilmente revogar com a mesma caneta. Aqueles que estabelecem a igualdade com base na vontade da maioria estão, na verdade, entregando essa igualdade à próxima maioria que se manifestar. Somente aquele que a estabelece na natureza consegue protegê-la do domínio.
Iniciamos na forja e concluímos na balança, e ambos os locais comunicam a mesma mensagem, mas de perspectivas distintas. O homem se forma porque a virtude é um hábito adquirido e não um presente de nascimento, e a sociedade que eliminou as forjas — o pai presente no lar, a lista de méritos, o ambiente que refina — produz jovens sem um molde e homens sem base. A lei engana ao substituir a justiça que é revelada pela justiça que é imposta, e a mentira só exerce seu poder sobre aqueles que já não têm a medida para avaliá-la. Restitua ao homem comum a forja que o molda e a régua que o guia — a compreensão de que se aprende a ser homem e a consciência de que existe um justo que não é objeto de voto — e, assim, tanto o garoto desorientado quanto a aparência falsa se desmoronam simultaneamente. Não sucumbem por aversão, nem por um conflito entre os sexos. Caem porque alguém finalmente deixou de ignorar a existência do prédio inteiro que se encontra por trás da fachada e cessou a farsa de acreditar que um homem é algo que nasce completamente formado. O dedo permanece descansando sobre o prato da balança, e é possível que isso aconteça por um longo período. A única distinção que realmente faz a diferença é ter consciência de que ele está presente. Pois aqueles que têm consciência da presença do dedo não podem mais ser iludidos pela noção de igualdade estampada em uma lei, que se consome até o último fragmento de si mesmo, demonstrando assim sua falta de crença nessa mesma ideia.
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