ODISSEIA GNÓSTICA: DA CENTELHA AO PLEROMA, HISTÓRIA, HERESIA E JUÍZO FINAL
Uma Completa Atravessia através da Cosmogonia, Escatologia, Metafísica e do Plano Pós-Morte da Gnose Clássica, do Catarismo Medieval e do Apocalipse Material com Minuciosa Análise Teológica, Histórica e Filosófica, Bem como a Resposta Definitiva da Igreja Católica à Grande Heresia Dualista.
Gabriel G. Oliveira
5/22/202649 min ler


PRÓLOGO: A QUESTÃO QUE O MUNDO ACEITOU E A RESPOSTA QUE A HISTÓRIA FORNECEU
Há uma sedução ancestral que aparece repetidamente com a mesma expressão: a expressão de quem possui mais conhecimento do que você. Quem possui o mapa oculto. Que detém um conhecimento secreto reservado apenas aos escolhidos, enquanto o grande público, desinformado, permanece iludido. Os gnósticos se referiam a isso como Gnosis. A heresia foi o que a Igreja Católica denominou. A história, quando analisada de forma honesta, acabou por favorecer a Igreja, não devido à força do seu exército, mas sim porque o argumento gnóstico, quando levado ao extremo, aniquila qualquer chance de uma vida humana que seja coerente, qualquer base para uma moral objetiva e qualquer fundamento que sustente a dignidade da matéria e do corpo que Deus criou e que assumiu em Cristo.
Dizer isso nos dias de hoje exige a bravura que o meio intelectual contemporâneo desencoraja de maneira sistemática. Existe uma tendência na academia de mostrar uma simpatia incondicional por qualquer movimento que tenha sido alvo de perseguição, assim como uma reabilitação automática de qualquer heresia que tenha sido condenada, como se a própria perseguição fosse uma evidência de valor. De forma alguma. A evidência do mérito reside no raciocínio, na consistência interna, nas repercussões históricas e no tipo de vida e sociedade que um sistema gera quando é aplicado de forma séria. O gnosticismo, quando levado a sério, deu origem ao catarismo medieval, um movimento que denunciou o mundo criado como uma obra do mal, que vetou o matrimônio por ser considerado um ato do Demiurgo, que via o nascimento de crianças como um aprisionamento de almas em corpos carnais e que, em sua expressão mais radical, culminou na endura, um jejum até a morte como uma maneira de libertar a alma do corpo, este último visto como uma prisão. Isto não é liberdade. É um desdém em relação à vida.
Este texto relata a Odisseia Gnóstica com toda a riqueza e profundidade que ela merece: a cosmogonia extraordinária, a escatologia fascinante, a cartografia do pós-morte, os Arcontes e o Pleroma, Sophia e o Demiurgo, a linhagem de Set e os Eões femininos. Tudo isso será abordado de maneira rigorosa e sem reducionismos. Entretanto, será abordado com a reflexão crítica de quem entende que um sistema, por mais poeticamente construído que seja, deve ser avaliado com base nos resultados que gera ao se transformar em prática, comunidade e ética vivida. É nesse julgamento que a resposta da Igreja Católica, fundamentada na teologia encarnacionista e na defesa da dignidade da criação, demonstra não apenas uma justificativa histórica, mas também uma superioridade filosófica em relação ao dualismo radical que tentou substituí-la.
Leia com atenção, sempre ciente de que a elegância de um sistema não é um indicativo de sua veracidade.
A JORNADA DA DIVINA CENTELHA: ORIGEM, FILOSOFIA E FIM DO COSMOS GNÓSTICO
Antes de qualquer coisa que possa ser identificada, imaginada ou criada dentro dos textos gnósticos, existia aquilo que os próprios escritos se referem pelo único título que pode ser fiel à sua essência: o Inefável. Não se trata do Deus pessoal das principais tradições monoteístas que têm origem em Abraão, nem do Deus que se dirigiu a Abraão, que promulgou as leis no Sinai ou que, segundo a ortodoxia cristã, se fez carne na figura de Cristo. O gnóstico inefável precede qualquer uma dessas classificações. Os valentinianos, que pertencem à escola gnóstica mais refinada do século II d.C., cujo fundador, Valentino, provavelmente nasceu no Egito por volta do ano 100 d.C. e ensinou em Roma entre 136 e 165 d.C., segundo o relato de Ireneu de Lião, referiam-se a isso como Bythos, o Abismo Primordial, ou Propator, o Pai que vem Antes do Pai. Uma realidade tão completamente além de qualquer comparação que qualquer descrição ou atributo que lhe fosse atribuído seria, por si só, uma limitação inaceitável.
O Apócrifo de João, também conhecido como Livro Secreto de João, é provavelmente o texto gnóstico mais significativo e influente que sobreviveu. Ele foi encontrado em três versões em Nag Hammadi (NHC II,1; NHC III,1; NHC IV,1) e em uma quarta no Códice de Berlim (BG 8502,2), datando provavelmente do século II d.C. Michael Waldstein e Frederik Wisse publicaram uma edição crítica bilíngue em copta e inglês em 1995, parte da série Nag Hammadi and Manichaean Studies da Brill. O texto descreve o Inefável através de uma série de negações que os teólogos medievais reconheceriam como uma forma avançada de teologia apofática: "Não é divindade nem bem-aventurança nem perfeição. Não é eterno, nem sem limites. É algo que transcende tudo isso. Não é parte da eternidade. Participa somente de si mesmo." A linguagem se fragmenta. O conceito diminui. Esse é o resultado que se busca.
É importante mencionar, de forma breve, um aspecto que se revelará vital posteriormente: a apofase, ou o discurso negativo sobre Deus, não é uma criação do gnosticismo. Trata-se de um instrumento autêntico da teologia cristã ortodoxa, encontrado nas obras de Pseudo-Dionísio Areopagita, Gregório de Nissa, João Damasceno, Tomás de Aquino e em toda a herança mística da ortodoxia oriental. O gnóstico não criou a humildade epistemológica em relação ao mistério divino. O gnóstico cometeu um erro crucial ao utilizar essa humildade genuína para chegar à conclusão de que o Deus criador do Antigo Testamento, por ser descritível e interveniente na realidade, não pode ser o verdadeiro Deus. É uma conclusão que a verdadeira teologia não apoia, e é aqui que a sofisticação intelectual do gnosticismo começa a mostrar suas fraquezas.
Mas continuemos com a narrativa, que é extraordinária em seus próprios termos. No Inefável, o primeiro movimento não surge a partir de uma vontade intencional, uma vez que a vontade implicaria a existência de um sujeito com necessidades ou carências. Ao contrário, esse movimento emerge da superabundância, do transbordamento natural do Bem que, por sua própria natureza, não consegue deixar de manifestar-se e comunicar-se. É neste contexto que o gnosticismo se entrelaça de maneira profunda com o neoplatonismo de Plotino, e não é por acaso que ambos os sistemas se desenvolvem simultaneamente em Alexandria, durante os séculos II e III d.C. Plotino, em suas Enéadas, fala do Uno que, para atingir sua plenitude metafísica, precisa emitir o Intelecto e a Alma. Os gnósticos desenvolvem mitologicamente esse processo de emanação de uma maneira muito mais intensa e envolvente, com personagens, nomes e histórias que tornam a reflexão filosófica compreensível para aqueles que não tiveram a oportunidade de ler Platão, e isso foi, sem dúvida, uma das suas maiores habilidades.
No Inefável, surge a primeira identidade reflexiva, dando início ao autoconhecimento do Absoluto. Nos escritos setianos, esse movimento é denominado Barbelo, a Mãe Primordial e o Primeiro Pensamento, sendo também referida como Pronoia (Providência) e Ennoia (Pensamento Interior). O Apócrifo de João a retrata como "a imagem perfeita do Espírito Invisível... a glória da revelação... o primeiro poder", identificando-a como "Mãe-Pai", uma fusão do feminino e do masculino que precede a separação imposta pelo cosmos material. Filosoficamente, Barbelo é a possibilidade do Absoluto conhecer-se sem deixar de ser o que é, a relação reflexiva que ocupa, no pensamento ortodoxo da Trindade, o lugar da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A semelhança entre a teologia trinitária cristã e a emanologia gnóstica não é acidental: ambas emergem das mesmas indagações filosóficas sobre a relação entre a unidade e a multiplicidade no ser divino. Ao contrário da teologia trinitária cristã, elaborada pelos Padres Capadócios no século IV, que evita a subordinação ontológica entre as Pessoas divinas, enfatizando a co-igualdade e a consubstancialidade. Ao classificar os Eões em hierarquias decrescentes de perfeição, o gnosticismo, por conseguinte, estabelece uma cadeia de degradação ontológica que faz do cosmos material não apenas um domínio inferior ao espiritual, o que até poderia ser aceito, mas essencialmente maligno em sua origem. Este passo é, sem dúvida, o mais complicado de todos.
Do Barbelo e do Pai Oculto, em união, surge o Filho: o Autogenes, o Autogerado, que nas tradições gnósticas é associado ao Cristo original. Não se trata do Jesus histórico originário da Galileia, nem do Filho de Deus que se encarnou conforme a fé católica, mas sim de uma entidade cósmica que antecede o mundo material, um Eão eterno e ser do Pleroma que simboliza a manifestação ideal da divindade. O Autogenes exalta o Pai e a Mãe, e, com eles, dá início à criação dos outros Eões, que são as divindades que compõem o Pleroma.
Pleroma, um termo grego que se traduz literalmente como plenitude, refere-se ao conjunto de todos esses seres divinos e emanações do Inefável. Nos sistemas valentinianos, que representam a vertente gnóstica mais filosoficamente desenvolvida, o Pleroma é retratado como uma estrutura composta por trinta Eões dispostos em pares, conhecidos como sízigos, que são opostos complementares e que refletem diferentes facetas da perfeição divina. Bythos (Abismo) e Sige (Silêncio) constituem o casal primordial. Do silêncio que habita o abismo, como um ventre amorfo, emerge o Pensamento que pode vir a ser. Em seguida, surgem Nous (Intelecto) e Aletheia (Verdade), Logos (Razão) e Zoe (Vida), Anthropos (Homem Primordial) e Ekklesia (Comunidade Celeste), entre outros, até chegarmos aos doze Eões que compõem o Dodecade, sendo o último e o mais arriscado de todos, por motivos que se tornarão claros em breve, Sophia, a Sabedoria.
A postura de Sophia não é sem fundamento. Sophia se encontra na borda do Pleroma, no limite entre a existência completa e a inexistência, entre a plenitude divina e o caos ao seu redor. É a Eón que está mais perto da fronteira, aquela cujo olhar consegue mais facilmente tocar o além. É justamente essa posição tanto vantajosa quanto arriscada que a tornará o centro de toda a calamidade cósmica.
É essencial entender filosoficamente o Pleroma para que o que se segue não seja considerado uma mitologia de baixo nível. Pleroma não é um espaço físico em um céu fictício. É um estado de ser, a forma de existir onde cada realidade é totalmente aquilo que é, sem divisões, sem falta de conhecimento sobre si mesma, sem se distanciar da fonte. Os Eões não moram no céu: são manifestações da própria realidade divina em suas muitas formas. Cada Eão representa, de certa forma, uma esfera da plenitude do Bem que transborda do Inefável. Conceito de participação ontológica, que Mário Ferreira dos Santos, no magnífico Tratado de Simbólica e na Filosofia Concreta, analisou com grande profundidade e que é central na metafísica clássica: o ser derivado não é como um objeto criado que se aparta do seu autor; ele participa da natureza da Fonte, mantendo a relação de origem mesmo em sua diversidade. A problemática, segundo Santos, não reside em saber se o ser particular existe de forma evidente, mas sim em como ele organiza sua existência em relação à hierarquia ontológica que o forma. Quando essa ordem é mantida, tudo funciona em paz. Quando essa ordem é desconsiderada ou invertida, resulta em uma desorganização que, tecnicamente, é reconhecida como o que a percepção comum se refere como mal.
A desordem que o gnosticismo retrata tem início com Sophia. Ela desejava ter um encontro direto com o Pai Invisível, sem intermediários, sem a complementaridade do casal, sem se submeter à estrutura relacional que organiza o Pleroma. Os textos variam nos pormenores: o sistema valentiniano refere-se a um desejo (enthymesis) que se exterioriza sem a permissão do parceiro; já o sistema setiano do Apócrifo de João retrata um movimento de desvio autônomo, uma saída de si mesma que gera um resultado monstruoso. O que os dois têm em comum é o diagnóstico: Sophia deseja mais do que sua posição permite. Esse desejo de ter mais não é considerado um pecado moral, no sentido mais simples de desobediência intencional. É algo ainda mais inquietante: trata-se do anseio por um conhecimento total em uma entidade que, por mais sublime que seja, não possui a habilidade de suportar tal conhecimento sem se distorcer. A gnose hybris é oposta à própria essência da criatura, que possui limitações justamente por não ser o Absoluto, e não a um deus externo.
O resultado desse impulso caótico de Sophia não é um Eão em perfeita harmonia. O Apócrifo de João ilustra isso com imagens de confusão: "E ela olhou para as regiões de escuridão, e a escuridão começou a existir." Este ente que surge sem seu complemento, sem a aprovação do Pai Invisível, destituído da harmonia síziga, é aquele que resulta do anseio não realizado e da dinâmica desprovida de forma; este ente é o Demiurgo. Em escritos atribuídos a Set, ele é chamado de Yaldabaoth, um termo cuja etimologia é objeto de discussão (possivelmente derivado do aramaico Yalda Bahut, que significa "filho do caos", ou relacionado ao nome divino hebraico por meio de uma polêmica associativa), além de ser conhecido como Saklas (que significa "Tolo" em aramaico) e Samael (que se traduz como "Deus dos Cegos" em hebraico). Cada denominação representa um diagnóstico. Cada nome afirma: esta entidade desconhece sua própria natureza.
Sophia, chocada com o que havia acontecido, lança o Demiurgo para fora do Pleroma. Ele desce para o vazio que os escritos gnósticos denominam Kenoma, a Vacuidade, o espaço de ausência que rodeia o Pleroma, assim como as trevas envolvem a luz. Isolado e sem saber de onde vem, o Demiurgo faz aquilo que é capaz de realizar com a força distorcida que possui: cria. Entretanto, sua criação é uma cópia falha. Ele não tem acesso ao modelo ideal do Pleroma; na verdade, ele só pode contemplar um reflexo deformado, semelhante a alguém que tenta reproduzir uma obra de arte observando apenas a sua imagem refletida em uma água turva e agitada. O que se revela é o universo físico, imenso, regido por leis, organizado em esferas e hierarquias, mas essencialmente desprovido da luz completa. É belo da maneira que um espelho estilhaçado pode ser belo: captura raios de luz em seus fragmentos, mas jamais a totalidade da imagem.
Ao seu redor, o Demiurgo cria os Arcontes, uma palavra grega que significa governantes, chefes que funcionam como suas extensões, seus ministros, os protetores das sete esferas planetárias que, de acordo com a cosmologia antiga, compartilhada por gnósticos, neoplatônicos e hermetistas, separavam o mundo terrestre das regiões celestes superiores. Sete é o número dos sete planetas da astronomia pré-copernicana: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Cada planeta, sob a regência de seu Arconte, e cada esfera atuando como uma barreira extra que separa o ser humano da verdadeira realidade do Pleroma. A Hipóstase dos Arcontes (NHC II,4) e o texto Sobre a Origem do Mundo (NHC II,5) fornecem uma descrição detalhada do processo de criação das esferas, incluindo os nomes específicos de cada Arconte e suas particularidades. É uma astronomia da alma, um mapeamento do universo como um sistema de cativeiro.
É crucial destacar a distinção estrutural entre essa cosmogonia e a cosmogonia cristã ortodoxa, pois é nessa divergência que se encontra a questão central do gnosticismo. A teologia cristã ortodoxa, que foi definida de forma conclusiva nos importantes Concílios Ecumênicos entre os anos de 325 e 787 d.C., ensina que o mundo material foi criado pelo Deus verdadeiro e benevolente, o mesmo Deus que se revelou ao povo de Israel e que se fez carne na figura de Jesus Cristo. Essa criação é, por sua natureza, essencialmente boa, conforme atesta o próprio Livro do Gênesis, que afirma repetidamente tov (bom) a cada um dos atos de criação. O mal não é algo que a matéria possua: é a ausência de bem, uma falha de forma ou de organização, e não uma entidade autônoma. A clara diferenciação, que Agostinho de Hipona desenvolveu minuciosamente no De Natura Boni e nas Confissões, e que Tomás de Aquino organizou na Suma Teológica (I, q. 49), é o pilar fundamental da reação católica contra qualquer tipo de dualismo. Segundo o gnóstico, o mundo material é intrinsecamente maligno, pois foi criado por um deus maligno. O teólogo católico explica: o mundo físico é intrinsecamente bom, e aquilo que é considerado mau nele é, na verdade, a ausência de bem, e não uma entidade autônoma de escuridão. As implicações éticas de ambas as posições são completamente distintas, e isso ficará claro quando examinarmos o catarismo.
É nesse universo, formado por um ente inconsciente e com uma potência mal direcionada, que a existência humana se desenvolverá de acordo com a narrativa gnóstica. E o que os escritos afirmam sobre a formação do ser humano é, simultaneamente, inquietante e encorajador dentro do próprio sistema: o Demiurgo não consegue, por sua própria conta, gerar seres que possuam uma verdadeira vida. Enquanto ele cria um corpo utilizando terra e lama, o Apócrifo de João detalha um processo complexo, envolvendo 365 anjos que contribuem para diversas partes do corpo humano, em uma elaboração que dialoga com a tradição de Gênesis 1-2, ao mesmo tempo em que a inverte e a torna mais complexa. No entanto, este corpo é desprovido de vida e movimento. O Demiurgo observa sua criação ter sucesso. É nesse momento que Sophia toma uma atitude clandestina: ela infunde no ser humano moldado pelo Demiurgo uma faísca de luz espiritual, o pneuma, e, dessa forma, o ser humano se torna uma criação paradoxal: um corpo de barro vivificado por um sopro divino que, embora o corpo não consiga conter, também não consegue dispensar.
O Apócrifo de João ilustra o desespero do Demiurgo ao constatar que sua criação é superior a ele: "E ele soprou em sua face o espírito que é o poder de sua mãe; ele não sabia disso, pois existe acima do poder do Demiurgo." A ironia cósmica se encontra firmemente estabelecida. O ser humano, feito para ser escravo e cativo de um universo imperfeito, possui em si algo que o seu criador não possui. Isto não é um pormenor: é o cerne de toda a soteriologia gnóstica. A fagulha divina dentro do ser humano é a base para a salvação ser possível. É, de maneira irônica, uma conexão com a teologia cristã ortodoxa, que se refere à imago Dei, a imagem de Deus gravada no ser humano, como base para sua dignidade que não pode ser violada. A distinção reside no fato de que, enquanto o gnosticismo contrapõe a imago divina ao corpo material, a teologia católica a considera como uma característica de toda a pessoa humana, tanto do corpo quanto da alma, sendo particularmente esclarecida pela Encarnação do Verbo.
O Demiurgo, ao perceber que o homem é espiritualmente superior a ele, não aceita essa limitação com humildade. Pelo contrário, aumenta as correntes. Cria o mundo físico mais pesado, o corpo mais lourdo, as paixões e os anseios que prendem a atenção das pessoas para baixo. A operação que visa preservar a ignorância é apresentada nos escritos gnósticos de maneira tão clara e intrigante, do ponto de vista literário, que vale a pena enfatizar, mesmo que a premissa teológica que a sustenta seja completamente inaceitável para qualquer corrente de pensamento que defenda a bondade essencial da criação. O Demiurgo não precisa prender os homens se ele consegue convencê-los de que o mundo material é tudo o que há e que ele é o único Deus. É exatamente isso que ele realiza. No texto intitulado Sobre a Origem do Mundo, Yaldabaoth proclamou: "Eu sou um deus ciumento e não existe outro deus senão eu." Os gnósticos associam essa afirmação ao Javé do Antigo Testamento, e é nesse ponto que o sistema gnóstico demonstra sua característica mais radicalmente contrária à ortodoxia, sendo considerado, sob a perspectiva da tradição cristã e judaica, como o mais blasfemo.
A reinterpretação gnóstica do cânon bíblico é a inversão hermenêutica mais audaciosa que gerou o pensamento religioso antigo. Gênesis não relata como o verdadeiro Deus formou um mundo perfeito que a humanidade estragou ao desobedecer. De acordo com os gnósticos, essa é a narrativa sobre como um demiurgo inferior formou um cosmos-prisão e tentou manter a humanidade alheia à sua verdadeira origem divina. A serpente do Éden não é a tentadora responsável pela queda: é o portador de sabedoria, o agente do Pleroma que busca revelar ao ser humano o conhecimento (gnosis) sobre sua própria natureza divina aprisionada. A interdição de consumir o fruto do conhecimento não se trata de uma proteção paternal, mas sim da ação política do Demiurgo para preservar seus prisioneiros na ignorância. Eva, ao escutar a serpente, não comete um erro: ela se torna consciente. Ao consumir o fruto, Adão não se vê em queda, mas sim iniciando um processo de recordação.
A Hipóstase dos Arcontes e Sobre a Origem do Mundo aprofundam essa interpretação de maneira impressionante e envolvente. A cobra surge como guia espiritual, detentora do saber interditado pelo demiurgo invejoso. Eva é apresentada como acolhendo em seu ser o espírito vital antes mesmo que o Demiurgo tome consciência disso. Nesses textos, há um humor intencional e profundo: o suposto senhor onisciente é constantemente iludido pelas próprias criaturas que gerou, pois o que ele criou possui algo que foge ao seu controle.
A Igreja Católica apresentou uma resposta teológica a essa inversão hermenêutica, que foi elaborada de maneira incisiva por Ireneu de Lião em sua obra magistral Adversus Haereses, escrita por volta de 180 d.C. Ireneu é muitas vezes descrito, na literatura que simpatiza com o gnosticismo, como um censor ignorante e opressor. Esse estereótipo é injusto e desonesto historicamente. Ireneu, um teólogo de grande sofisticação que recebeu sua educação em Esmirna, sob a tutela do discípulo direto do apóstolo João, escreveu o Adversus Haereses, que não é apenas um texto de polêmica, mas também uma obra de teologia sistemática de alto nível. Nela, Ireneu desenvolveu uma doutrina sobre a criação, a Encarnação, a história da salvação e a recapitulação (anakephalaiosis), a qual se mantém até os dias atuais como um dos fundamentos da teologia cristã ortodoxa. Seu ponto principal contra os gnósticos era exatamente esse: ao associar o Criador a um demiurgo maligno e inferior, isso fere a doutrina da Encarnação, na qual o Filho de Deus adotou a própria matéria que os gnósticos menosprezam. Se a criação fosse resultado da ação de um deus maligno, Deus não poderia ter se incarnado sem se corromper. A Encarnação é, assim, a refutação mais contundente do dualismo gnóstico.
O Evangelho da Verdade (NHC I,3), que alguns estudiosos atribuem ao próprio Valentino e que, segundo o pesquisador Harold Attridge, é um dos textos mais refinados da biblioteca de Nag Hammadi em termos literários, descreve de maneira extraordinária a função de Cristo como revelador: "O Evangelho da Verdade é alegria para os que receberam do Pai a graça de conhecer: pois ele os conheceu antes deles mesmos existirem, e os chamou ao que são." A salvação, nesse contexto, é um convite que vem antes da vida material: o homem não precisa construir sua conexão com o divino, mas sim relembrar que ela sempre esteve presente. A memória é o principal meio de salvação. É uma postura que agrada aos olhos. Além disso, do ponto de vista teológico, isso gera complicações, pois retira a ênfase da história da salvação — a verdadeira trajetória de salvação que se desenrola no tempo, no corpo e nos acontecimentos concretos — em favor de uma recordação atemporal que dispensa a necessidade de Encarnação, morte real e Ressurreição corporal. Sem esses elementos tangíveis, o que sobra do cristianismo se resume a uma filosofia de autoconhecimento que é refinada, mas não é claramente cristã.
O Evangelho de Tomé (NHC II,2), esse notável compêndio de 114 logias atribuídas a Jesus, inicia-se com uma frase que serve como senha para a iniciação: "Quem encontrar a interpretação destas palavras não experimentará a morte." O logion 3 explica claramente o que se entende por essa interpretação: "Se os que vos guiam disserem: 'Eis que o reino está no céu', então as aves do céu vos precederão. Se afirmarem: 'Está no mar', os peixes chegarão antes de vocês. No entanto, o reino encontra-se tanto dentro de vós quanto fora de vós. Ao vos conhecermos, seremos reconhecidos e tomaremos consciência de que somos filhos do Pai Vivo." O reino que existe tanto dentro quanto fora, ao mesmo tempo, é uma concepção que aniquila toda a geografia religiosa tradicional, assim como toda a estrutura de templos e hierarquias que necessitam que o sagrado esteja localizado em um lugar específico. A Igreja emergente, que precisava precisamente dessas mediações para manter seu poder institucional, sabia exatamente o que estava em jogo. No entanto, é fundamental ser claro neste ponto: a crítica à mediocridade institucional e à burocratização do sagrado é válida e ainda é essencial. Isso não corrobora o sistema gnóstico. Criticar os problemas das instituições religiosas é uma coisa; sugerir uma soteriologia que dispense qualquer tipo de comunidade, sacramento, história ou encarnação é algo completamente distinto.
A gnose propõe uma antropologia em três camadas que é, simultaneamente, a mais fascinante e a mais problemática do pensamento gnóstico: existem os hílicos (do grego hyle, que significa matéria), que estão completamente imersos no mundo material e não conseguem reconhecer a centelha divina dentro de si; os psíquicos (do grego psyche, que significa alma), que operam no plano do pensamento e da moralidade, capazes de uma religiosidade superficial, mas ainda aprisionados ao domínio do Demiurgo; e, por fim, os pneumáticos (do grego pneuma, que significa espírito), que são portadores da centelha divina em sua plenitude e estão destinados a retornar ao Pleroma. Essa distinção foi criticada pelos Padres da Igreja como um elitismo espiritual insustentável e, com toda a razão, não apenas por motivos institucionais, mas também por razões filosóficas. Ela sugere que a salvação não é universal para todos os seres humanos, mas se destina apenas àqueles que, por sua natureza, pertencem à classe dos pneumáticos. Não se trata apenas de elitismo: é a recusa em reconhecer a chamada universal da graça, que sempre foi o eixo central da soteriologia cristã, desde Paulo até Tomás de Aquino. "Não há grego nem judeu, circuncidado nem incircuncidado, bárbaro, cita, escravo ou livre, mas Cristo é tudo e em todos" (Colossenses 3,11). O gnosticismo, por mais que utilize um léxico de luz e centelha, refina uma separação ontológica entre salvos e condenados que nega de forma radical essa universalidade.
O Cristo dos gnósticos, e aqui é importante fazer uma distinção cuidadosa que muitos leitores contemporâneos não percebem, não é apenas uma versão alternativa de Jesus de Nazaré. É uma figura que, em termos de estrutura, não se harmoniza com a imagem do Jesus da fé cristã ortodoxa. Para os gnósticos setianos e valentinianos, Jesus era o Revelador, o Estrangeiro do Alto, o emissário do Pleroma que desceu por meio das sete esferas arconticas, disfarçado, passando por cada uma delas sem ser identificado pelos Arcontes, pois sua essência espiritual era excessivamente sutil. Ele chegou ao mundo material com o propósito de transmitir uma mensagem: você não é o que acredita ser. Você veio de uma posição superior. Não se esqueça. Não deu a vida por você. Não afastou o pecado. Não voltou à vida em um corpo glorioso. Simplesmente recordou a sua identidade.
No Segundo Tratado do Grande Seth (NHC VII,2), a crucificação é narrada de uma maneira irônica que deixou os estudiosos contemporâneos surpresos: o Cristo que estava na cruz não era o verdadeiro Cristo. Quem faleceu foi somente a camada física, o corpo que foi emprestado, enquanto o verdadeiro Cristo assistia de fora, rindo. Esse docetismo, a concepção de que Cristo apenas teve a aparência de um corpo físico e que seu sofrimento foi meramente aparente, foi severamente criticado pelos Padres da Igreja, não por questões de poder institucional, mas porque aniquila totalmente a lógica da salvação cristã. Se Cristo não experimentou verdadeiramente a dor, então não existe uma redenção genuína. Se o corpo de Cristo foi uma ilusão, então a Ressurreição não passa de uma farsa. Se a matéria não foi incorporada ao Verbo, ela continua em rebelião. Inácio de Antioquia, nos primórdios do século II, enfrentava a resistência de cristãos que afirmavam que Jesus "sofreu apenas em aparência": "Se ele sofreu apenas em aparência e é em sua aparência que existe como forma então por que estou acorrentado?" A verdadeira cadeia de Inácio, a qual ele escrevia enquanto se dirigia para o martírio em Roma, existia de fato. A carne dos mártires que queimou nas piras era de fato verdadeira. Um Cristo que apenas aparentou sofrer não pode ser a base verdadeira para seu sofrimento genuíno.
Maria Madalena tem um papel central nas tradições gnósticas, e é crucial compreendê-lo de maneira historicamente precisa, em vez de uma forma romântica contemporânea. No Evangelho de Maria (BG 8502,1), que não foi descoberto em Nag Hammadi, mas no Códice de Berlim, que provavelmente data do século II d.C. e foi criticamente editado por Karen King em 2003, Madalena é apresentada como a guardiã dos ensinamentos mais profundos de Jesus. Depois da ascensão, os discípulos entram em desespero, e é Madalena quem se ergue para compartilhar o que recebeu em sua visão interior sobre a jornada da alma através das potências que a aprisionam. O conflito que se segue com Pedro é um símbolo de uma verdadeira disputa no século II entre as comunidades cristãs que atribuíam valor a diferentes tipos de autoridade: a revelação interior versus a hierarquia da cadeia apostólica. A historiadora Elaine Pagels abordou esse conflito em The Gnostic Gospels (1979), descrevendo-o como uma mera disputa política em busca de poder institucional. No entanto, essa interpretação, por mais cativante que seja, é inadequada. A pergunta não se limitava a quem detém o poder: era uma questão de conhecimento. A descoberta interna, sem um padrão externo de validação, sem uma comunidade que a avalie, e sem uma tradição que a ajuste, é ilimitada em suas possíveis ramificações. Qualquer pessoa pode alegar ter recebido a verdadeira revelação. Qualquer pessoa pode reivindicar ser pneumática se tiver acesso à gnose. A linha apostólica que Pedro simboliza, apesar de ter sido manipulada por diversas estruturas de poder ao longo dos séculos, também representa um princípio de validação dentro da comunidade, de memória coletiva e de responsabilidade mútua, algo que o conhecimento individual não pode proporcionar devido à sua própria natureza.
O Pistis Sophia, vasto texto copta provavelmente escrito nos séculos III ou IV d.C., encontrado no século XVIII e publicado em 1851 na Inglaterra por George Schwartze e Johannes Petermann, detalha de maneira excessivamente elaborada a trajetória de Sophia pelos reinos inferiores. O próprio nome une dois conceitos: Pistis (fé) e Sophia (sabedoria) "a sabedoria que confia" ou "a fé que busca tornar-se sabedoria". No texto, Sophia desceu dos reinos de luz para os domínios de um Arconte conhecido como Authades, o Presunçoso, que age de acordo com sua própria vontade, e passou por treze purgatórios antes de ser resgatada pelo Cristo Luminoso. O texto retrata essas áreas com a precisão de um cartógrafo espiritual: cada uma possui suas particularidades, seus habitantes e suas armadilhas. A alma que as permeia sem o entendimento adequado acaba aprisionada. A alma que possui a gnose, transita. É uma doutrina de salvação que elimina a fé, a esperança e o amor como meios de salvação, substituindo-os por conhecimento exclusivo. Este é, de fato, um dos seus problemas mais profundos.
O Evangelho de Judas, que foi encontrado em 1978 no Egito e divulgado apenas em 2006 pelo National Geographic, com a edição de Rodolphe Kasser, Marvin Meyer e Gregor Wurst, traz uma nova perspectiva. Neste texto, Jesus zomba dos discípulos que oferecem sacrifícios no altar em virtude de estarem a serviço do Demiurgo, e chama Judas em particular para lhe revelar os mais profundos mistérios. No texto gnóstico, a traição de Judas não é vista como um ato criminoso, mas sim como um serviço: ao entregar Jesus, Judas liberta o Cristo da limitação do corpo, possibilitando que a centelha divina retorne ao Pleroma. O vilão da história convencional é o protagonista na versão gnóstica. Trata-se de uma inversão que encapsula tudo o que o gnosticismo realiza com os textos canônicos: o que é bom transforma-se em mau, o que é mau transforma-se em bom, a lei é vista como opressão, enquanto a transgressão é vista como libertação. Essa constante e metódica inversão moral não é meramente um exercício hermenêutico. É um sinal de uma antropologia que, ao considerar o mundo criado como produto do mal, retira de si mesma qualquer base para diferenciar objetivamente o bem do mal nesse mundo.
A cartografia do pós-morte gnóstico é onde o sistema expõe sua maior riqueza narrativa e também sua mais intensa contradição. A alma que deixa o corpo não vai diretamente para o Pleroma. Ela deve passar por cada uma das sete esferas dos Arcontes, uma de cada vez, cada uma com seu guardião, suas demandas, suas tentativas de aprisionar a alma. O Apócrifo de João, assim como os Livros de Jeu, que foram encontrados no Códice Bruce — um manuscrito copta do século IV que James Bruce trouxe do Egito para a Inglaterra em 1769 e que Carl Schmidt publicou em 1892 — fornecem os detalhes necessários sobre essa travessia: a alma deve conhecer os nomes secretos dos Arcontes, pronunciar as senhas corretas e mostrar que está ciente de sua origem e destino.
A Esfera da Lua abriga o primeiro Arconte, que protege a identidade formada ao longo da vida, incluindo o nome, a história, os títulos e os erros. A sedução consiste em aceitar essa identidade como algo absoluto, como o verdadeiro eu. O gnóstico que tem conhecimento afirma: esse nome é do mundo, e não do espírito. Isso vai passar. No domínio de Mercúrio, o segundo Arconte tenta aprisionar a alma utilizando o aparato intelectual: toda a complexidade mental que se desenvolveu ao longo da vida, toda a retórica, todo o conhecimento adquirido. O paralelo entre a crítica gnóstica ao saber puramente psíquico é intencional: o intelecto, por mais avançado que seja, continua a pertencer ao reino do Demiurgo, a menos que seja iluminado pela centelha pneumática. No domínio de Vênus, o Arconte do anseio e do amor que aprisiona. Aqui, a sedução manifesta-se como o amor atrelado: a alma se depara com todas as suas ligações emocionais, todos os amores que não conseguiu liberar. No domínio solar, o Arconte do desejo de dominar e do poder. No planeta Marte, encontramos o Arconte que representa a ira e a brutalidade. No planeta Júpiter, reside o Arconte da presunção e da crítica. No planeta Saturno, encontramos o mais elevado e o mais desafiador: o Arconte do tempo, da morte, da finitude, que nos proporciona a sensação de que nada além do que é visível existe.
Após atravessar as sete esferas, a alma atinge o que os escritos designam como Ogdoade, a Oitava, uma região que se encontra além das sete esferas planetárias, onde se inicia a memória completa. A partir deste ponto, a alma tem a capacidade de progredir em direção a esferas ainda mais elevadas: a Enneade, que corresponde à Nona, a Decade, ou Décima, e, por fim, o Pleroma, onde ela se une novamente ao Todo. Sem abrir mão de sua essência, assim como uma gota d'água que retornou ao oceano, mantendo sua natureza. Com isso, o drama cósmico atinge seu desfecho inevitável.
No entanto, a travessia entre as esferas requer gnose. Aquele que parte sem ela, de acordo com o sistema, é enviado de volta ao mundo material para uma nova encarnação em um corpo físico. Não por uma questão de castigo ético, mas sim como resultado da ignorância. É nesse ponto que reside a questão ética mais profunda do gnosticismo: uma soteriologia acessível apenas àqueles que conseguiram obter o ensinamento esotérico correto não pode ser considerada justa de forma universal. No melhor cenário, trata-se de um privilégio reservado aos iniciados. Um sistema de exclusão espiritual camuflado de iluminação, no pior dos casos.
Os escritos maniqueus, que constituem a base de uma tradição estabelecida por Mani na Pérsia durante o século III d.C., e que incorporaram elementos do gnosticismo, zoroastrismo e budismo em uma síntese que se difundiu da Mesopotâmia até a China, expandem a cosmologia gnóstica em direção a um dualismo ainda mais extremo. No pensamento de Mani, que chegou ao Ocidente nos séculos III e IV e impactou profundamente o jovem Agostinho, antes de sua conversão ao cristianismo, como ele descreve minuciosamente nas Confissões, o embate entre Luz e Trevas é um conflito que ocorre antes da criação do cosmos e persiste para além dele. Os humanos são verdadeiros campos de batalha onde essa luta acontece. Após ter se juntado ao maniqueísmo por cerca de dez anos e abandoná-lo de forma definitiva ao descobrir o neoplatonismo e, por fim, o cristianismo, Agostinho apresentou a crítica mais precisa em relação ao problema estrutural do dualismo maniqueu e gnóstico: ao afirmar a existência de um princípio eterno das Trevas, o dualismo estabelece o mal como coeterno do Bem, o que impossibilita qualquer expectativa de uma vitória definitiva da luz e torna o verdadeiro Deus impotente diante de um adversário que não criou e não consegue controlar. O Deus do dualismo não possui onipotência. É um Deus belicoso, não o Senhor que reina sobre a criação.
A tradição mandeia, que ainda persiste como uma das últimas religiões gnósticas ativas, com comunidades no Irã, no Iraque e entre os emigrantes, foi estudada por Ethel Drower em The Mandaeans of Iraq and Iran (1937) e por Kurt Rudolph em Mandaeism (1978). Ela representa uma outra variante do drama gnóstico, envolvendo rituais de imersão em água (masbuta) com a função de purificação e uma rica literatura cosmológica contida nos textos denominados Ginza Rba (Grande Tesouro). Os mandeanos consideram Jesus um falso profeta, o que, evidentemente, é visto como um erro pela Igreja Católica. No entanto, essa visão tem o mérito de ser coerente internamente: um sistema gnóstico que nega a Encarnação real mantém uma consistência intelectual consigo mesmo, ao contrário de outros sistemas que afirmam ser "cristãos" enquanto tratam a carne de Cristo como ilusão.
O Corpus Hermeticum, uma coleção de escritos em grego e latim que se atribuem ao mítico Hermes Trismegisto e que foram provavelmente elaborados entre os séculos I e IV d.C. no Egito helenístico, não é exatamente gnóstico, mas se alinha à temática da revelação interna e da ascensão da alma. O tratado Poimandres (CH I) apresenta uma cosmologia onde o ser humano, atraído pelas formas, desce das esferas celestes para o mundo material e deve, então, ascender de volta através de sete esferas. Asclepius (CH VI,8) afirma: "O homem é um grande milagre, um ser digno de veneração e honra, pois ele vai para a natureza de Deus como se fosse Deus." Trata-se da mesma intuição gnóstica da fagulha divina, desenvolvida de uma forma mais filosófica e menos mítica.
Agora, chegamos ao catarismo. É crucial ter uma clareza que muitas obras favoráveis ao tema intencionalmente ofuscam: o catarismo não é simplesmente o "gnosticismo com outro nome" transportado para a Idade Média, nem se trata do movimento de almas puras e belas que foi injustamente massacrado pela Igreja corrupta. Essa história de amor, que se tornou famosa graças à literatura esotérica do século XIX e aos romances históricos do século XX, como os de Zoé Oldenburg e Kate Mosse, é historicamente errônea, teologicamente enganosa e moralmente distorcida. O catarismo foi um fenômeno que gerou consequências tangíveis, realizadas por indivíduos reais, em comunidades autênticas, e essas consequências englobam algumas das posturas morais mais obscuras que um sistema religioso pode ter em relação à vida humana.
O catarismo não apareceu do vácuo. Há ligações históricas que podem ser seguidas até os bogomilos da Bulgária e da Bósnia, um movimento cristão dualista que surgiu no século X, possivelmente influenciado pelos paulicianos da Armênia e da Ásia Menor, que por sua vez descendiam do maniqueísmo e de formas mais antigas de dualismo. A conexão genealógica entre esses grupos medievais e o gnosticismo antigo do século II continua a ser um tema de debate: enquanto alguns historiadores, como Jean Duvernoy, defendem uma continuidade significativa, outros, como Yves Dossat, sugerem uma reemergência autônoma de estruturas dualistas, que a lógica religiosa tende a gerar sempre que a questão do mal se torna particularmente premente. O que não se pode negar é a organização: dois princípios, um benéfico que originou o mundo espiritual, e um maligno (ou um Deus maligno, nas versões totalmente dualistas, como a dos Albanenses da Itália) que deu origem ao mundo material. Almas cativas em seus corpos. Liberdade através do desapego. É inegável o eco da antiga gnose.
A organização social cátara era, em tese, um modelo de distinção. Os perfecti, também conhecidos como os perfeitos ou parfaits em occitano, eram os iniciados que tinham recebido o consolamentum, que é o sacramento mais importante do catarismo. Este rito, que consistia na imposição de mãos, transmitia o Espírito Santo, de acordo com a crença cátara, e elevava o recipiente ao nível mais alto dentro da comunidade. Os perfecti levavam uma vida de ascetismo estrito: sem consumir carne (exceto peixe, devido a complexas razões teológicas), sem ovos, sem produtos lácteos, sem relações sexuais, sem qualquer forma de violência e sem mentiras. Os crentes — ou credentes — eram os fiéis leigos que se identificavam com a doutrina, buscavam bênçãos e ensinamentos dos perfecti, mas levavam uma vida comum, sem as rigorosas restrições impostas aos perfeitos, aguardando receber o consolamentum no momento da morte.
Por fora, essa organização pode parecer espiritualmente louvável: uma elite de ascetas puros que vivem de acordo com padrões elevados e instruem os outros. A realidade é mais complexa e mais obscura. Para começar, a teologia cátara que sustenta esse tipo de ascetismo difere da teologia do desapego virtuoso, que busca a Deus acima dos bens criados, como é ensinado na tradição monástica cristã praticada e ensinada por Santo Agostinho, São Bento, São Francisco, São Tomás de Aquino e por todos os grandes mestres espirituais da Igreja Católica. É a renúncia baseada no desdém: o corpo é maligno por ter sido criado pelo Demiurgo maligno. A carne representa uma cadeia. O nascimento de uma criança é um evento que resulta na captura de mais uma alma no reino das sombras. O casamento é a continuidade do controle do Deus maligno. É fundamental fazer essa distinção, que raramente aparece na literatura que é favorável ao catarismo: há uma enorme diferença entre "uso moderado dos bens materiais para não se apegar a eles" e "rejeição dos bens materiais porque são fundamentalmente maus". A tradição católica defende o primeiro, enquanto o catarismo promove o segundo.
Quando o sistema é realmente aplicado, as repercussões dessa distinção são catastróficas. A rejeição do casamento e da reprodução não é uma visão extrema ou isolada dentro do catarismo, mas sim uma decorrência lógica e essencial da premissa dualista. Se o mundo físico é a criação de um Deus maligno, e se as almas são faíscas de luz que estão presas em corpos carnais, então ter filhos é, na verdade, aprisionar ainda mais faíscas de luz em novos corpos de carne. De acordo com a perspectiva cátara, isso é considerado uma ação imoral. Aqueles que realmente levam o sistema a sério não deveriam se casar, nem ter filhos, nem fazer nada que contribua para a continuidade desse mundo de trevas. Os perfecti atendiam a essa demanda. Os fiéis eram tolerados em sua falta de firmeza, acreditando que o consolamentum final os libertaria.
A permanência no jejum até a morte, após receber o consolamentum, é a manifestação mais extrema e coerente do dualismo cátaro. Se o corpo é a masmorra da alma e o consolamentum liberta a alma, então é mais que justo evitar que a alma volte a prisão. Assim como o corpo necessita de sustento para continuar vivendo, privar a alma de alimento é a maneira mais eficaz de libertá-la de forma definitiva. Existem registros documentados, especialmente nos arquivos inquisitoriais de Jacques Fournier (que mais tarde se tornou o Papa Bento XII), que foram meticulosamente transcritos e analisados por Emmanuel Le Roy Ladurie em sua obra Montaillou (1975). Nesses documentos, é possível encontrar relatos de membros de comunidades cátaras sendo persuadidos ou pressionados a se submeter à endura após terem recebido o consolamentum enquanto se encontravam em leito de doença. Quando um doente se recuperava, isso gerava dilemas profundos: o perfectus não podia "voltar atrás" sem perder o consolamentum e precisaria recebê-lo novamente. Quando os membros da família tentavam alimentar o moribundo para que ele não morresse, isso era visto como uma obstrução ao processo de libertação da alma.
Não se trata de uma perseguição da Igreja ao catarismo. Isso representa o catarismo operando como um sistema coerente com suas próprias doutrinas. A resposta da Igreja Católica encontra sua justificativa não apenas como uma defesa institucional do poder eclesiástico, mas também de maneira filosófica e humana. A Igreja promovia a dignidade do corpo, a bondade do casamento, a sacralidade da vida humana e a importância do mundo criado, tudo o que a teologia da Encarnação implica de maneira indispensável. Quando o Verbo se encarnou, a carne foi salva. Quando Cristo ressuscitou em seu corpo glorificado, este foi elevado à sua máxima glória. Quando a Igreja declara, por meio dos sacramentos, que a matéria como água, óleo, pão e vinho é santificada, ela está afirmando que a matéria pode ser um meio para o sagrado, e não apenas um impedimento. O dualismo cátaro refuta tudo isso utilizando uma lógica que, dentro do contexto do sistema, é irrepreensível. E é exatamente por isso que é perigoso.
O Liber de duobus principiis, ou Livro dos Dois Princípios, é o único texto teológico cátaro substancial que se preservou na íntegra. Ele foi criticamente editado por Antonio Dondaine em 1939 e traduzido para o inglês por Janet e Russell em 1981. Nesse livro, a posição dualista absoluta dos Albanenses é articulada com um rigor filosófico admirável: a presença do mal no mundo é logicamente incompatível com a ideia de um único Deus onipotente e bondoso; portanto, deve existir um segundo princípio eterno que seja de natureza má. Trata-se de um argumento significativo. A teologia cristã ortodoxa responde a essa questão com as obras de Agostinho, Tomás de Aquino e toda a tradição da teodiceia cristã, sustentando que o mal não é uma substância nem um ser que exija um criador: trata-se da privação do bem, da falta de perfeição em um lugar onde deveria haver perfeição, assim como a cegueira é a ausência de visão em uma situação em que a visão é esperada. Esse raciocínio de Agostinho e Tomás não consegue solucionar todas as questões relacionadas ao mal, e nenhuma teologia séria busca fazer isso. No entanto, ele é, do ponto de vista filosófico, superior ao dualismo, pois evita a criação de um segundo princípio eterno que faria com que o Deus bom se tornasse impotente diante de um rival eterno.
O catarismo prosperou, especialmente no Languedoc, uma área do sul da França onde se falava a língua d'oc, recebendo o respaldo da aristocracia regional (os condes de Toulouse, os senhores de Foix) e o apoio de uma grande parte da população. Esse suporte não deve ser idealizado como uma superioridade espiritual da consciência do povo occitano: havia motivos sociológicos intricados, como a corrupção do clero local, o peso da tributação eclesiástica, e a associação do catarismo com a identidade cultural occitana em oposição à crescente influência do poder francês do norte. A religião, como sempre, cumpre também papéis que não são apenas religiosos.
Proclamada pelo Papa Inocêncio III em 1209, a Cruzada Albigense foi uma das guerras mais cruéis da história medieval europeia. O saque de Béziers, que ocorreu em julho de 1209, durante o qual o legado papal Arnaud Amaury supostamente teria dito a frase "Matem todos, Deus reconhecerá os seus" (embora essa citação possa ser apócrifa, já que foi registrada apenas por Cesário de Heisterbach várias décadas depois), resultou no massacre de dezenas de milhares de indivíduos, tanto cátaros quanto católicos, que não eram distinguidos entre si. É preciso reconhecer com franqueza que esse episódio constituiu um crime. De forma alguma é possível justificar o massacre indiscriminado de civis com base em qualquer princípio teológico cristão, e a Igreja admite isso no juízo histórico atual.
Aceitar que a Cruzada Albigense foi um crime não significa legitimar o catarismo como uma crença religiosa, assim como aceitar que a Inquisição foi repleta de atrocidades não significa que a Igreja tenha cometido um erro ao classificar o dualismo radical como teologicamente incorreto e prejudicial à sociedade. Estas são duas questões diferentes que a historiografia contemporânea e, em especial, a literatura esotérica popular tende a confundir de forma sistemática. Podemos distinguir a questão dos métodos (como a Cruzada e a Inquisição) da questão dos objetivos (a luta contra o dualismo radical) e da questão da correção teológica. A Igreja recorreu a métodos inaceitáveis para apoiar uma causa que, do ponto de vista doutrinário, era legítima. Inocêncio III, que se entristeceu publicamente com os abusos da Cruzada e tentou conter seus líderes militares, não é nem o monstro da lenda negra nem um santo. É um papa que enfrentou uma heresia utilizando os meios disponíveis em sua época, e esses meios incluem a violência que o cristianismo atual reprova.
A Inquisição, oficialmente instituída pelo Papa Gregório IX em 1233, em parte para enfrentar os cátaros que ainda persistiam, também merece uma abordagem diferenciada. Os inquéritos inquisitoriais medievais eram, para os padrões do século XIII, mais rigorosos e mais protetores do que os tribunais civis da época, que torturavam e executavam sem um processo formal. Isso não os torna aceitáveis segundo os critérios contemporâneos de direitos humanos. No entanto, a história de uma Inquisição que apenas caçava a inocência espiritual é tão falsa quanto a ideia de uma Igreja que nunca errou. Montségur, a derradeira fortaleza dos perfecti, que foi capturada em 1244, simboliza o término do catarismo estruturado. Duzentos e vinte perfecti foram consumidos pelas chamas em uma fogueira coletiva ao pé do castelo por se recusarem a renunciar. Isto foi um crime. Queimar um ser humano por suas crenças religiosas é uma ofensa à dignidade que o próprio cristianismo preconiza. Nenhuma figura católica atual apoia esses métodos.
A posição da autoridade católica, que é sustentada e explicada, se refere ao diagnóstico teológico: o catarismo era uma heresia perigosa, não por questionar a autoridade da Igreja, mas porque minava os princípios filosóficos e teológicos essenciais para a construção de qualquer forma de vida humana que seja considerada digna. Uma fé que vê o corpo como cárcere não pode valorizar a cura. Uma religião que vê a procriação como uma prisão para as almas não é capaz de estabelecer uma ética familiar. Uma fé que considera o mundo material como criação do mal não pode ter uma moral que responsabilize pelo meio ambiente, que promova o zelo pela criação, que veja o trabalho como uma vocação. O dualismo radical é uma crença errada não apenas do ponto de vista filosófico, mas também quase impossível de ser aplicada na sociedade. Isso não quer dizer que os perfecti individuais não fossem pessoas cujas vidas eram exemplos a serem seguidos; muitos deles eram, sem dúvida, mais íntegros pessoalmente do que o clero corrupto que se opunha a eles. Isso implica que o sistema que eles adotavam, quando levado ao extremo, resulta na endura, na condenação do matrimônio e no desdém pela vida corporal.
A resposta da Igreja Católica ao catarismo também foi elaborada de maneira construtiva, em termos doutrinários, e não apenas de forma polêmica. O IV Concílio de Latrão, realizado em 1215 sob a convocação do Papa Inocêncio III, foi em parte uma resposta à crise cátara e declarou de forma clara a doutrina da criação: "Uma única realidade, Deus, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis." Não há dois princípios. Nem um Deus benevolente, nem um Demiurgo maligno. Um único Criador de tudo o que existe, que é bom por estar em comunhão com o Bem que é Deus. São Domingos de Gusmão, que esteve com os legados papais no Languedoc nos anos que antecederam a Cruzada e fundou a Ordem dos Pregadores (Dominicanos) em 1215, tentou combater o catarismo por meio da pregação, do exemplo de vida e do debate teológico, que era precisamente o método que Inocêncio III havia solicitado antes de optar pela Cruzada. A resposta convencional ao dualismo não se limitou à violência; incluiu também a teologia.
São Tomás de Aquino, que veio ao mundo em 1225, uma geração após o início da Cruzada Albigense, e redigiu a Suma Teológica entre 1265 e 1274, elaborou a refutação filosófica mais metódica e rigorosa do dualismo no contexto do cristianismo medieval. Seu raciocínio acerca da bondade do ser, sua evidência de que o mal é uma privação e não uma substância, assim como sua defesa da criação como uma forma de participação no Ser de Deus, tudo isso constitui, sob uma perspectiva filosófica, uma resposta clara e duradoura à questão que o catarismo levantava. É uma resposta que continua filosoficamente consistente, não importa o contexto histórico em que foi dada.
Eric Voegelin, em Science, Politics and Gnosticism, que foi publicado originalmente em alemão em 1959 com o título Wissenschaft, Politik und Gnosis, reconheceu na estrutura do pensamento gnóstico o modelo que ressurge, de forma secular, nas principais ideologias totalitárias da modernidade: o grupo de indivíduos escolhidos que detêm o conhecimento secreto da realidade, que caracteriza o mundo atual como fruto de um poder ilegítimo, que oferece a salvação por meio da aniquilação da ordem vigente e sua substituição por uma nova ordem reconstruída com base no saber privilegiado. É uma análise instigante e, em vários aspectos, precisa. O marxismo-leninismo operava de maneira análoga: os membros do partido representavam os pneus que transportavam a consciência de classe; a burguesia era o Demiurgo responsável pela criação do mundo capitalista; e a revolução era o Apocalipse que aniquilaria essa criação imperfeita e daria início ao Pleroma comunista. A gramática possui uma natureza gnóstica, mesmo que o vocabulário seja materialista.
A crítica de Voegelin é contundente. É importante também notar sua limitação: o uso do termo "gnóstico" para cobrir fenômenos tão diferentes como o gnosticismo setiano do século II, o catarismo medieval, o marxismo leninista e o nazismo acaba diluindo o conceito até a inutilidade analítica. Conforme Michael Allen Gillespie comentou em The Theological Origins of Modernity (2008), as diversas raízes teológicas da modernidade - incluindo o nominalismo medieval, o voluntarismo teológico e a Reforma Protestante - não podem ser simplificadas ou resumidas a gnosticismo, pois isso é um atalho que revela mais do que oculta. O que Voegelin observa de maneira acertada é um padrão funcional: o fechamento do sistema em torno de um conhecimento supostamente privilegiado que anula qualquer oposição. Esse modelo pode ser encontrado no gnosticismo, no catarismo e no marxismo ortodoxo. Chamá-los todos de "gnósticos" é como chamar todos os assassinos de "homicidas": tecnicamente correto, informativamente insuficiente.
Em sua monumental Filosofia Concreta e no Tratado de Simbólica, Mário Ferreira dos Santos explorou, de forma complementar e provocadora, a questão da hierarquia ontológica em relação à visão gnóstica. A desordem, para Santos, não reside na própria matéria, sendo essa distinção fundamental, mas sim na inversão das hierarquias e na confusão entre os vários níveis de existência. A matéria ocupa seu lugar de direito na ordem do universo. O problema surge quando ela toma para si a função que é do espírito, ou quando o espírito despreza a matéria que deveria governar. Santos, educado na tradição aristotélico-tomista e totalmente dedicado à precisão filosófica que tanto respeitava em Mário Ferreira e em São Tomás, não teria nenhum problema em reconhecer o dualismo gnóstico como uma inversão da hierarquia ontológica, não por desdém, mas por falta de compreensão do verdadeiro posicionamento de cada nível de existência. A matéria não é adversária do espírito: é o terreno onde o espírito se manifesta.
Joaquim de Fiore (aproximadamente 1135-1202), abade da Calábria e profeta beneditino, formulou uma teoria sobre as três eras da história: a Era do Pai (referente ao Antigo Testamento), a Era do Filho (que se estende desde Cristo até o fim dos tempos) e a Era do Espírito (uma era futura de plena realização espiritual), a qual influenciou profundamente o pensamento medieval e moderno. Em The Pursuit of the Millennium (1957), Norman Cohn mostrou como o joaquimismo deu a linguagem simbólica a movimentos revolucionários medievais como os Fraticelli, os Dulcinistas e os Taboritas. Henri de Lubac, na obra La Postérité spirituelle de Joachim de Flore (dois volumes, 1979-1981), expandiu a análise para ilustrar como o esquema tripartite joaquimista ressurgiu em Hegel, Comte e Marx, demonstrando que o pensamento secular da modernidade herdou, de maneira oculta, a estrutura escatológica cristã que alegava ter superado. O joaquimismo não se confunde com o gnosticismo. Joaquim foi um cristão ortodoxo cujas obras receberam, em vida, uma espécie de aprovação papal informal, mas ele simboliza o limite onde a esperança escatológica cristã começa a se corromper com a imanentização: a sedução de antecipar o fim dos tempos no decorrer da história.
Os estudos sobre gnosticismo no Brasil têm avançado de maneira significativa. Os principais livros de Elaine Pagels, Os Evangelhos Gnósticos, foram traduzidos pela Objetiva em 2006, e Além da Crença também saiu pela mesma editora em 2004. A Editora Madras lançou traduções de obras de referência e textos gnósticos. Cláudio Willer se debruçou sobre a tradição gnóstica e sua relação com a contracultura. Com uma abordagem cada vez mais rigorosa, o gnosticismo é tema de dissertações e teses em programas de pós-graduação em Ciências da Religião, Filosofia e Teologia, particularmente nas universidades de São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Recife. O campo está pulsante. A questão reside na perspectiva a partir da qual o material é analisado: como um exotismo espiritual, como uma alternativa à ortodoxia ou como um assunto de estudo histórico e filosófico rigoroso.
O apocalipse gnóstico, que representa o término do cosmos, a desintegração da criação material e o retorno de todas as centelhas ao Pleroma, é retratado nos escritos de maneira surpreendentemente sóbria. Armagedom não existe. Não existe uma luta entre exércitos celestiais. O fim gnóstico é tanto radical quanto silencioso: quando a última fagulha pneumática voltar ao Pleroma, não haverá nada que sustente o cosmos em ser. O Demiurgo não será aniquilado por um exército celestial, mas deixará de ter razão para existir. A sua criação entrará em colapso, pois não haverá mais luz suficiente para mantê-la. O assunto se dissolve como um sonho que ninguém mais tem.
O Apocalipse de Adão (NHC V,5) ilustra esse processo como uma purificação em camadas: conforme as almas pneumáticas vão ascendendo, o mundo material vai perdendo a sua densidade espiritual, tornando-se progressivamente mais vazio de luz, até que sua própria constituição se torna insustentável. Não se trata de violência: é desordem espiritual. No final, quando o cosmos se desintegra, o que permanece é o Pleroma, a plenitude primordial, agora enriquecida por toda a vivência que as centelhas reuniram ao longo de sua extensa jornada pela matéria.
No final de tudo, Sophia é reestabelecida. Não apenas sua forma superior, que permaneceu no Pleroma durante todo o drama, mas também sua versão inferior, Achamoth, segundo os valentinianos, o fragmento caído que permaneceu no espaço intermediário entre o Pleroma e o cosmos, lamentando e aguardando. A Sophia caída é salva pelo Cristo Eônico, que desce com a finalidade específica de encontrá-la. Sua elevação representa a reabsorção de toda a vivência do universo, incluindo toda a dor, todo o esquecimento e toda a beleza interrompida da matéria, na plenitude do divino.
A linhagem de Set, que é o tema mais claramente setiano nos escritos de Nag Hammadi, simboliza a persistência da semente espiritual ao longo das gerações. No contexto do mito gnóstico, Set não é o irmão de Caim e Abel, mas sim um Eão de Luz que foi enviado ao cosmos decaído com a finalidade de proteger a semente de Barbelo. A sua descendência não é de carne, mas de espírito: todos os portadores do sopro da gnose são "descendentes de Set", independentemente de origem étnica ou biológica. A imagem de Norea, a filha espiritual de Set, que aparece na Realidade dos Arcontes e no Pensamento de Norea (NHC IX,2), é retratada como a chama que rejeitou o controle do Demiurgo, que clamou ao céu e foi atendida pelos anjos do Pleroma. Ela representa a alma que tem consciência de sua origem e se recusa a se render.
O Trovão Mente Perfeita (NHC VI,2) é um dos escritos mais notáveis de toda a biblioteca de Nag Hammadi. Uma divindade feminina expressa-se por meio de paradoxos que destroem qualquer tentativa de classificação: "Sou a honrada e a ridicularizada." Eu sou tanto a prostituta quanto a santa. Eu sou a esposa e a virgem... Eu sou o saber da minha pesquisa e o conhecimento daqueles que me buscam." A voz que Elaine Pagels e outros associam a Sophia, a Barbelo e à própria Gnose personificada não pode ser aprisionada em nenhum sistema de dualidades opostas. É a realidade, antes de qualquer tipo de categorização. É, também do ponto de vista literário, um dos monólogos mais impressionantes da antiguidade tardia.
O Tratado Tripartido (NHC I,5), de origem valentiniana, apresenta uma cosmologia na qual, ao invés de Sophia, o responsável pela queda é o Logos, representando uma variante que evidencia a diversidade interna do gnosticismo valentiniano e que Einar Thomassen analisou em The Spiritual Seed: The Church of the Valentinians (2006). O tratado apresenta uma soteriologia mais inclusiva em comparação com os sistemas setianos, insinuando que, em algum momento, até mesmo os psíquicos poderão ser parte da salvação. Isso o torna, embora de forma estrutural, mais próximo da noção da universalidade da graça, conforme afirmado pela teologia cristã ortodoxa.
A Exegese da Alma (NHC II,6) elabora a comparação da alma com uma mulher que se entregou à prostituição com os Arcontes e que necessita ser purificada antes de se reunir novamente com seu esposo celeste, uma alegoria que reinterpreta passagens do Antigo Testamento (Ezequiel, Oseias) e da tradição órfica, abordando a queda e o retorno da alma. O texto é notável pelo uso intensivo de citações da Bíblia e de Homero, o que revela o ecletismo erudito típico do gnosticismo em sua fase mais avançada.
O Diálogo do Salvador (NHC III,5), que é fragmentário e complexo, traz Jesus conversando com os discípulos Matias, Judas e Maria a respeito da natureza do lugar de luz, do destino das almas e da relação entre o que é interno e o que é externo. É um dos textos que mais claramente mostra a função pedagógica que os gnósticos atribuíam aos ensinamentos de Jesus: não a transmissão de fé em eventos históricos, mas a instrução em autoconhecimento e em geografia espiritual.
O Tratado da Ressurreição (NHC I,4), endereçado a um indivíduo chamado Rhegino, apresenta a ressurreição como algo que já ocorreu no presente da gnose, e não como um evento corporal a ser esperado no futuro: "Não te afastes, como se fôssemos novatos, como se devêssemos morrer. Esta é a nossa porção... a ressurreição é a transformação das coisas." No entendimento gnóstico, a ressurreição não se refere à recuperação do corpo após a morte, mas sim ao despertar da alma para sua verdadeira essência espiritual enquanto ainda se está vivo. A posição contrária à ressurreição dos corpos entra em conflito direto com a teologia cristã ortodoxa, que declara esse evento como real e futuro.
A Biblioteca de Nag Hammadi também contém o Apocalipse de Paulo (NHC V,2), que narra a jornada de Paulo pelos dez céus, e o Apocalipse de Pedro (NHC VII,3), no qual Pedro é apresentado como um vidente gnóstico que recebe revelações sobre a verdadeira natureza de Cristo. Esses textos evidenciam como os gnósticos utilizam as figuras apostólicas para validar seus próprios ensinamentos.
O gnosticismo, quando analisado em sua totalidade, tanto histórica quanto filosoficamente, destaca-se como um dos sistemas de crença religiosa mais intrigantes, internamente consistentes e poeticamente desenvolvidos que a civilização ocidental já criou. É, sob a perspectiva da teologia cristã ortodoxa e da filosofia da criação, um sistema que se baseia em premissas fundamentalmente errôneas e que resulta em consequências práticas prejudiciais. Não há contradição entre essas duas afirmações. Um sistema pode ser intelectualmente impressionante e teologicamente incorreto. É capaz de gerar escritos de uma beleza impressionante, mas também pode, quando é levado a sério, levar à prática da endura, ao desprezo pelo corpo e à condenação da procriação como uma forma de aprisionamento das almas.
A resposta da Igreja Católica ao gnosticismo, que veio por meio de Ireneu, Tertuliano, Hipólito, Agostinho, Tomás de Aquino, dos Concílios e da contínua tradição de uma teologia encarnacionista, não se tratou apenas de uma manifestação de poder institucional visando a manutenção de seus privilégios. Trata-se de uma resposta de caráter filosófico e teológico que sustentou a dignidade da matéria, a bondade da criação, a salvação universal, a veracidade da Encarnação e a expectativa da Ressurreição corporal. Estes são os pilares que qualquer civilização que reivindique a dignidade humana incondicional deve edificar. O dualismo extremo, tanto gnóstico quanto cátaro, corrói suas fundações.
O universo chega ao fim. A centelha está de volta. O Pleroma envolve o drama em sua totalidade. Quando as palavras chegam ao fim, o que permanece é a questão que cada indivíduo precisa resolver por si mesmo: o mundo que habita é uma prisão a ser evitada ou uma criação que precisa ser redimida? A resposta gnóstica é: cativeiro. A resposta ortodoxa cristã afirma: uma criação que caiu, sim, mas que é redimível e já redimida em Cristo. As duas respostas geram civilizações que são profundamente distintas. A história decidiu qual delas pode sustentar a vida humana de maneira digna.
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