Onde as Sombras são Mais Densas, o Sonho é a Única Estrela: A Sinfonia Sombria de um Mundo Dark Fantasy
Entre a vegetação, os rituais, os livros, os monstros simbólicos e a decadência espiritual do homem contemporâneo, este ensaio filosófico se infiltra na fantasia obscura, não como uma evasão estética, mas como uma linguagem que tem o poder de mostrar que a realidade é mais ampla, mais arriscada e mais sagrada do que a civilização tecnológica reconhece. Aqui, a fantasia sombria deixa de ser apenas um gênero para se transformar em uma chave filosófica para interpretar o mundo: um mundo que está ferido, habitado e, metafisicamente, denso, onde a batalha pela verdade, por Deus e pela própria alma ainda ocorre em meio às trevas, à beleza, à memória, à queda e à transcendência.
Gabriel G. Oliveira
4/23/2026105 min read
O Coração do Dark Fantasy
Desde cedo, o mundo, para mim, não era apenas um mundo. Ele começou a se parecer com algo mais indefinido, mais denso, mais ameaçador, como se a camada externa visível fosse apenas uma película mal fixada sobre uma outra dimensão da realidade que ainda respira por baixo. Por isso, afirmo, sem a intenção de parecer afetado ou de atribuir uma grandeza fictícia à minha biografia, que o mundo me parece uma espécie de dark fantasy. Não de uma maneira pueril de escapar da realidade, nem com uma decoração gótica para jovens entediados, mas no sentido mais perturbador da expressão: a realidade é composta de camadas, a matéria não esgota o que é real, o que se pode ver não esgota o que está em ação, e o homem moderno, precisamente porque aprendeu a rir disso, esqueceu como reconhecer a magnitude do que o rodeia.
Já mencionei em outros textos que explorei o ocultismo, participei de ordens, ritos e diversas religiões, além de vivenciar experiências espirituais de diferentes naturezas, não com o intuito de parecer alguém peculiar, mas sim por uma genuína busca por conhecimento. Gostaria de saber, de fato. Gostaria de entender o que é Deus, se Deus realmente existe, como se pode estabelecer uma conexão com Ele, quais aspectos são falsos, quais são manipulativos, quais são símbolos sem significado e quais representam uma presença autêntica. Eu passei por muitas coisas em relação a isso. Explorei as religiões mais reconhecidas globalmente, assim como aquelas que são mais populares no Brasil, além de práticas ritualísticas marginais, círculos ocultistas, tradições esotéricas, manifestações populares e eruditas de espiritualidade. Fiz essas peregrinações porque, quando eu me declarava ateu, possuía ainda um defeito que hoje vejo como uma rara virtude: desejava investigar antes de zombar.
Há um tipo de ateu que não me atrai em nada e que, por sua vez, me incomoda bastante. Não é o ateu que interrompe seu julgamento, que padece, que busca, que ainda não encontrou e afirma de forma sincera “não vi”. Esse, ao menos, ainda se apresenta diante do real. O que realmente me incomoda é o ateu que jamais participou de qualquer rito, que nunca testemunhou nada, que não se dedicou a um estudo aprofundado da estrutura interna de uma religião específica, que nunca acompanhou a lógica simbólica de um culto, que nunca se colocou em contato com aquilo que critica, mas que se pronuncia com a convicção moral de um promotor cósmico. Esse indivíduo não nega a transcendência após explorá-la; ele a escarnece para evitar confrontá-la. Isso revela uma covardia intelectual que, para mim, é menos digna do que o niilismo de Nietzsche. Nietzsche, com todas as suas contorções, ainda possuía uma grandeza suficiente para levar o pensamento ao seu limite mais profundo. O ateísmo superficial da atualidade, em grande parte, busca apenas caricaturas de baixo nível, a sensação de superioridade que se observa em conversas de bar, e o prazer infantil de ridicularizar aquilo que jamais conseguiu entender.
Quando eu não acreditava em Deus, esse conforto mesquinho não me satisfazia. Gostaria de observar. Gostaria de ir ao local onde afirmavam que haveria uma manifestação. Queria ver o que se passava onde diziam que nada acontecia. Gostaria de adentrar em áreas que o cético da internet jamais frequenta, pois o cético da internet aprecia bastante o termo “investigação”, mas frequentemente se refere a uma simples leitura apressada de meia dúzia de textos secundários elaborados por indivíduos tão impermeáveis à experiência quanto ele mesmo. Eu estive lá. Visitei centros, participei de rituais e estive em lugares onde a espiritualidade não era tratada como um tema sociológico, mas como uma presença que se fazia exigir. Umbanda, quimbanda, candomblé, feitiçaria, várias correntes da wicca, tradições luciferianas, contextos satânicos, círculos de magia ritual, práticas do oriente, experiências oriundas de tradições judaicas, ensaios teúrgicos, sincretismos. Eu ia porque tinha a curiosidade de saber se tudo aquilo era encenação, ilusão, engano, histeria coletiva ou se havia algo mais profundo. O meu ateísmo, naquela altura, não era zombador; era insistente.
Essa exigência foi, de fato, o que começou a minar o próprio ateísmo. Há momentos em que a questão não é apenas se determinados fenômenos existem, mas sim por que a humanidade sente a necessidade de negar certas perguntas. Uma dessas questões é, de fato, excessivamente simples para as tecnologias atuais, mas ao mesmo tempo, é grande demais para ser ignorada: o que é que alimenta a esperança em um mundo que se encontra totalmente voltado para si? Não me refiro à distração, nem ao consumo, tampouco ao prazer momentâneo de estar vivo, e definitivamente não estou falando do consolo oferecido pela publicidade ao afirmar que a vida “já basta”. Não é suficiente. Sempre foi insuficiente. Um mundo que não possua qualquer ordem superior pode até proporcionar motivação, emoção, diversão, ideologia e até mesmo uma forma de anestesia, mas não consegue fornecer uma base sólida para a esperança; no máximo, oferece alternativas a ela. É nesse ponto que frequentemente surge a sedução gnóstica do ateu ativista: uma vez que não existe céu, ele deseja criar um; se não há uma ordem superior, ele quer estabelecer uma; dado que o mundo não proporciona a perfeição, ele idealiza essa perfeição na política, na revolução, na reengenharia moral, no Estado, na educação coercitiva e em um futuro idealizado. Substitui Deus por um projeto. Substitui a transcendência por uma programação. Substitui a conversão interna pelo gerenciamento da espécie.
Não vejo essa troca como um mero acaso. Eric Voegelin identificou, tanto do ponto de vista filosófico quanto histórico, que algumas vertentes da política moderna funcionam como uma imanentização de expectativas salvíficas, agindo como se fosse possível forçar a entrada do paraíso na história. Não estamos afirmando que cada governo seja uma simples consequência de uma teologia específica, mas sim que nenhuma organização política emerge de um vazio moral ou metafísico. A modernidade tem a tendência de acreditar que criou instituições que são totalmente racionais, ignorando o fato de que a imaginação religiosa influenciou profundamente séculos de desenvolvimento das noções de autoridade, justiça, culpa, redenção e propósito. Essa falta de memória gera o indivíduo que acredita ser viável eliminar toda a herança espiritual do Ocidente e, mesmo assim, manter seus padrões morais completamente preservados. Trata-se de uma inocência bastante ruidosa. É extremamente prejudicial.
Por isso sempre considerei intelectualmente fraco o indivíduo que se mostra neutro e, sem se dar conta, reproduz uma moral que recebeu, mutilada e remendada. Ele afirma categoricamente que foi o criador da compaixão, da dignidade humana e da igualdade moral fundamental, além de garantir que introduziu a crítica ao abuso. No entanto, uma parte significativa do vocabulário que ele utiliza para avaliar o mundo se origina exatamente da tradição que ele menospreza. A distinção reside no fato de que, após ter extirpado a raiz, ele deseja preservar a flor por meio de um decreto. Deseja uma ética objetiva sem a ontologia que a suporte. Deseja condenar o mal, mas não quer estabelecer uma base do ser que possibilite a distinção entre o mal e o desconforto. Deseja direitos plenos com uma metafísica que é relativa. Que obrigação universal se baseia em uma preferência individual? É como solicitar a firmeza de uma catedral após ter explodido seus pilares.
Nesse contexto, sempre me pareceu grotesco observar certos debates entre ateus e crentes nos quais a crítica era carregada de teatralidade, mas desprovida de rigor. Eu já testemunhei pessoas debatendo temas como sofrimento, livre-arbítrio, mal moral e culpa humana, como se estivessem misturando peças de diferentes jogos em uma única mesa, e depois acreditando que saíram vitoriosas apenas porque utilizaram a ironia em suas falas. A questão pode ser importante, mas a execução costuma ser superficial. O problema vai além da ausência de teologia; é a carência de uma disciplina mental adequada. A pessoa equaciona o sofrimento que é parte da vida com a culpa moral, a culpa moral com a permissão de Deus, a permissão de Deus com um desejo direto, e então chama toda essa confusão de um argumento irrefutável. Isso não é bravura sensata. É falta de disposição com amor-próprio.
Além disso, me irritam as interpretações superficiais de eventos bíblicos ou históricos, nas quais se julga todo o passado com uma moral improvisada criada há apenas cinco minutos. Não estou promovendo a crueldade, nem convertendo a tradição em uma proteção inquestionável. Estou levantando um ponto diferente: ao abordar temas como conflitos religiosos, guerras do passado, a supressão de certos cultos ou a repressão de práticas específicas, é fundamental ter clareza sobre o que exatamente se está referindo. Em algumas conversas, percebo que as pessoas imaginam as civilizações antigas como se fossem diferentes versões de um festival multicultural, interrompido por extremistas monoteístas. De forma alguma. Existia violência ritual, havia modos cruéis de dominação, havia cosmologias associadas a práticas repugnantes, havia guerra de fato, havia ameaças reais, havia competições pela sobrevivência, havia nações que não eram figuras de um desenho moral elaborado para atenuar a consciência do presente. Converter tudo isso em um conto infantil onde o mal está sempre associado ao lado cristão é mais um mito ideológico do que uma revisão histórica.
Esse tema me afeta de forma mais pessoal, uma vez que sou oriundo de uma família de ascendência judaica e ouvi, de familiares ao longo dos anos, histórias, memórias e interpretações nas quais a trajetória do povo judeu não era um tema abstrato de debate acadêmico, mas sim uma vivência de cerco, fuga, resistência e preservação. Quando alguém se refere de maneira leviana a episódios de autodefesa, guerra religiosa ou aniquilação de inimigos específicos, como se todos esses eventos pudessem ser avaliados sem levar em conta o contexto e a magnitude, o que realmente me afeta não é apenas a falta de conhecimento histórico; é a maneira alarmantemente simples com que se rotula como monstros aquilo que, para muitas pessoas, representou uma luta pela sobrevivência e não pelo desaparecimento. Esse é o grande problema das leituras morais apressadas: elas amam as vítimas de forma abstrata, mas frequentemente desconfiam delas no momento em que se manifestam.
O mesmo se aplica à fantasia moderna a respeito da Idade Média e da Igreja. Há uma caricatura que se mantém de forma estável, confortável e ignorante, que afirma que o catolicismo seria a origem de toda a escuridão da história, enquanto qualquer força que se oponha a ele automaticamente ganharia um aspecto libertário ou iluminista. Isso não suporta uma análise rigorosa. Existiu violência, corrupção, luta pelo poder e brutalidade dentro do mundo cristão? Certamente, houve. Somente um tolo seria capaz de contradizer isso. Houve, porém, também preservação civilizacional, contenção de barbaridades, organização moral, intelectual e jurídica do Ocidente, resistência a invasões, disciplina institucional e construção de uma linguagem compartilhada para refletir sobre o bem, o mal, o ser humano, a culpa, a lei e a alma. A crítica realmente madura se inicia quando se deixa de lado a catequese anticristã em forma de panfleto e se passa a aceitar a história como uma tragédia concreta, em vez de uma fantasia escolar destinada a adultos que se sentem ressentidos.
Quando observo, por exemplo, algumas denominações protestantes que se propuseram a ser uma correção moral da cristandade e que acabaram gerando regimes opressivos, perseguições internas e estruturas sociais opressivas, eu não consigo enxergar a narrativa de libertação que muitas pessoas ainda tentam promover. Percebo, com frequência, uma distinta forma de rigidez, uma alternativa para reprimir, uma nova abordagem de ensino baseada no temor, e uma outra forma de cuidado que se transforma em uma máquina. É importante mencionar isso, pois a lenda negra em torno do catolicismo só consegue se manter, em grande parte, quando se ignora a brutalidade de outras experiências religiosas e políticas que se apresentaram como formas de purificação.
Além disso, me incomoda a ingenuidade escolhida com que alguns círculos contemporâneos lidam com outras tradições. Existe uma categoria de crítico do cristianismo que se mostra severo apenas em relação àquilo que conhece por influência cultural; em relação ao restante, transforma-se em um antropólogo emocional. Tudo o que está fora do seu próprio padrão ético se torna uma alteridade fascinante, uma sabedoria ancestral, uma cosmologia diferente e uma espiritualidade mal interpretada. Trata-se de um sentimentalismo imperial inverso: ele preserva exatamente aquilo que jamais teve a ousadia de explorar internamente. Eu afirmo isso com base na minha pesquisa. Eu entrei. Vi. Experienciei o bastante para perder a ingenuidade, tanto do crente automático quanto do cético automático.
De modo algum estou afirmando que todas as religiões que não são cristãs são enganos ou malevolências. Dizer algo assim seria tolice. O que estou afirmando é que, ao se deparar com diferentes ambientes ritualísticos, você passa a perceber simultaneamente duas realidades: em primeiro lugar, que a busca pelo transcendente é uma necessidade comum a todos; e, em segundo lugar, que essa busca, por si só, não purifica nada de forma automática. Existem elevações, deformações, uma busca genuína, manipulações, ascese, teatro, obsessões, uma inteligência simbólica, e crueldades que se camuflam sob um manto de mistério. A pessoa que pensa que pode encontrar a pureza simplesmente por ter se afastado do cristianismo para “ampliar horizontes” geralmente está substituindo um imaginário disciplinado por outro, que, no entanto, é menos capaz de reconhecer seus próprios defeitos.
Foi nesse tipo de jornada que comecei a entender por que o mundo me parecia uma fantasia obscura. Não foi com a intenção de idealizar o oculto, mas sim porque a interação constante com determinados rituais, ambientes e vivências começou a destruir a crença ingênua de que a realidade se limita ao que é comum. E é aí que meu pai, a figura mais importante de toda essa história, entra em cena. Ele foi a pessoa que me apresentou, de uma maneira mais intensa, a uma maneira bastante singular de teurgia. O sistema dele não era uma imitação fiel de qualquer escola. Era uma síntese peculiar, original, e rigorosa de sua própria forma. Umidificava a cabeça prática, Trithemius, aspectos do hermetismo, arcabouço tomista, ressonâncias neoplatônicas e interpretação aristotélica. Não se encontrava ali um paganismo superficial de um catálogo contemporâneo; havia um esforço para estruturar o invisível, com a seriedade de aqueles que acreditavam que o mundo espiritual não poderia ser encarado como um mero entretenimento.
Meu pai era obcecado por fontes, nomes, hierarquias, sigilos, correspondências e modos de operação, quase de um jeito artesanal. Lia grimórios, obras sobre a cabala prática, textos associados à tradição salomônica e outros materiais que giravam em torno da Clavícula de Salomão, do Livro de Raziel e da Espada de Moisés, assim como as tradições da Merkavah e fragmentos utilizados por ordens ocultistas. Além disso, ele fazia uma distinção rigorosa entre o que considerava fantasia inventada, o que via como construção mental e o que acreditava ser uma entidade real. Ele acreditava, com grande convicção, que uma boa parte da demonologia popular era um resíduo gerado por uma imaginação ritualística mal direcionada, ou seja, manifestações artificiais sustentadas por praticantes de feitiçaria, e não entidades com uma existência própria no sentido mais robusto da palavra. Isso o levava a filtrar e rejeitar muitas coisas, criando seu próprio sistema com uma combinação de ousadia e disciplina que apenas aqueles que estão verdadeiramente imersos nesse estilo de vida conseguem manter por anos a fio.
Ele chegou a criar uma cosmologia particular, com operações específicas, listas próprias, leitura seletiva da goécia, adaptações, restrições e exclusões. Alterou nomes, eliminou alguns, aproximou as tradições. Ao invés de simplesmente aceitar catálogos elaborados, ele se esforçava para diferenciar o que considerava uma entidade real, o que parecia ser apenas uma casca verbal e o que era uma invenção que servia apenas como uma ferramenta útil para a mente. Havia uma combinação de misticismo e técnica nisso. Um pouco de padre e um pouco de técnico. Um pouco de filósofo pragmático e um pouco de curandeiro ritualístico. Atualmente, ao observar de fora, consigo perceber com mais clareza a estranheza desse conjunto; na época, eu apenas reconhecia sua força.
As imagens que seguem são testemunhos de rituais onde há fenômenos manifestacionais de entidades. Os registros mostram como estava o ambiente antes e durante a manifestação. O tratamento digital das imagens se restringiu a dois tipos de melhoria de imagem, mantendo o registro original intacto e sem alterações no conteúdo. O experimento consistiu na invocação do Arcanjo Cassiel, utilizando o sistema 'The Magus', de Francis Barrett, com algumas modificações que meu pai fez enquanto estava vivo, em 2015. No ritual, que acontece há três anos, a manifestação visual foi uma coluna de fogo branco com fumaça, iluminando objetos ao redor. Notou-se uma mudança de cor do fogo para o violeta de forma espontânea, sem a adição de quaisquer produtos químicos ou substâncias externas que explicassem a mudança:
Recordo que ele relacionava grande parte disso a uma função quase terapêutica ou apotropaica. Não se tratava, para ele, de um simples fetiche de dominação. Era o combate de entidades, purificação, exorcismo, proteção, intervenção. Por essa razão, anos mais tarde, eu sempre me lembrava da imagem do Ginko em Mushishi, esse personagem que viaja por locais imersos em presenças que são quase naturais, quase espirituais e quase animais, e que precisa compreender a essência daquilo antes de tomar qualquer atitude. Meu pai me apresentou o mangá, depois assisti ao anime, e me identifiquei de imediato. Não porque as situações fossem semelhantes, mas porque havia a mesma impressão de um universo povoado por consciências ou forças que não se encaixam nas orientações do dia a dia, apesar de influenciarem a rotina constantemente. Essa foi uma das primeiras ligações entre a minha imaginação e a minha vivência: passei a compreender que a fantasia não me fascinava apenas por ser fantasia, mas sim porque parecia, por meio de símbolos e histórias, acessar alguma camada verdadeira da organização do mundo.
Existiam ocasiões em que meu pai organizava operações com uma atenção incrível. Meditação profunda precedia sua escrita. Ao escrever, ele criava marcas, nomes, símbolos, equações, às vezes em lugares inesperados, outras vezes associando o ato a objetos do dia a dia, como medicamentos, papéis, frascos e substâncias. Ele também possuía essa receptividade sincrética em relação ao hoodoo, aquele espaço onde o catolicismo popular, a cabala prática e a magia operativa se entrelaçam em uma economia ritual bastante concreta. Nada ali possuía a sofisticação que o esoterismo de fachada adora exibir. Era algo mais rugoso, mais funcional, mais carregado de propósito.
Eu testemunhei diversas coisas. Não estou solicitando que ninguém considere isso como uma verdade absoluta. Estou afirmando que observei. Houve um ritual no qual a atmosfera do local pareceu se despedaçar. Ocorrência de uma manifestação luminosa em um lugar onde não havia justificativa material suficiente para que aquilo acontecesse daquela maneira. Ocorreram barulhos, gritos, distúrbios, mudanças na atmosfera interna, assim como momentos em que tudo parava de repente ao ser introduzido aquilo que, para nós, era interpretado como uma presença angelical. Aquilo não era uma bela cena de filme. Era mais inquietante do que belo. Pelo fato de ser inquietante, não consegui continuar mantendo a postura jovem de acreditar que toda forma de expressão espiritual é apenas uma metáfora inadequada para estados psicológicos. Em algumas ocasiões, realmente é. Não é sempre assim.
Após essas vivências, contos de fadas, narrativas arturianas, relatos sobre aparições, tradições populares relacionadas a seres da natureza, hierarquias de anjos, daimons, gênios e entidades que habitam limiares passaram a não ser apenas considerados como o legado imaginativo da humanidade. Pareceram, então, como que simbólicas, mais ou menos conscientes, tentativas de descrever uma ordem invisível que periodicamente invade a experiência humana. Comecei a investigar Tomás de Aquino, a metafísica e a história das diversas tradições espirituais. Aquilo que, anteriormente, eu considerava como mero folclore começou a se estruturar em torno de uma hipótese mais plausível: talvez o ser humano tenha, de fato, criado muitas fantasias, mas é possível que essas fantasias estejam relacionadas a algo verdadeiro.
Observamos isso em outros contextos também. Em cerimônias de origem pagã, em voltas ao redor do fogo, em vivências onde a intensidade do grupo parecia alterar a percepção e, ao mesmo tempo, expor de forma brutal figuras ou presenças. Vi pessoas entrarem em estados que, para aqueles que nunca os testemunharam de perto, sempre parecerão exagerados ou falsos. No entanto, quando esses estados se manifestam diante de você repetidamente, em diferentes contextos, com consequências tanto materiais quanto simbólicas que se alinham, passa a ser necessário um vocabulário que seja menos preguiçoso. Em rituais de quimbanda, onde certas incorporações me impressionaram menos pelo seu caráter exótico e mais pela questão filosófica que levantavam: o que é, de fato, o sujeito quando outra voz parece se apropriar de seu corpo sem aniquilar completamente sua identidade? Nos rituais de exorcismo realizados em contextos budistas, há uma interação com o espaço que se assemelha à forma como emoções, fumaça, som e presença se entrelaçam em uma mesma engrenagem ritualística. Em práticas rúnicas, com a sensação quase palpável de que o ambiente se desloca. Observei a alteração da densidade do espaço.
O que mais surpreendia não era a manifestação em si, mas a forma como o olhar se tornava um ensino após isso. Comecei a perceber indícios em determinados locais, pequenos sinais, repetições e áreas de presença. Existiam lugares onde o ar parecia habitado mesmo antes de qualquer cerimônia. Existiam locais sinalizados devido ao comportamento irregular dos insetos, a barulhos, a movimentos nas bordas e a sensações. Assim que a operação se iniciava, a situação se tornava mais intensa. Não se tratava apenas de avistar uma sombra e fugir como um personagem de uma lenda rural; era entender que toda a realidade parece estar estruturada em camadas de acesso, e que a maioria das pessoas atravessa essas camadas como se estivesse em um sono profundo. Diferentes tradições se referem a essas inteligências de maneiras distintas. Algumas as glorificam, outras as vilanizam, outras as tornam habituais, e outras as transformam em rituais. No entanto, a persistência do tema ao longo dos séculos deixou de parecer uma simples coincidência para mim.
Foi nesse momento que Dark Souls, Bloodborne, narrativas medievais, Conan, Elric, os antigos desenhos animados, O Senhor dos Anéis, os clássicos do Scooby-Doo, além de histórias sobre bruxas, cavaleiros, magos, lobisomens e entidades demoníacas do interior começaram a se unir em minha mente de uma maneira diferente. Não como uma escapada da realidade, mas como uma compreensão criativa de que a realidade é muito mais ampla do que o materialismo contemporâneo consegue aceitar. O nerd obcecado por dark fantasy, nesse aspecto, não me parece um forasteiro por excelência; em certas ocasiões, parece ser um indivíduo que, de forma instintiva, foi ferido pela diminuição contemporânea da realidade. Ele busca em universos obscuros uma densidade ontológica que o mundo desencantado lhe tirou. Busca por monstros ao perceber que o homem contemporâneo traiu sua inocência. Busca o encantamento porque tem consciência, mesmo que de forma nebulosa, de que uma linguagem estritamente técnica não é suficiente para capturar a totalidade da experiência.
Meu avô, apesar de não ter recebido educação formal, narrava histórias épicas e medievais com uma intensidade que muitas pessoas com diploma nunca conseguiram transmitir com suas próprias vozes. Ora falava de Camões, ora de Dom Quixote, ora entremeava tudo com narrativas de viagens, de animais, de assombrações, de honra e da tragédia da condição humana. Aprendi a ler quando era bem pequeno. Tive computador desde pequeno. Tinha uma paixão por tecnologia. No entanto, os livros me impactaram de uma forma diferente. Porque o livro continha profundidade, havia paciência, havia atmosfera, havia penumbra. E eu fui criado imerso nesse imaginário: fábulas, contos locais, histórias sobre o diabo, filmes da Disney ainda repletos de um encantamento antigo, Senhor dos Anéis, fantasia épica, matéria arturiana, espada, runa, bruxa, ruína, castelo, floresta. Hoje eu afirmaria que tudo isso serviu como uma forma de alfabetização simbólica para um mundo que, posteriormente, eu conheceria de maneiras menos literárias.
É por isso que, quando afirmo que muitas dessas coisas “existem”, eu não estou insinuando que cada figura literária se relacione de forma mecânica a uma entidade empírica que possa ser catalogada. Estou afirmando que a imaginação humana pode ter preservado, distorcido, condensado e contado aspectos de uma estrutura da realidade que a modernidade aprendeu a zombar para não precisar se responsabilizar por ela. O que conhecemos como fantasia pode não ser apenas fruto da imaginação: talvez seja, em parte, uma recordação simbólica. Em certa medida, é uma intuição de natureza metafísica. Em certa medida, é a transfiguração poética do que não se pode ver.
É aqui que se encerra este trecho. Antes de explorarmos as razões pelas quais tantas pessoas ainda se sentem cativadas pelo dark fantasy e por que essa estética parece ter retornado com força ao cotidiano, é importante definir o conceito com clareza. “Dark fantasy” frequentemente se refere a essa área onde a fantasia e o horror se encontram, onde o maravilhoso não é apresentado como um adorno brilhante, mas sim como uma presença obscura, ameaçadora, ambígua, que pode ser moralmente corrompida, espiritualmente elevada, mas quase sempre perigosa. Embora “realismo mágico” tenha outra genealogia: o termo foi associado por Franz Roh, em 1925, a uma forma de olhar o real em que o mundo ordinário parece revelar um mistério interno, e depois a expressão seguiu outras trajetórias na literatura. Mais tarde, Tolkien aparece como um dos grandes responsáveis pela consolidação da fantasia moderna e pela definição do imaginário duradouro do gênero no século XX.
A questão é que não me tornei fantasiador por querer escapar da realidade. Cheguei à imaginação através do confronto com a realidade. Quando o real começou a se manifestar de maneira mais intensa, eu identifiquei nele o mesmo brilho obscuro que antes apenas imaginava encontrar nas páginas dos livros.
Pouco importa, de resto, qual seja o livro exato ao qual algum catalogador atribua a medalha de “primeiro” romance de fantasia. Essa fixação pela primeira pedra frequentemente se revela mais como uma burocracia de rodapé do que um verdadeiro amor pelo gênero. O que realmente é relevante é algo diferente: a fantasia, enquanto um gênero claramente definido, com seu próprio universo, um elemento de estranheza reconhecido, seres não naturais e uma lógica de encantamento que é relativamente independente, não surgiu de forma instantânea; ela foi se desenvolvendo sobre várias camadas de mitos, lendas, épicos, contos de fadas e romances medievais, até se tornar mais claramente definida na Inglaterra vitoriana e eduardiana. A própria definição ampla do gênero sugere isso: outros mundos, outros tempos, criaturas sobrenaturais e um tipo de imaginação que não emprega o impossível como um adereço, mas como a base fundamental.
Tolkien, portanto, não criou a fantasia a partir do zero. É uma meia-verdade que aqueles que conhecem apenas o nome mais famoso costumam repetir, pensando que toda a árvore se originou do galho mais aparente. Já existia uma tradição anterior a ele, incluindo George MacDonald, William Morris, Lord Dunsany, e uma série de experimentos que pavedaram o caminho. O que Tolkien realizou foi mais poderoso do que “inventar”: ele consolidou. Ele conferiu espinhas, escalas, densidade linguística, um fôlego mítico, uma forma tão convincente ao gênero que, após o choque de sua obra, textos anteriores passaram a ser relidos, recuperados e até reclassificados à luz do que a fantasia moderna veio a ser. Em outras palavras, ele não gerou o impulso, mas conferiu a ele controle.
Aí surge uma diferenciação que quase ninguém realiza corretamente, pois a pessoa comum ama confundir tudo, como se fosse suficiente mostrar um fantasma ou um castelo para que tudo se tornasse equivalente. Não se transforma. Uma questão é a fantasia quando ela cria um outro universo, com suas próprias regras. Outra questão é o realismo mágico, que lida com o incomum dentro do mundo visível, sem se preocupar com a lógica do dia a dia. O termo, de fato, foi introduzido em 1925 por Franz Roh, inicialmente no contexto das artes visuais, para caracterizar um realismo que fazia com que a própria materialidade do mundo parecesse imbuída de um mistério gelado, quase estático. Essa questão é crucial, pois não se refere ao surrealismo, nem ao sonho puro ou ao delírio desenfreado: trata-se do real que se torna inquietante, sem deixar de ser real.
Essa distinção, a meu ver, sempre foi crucial, pois minha interação com o mundo nunca se assemelhou à de alguém que adentrou uma floresta mágica e saiu contente empunhando uma espada radiante. O que observei não possuía o brilho puro da ilusão domada. Não possuía também a leveza quase alegre que alguns usos comuns do maravilhoso têm. O que observei era consideravelmente mais imundo, muito mais ambíguo e muito mais semelhante a um mundo onde o invisível não se apresenta para embelezar a matéria, mas sim para exercer pressão sobre ela. É por isso que a dark fantasy me parece mais autêntica. Ela não representa a escapada para um paraíso idealizado; ela simboliza a aceitação de que o mundo já é intrinsecamente fracturado.
Quando me refiro a estar rachado, não me refiro a um tom juvenil, como se fosse algo admirável sofrer na escuridão apenas porque viu algumas ilustrações medievais e ouviu uma trilha sonora melancólica. Discorro sobre a fissura metafísica. Trato do que vem a ser o homem, cedo ou tarde, chamado a perceber que o real não é neutro. Existe o bem e o mal, a degradação e a ordem, a hierarquia e a queda, há símbolos que elevam e outros que apodrecem. A estética obscura é atraente porque restabelece a gravidade do universo. Em uma sociedade contemporânea que se empenha incansavelmente em transformar tudo em processos, entretenimento, normas e reações químicas, qualquer história que traga de volta conceitos como destino, culpa, sacrifício, maldição, redenção e luta espiritual parece, de repente, mais autêntica do que as notícias do dia a dia.
É precisamente nesse ponto que a fantasia sombria se separa da fantasia açucarada. Na mais pura fantasia, o mal é visto como um evento isolado, quase sempre superado pela bravura adequada no momento certo. Em dark fantasy, não. Nela o mal já infectou o terreno, o sangue, a lembrança, o cenário, a fé, o poder e, em algumas ocasiões, até mesmo a linguagem. O castelo não é apenas assombrado; ele está fatigado. A espada não é apenas mágica; ela tem um custo. O herói não é puro; ele chega machucado, comete erros, se contamina, e às vezes triunfa quando já é tarde. É difícil, mas reflete mais a realidade da vida. Pois a vida raramente apresenta os dilemas morais claros que a pedagogia contemporânea gosta de vender. O verdadeiro homem quase sempre faz suas escolhas entre escombros.
Não é surpreendente que a tradição gótica tenha surgido em períodos de transformação social, cultural e religiosa. O gótico surgiu, em grande parte, como uma expressão literária do medo da civilização, da ansiedade em relação ao que estava se perdendo, ao que estava mudando, e ao que retornava inesperadamente quando a confiança na razão já havia considerado o assunto como resolvido. Castles, monasteries, crypts, ruins, specters, and secrets are not merely elements of aesthetic decoration; they symbolize a wounded historical consciousness, representing a culture that has come to understand that altering the visible order without settling debts in the invisible realm often proves to be far more costly than the optimists promise.
Por essa razão, nunca consegui encarar com seriedade essa preferência contemporânea por um realismo simples, limpo e burocrático, como se a maturidade intelectual fosse igual a eliminar tudo o que a humanidade, ao longo de milênios, buscou narrar por meio de mitos, visões, lendas, fábulas e doutrinas. Isso não é ser maduro. É um empobrecimento disfarçado de superioridade. A pessoa renuncia ao cosmos, ao símbolo, ao sagrado, ao terror, à glória, ao juízo, ao milagre e à condenação, e então se questiona por que a arte contemporânea se assemelha a um quarto de hospital gerenciado por indivíduos tristes. Pois ela se viu privada de céu, inferno e montanha. Sobreviveu o corredor.
A intensa dark fantasy retorna com força, pois oferece de volta a montanha, mas não restituí Disneyland. Também restitui ao abismo. É essa combinação que a aproxima da experiência humana real. O ser humano não busca apenas conforto; ele busca propósito. Se não lhe atribuírem um verdadeiro significado, ele ao menos aceitará um significado que seja horrível. É melhor viver em um universo de guerra do que em um universo vazio. É melhor supor a existência de dragões do que admitir que a única verdade sobre a condição da alma humana é uma série de impulsos controláveis, traumas passíveis de tratamento, hábitos ajustáveis e discursos passíveis de negociação. Nesta situação, o monstro tem mais valor do que o gerente.
Por isso, ao me deparar com determinadas criaturas, rituais, símbolos e contextos, minha reação não era a de quem descobre uma “magia bonitinha”, mas a de quem entende que o imaginário humano talvez tenha sido, desde o começo, uma tentativa de falar de forma suportável sobre coisas insuportavelmente grandes. O anjo, o demônio, a floresta mágica, o espírito que habita o lugar, a espada sagrada, a ruína maldita, a cidade em decadência, o rei ferido, a sacerdotisa corrompida, o deserto de testes, a torre, o labirinto, a travessia, o nome oculto: nada disso me parece mais uma criação arbitrária. Aparentemente, isso representa uma condensação simbólica de experiências que foram vividas de forma semelhante em diversas civilizações, cada uma com suas próprias gramáticas, mas todas compartilhando uma mesma intuição subjacente: a de que o mundo visível não está sozinho.
Isso também transforma a maneira de se interpretar a literatura. Pois, quando a pessoa ainda não explorou as camadas mais profundas da realidade, ela interpreta a fantasia como uma forma de escapismo estético, um exercício da imaginação, uma construção mítica da falta que o ser humano experimenta. Certamente, tudo isso existe, mas não resolve completamente a questão. Uma vez que ele passa a duvidar, a partir de uma experiência ou de uma pesquisa aprofundada, que há mais elementos entre a matéria bruta e a consciência subjetiva do que o catecismo materialista reconhece, a literatura fantástica passa a ter uma nova função. Ela deixa de ser somente criação e torna-se também reconhecimento. Um não-reconhecimento literal, como se cada elfo estivesse camuflado em um arbusto, aguardando um crítico literário desatento. Avaliação estrutural. Identificação do clima ontológico. Reconhecimento de que o cosmos, possivelmente, se explica melhor com símbolos do que com laudos.
É nesse ponto que o entusiasta que ama dark fantasy me atrai. Não o geek domesticado pela indústria, que consome estética como se estivesse montando uma coleção de embalagens, mas sim aquele que percebe, mesmo que de forma confusa, que o mundo convencional o enganou. Ele mentiu ao afirmar que o bem e o mal são apenas construções negociáveis. Ele mentiu ao afirmar que transcendência é sinônimo de atraso. Ele mentiu ao afirmar que um mito é apenas a ignorância organizada. Ele mentiu ao afirmar que a alma pode ser trocada por jargão técnico. Esse indivíduo se apressa em direção a reinos obscuros porque ele opta por uma realidade machucada em vez de uma realidade distorcida. Embora ele possa não conseguir expressar isso de maneira clara, e talvez confunda diversos conceitos ou se deixe levar por modismos, sua intuição fundamental é evidente: ele deseja viver em um universo onde as coisas tenham significado.
E têm uma grande importância. Não de uma forma emocional, como se dissesse “cada um dá seu sentido”, que é apenas uma bela frase de alguém que já abriu mão da realidade, mas de uma maneira mais concreta, onde existe uma ordem, consequências, custos e propósitos. A dark fantasy é cativante porque cada ação tem suas consequências. Cada porta que se abre exige uma resposta. Todo pacto distorce. Todo ato de covardia deixa sua marca. Todo ato de bravura exige sacrifício. Toda traição gera destruição. Cada ato de misericórdia salva mais do que se imaginava. É um cosmos moralmente denso. O homem moderno, mesmo passando o dia todo simulando um desejo por leveza, está ardentemente faminto por profundidade.
Portanto, quando afirmo que minha interação com o mundo me levou a enxergá-lo como uma fantasia sombria, não estou utilizando uma metáfora elaborada para embelezar o trauma ou para parecer profundo nas redes sociais. Refiro-me à sensação, cada vez mais constante, de que a realidade possui a textura de um domínio ferido. Há beleza, mas não sem luta. Existe significado, mas é necessário passar por um processo de iniciação, ter discernimento e enfrentar perdas. Está lá, mas nem sempre é suave. Existe luz, mas raramente sem um juízo de valor. Talvez seja essa a razão pela qual o mundo é tolerável: ele não é um escritório cósmico desprovido de alma, mas sim um campo de experiências onde até mesmo a sombra possui uma certa densidade.
Em última análise, a fantasia sombria persiste porque não engana em relação à condição humana. Ela não garante uma pureza simples, não assegura um progresso instantâneo, não afirma que a informação pode substituir a sabedoria, nem que a liberdade sem estrutura gera grandeza. Ela inicia com uma avaliação mais severa, que, por sua natureza, se torna mais compassiva: a humanidade sofreu uma queda, o mundo foi afetado, o que é invisível ainda exerce sua influência, e, mesmo assim, há um caminho a ser trilhado. Um caminho, embora não seja limpo, nem isento de monstros ou da escuridão da noite. Isso, para aqueles que já testemunharam o suficiente to não se deixarem levar por um otimismo superficial e que ainda não viram o bastante para sucumbir ao desespero, é mais valioso do que toda a hipocrisia moral da sociedade moderna.
Posteriormente, o gênero da fantasia se desenvolveu não apenas devido a um grupo de autores que decidiu embelezar a monotonia com castelos e criaturas, mas porque a imaginação europeia, já marcada por séculos de mitos, epopéias, romances medievais, contos populares e crenças religiosas, descobriu uma forma contemporânea de continuar expressando as mesmas ideias, mas com uma nova aparência. O gênero não surgiu totalmente formado, nem foi concebido de uma só vez por um autor renomado; ele foi se desenvolvendo até adquirir uma identidade própria. Quando Franz Roh introduziu em 1925 o termo “realismo mágico”, em diálogo com o pós-expressionismo alemão, ele não estava se referindo a uma fuga infantil da realidade, mas sim a uma maneira de afirmar que o real, quando observado com atenção, já contém uma estranheza intrínseca. O mundo não precisava deixar sua essência para se tornar enigmático; era suficiente que parasse de ser visto como um depósito de bens materiais.
Na prática, os escritores estavam buscando uma direção. Alguns se originavam do romance gótico, outros do horror, alguns do maravilhoso, outros do épico, e alguns apenas desejavam explorar os limites de uma narrativa quando esta parava de se submeter de forma servil à rotina monótona. Era quase impossível que isso não acontecesse: vampiros, ruínas, maldições, fantasmas, heróis destruidos, mulheres fascinantes, florestas vivas, cidades em decadência, o sobrenatural penetrando na essência da história. A imaginação se diversificou, pois a alma humana também se desdobra. Uma das vertentes, talvez a mais sincera em tempos de declínio, foi a dark fantasy, que não promete consolo sem dor, não apresenta maravilhas sem custo e não hesita em afirmar que a beleza e a ruína frequentemente coexistem na mesma paisagem.
Uma fantasia sombria, quando é realmente eficaz, não se resume apenas a uma versão da fantasia com um filtro escuro. Isto é típico de pessoas que não conseguem distinguir entre estética e maquiagem. Dark fantasy é algo completamente diferente. É um conto de fadas pós-queda. É algo maravilhoso saber de antemão o valor que o sangue tem. É o bosque encantado que se tornou sombrio após a inocência ter sido brutalmente tirada e sepultada sob a raiz mais antiga. Certamente, pode existir um final feliz, mas esse desfecho quase sempre chega de forma incompleta, adquirido a um custo que o sentimentalismo contemporâneo não consegue suportar encarar. É angustiante, brutal, às vezes sanguinolento, outras vezes melancólico, e ainda assim com um toque de elegância. De fato, sua elegância em meio ao caos o torna mais autêntico do que a pornografia emocional que caracteriza o mundo atual, essa tendência de ser ou completamente puro e adorável, ou totalmente cínico e corrupto. A dark fantasy não aceita nenhuma dessas falsidades. Ela compreende que o mundo é suficientemente bonito para ser amado e suficientemente horrível para exigir bravura.
É interessante notar que muitas pessoas apenas reconhecem esse universo pela sua aparência externa. Ao observar uma capa sombria, um cavaleiro, uma torre, uma lua distorcida e uma criatura com olhos brilhantes, você já supõe que estamos nos referindo apenas a “estilo”. Não se trata apenas de estilo. Ou, para ser mais claro: transforma-se em estilo apenas porque, antes, já foi uma forma de percepção. Ao contemplar certas imagens, não as percebo como uma fantasia aleatória criada para entreter um punhado de adolescentes góticos que estão defasados em relação ao calendário. Eu as recebo quase como recordação. Não de forma literal, é claro, mas em um sentido mais profundo, onde uma imagem nos identifica antes que tenhamos a chance de nos identificar com ela. É por essa razão que algumas obras de dark fantasy, mesmo sendo meras ilustrações, parecem mais vivas do que muitas fotografias realistas. Elas não reproduzem o mundo que vemos; elas revelam a atmosfera espiritual do mundo que é visível.
Quem sabe por isso até a inteligência artificial, que tantas vezes gera imagens sem vida, genéricas e sem emoção, consegue ocasionalmente encontrar uma estranha grandeza ao se alinhar a esse tipo de estética. A maior parte dessas imagens permanece desprovida de conteúdo, sem sangue, sem emoção e sem um peso real, assim como quase toda a produção automática em massa destinada ao consumo rápido. No entanto, houve uma época em que as reinterpretações de dark fantasy começaram a se espalhar com mais intensidade, e nessas obras havia algo que raramente aparece nas imagens “limpinhas” geradas por máquina: uma sensação de resto de mundo, de ruína, de vento em pedra velha, de lama histórica. A própria inadequação técnica, nesse contexto, parecia contribuir para o resultado. Eu já passei horas me perdendo nesse tipo de arte, com uma música sombria tocando ao fundo, como se estivesse contemplando não um produto, mas sim uma atmosfera. Isso não ocorre devido à inteligência da máquina. Isso ocorre porque a dark fantasy já chega beneficiada por tudo aquilo que a modernidade se esforçou para banir da vivência: escuridão, decadência, vestígios, silêncio e perigo.
No cinema, essa abordagem já era utilizada há bastante tempo. No mundo dos games, a situação se tornou quase brutal. Posso mencionar Castlevania, que ainda hoje me parece uma daquelas obras que compreendem a importância estrutural da noite; também poderia falar da FromSoftware, que conseguiu transformar a ruína, o combate e a transcendência fragmentada em uma linguagem singular; no entanto, The Witcher merece um destaque especial, pois o elemento sombrio não se manifesta apenas como um enfeite, mas sim como a verdadeira textura moral do mundo. O terceiro jogo, que saiu em 2015, foi definido pelo próprio estúdio como uma história dark fantasy atemporal, em um mundo aberto, focada em um caçador de monstros que viaja por reinos arrasados pela guerra, com mais de 150 horas de jogo, escolhas moralmente ambíguas e consequências de largo espectro. Isso não é algo trivial; é quase uma tese jogável que argumenta que viver é fazer escolhas em um terreno corrompido.
O primeiro Witcher, na minha opinião, ainda possui aquela atmosfera suja, úmida e quase febril, onde tudo parece estar meio doente e meio encantado. O segundo é mais conciso em sua narrativa, com um enfoque mais político e incisivo. No terceiro, o conceito realmente atinge seu ápice. Monstros por toda parte, uma trilha sonora que parece ser ao mesmo tempo um lamento e uma chamada, aldeões, nobres, feras, feiticeiras, espectros, preconceitos, paixões, traições, e aquela maravilhosa impressão de que a missão principal pode aguardar, pois o mundo ao redor é tão vibrante que já justifica sua espera. Este é um dos indicadores de uma grande obra: quando a distração se transforma de uma mera distração em uma forma elevada de atenção. Você se junta para realizar uma missão secundária e, de repente, se vê imerso em uma tragédia local que é mais memorável do que a maioria das tramas principais que outros jogos consideram épicos. O jogo te ensina a andar devagar. Perambular, quando o mundo está devidamente estruturado, não é um desperdício de tempo; é um modo de aprender a viver em harmonia com o ambiente.
Quando não são presas do tirocínio sentimental de mercado, as animações japonesas conseguem fazer isso com maestria. Vampire Hunter D, por exemplo, é uma criação de Hideyuki Kikuchi, um romancista famoso por suas obras de horror. A série, por sua vez, se estabeleceu como um território híbrido que mescla elementos de horror, um futuro em decomposição e fantasia sombria, onde o estranhamento é a norma, e não uma exceção. Berserk, por outro lado, ainda é classificado pela própria Hakusensha como um mangá de dark fantasy, e isso não é por acaso: a violência lá não é um adorno voltado para adolescentes, mas sim a expressão de um mundo oprimido por causalidade, trauma, ambição, monstruosidade e um desejo de transcendência que se retorce até se transformar em pesadelo.
Vampire Hunter D possui aquele caos sofisticado que apenas os japoneses conseguem manter, quando se esforçam, sem cair no ridículo ou se tornar excessivamente acadêmico. Em Berserk, o sofrimento do personagem vai além de um mero elemento da trama e se transforma em uma atmosfera compartilhada. Você não acompanha apenas um homem; você acompanha uma alma cercada. Este é outro aspecto que a sociedade contemporânea não consegue compreender: a melancolia pode ser bastante reconfortante. Embora isso possa parecer uma contradição, não é. Há uma paz peculiar em algumas obras intensas, pois elas, ao menos, têm a sinceridade de não enganar sobre a verdadeira natureza do ser humano. Um falso positivo consome mais energia do que uma tragédia bem contada.
Gosto ainda mais quando esse efeito não precisa ser gerado por algo externo. Há ocasiões em que um livro brasileiro desempenha esse papel com mais firmeza do que muitos castelos europeus iluminados digitalmente. Pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro, se encaixa nisso com grande facilidade. Mesmo nas sinopses mais simples, já está claro o que é fundamental: a extensa jornada no sertão de um homem que praticamente renasce para se aventurar em um universo de confrontos, mistérios e emoções. Não se trata de uma reprodução servil da Europa medieval; é a evidência de que o sertão, quando observado com uma imaginação poderosa, já possui seu próprio reino encantado, suas próprias sombras e seu próprio heroísmo áspero.
É aqui que a comparação se torna inevitável. O nosso imaginário popular, quando considerado com seriedade, não fica atrás de muitas fantasias estrangeiras. Apenas o revestimento da armadura é alterado. Surge o cavaleiro de armadura, e dá lugar ao caboclo com gibão. Saem os salões elegantes, entram os trilhos, os grandes terrenos, os cruzamentos, as trilhas secas. O castelo tenebroso, a feiticeira, o fantasma, a fortuna, o desafio, o cavalo inverossímil, o amor que causa dor, a luta que pode ser física ou um duelo de palavras, todos eles permanecem ali. Além disso, honestamente, uma pessoa que não consegue reconhecer a poderosa essência de uma cantoria de viola está, sem dúvida, limitada na sua capacidade de compreender grande parte do que a fantasia é capaz de realizar. Pois lá, no fundo, já há uma taverna. Saga já existe. Memória cantada já existe. Já há homens que convertem sofrimento e bravura em música.
É por essa razão que eu jamais aceitei essa recente e absurda ideia de que a poesia seria algo efeminado, decorativo, inútil ou incompatível com a masculinidade. Isso é o discurso de um tempo em decadência, de pessoas que têm a alma castrada e que confundem brutalidade com força e grosseria com masculinidade. Ao longo da história, o homem forte raramente teve aversão à poesia; na verdade, ele se deixou nutrir por ela. A antiga tradição manteve essa conexão entre Alexandre e a Ilíada, enquanto toda a tradição romana evidenciava um poder que não se desvinculava da literatura, mas que a utilizava, a apoiava e, em alguns casos, até se deixava moldar por ela. O círculo de Augusto, que incluía figuras como Virgílio e Ovídio, serve como evidência de que um império desprovido de imaginação eventualmente se transforma em uma mera e exaustiva administração.
É por isso que eu sorrio quando alguém considera a poesia um privilégio de almas sensíveis e refinadas. De jeito nenhum. Poesia é a condensação verbal da experiência humana. É uma questão de olhar, de ritmo, de memória e de grandeza. Ela é adequada para reis, soldados, crianças, mulheres, homens, idosos, aqueles que viveram pouco e também para os que viram demais. Aqueles que menosprezam a poesia não estão se tornando mais utilitários; estão apenas se tornando analfabetos espirituais. Um homem que é espiritualmente iletrado pode até conseguir aprender a comandar, mas é pouco provável que consiga aprender a julgar.
Quem sabe por isso eu afirmo, sem qualquer constrangimento, que as pessoas deveriam cultivar um olhar mais romântico sobre suas próprias vidas. De forma alguma no sentido da falsidade adocicada, nessa autoatuação tola das redes sociais, onde a pessoa finge viver intensamente, pois não consegue lidar com a sua própria irrelevância. Estou me referindo a outro assunto. Estou me referindo à recusa da anestesia. Demonstrar carinho por aqueles de quem se gosta. Não alimentar a indiferença como se fosse uma forma de superioridade. De não converter o próprio coração em um escritório. O mundo já está repleto de pessoas indiferentes, calculistas, apáticas, covardes ao sentir e preguiçosas quando se trata de se comprometer. Aqueles que perdem o encanto de forma voluntária não estão se tornando mais maduros; estão se tornando áridos internamente.
Cheguei a essa conclusão não apenas por meio de livros, jogos ou estética, mas porque, após um longo período de observação, passei a me aprofundar realmente no esoterismo. Eu tinha cerca de dezesseis anos quando me aprofundei mais nesse assunto, mas já pesquisava sobre isso desde os treze. A minha chegada não foi a de um jovem místico à procura de parecer único para impressionar algumas pessoas. Foi uma abordagem obsessiva, quase investigativa. Eu estava interessado em descobrir qual era o conjunto teológico de cada religião, qual era o seu principal fundamento filosófico, qual era a sua metafísica, quais eram suas concepções sobre a alma, o bem, o mal, a divindade, o conhecimento e a salvação. Eu questionava os sacerdotes sobre quais livros eram significativos. Lia. Fazia comparações. Analisava tudo de acordo com a lógica tradicional. Não na “lógica católica”, como muita gente gosta de simplificar para não estudar, mas na verdadeira lógica, que abides by the rational tradition of Socrates, Plato, Aristotle, and everything that has been refined over the centuries.
O que fui percebendo, gradualmente, é que quase todas essas crenças tendiam, em certo aspecto, a se aproximar de um núcleo gnóstico. Os nomes eram alterados, os símbolos transformados, os gestos modificados e os rituais mudavam, mas no cerne da questão, a mesma tentação ressurgia: ou o mundo é um acidente a ser superado por um conhecimento oculto, ou a verdadeira divindade está tão elevada que a ordem concreta da realidade se torna quase um erro ontológico, ou a salvação se transfere da conversão moral para um acesso iniciático. Eu percebia isso em quase todas as coisas. Quase tudo de fato. As exceções, a meu ver, tornavam-se mais evidentes em algumas correntes filosóficas da Grécia, especialmente quando se lia Sócrates, Platão e Aristóteles sem as mutilações românticas e as adições modernas.
No judaísmo, a situação me parecia mais complicada. Eu não o colocaria, de uma só vez, nessa queda. Através de tendências, caminhos e desvios específicos, especialmente quando algumas correntes extremas de apofatismo levavam a ideia de Deus a um além tão absoluto que toda e qualquer mediação concreta parecia ser sufocada. No entanto, isso nunca me pareceu representar o judaísmo como um todo. Para mim, o problema não era a admiração silenciosa diante do que é sagrado; mas sim o perigo de converter esse silêncio em uma estrutura que torna impossível qualquer conexão autêntica com o divino, a menos que seja por meios elitistas, místicos ou iniciáticos. Nesses casos, a religião inevitavelmente gera, mais cedo ou mais tarde, ramificações gnósticas. O que me surpreendia era que esse mesmo padrão voltava a surgir, distorcido, em áreas como a economia, a política e nas utopias de salvação terrena.
Foi então que passei a ver a gnose como uma espécie de mal camaleônico. Ela troca de vestuário para continuar viva. Às vezes se apresenta como uma religião oculta, outras vezes como uma revolução, ou ainda como uma economia que salva, como um discurso espiritual que promove a libertação, ou como uma mística do progresso. Em essência, o impulso é similar: rejeitar a ordem imposta, criticar a estrutura da realidade e oferecer uma solução por meio do conhecimento, de uma elite, de uma ruptura ou da reconfiguração da própria condição humana. Por isso, eu costumava afirmar a mim mesmo que toda forma de gnose se inclina para o apofatismo, embora nem todo apofatismo precise, obrigatoriamente, resultar em uma gnose plena. Ali estava o coração da besta. As patas, os dentes e a cauda viriam mais tarde.
Quando eu aplicava esse raciocínio ao protestantismo, a situação me parecia ainda mais séria. Não era minha intenção criticar protestantes por prazer, mas a estrutura teológica que observava em diversas obras protestantes parecia-me excessivamente instável. Ao rejeitar completamente a noção de livre-arbítrio e estender essa negação a homens, anjos, história e salvação, a concepção de Deus que permanece começa a assumir características moralmente aberrantes. Quando isso ocorre, toda a estrutura do cristianismo desmorona internamente. O sistema gera efeitos gnósticos mesmo quando afirma lutar contra eles. O rebelde assume um papel ambíguo. A queda se torna quase uma etapa do enredo. A culpa se confunde. A liberdade se dissipa. Até mesmo Cristo passa a ser interpretado por uma lógica distorcida, como se a narrativa da redenção pudesse ser simplificada a um teatro de fantoches.
Por isso, ao percorrer esse terreno, o protestantismo deixou de parecer uma opção viável para mim. Eu também procurei me aprofundar na Ortodoxia, examinei suas definições e busquei compreender como determinados aspectos eram interligados, mas muitas das explicações que ouvia pareciam menos coerentes do que a estrutura tomista que eu encontrava no catolicismo. Assim, dirigi-me à Igreja Católica não como alguém que simplesmente muda de time, mas como uma pessoa que já chega machucada, vivenciada e cética. Não cheguei ao cristianismo com a mentalidade de um recém-convertido ingênuo; fui com a perspectiva de alguém que já havia vagado por muito tempo em pântanos espirituais, para não encarar a fé como um mero acessório emocional.
Apesar disso, é importante ressaltar que nunca me tornei um membro formal de certas ordens ou tradições nas quais estive envolvido. Eu entrava, via, praticava, estudava, ia, assistia, mas não me entregava de alma e coração àquela experiência por meio da iniciação. Quem sabe se foi cautela, se foi receio, se foi um toque de graça ou se foi uma combinação de tudo isso. Eu viajei, andei e vi bastante antes de retornar. Viajei por diversas regiões do Brasil, falei com muitas pessoas e estive em locais onde a espiritualidade era uma realidade vivida, e não apenas uma teoria. Dessa jornada, surgiu uma conclusão que sempre me acompanhou: as religiões acessam uma porção da verdade, pois nenhuma delas surge do vazio, mas isso não implica que representem a totalidade da verdade ou que possam ser consideradas equivalentes.
Foi também nesse período que passei a rejeitar de forma mais clara a confusão contemporânea entre mago e feiticeiro. A modernidade é perita em apagar nomes, confundir papéis e depois fazer de conta que pôs o terreno a nu. Não houve uma limpeza; apenas tudo foi envolvido em ignorância com um novo visual. A diferença que começou a se tornar clara para mim era simples. No verdadeiro sentido da palavra, o mago é o teurgo, o indivíduo que se dedica a uma obra grandiosa, que se mantém fiel a ela e que é guiado por um eixo sagrado, sem, no entanto, encarar esse eixo como um mero supermercado de poder. O mago, por sua vez, é o pilhador do invisível. Ele não presta; ele usa. Não adora; transaciona. Não respeita; utiliza. Não existe altar; apenas um balcão. Atualmente, referem-se a essa combinação como liberdade espiritual. Eu me refiro a isso como promiscuidade metafísica.
Sim, eu observei bastante disso. Pessoas adorando uma infinidade de coisas simultaneamente, mesclando deuses que não combinam, entidades opostas, com linguagens que se chocam, acreditando que o mundo espiritual funciona como um aplicativo onde se pode escolher as forças necessárias para a semana. De maneira nenhuma. Até mesmo segundo a lógica dessas tradições, isso já demonstra uma falta de honra. Alguém que não possui honra em relação ao que considera sagrado acaba, inevitavelmente, perdendo a honra também diante de si mesmo. O mágico busca vantagens, não a verdade. Busca-se o impacto, não a organização. Desejo de poder, não de justiça. O resultado é sempre o mesmo: em algumas ocasiões, consegue gerar algum impacto, mas, gradualmente, vai perdendo sua eficácia, enquanto se refere à própria perda de qualidade como uma forma de crescimento.
Nesse período, eu me via como um praticante de teurgia. E afirmo isso com seriedade. Não era uma atitude de aparência. Eu realizava rituais com frequência, estabelecia círculos, utilizava símbolos, selos, correspondências, ervas, velas, tábuas, além de invocações e expulsões. Também houve manifestação. Percebi como uma fumaça, como uma chama ardente, como uma mudança no ambiente, como um ruído ensurdecedor, como um grito proveniente de um lugar onde não havia nenhuma garganta, como uma presença indesejada sendo trazida à borda da percepção para ser enfrentada. Raramente havia diálogo, no sentido trivial que o cinema concebe. Existia manifestação, condensação, sinal, deslocamento do real. Isso é suficiente para desestabilizar a mente de um homem para sempre.
Eu também explorei formas operativas mais elaboradas, incluindo aquelas que, em algumas tradições cabalísticas, se assemelham à noção de um servidor espiritual. No entanto, minha abordagem buscava reinterpretar essa ideia, afastando-a da mera criação de uma entidade e enfocando mais o ato de solicitar a Deus que uma inteligência angelical interviesse de acordo com certas correspondências. Esse aspecto, na minha opinião, era fundamental. Eu tinha sérias dúvidas sobre a concepção de “criar” espírito como quem monta ferramenta. Em muitos casos, isso representa mais uma ilusão do operador do que uma realidade superior. Mas eu levava a sério a atuação por correspondência, por sinal e por forma, porque eu a via acontecer. E também, de maneira inclusiva, as diversas formas que a fumaça assumia, como figuras, caveiras, pequenos vultos e imagens que não faziam sentido, semelhantes a um erro óptico comum.
Simultaneamente, à medida que eu me aprofundava nos estudos, percebia que nem toda expressão espiritual é digna do mesmo reconhecimento. Esta é mais uma falácia bastante comum no Brasil: quando alguém observa algo extraordinário, imediatamente assume que toda a doutrina relacionada a esse fenômeno é verdadeira de forma absoluta. De maneira nenhuma. A eficácia espiritual não esclarece a metafísica. A manifestação não é prova de santidade. Poder não é sinônimo de bondade. Se o demônio realmente existir, ele não para de agir apenas porque quem o observa acredita nele. Há muitas pessoas que se dedicam a uma religião após testemunhar um fenômeno, em vez de realmente entender a verdade por trás disso. Isso representa uma forma bastante banal de veneração ao impacto.
Foi então que algumas tradições passaram a se delinear de forma mais nítida para mim. A quimbanda, por sua vez, nunca me pareceu algo que deveria ser camuflado com um perfume terapêutico para agradar aos ouvidos cristãos ou à consciência contemporânea. Em textos sérios que li, quando havia uma honestidade intelectual, a descrição era muito mais clara: é um culto que, na prática, é feiticeiro, com sua própria estrutura, interpretação do poder, entidades, linguagem, e não um humanismo simbólico que se veste de preto para parecer ameaçador. Tenho muito mais respeito por quem defende suas convicções do que por quem tenta suavizar a doutrina para torná-la mais atraente. A falta de honestidade espiritual me causa mais nojo do que a resistência aberta.
E talvez por essa razão eu tenha tido mais respeito por diversos quimbandeiros íntegros do que por muitos religiosos condicionados. Não porque eu estivesse de acordo com a crença que eles adoravam, mas porque, pelo menos, havia sinceridade. A pessoa explicava sua identidade, suas funções, a qual ordem estava subordinada, o que aguardava em troca, qual era a lógica por trás da casa e qual era o acordo que regia aquele universo. Essa sinceridade é incomum. Agora, aquele religioso que distorce a sua própria tradição ou o crítico que deformam a tradição do outro para superá-la com um espantalho, esses parecem-me intelectualmente miseráveis. Infelizmente, observei uma grande quantidade disso entre católicos brasileiros, espíritas, protestantes, praticantes de macumba e em todos os lugares. Pessoas discutindo assuntos que não pesquisaram, reproduzindo histórias, acreditando em mitos urbanos relacionados à teologia como se fossem evidências.
Eu estava imerso nisso, e não como visitante. Eu caminhava, aprendia, treinava, via, contrastava, retornava à floresta, voltava ao mato, retornava ao silêncio, pois foi naquele ambiente natural que muitas coisas passaram a ter significado para mim. Aos treze anos, eu já sentia uma atração por esse lugar onde a civilização deixa de falar, e outra dimensão da realidade parece se aproximar. Após todas essas jornadas espirituais, eu me sentia cada vez mais atraído por este local: não aquele que representa a exposição religiosa, mas aquele onde o ser humano se diminui novamente e, por essa razão, começa finalmente a enxergar.
Por isso, eu passava muito mais tempo na floresta. Isso não é apenas uma expressão elaborada para soar mística na internet. Eu realmente me sentia assim. Isso acontece porque, ao iniciar desde cedo o contato com rituais, símbolos, invocações, preces poderosas, círculos, fumaça, o silêncio e o medo, o mundo urbano se torna progressivamente mais ilusório. A cidade é barulhenta. Não, o mato. O mato não oferece explicações, não te conforta, não te apresenta argumentos prontos, nem te fornece frases elaboradas para que você as repita se sentindo mais inteligente. O mato apenas te lembra da tua insignificância. Para alguém que, desde os treze anos, já estava profundamente envolvido em pesquisas espirituais, isso não era apenas um ambiente fictício; era, de fato, uma verdadeira escola de aprendizado.
Foi nesse lugar que passei a compreender por que tantas pessoas se extraviam ao adentrar nessas regiões. Pois a maioria não busca a verdade; deseja emoção. A sensação que o mundo espiritual proporciona, ou pelo menos o suficiente para persuadir a pessoa de que se tornou alguém especial. Este é o ponto de partida da decadência da maioria dos ocultistas contemporâneos. Ele observa algo, experimenta uma emoção, escuta um som, testemunha um evento inexplicável, e imediatamente acredita que está autorizado a opinar sobre qualquer assunto. Não recebeu. Levou apenas um choque. O choque não é sinônimo de sabedoria. Choque, por vezes, é apenas a armadilha inicial.
É por isso que eu critico tanto essa confusão contemporânea entre mago e feiticeiro. Não se trata de um cuidado excessivo com o vocabulário. É uma questão de diferentes bases morais. Historicamente, “theurgy” é interpretado como “ação divina” ou “trabalho divino”, e em dicionários e enciclopédias aparece como a ação de Deus mediante um agente humano, em contraste com práticas que tentam convocar forças opostas ou manipular poder de modo degradado. No Iâmblico, o tema se torna ainda mais significativo: ele transforma a teurgia em um percurso ritual de salvação e conexão com o divino, ao invés de um artifício para alimentar o ego do praticante. Por outro lado, a própria etimologia da palavra “magus” revela um percurso interessante: ela começa ligada a especialistas cultuais persas, uma casta sacerdotal, e só depois, no uso tardio, passa a escorregar para a figura do mágico, adivinho ou prestidigitador espiritual. Em outras palavras, a degradação está intrinsecamente presente na linguagem.
Portanto, ao afirmar que eu era teúrgico naquela época, não estou me referindo a alguém que se comportava como um exibicionista com uma capa fictícia e delírios oriundos de videogames. Estou afirmando que eu buscava agir de acordo com uma lógica de ordem, correspondência, serviço e um rito que se direcionasse para o alto, em vez de se concentrar apenas em si mesmo. O mago, em minha opinião, sempre representou algo diferente. É a pessoa que se vale de qualquer nome, força, tradição, entidade, símbolo ou representação, desde que isso lhe proporcione poder, benefício, proteção, atratividade, riqueza, revanche ou a sensação de domínio. Ele não presta serviço ao que é sagrado; ele explora o invisível como um turista. O turista do invisível frequentemente acaba sendo dominado pela sua própria ausência de forma.
Isso, de fato, esclarece o motivo pelo qual eu observava com tanta ceticismo algumas combinações comercializadas como “sabedoria universal”. O indivíduo reúne um fragmento de cabala, uma sobra de hinduísmo, uma prece cristã, um emblema nórdico, um ponto de entidade, um mantra, um salmo, uma planta, uma lua, um sigilo e acredita ter criado um sistema. Não criou nenhum sistema. Organizou uma feira. A feira espiritual pode até causar uma boa impressão nos novatos, mas não gera verdadeira grandeza interior; o que ela realmente faz é criar uma dependência de estímulos. Mesmo as verdadeiras tradições sincréticas, quando analisadas de forma séria, possuem uma história, uma gramática, uma disciplina e uma formação bem definidas. Hoodoo, por exemplo, não se originou como esse “kit místico” que muita gente imagina, mas como uma tradição espiritual afro-americana formada entre escravizados e seus descendentes, misturando práticas da África Central e Ocidental com cristianismo, cura por ervas, proteção, possessão, música sagrada, divinação e trabalho ritual. Não se trata de um brinquedo de prateleira, nem de um sinônimo para qualquer coisa sombria que a imaginação branca tenha decidido rotular como magia.
O mesmo se aplica à maneira apressada com que os brasileiros se referem a religiões que não pesquisaram. Observei isso em católicos, em espíritas, em protestantes, em praticantes de macumba, em esotéricos de livraria, em todos os lugares. É sempre a mesma falta de honestidade, só que com outros sotaques. O mau católico distorce a outra religião para combatê-la com mais facilidade. Um espírita mal informado cria uma Igreja Católica fictícia que nunca existiu para, em seguida, criticá-la. O protestante reproduz simplificações históricas como se tivesse redescoberto a patrística após assistir a dois vídeos e ler um PDF. E o praticante de magia superficial, se não se aprofundou na sua própria tradição, acaba se tornando prisioneiro de mitos, cenários e certificados de terreiro. A questão não se resume apenas à ignorância. É uma combinação de ignorância e orgulho, o que é ainda mais deplorável.
Eu, ao menos, buscava o percurso mais desafiador. Indagava sobre qual era o livro fundamental, qual era o conjunto de doutrinas, qual era a metafísica daquela fé, o que ela afirmava acerca da alma, do mal, da liberdade, da mediação, do mundo e do princípio supremo. Ela se dedicava aos estudos. Lia como se estivesse se preparando para uma batalha de ideias, e não como alguém que busca justificativas para validar suas crenças pré-existentes. Foi dessa forma que a gnose começou a se destacar para mim em praticamente tudo. Não no sentido de um termo ornamentando discussões religiosas, mas como uma estrutura que aparece com frequência: o mundo em ruínas visto como uma prisão, a salvação através do conhecimento, a desconfiança em relação à ordem estabelecida, a promessa de ascensão por meio de uma chave secreta, uma elite espiritual ou um despertar. Os trajes se alteravam; o esqueleto permanecia o mesmo.
É por isso que algumas passagens me afastavam, não por serem fracas, mas precisamente pelo seu excesso de intensidade. Eu percebia poder. Por meio de efeito. Presencial. Por meio do resultado. É precisamente por essa razão que eu não desejava me deixar levar pela idolatria pueril de acreditar que a manifestação é uma prova de integridade. Não demonstra. Nunca experimentou. Se o diabo de fato existe, ele não necessita obter a permissão da credulidade humana para encenar um espetáculo grandioso e levar um homem inteiro pela curiosidade. Essa foi uma das importantes lições que minha experiência me proporcionou: deixar de acreditar que o que é extraordinário é sempre positivo. Em algumas ocasiões, o que é extraordinário pode ser simplesmente extraordinariamente arriscado.
Nesse ponto, ao observar as práticas que eram genericamente rotuladas como “bruxaria”, eu havia deixado de aceitar tanto a versão romântica quanto a representação inquisitorial de forma secundária. O próprio termo “witchcraft” foi historicamente empregado em inglês, principalmente para se referir a danos causados por métodos ocultos; posteriormente, adquiriu significados mais amplos, abrangendo desde práticas prejudiciais até religiões contemporâneas como a Wicca. Isto é, o nome passou a ter um peso de significados, de referências culturais, de disputas de sentido. Aqueles que abordam esse assunto como se tudo fosse equivalente estão apenas revelando sua falta de esforço.
Minha relação com a quimbanda foi ainda mais complexa, pois percebi algo que sempre admirei: a sinceridade estava acompanhada da transparência. No aspecto acadêmico, a situação é mais intricada do que a imagem simplificada que se tem. Há pesquisadores que a caracterizam como uma religião afro-brasileira ligada, historicamente, à Umbanda, mas com rituais e entidades próprios, e há estudos brasileiros insistindo que ela não pode ser reduzida nem a uma simples “inversão moral” da Umbanda nem a um sistema “amoral”. Isso é crucial, pois força qualquer crítica válida a se basear no que realmente existe, em vez de se distrair com um espantalho. É exatamente por essa razão que eu conseguia ter mais respeito por um praticante que era intelectualmente honesto do que por muitos religiosos conformados: pelo menos ele era sincero sobre o que fazia, em vez de enfeitar sua prática para agradar aos outros.
Respeitar um indivíduo sempre foi algo distinto para mim em comparação a respeitar suas opiniões. Esta é mais uma enfermidade contemporânea. O indivíduo acredita que, para ser considerado educado, precisa simular uma concordância profunda e absoluta. Isso nunca foi algo que eu aceitei. O respeito é concedido à dignidade do indivíduo, e não à base conceitual que a sustenta. Uma ideia equivocada permanece incorreta, mesmo que seja expressa por alguém gentil, inteligente, disciplinado ou espiritualmente impressionante. Certamente, isso foi o que me impediu de me perder completamente nesse vasto universo: eu era capaz de apreciar a gravidade de um praticante, a consistência interna de uma tradição, a poderosa força ritual de uma casa, a estética simbólica de um sistema, e ainda assim afirmar que tudo isso indicava a existência de um abismo. Um homem maduro deve saber distinguir entre admiração e compromisso.
No interior da floresta, isso se tornava mais evidente. Uma vez que não existia público lá. Não havia ninguém a quem agradar. Não existia um discurso eloquente que pudesse sustentar o personagem. Existia apenas frio, escuridão, odor de terra, ruídos de animais, um silêncio denso e a incessante percepção de que a realidade aparente é mais permeável do que a cidade prefere reconhecer. É curioso como muitos eventos significativos da minha jornada espiritual ocorreram em ambientes que não eram templos bonitos, salas confortáveis, na internet ou em debates, mas sim no meio da escuridão, em lugares onde você só consegue ter a presença interior ou acaba sendo consumido pela sua própria imaginação.
Foi nesse período que comecei a notar algo diferente: o que falta a muitas pessoas não é a conexão com o invisível. É excesso de ego no momento do contato. Pois a pessoa se envolve em um ritual e imediatamente deseja se tornar o protagonista do universo. Nome, título, organização, missão, raridade, nível, poder. Nunca busca o que é mais desafiador, como a purificação, a disciplina, a obediência, o estudo, a estrutura, os critérios e a renúncia. Ele se refere a isso como “despertar”, mas, na realidade, é apenas uma inflamação da personalidade. Em seguida, quando algo se desfaz, atribui a culpa à religião, ao mestre, à entidade, à infância, ao signo, a qualquer outra coisa, exceto à própria arrogância.
Embora eu não fosse exatamente um modelo de santidade, ao menos tinha consciência de que estava lidando com algo perigoso. Talvez essa seja a razão pela qual eu insisti tanto em cursar filosofia ao seu lado. Sem a presença da metafísica, da lógica e de um critério ontológico, a experiência espiritual se transforma apenas em uma série de sustos. O medo, mais uma vez, não é suficiente. Não era minha intenção me tornar um narrador de histórias sobrenaturais, alguém que se aproxima do grupo e afirma “eu vi isso, eu senti aquilo, eu ouvi aquilo outro”. Qualquer pessoa pode fazer isso, e muitos acabam mentindo. O que eu desejava compreender era a organização. O que significa Deus. O que se entende por mediação. O que significa criatura. O que significa anjo. O que se entende por demônio. O que significa vontade. O que significa livre-arbítrio. O que significa participar do ser. O que significa ilusão. O que significa projeção. O que significa um engano espiritual? Sem isso, o ocultismo se transforma em um verdadeiro zoológico para aqueles que se deslumbram facilmente.
Foi justamente por não querer me transformar nisso que, aos poucos, fui me tornando cada vez menos fascinado por espetáculo e progressivamente mais voltado ao discernimento. A fumaça era capaz de assumir a forma de um rosto. O fogo tinha a capacidade de responder. O ambiente poderia se transformar. O grito poderia ecoar mesmo na ausência de qualquer garganta nas proximidades. É claro que tudo isso causa uma grande impressão. Mas a questão que passou a dominar meus pensamentos era diferente: quem se beneficia quando eu fico impressionado? Eu? Deus? A realidade? Ou algo que dependa exatamente do meu encanto para me guiar? Quando essa questão realmente penetra na alma, ela é capaz ofender e arrasar uma grande quantidade de orgulho espiritual.
Foi então que comecei a compreender por que, após tantas jornadas, eu sempre retornava ao mato, à vigilância, ao frio, à impressão de um mundo que era mais antigo do que eu. Porque naquele lugar, eu não conseguia enganar com facilidade. No entanto, eu não poderia me fazer passar por um iniciado de nível superior. Mas eu era apenas um jovem que iniciara toda essa jornada aos treze anos, mergulhado em questões imensas, buscando entender se o mundo se resumia a matéria, a símbolos, apenas ao espírito, ou se, por outro lado, havia uma batalha invisível que permeava ambos simultaneamente. Além disso, quanto mais eu explorava esse tema, mais eu reconhecia que a cegueira mais profunda não é aquela de quem nunca teve a oportunidade de ver algo. É como alguém que testemunhou algo e concluiu que já compreende tudo.
Eu tinha treze anos, e foi nesse lugar que a situação deixou de ser uma mera curiosidade típica da adolescência e se transformou em um verdadeiro método. Não estava interessado em ouvir testemunhos agradáveis, frases feitas, relatos de milagres pela metade ou explicações para o público. Eu questionava sacerdotes, líderes, iniciados e estudiosos sobre qual era o fundamento teológico, filosófico e simbólico de tudo aquilo. Quais eram os títulos. Quais eram as ideias. Quais eram as categorias principais? Quais eram as implicações metafísicas da crença que ele afirmava ter. Eu me referia à lógica clássica, e não à caricatura que muitos chamam de “lógica religiosa”, mas sim à disciplina intelectual que se origina em Sócrates, Platão, Aristóteles e em todo o trabalho rigoroso de contemplar o ser sem pedir licença ao sentimentalismo. Quanto mais eu praticava isso, mais percebia que, sob diferentes nomes, um mesmo vício essencial retornava: a gnose. Não exatamente a mesma gnose histórica no sentido técnico, uma vez que os estudiosos corretamente apontam que “gnosticismo” é uma categoria disputada e ampla demais para ser usada como rótulo preguiçoso para qualquer coisa; mesmo assim, eu percebia em diversos lugares a sedução do conhecimento que salva, da mediação secreta, da fuga da ordem do real, da subida por chave reservada. Foi então que passei a empregar o termo “gnose” para designar o desarranjo, e não apenas como o nome de uma seita antiga.
Na minha perspectiva, quase tudo tendia a isso. Quase tudo. As únicas tradições que pareciam oferecer uma resistência maior a essa decadência eram algumas abordagens filosóficas que estudava desde Sócrates, Platão e Aristóteles, e um judaísmo que, apesar de suas correntes místicas profundas, não precisava sucumbir automaticamente ao abismo do gnosticismo. A própria tradição da merkavá mostra isso de maneira interessante: ela nasce em torno da contemplação visionária do trono-carro divino de Ezequiel, floresce cedo no misticismo judaico e fala de ascensão, risco, hierarquia e contemplação, mas não se reduz por isso a uma fuga da criação como erro sem remédio. Para mim, o problema surgia quando algumas correntes se tornavam tão extremas em sua busca por transcendência que Deus se tornava tão elevado que não conseguia se conectar com o mundo a não ser por meio de acessos esotéricos, quase como se a ordem habitual da realidade fosse, por sua própria natureza, inadequada para possibilitar esse encontro. Ali, de fato, o apofatismo começou a me parecer menos uma modificação respeitosa da linguagem e mais um prelúdio de uma gnose.
Por essa razão, ao me distanciar da religião e observar a economia, a política e a história, percebia o mesmo impulso manifestando-se de maneira diferente, como se estivesse trocando de vestuário. No contexto de Adam Smith, a “mão invisível” é uma metáfora econômica que ilustra como ações motivadas pelo interesse próprio podem, sem a intenção, resultar em um benefício para o público; Smith não a apresenta como uma teologia explícita. No entanto, ao analisar isso à luz de Eric Voegelin e sua crítica às modernidades que buscam concretizar na história o que anteriormente pertencia ao horizonte escatológico, percebia surgir uma espécie de providência secularizada, um substituto funcional para a transcendência. A minha análise era clara e rigorosa: quando a ordem aparente tenta dispensar Deus sem abrir mão do significado, ela cria mecanismos impessoais para cumprir a função do que foi expulso. Alguns se referem a isso como mercado, outros como história, alguns como revolução e outros ainda como progresso. Eu a denominava teologia clandestina.
Foi a partir desse ponto que o protestantismo começou a se transformar, para mim, em uma questão lógica significativa. Não tanto pelas Noventa e Cinco Teses, que historicamente não são o local típico onde essa questão é apresentada de forma mais radical, mas especialmente quando eu me deparava com o De servo arbitrio, a controvérsia de Lutero contra Erasmo. No que diz respeito à salvação, a questão é clara: Lutero afirma que a vontade humana não pode se salvar por si mesma e depende completamente de Deus, ao que Erasmo responde tentando manter uma liberdade humana que, embora enfraquecida, ainda existe. Eu levava essa negação da liberdade até os limites do sistema e, ao fazer isso, via emergir uma imagem moralmente devastadora: se a criatura não pode fazer nada, se a vontade só se movimenta quando é impulsionada, se o mal entra na história sem que haja uma responsabilidade real por parte de ninguém, então a questão do mal deixa de ser apenas uma tragédia e se torna, de forma estrutural, uma questão teológica. Eu não conseguia me conformar com isso. Foi nesse momento que passei a perceber que algumas leituras protestantes, levadas ao extremo, tocavam precisamente aquilo que afirmavam estar repudiando.
Quando comparava essa estrutura a determinados mitos gnósticos, especialmente aqueles que vieram à luz após a descoberta dos códices de Nag Hammadi, o impacto parecia ainda mais devastador. Não estou afirmando que Lutero “ensinou gnosticismo”; isso seria uma interpretação historicamente preguiçosa. O que estou afirmando é diferente: em uma interpretação extrema, o sistema protestante poderia gerar paradoxos funcionais que se assemelham aos encontrados em mitos gnósticos, nos quais a libertação se transforma em uma ruptura em relação à ordem aparente do mundo. O papel do enganador, do inimigo ou do transgressor começa, assim, a assumir, de forma indireta, uma função quase redentora. Isso me parecia absolutamente intolerável do ponto de vista intelectual. Assim, ao me aproximar do cristianismo de forma mais deliberada, optei pelo catolicismo e também explorei contextos ortodoxos. No entanto, a estrutura tomista que relaciona a liberdade, a causalidade divina e a encarnação pareceu-me mais confortável intelectualmente. A cristologia clássica, de fato, foi estabelecida pela importante tradição que gira em torno da afirmação de Cristo como sendo tanto verdadeiro Deus quanto verdadeiro homem, mantendo as duas naturezas intactas em uma única pessoa; o que me incomodava não era essa definição em si, mas as explicações ruins, confusas ou apressadas que eu ouvia em certos círculos.
Mas eu não cheguei lá como alguém que se converteu na sacristia. Cheguei como quem já havia caminhado muito. Nunca me pus a andar oficialmente por certos caminhos, porque conhecia o peso disso e o tipo de rutura que isso significaria depois com a própria Igreja. Eu estive bastante envolvido. Eu vi muito. Já viajei bastante. Viajei pelo Brasil à procura dessas respostas, como se estivesse utilizando minhas férias para investigar um tema que é mais importante do que o próprio descanso. E, durante esse processo, fui me tornando cada vez mais certo de que as religiões abordam alguma verdade, mas raramente a totalidade da verdade. Elas pareciam conter sementes, fagulhas, ecos, vestígios, proximidades, intuições e distorções. Não se trata do Deus completo, mas sim de vislumbres, vestígios, fragmentos de luz permeados por equívocos humanos. Busquei o budismo e, sempre que tinha oportunidade, aprofundei-me no hinduísmo. O Vedanta me impressionava bastante, especialmente pelas semelhanças simbólicas e metafísicas que eu notava em relação a algumas leituras cabalísticas, embora fosse necessário ter muito cuidado para que isso não se tornasse uma comparação simplista. O que realmente me interessava não era realizar uma colagem espiritual; mas sim, identificar onde o pensamento ainda tinha forma e onde começava a se desintegrar.
É por isso também que comecei a rejeitar de maneira clara a confusão contemporânea entre mago e feiticeiro. Em termos históricos, “mago” não nasce como nome de um narcisista ritual que dobra o invisível à própria vontade. A palavra magus está associada a uma casta de sacerdotes, a um papel de culto e religioso, e somente mais tarde adquire uma conotação popular relacionada a mágico, adivinho ou executor de prodígios. No neoplatonismo tardio, Iâmblico vai tão longe a ponto de afirmar abertamente que a salvação pode ser alcançada por meio de rituais, a teurgia, que é a ação direcionada ao divino, e não um meio de autoengrandecimento para o operador. Para mim, isso sempre foi um fator determinante. O teurgo está a serviço de uma causa maior; o feiticeiro age em benefício próprio. O teurgo recebe uma ordem; o feiticeiro utiliza ferramentas. O teurgo possui um propósito; o feiticeiro está insatisfeito. Se a pessoa adora tudo simultaneamente, combina deuses que não se harmonizam, acumula entidades da mesma forma que se coleciona ferramentas, troca lealdade por praticidade e considera isso como uma ampliação da consciência, ela não pode ser chamada de mago. Ele é apenas um devorador de sagrado.
O que mais me incomodava não era apenas a presença dessa mentalidade, mas sim o fato de ter sido aceita como uma forma de inteligência espiritual. De modo algum. É uma promiscuidade de natureza metafísica. A pessoa acredita que pode colocar no mesmo altar o Deus de Israel, um deus nórdico, uma entidade afro-brasileira, um mantra hindu e um sigilo renascentista, como se o universo fosse uma loja de conveniência para saciar ansiedades esotéricas. Para mim, isso sempre indicou uma ausência de honra, antes mesmo de demonstrar qualquer erro de doutrina. Aqueles que não são leais nem mesmo ao que consideram sagrado não serão leais a mais nada. Nesse aspecto, eu prefiro a sinceridade rígida de uma tradição que claramente reconhece suas regras à falta de decoro da época moderna, onde se deseja tudo simultaneamente, sem atender a nenhum propósito específico.
Eu esperava o mesmo nível de rigor dos católicos. Portanto, eu era e ainda sou exigente. O que realmente me incomoda é o católico que tenta refutar o ponto de vista do outro sem antes se dar ao trabalho de compreendê-lo. Reduzir Shiva a uma mera referência de “o diabo”, por exemplo, parece-me não apenas teologicamente inadequado, mas intelectualmente preguiçoso. É possível criticar o hinduísmo, o budismo, a cabala, o espiritismo, a quimbanda e outras crenças de uma perspectiva cristã, mas isso requer um esforço que raramente é feito: é necessário estudar a religião do próximo de acordo com sua própria compreensão antes de refutá-la com base em critérios filosóficos e teológicos rigorosos. Os grandes mestres realizavam essa prática. Grande parte do catolicismo brasileiro contemporâneo não o faz. Então, a discussão se transforma em uma exposição de espantalhos. Eu escutei espíritas reiterarem a antiga narrativa de que a Igreja “tirou” a reencarnação sob Constantino, ouvi protestantes falarem sobre a patrística sem saber o mínimo sobre a história da Igreja, e ouvi pessoas de terreiro criarem um catolicismo pagão que nunca existiu. A questão permanece a mesma: escassa fonte, abundante segurança e total falta de pudor.
No Brasil, isso se torna ainda mais problemático, pois as pessoas ainda misturam fenômeno com verdade. O indivíduo observa uma manifestação, presencia uma incorporação, depara-se com algo peculiar, testemunha um rito bem executado, um efeito que é complicado de explicar, e imediatamente chega à conclusão de que toda a metafísica daquela religião está comprovada. Está sim. Ser prodigioso não é o mesmo que ser verdadeiro. Ser espiritual não significa ser santo. O que era invisível não se torna bom apenas por ter sido revelado. Eu experimentei isso na prática, e talvez tenha compreendido isso muito cedo. Realizava um ritual semanalmente, estabelecendo o círculo com sal, ervas, selos, uma tábua de evocação, velas e os instrumentos ritualísticos, e observava as manifestações. Com o ambiente em transformação. A fumaça se organiza de maneira a criar formas. Por meio do foco de incêndio, responder. Um clamor ecoa, emergindo em um vasto campo, sem nenhum canto presente nas proximidades. Não me refiro a uma imaginação descontrolada. Refiro-me a uma série de experiências que, se não me converteram em um crente, foi exatamente porque eu teimava em avaliá-las criticamente.
Inclusive, ocorreram operações que eram mais sutis e complexas, relacionadas àquilo que certas tradições se refeririam como “servidor espiritual”. No entanto, eu preferiria reinterpretar isso como um pedido feito a um anjo, em correspondências específicas, ao invés de considerar isso como a criação arrogante de um espírito artificial. Eu lidava com terra, erva seca, óleo, sobras materiais, depoimentos pessoais, pantáculos e invocação, mas buscava realizar tudo isso de uma maneira ainda guiada por correspondências e súplicas a Deus. O que realmente me impressionou foi a expressividade da manifestação. O anjo não se apresentava como um boneco religioso destinado ao ensino da catequese infantil; ele surgia de uma maneira que se adaptava à percepção humana, às vezes na forma de fumaça, outras vezes como uma silhueta, e, em algumas ocasiões, aparecia em imagens que, somente ao serem revisitadas em fotografias, revelavam uma estrutura mais clara. Isso me levou a uma conclusão que sempre mantive: se existem inteligências superiores, elas não aparecem principalmente para atender à imaginação humana; elas se adaptam à nossa compreensão porque somos demasiado lentos para reconhecê-las de outra forma.
Foi nesse momento que o discernimento se tornou mais importante. É uma coisa identificar semelhanças genuínas entre alguns jargões esotéricos e certos aspectos da teologia; é bem diferente chegar à conclusão de que, por isso, todas as práticas espirituais são equivalentes. Essa nunca foi a minha maneira de pensar. Isso se tornou especialmente claro na quimbanda. De forma descritiva, os estudos acadêmicos a reconhecem como uma religião afro-brasileira distinta, com uma trajetória histórica complexa e relações particulares com a Umbanda e outras tradições, em vez de a reduzir a uma caricatura homogênea de “mal”. Há quem defenda, com razão, que isso não representa todo o universo da quimbanda, enquanto outros estudos revelam que existem linhas que incorporam Exu Maioral, tríades simbólicas que se assemelham a grimórios europeus, e releituras próprias de sigilos e entidades. Eu aceito essa riqueza de detalhes. No entanto, minha avaliação teológica permaneceu diferente. Na perspectiva católica, eu a percebia como uma forma de feitiçaria séria, às vezes permeada por uma imaginação luciferiana clara. Curiosamente, ele tinha mais respeito pelos praticantes que admitiam isso abertamente do que por aqueles que tentavam embelezar sua tradição para torná-la mais comercial.
Talvez este seja o aspecto que mais choca o leitor apressado: eu sou capaz de respeitar a integridade intelectual de uma pessoa cuja filosofia eu discordo totalmente. Eu valorizo indivíduos, não conceitos. Eu analiso, confronto, desmantelo, rejeito, aceito ou reorganizo ideias. Eu trato as pessoas com a dignidade de quem também se encontra à beira do abismo da existência. Portanto, sim, eu encontrei praticantes de quimbanda cuja sinceridade parecia ser muito mais genuína do que a retórica vazia de muitos cristãos. Isso não me levou à quimbanda; ao contrário, fez com que eu rejeitasse ainda mais a prática, pois agora era uma rejeição baseada no meu entendimento real, e não em uma versão distorcida que eu havia criado. Deixei essas estradas sem o costume de sentir saudade, mas sem a falta de sinceridade de quem age como se nunca tivesse reconhecido a seriedade do lado oposto.
No final, tudo isso apenas me levou ainda mais para o interior da floresta. Não porque a floresta fosse imparcial, mas porque lá eu me sentia menos envolvido pelo teatro. Com apenas treze anos, eu já tinha uma preferência pelo mato em vez do salão. Após tantas jornadas espirituais, a situação apenas se agravou. A escuridão da floresta, o frio, o silêncio e a percepção de que a realidade era mais antiga naquele lugar do que em qualquer templo me proporcionavam uma experiência superior a muitas conversas de pessoas “elevadas”. Possivelmente porque, na morte, eu não conseguia simular que tinha mais conhecimento do que realmente tinha. Possivelmente porque, naquele lugar, distante de qualquer sistema, posição, discurso ensaiado e atuação quase religiosa, eu permanecesse apenas como eu sempre fui desde o início: uma pessoa que desejava encontrar Deus sem enganar a si mesmo durante essa jornada.
Eu não passava as tardes em casa. Isto é mais uma das características que me distinguem de diversas autobiografias artificiais, nas quais o autor cria uma infância extraordinária na velhice para parecer mais fascinante. Minha tarde estava realmente como uma selva. Não possuía um videogame, pois meu pai se opunha à ideia de me dar um, e acabei tendo um de verdade apenas muito tempo depois. O que eu possuía era um computador, um emulador e um prazer quase cerimonial em jogar durante a noite tudo o que a máquina suportava, desde o Nintendo 64 até o PlayStation 1, sem que isso se tornasse o foco da minha vida. O centro estava localizado do lado de fora. Estava presente nos rios, nas estradas, nas margens, na caça, no silêncio, em tudo aquilo que o garoto da cidade, que vive em um apartamento, nem sequer consegue identificar, pois já nasceu habituado pela tela antes de aprender a observar uma árvore.
Eu ia andando até o rio, passava a tarde toda lá, explorando, observando, interagindo com os animais, caçando quando a caça ainda fazia parte do cenário e não era uma palavra rapidamente confiscada por um moralismo de fachada. E afirmo isso com a cautela de quem de fato passou por essa experiência: eu não era malvado com os animais. Nunca estive lá. Existiam muitas espécies, havia uma grande abundância na região, e havia animais que realmente nos permitiam nos aproximar, tocar e observar de perto. A minha conexão com aquele universo não era a de quem o arrasa; era a de uma criança maravilhada. Talvez tenha sido por essa razão que, desde cedo, o mato passou a me parecer mais um templo do que um cenário. Um templo que não é limpo nem claro, desses que têm uma espiritualidade superficial e artificial, mas um templo vibrante, que não se importa, que é arriscado e autêntico.
Existiam semanas inteiras em que eu me aventurava na floresta de domingo a domingo, e, em algumas ocasiões, isso se estendia por três semanas consecutivas. Eu saía, caminhava, descobria, retornava à noite, e fazia tudo isso novamente. Alguns dos meus amigos comentavam que eu me assemelhava a um daqueles personagens que só existem devido à sua relação primitiva com a natureza, não porque alguém os ensinou a atuar como aventureiros, mas porque a essência de sua alma parece ter sido moldada pelo vento, barro e água. Quem sabe isso seja verdade. Mas há um aspecto adicional que distingue a minha experiência da fantasia infantil, e esse detalhe é o que a torna muito mais peculiar: eu não ia apenas pescar, caminhar ou apenas observar. Eu realizava um ritual. Eu realizava experiências espirituais. Eu visitava aqueles lugares com o intuito de observar o que poderia se manifestar, buscar estabelecer contato e experimentar o invisível naquele ambiente onde parecia menos sufocado pela falsidade social.
Foi nesse lugar que essa sensação se tornou cada vez mais evidente: o mundo se assemelha muito mais a uma dark fantasy do que à caricatura materialista que promovem como sinal de maturidade. Quando compreendida adequadamente, a dark fantasy não se limita a ser um subgênero; ela representa uma maneira de perceber que a realidade é ao mesmo tempo grandiosa, ameaçadora, fascinante e desgastante. Atualmente, até mesmo as matérias mais acessíveis descrevem o dark fantasy como uma fusão de terror e fantasia, um domínio onde o macabro, o grotesco, o enigmático e o moralmente ambíguo se manifestam sem a necessidade de se desculpar. Marianne Gordon expressou isso de forma excelente ao afirmar que a dark fantasy leva cada situação ao seu resultado mais autêntico, reconhecendo a ganância, a estupidez e a capacidade humana para o mal que já existem em nosso mundo. É por isso que ela é eficaz: não por escapar da realidade, mas por expô-la sem disfarces.
E afirmo que o mundo é uma dark fantasy porque eu testemunhei criaturas. De maneira alguma como uma figura de linguagem. Não como uma ferramenta estética. Eu observei. Eu testemunhei coisas durante os rituais, observei manifestações na fumaça, percebi formas organizadas onde não deveria haver nada, e vi um mundo espiritual que não se encaixava na catequese limitada de muitas pessoas nem no ateísmo absurdo de muitos céticos profissionais. O cristão pouco esclarecido vê o anjo como um homem atraente com asas brancas, e apenas isso. Não. Essa é a versão didática, a interpretação que foi adaptada para um cérebro que necessita de explicações mais simples para não ficar confuso. A verdadeira tradição cristã nunca foi tão inocente. É só observar as visões descritas na Bíblia: querubins e serafins surgem de diversas maneiras, repletos de olhos, rodas, fogo, asas, com uma variedade de faces, poderosos e estranhos. O tradicional imaginário cristão já tem ciência de que a representação angélica não é uma imagem fiel do ser angélico, mas sim uma adaptação para a compreensão humana.
Por isso, sempre achei curioso quando alguém, com algumas imagens devocionais na mente, tenta me afirmar que o plano espiritual “só pode” se manifestar de um jeito. Não é permitido. O reino espiritual é infinitamente mais amplo do que a mente limitada do devoto mal orientado. E também consideravelmente mais bonito. Porque, no final das contas, é disso que estou falando: beleza. Não da beleza ornamental, mas da beleza que é assombrosa, da beleza que está viva, da beleza que provoca medo por ser superior à nossa capacidade de compreensão. Quando eu estava lendo Berserk e me deparava com a noção de uma marca que rompe o véu, permitindo que a pessoa percebesse o plano astral, isso não me parecia pura fantasia. Dava-se a intensificação simbólica de algo real: há experiências, há ritos, há exposições que realmente afinam o olhar para uma dimensão que a maioria das pessoas nunca consegue notar durante toda a sua vida. A distinção reside no fato de que, na ficção, isso é retratado de maneira intensa e explícita, com sangue e metal; enquanto na vida real, se manifesta por meio do silêncio, do fogo, da fumaça, do medo e de uma forma de clareza que não se pode expressar com uma linguagem convencional.
De maneira alguma, isso nunca foi algo que eu imaginei ou criasse na minha mente. Eu já conduzi um ritual com dez pessoas simultaneamente no mesmo ambiente, e todos perceberam, visualizaram ou sentiram algo. Clamor em um lugar desprovido de voz. Troca de cenário. Sinal determinado, resposta por meio de particularidade. Isso é relevante, pois não consigo suportar essa justificativa contemporânea que simplifica tudo a uma alucinação pessoal, apenas porque a experiência é tão intensa que foge ao conhecimento de quem está ouvindo. Não se tratava de uma fantasia pessoal. Era um campo de consciência compartilhado. Isso não implica, é claro, que todas as interpretações estivessem sempre corretas. Este é o aspecto que raramente é compreendido. É possível observar algo real e ainda assim ter uma interpretação equivocada sobre isso. Pode ter observado um fenômeno genuíno e, a partir disso, criado uma doutrina falsa. É por isso que sempre tive a necessidade de estabelecer critérios.
A comunicação, de fato, nunca foi essa farsa de espiritismo de contar batidinhas e achar que entendeu o além. De modo algum. Eu lidava com uma correspondência muito mais volumosa. Solicitava cor, forma, modo de aparecer, emblema, som, tipo de presença. Eu estruturava a linguagem do ritual para que a manifestação ocorresse de forma compreensível, mesmo que não verbal. No âmbito dos sonhos, isso também ocorria, e, nesse contexto, a situação se assemelhava mais a uma conversa, tornando-se mais clara e bem estruturada. No entanto, surgia, então, o habitual dilema: até que ponto isso é uma revelação, até que ponto é uma construção e até que ponto é uma interseção? Essa questão nunca me deixou, e talvez ela seja exatamente a evidência de que eu nunca fui um fanático que se contentasse com respostas simples.
É por isso que afirmo que algumas práticas de teurgia são mais significativas do que muitas formas de devoção mecânica. Em certas práticas que aprendi, provenientes de diversas fontes, incluindo ensinamentos atribuídos a Trithemius e outras tradições relacionadas aos planetas, havia procedimentos que eram ao mesmo tempo simples e de grande profundidade, como a preparação de uma água ou uma infusão utilizando ervas correspondentes, seguida de sua consagração, invocando a descida do anjo e rogando para que essa preparação se tornasse um instrumento de bênção. Não se tratava de comunhão. Não se tratava de um sacramento. Não se tratava de uma compensação por pecados. Era algo diferente: uma verdadeira bênção, uma intercessão solicitada a Deus através de seres inteligentes que eu percebia como servos Dele. Aliás, E Trithemius não é criação de um ocultista de shopping; ele foi um abade beneditino, que exerceu suas funções em Sponheim e, posteriormente, em Würzburg, e tem uma história associada à criptografia, à demonologia erudita e às tradições de magia erudita do Renascimento. A própria memória histórica dele refuta a imagem distorcida contemporânea que divide de forma drástica o universo monástico do conhecimento esotérico europeu.
Eu testemunhei isso ter sucesso. Não de maneira superficial, como um ilusionista de palco tirando um coelho do nada, mas de uma forma muito mais degradante, ao perceber que, quando você solicita sinceramente e com insistência, a realidade, em algumas ocasiões, responde. Já passei por situações em que precisei de um valor específico para que minha família não enfrentasse dificuldades naquele mês. Pedi. Fiz uma chamada. Saí. Eu encontrei exatamente o que estava procurando. Não considero isso como evidência científica, pois não sou tolo. Relato minha experiência como alguém que, de maneira surpreendente, descobriu que a realidade é mais permeável do que a filosofia cética aceita e mais ética do que o ocultista arrogante desejaria.
Isso também me proporcionou uma lição que sempre carreguei comigo: o pagão que se converte de maneira voluntária, muitas vezes se torna um cristão superior em comparação com aquele cristão que, de forma sentimental, é levado de um lado para o outro. Porque o pagão de boa vontade já conheceu o valor das coisas. Você já percebeu a carga significativa que o símbolo carrega? Você já testemunhou a força de uma invocação, o preço de um pacto, o perigo de uma abertura, e a densidade do que é invisível. Ele não se envolve na fé da mesma maneira que se ingressa em um clube onde a música é alta e a atmosfera é festiva e emocional. Por outro lado, o católico pouco instruído que se afasta da Igreja porque um amigo o convidou para um culto agitado, que considera mais animado, mais emocionante e mais fácil, raramente o fez por motivos intelectuais. Ele se foi porque sempre foi fraco em sua essência. Eu sempre senti um profundo desdém por esse tipo de pessoa, não por uma intenção sádica, mas porque elas representam o que há de mais degradante na existência espiritual: a ociosidade da alma. Não se trata de busca, nem de uma dúvida genuína, muito menos de uma crise verdadeira; é apenas uma forma de preguiça disfarçada de decisão.
Quando menciono a preguiça, também me refiro a esses ateus que zombam da religião sem nunca terem se disposto a arriscar seu corpo, sua coragem e sua paz mental para realmente investigar aquilo que negam. Jamais terei respeito por esse ateísmo de sofá, esse ateísmo de professor excessivamente confiante, esse ateísmo que só se manifesta porque a pessoa tem a plena consciência de que, ao sair do debate, poderá pegar o ônibus, desfrutar de um jantar e se retirar para uma noite de sono, sem jamais se deparar com aquilo que escarnece. Um homem íntegro, se deseja recusar algo, primeiro observa. Primeiro faz a investigação. Primeiro se apresenta. Primeiro, cruze. O que sobra é apenas encenação para elevar a autoestima. Falo isso com um ressentimento do passado, pois, quando era ateu, já tinha aversão a esse tipo de pessoa. O indivíduo deseja rotular toda a espiritualidade como lixo, mas não possui a ousadia de se dirigir aonde o invisível se manifesta. Não possui a ousadia de participar de um rito intenso, não tem a bravura de se envolver em situações sérias e não se arrisca a confrontar sua própria tese com aquilo que não consegue dominar. Quer criticar sem arcar com o custo da investigação. Isso não constitui coragem intelectual. É uma forma de crueldade limpa.
Se um ateu se aproximasse de mim e dissesse: “Olha, eu fui, percorri várias religiões, vi fenômenos estranhos, continuo sem conseguir crer, mas não consigo mais reduzir isso tudo a estupidez”, eu o respeitaria. Esse cara pelo menos teve coragem de tratar do tema. O verdadeiro problema reside naqueles que falam sem observar, que fazem julgamentos sem se informar, que riem sem se envolver e que condenam sem se aprofundar na investigação. Esse indivíduo, a meu ver, sempre foi um libertino em relação à própria inteligência. Não é por falta de crença, mas sim por uma dúvida que vem acompanhada de desinteresse. Dúvida apática não é ceticismo; é acomodação.
É por isso que, ao longo de muitos anos, algumas experiências de encontro com Deus não foram incluídas nos catecismos. Eu conheci Deus pela Igreja, isso é história na minha vida, mas tem uma diferença brutal entre ouvir e ser atravessado. Ao me aprofundar nessa teurgia judaico-cristã, não como um feiticeiro ávido por poder, mas como alguém que busca elevar a alma pelo caminho dos anjos, comecei a perceber uma verdade simples e impactante: Deus não é uma teoria. Deus está presente. Isso não fez a fé desaparecer; pelo contrário, fortaleceu-a. O contato com o sagrado não me proporcionou uma sensação de controle, mas sim uma tomada de consciência. Não me transformou em detentor de respostas, fez-me sentir diminuto. Não me concedeu o poder de atuar de forma exagerada, mas me impôs a responsabilidade.
Compreendi, portanto, uma verdade que me parece mais profunda do que muitas defesas encontradas na internet: tudo possui um custo. O que não é adquirido com verdade é cobrado com sofrimento. A teurgia, desde que não corrompida pela mentalidade de feitiçaria, ensina exatamente isso: intenção, ordem, responsabilidade, discernimento. Ela demonstra que as aspirações humanas, a busca por reconhecimento, as disputas e as vaidades são absurdamente passageiras quando comparadas à eternidade. Quando a alma se conecta com a realidade, há pouca tolerância para as pequenas encenações da vida humana. Apenas aquilo que recebeu a luz de Deus é que permanece. O que sobra, mais cedo ou mais tarde, estraga.
Possivelmente por essa razão, a recente onda de dark fantasy na internet despertou tanto o meu interesse. Não foi uma questão de novidade, mas sim de que eu identifiquei nela, mesmo que de maneira pop, algo que eu carregava dentro de mim há muitos anos. No ano de 2024, um artigo que abordava a estética no TikTok mencionava que esta frequentemente aparecia junto com arte generativa, castelos tortos, céu carregado, efeito granulado, esqueletos, criaturas e, especialmente, com a música “Hide (CS01 Version)” de Dorian Concept, o austríaco Oliver Thomas Johnson. O próprio clipe oficial da canção afirma que ela era “formerly known as ‘Fooling around on Yamaha CS01’”, e a música acabou sendo adotada como trilha sonora habitual desse nicho estético da internet.
O que me chamou a atenção não foi apenas a estética ou a música de forma independente. Era a combinação. Porque havia uma presença de nostalgia muito particular, e existe até um termo moderno para isso: anemoia, que se refere à nostalgia por uma época que você nunca experienciou. O termo surgiu no projeto The Dictionary of Obscure Sorrows e, posteriormente, foi abordado em divulgação científica como um tipo de anseio imaginativo por um passado que não vivemos, oriundo de narrativas, imagens e simulações mentais de épocas que nunca nos pertenceram. Esse assunto é cativante porque a memória humana, em certa medida, é construtiva; assim, a saudade também se torna capaz de aprender a ser.
É precisamente nesse ponto que o estilo de dark fantasy se destaca. Ele não provoca apenas fascínio pelo obscuro. Ele evoca uma forma de nostalgia por maravilhas que jamais experimentamos, por castelos em ruínas que nunca habitamos, por trilhas geladas que nunca percorremos, por monstros que nunca caçamos e por fogueiras ao lado das quais nunca repousamos embora, no meu caso, eu tenha descansado junto a fogueiras verdadeiras, ouvido o som do vento real em florestas autênticas, sentido o arrepio genuíno nas madrugadas, e por isso talvez essa estética me afete de maneira mais intensa do que atinge o espectador comum. Quando ouço determinados sons, vejo certas imagens ou leio certas narrativas, não estou apenas acompanhando uma tendência das redes sociais. Percebo que a internet está esbarrando, de forma involuntária, em uma fração da verdade acerca do mundo: o ser humano sente nostalgia do encantamento, mesmo que nunca o tenha experimentado de maneira plena, pois foi criado para algo que transcende o corredor iluminado onde a modernidade o aprisionou.
Portanto, quando afirmo que o mundo é uma dark fantasy, não se trata de uma atitude afetada, ironia ou uma estratégia de autopromoção. Trata-se de um diagnóstico. É o fruto de uma infância passada no meio da natureza, uma juventude imersa em rituais, uma mente voltada para a filosofia e um olhar tão machucado que já não se deixa enganar pelo realismo higienista que tentam impor como sinônimo de maturidade. O mundo é mais vasto, mais antigo, mais habitado, mais repleto de significados e mais arriscado do que imagina a fútil filosofia de qualquer cético preguiçoso. Talvez o que mais entristeça é que, atualmente, milhões de pessoas experimentem essa sensação primeiramente por meio de um reel no Instagram, adornado com arte gerada por inteligência artificial, acompanhado por uma trilha sonora de sintetizadores e uma nostalgia artificial. Isso ocorre antes que elas realmente a sintam no vento verdadeiro, na escuridão genuína, na oração autêntica e no silêncio real, que sempre esteve presente, aguardando que alguém finalmente cesse as risadas e comece a perceber.
O que mais me intriga nesse estilo de fantasia sombria que tomou conta do TikTok, Reels e Pinterest é que ele raramente cria algo novo; ele apenas recicla. Ele utiliza sempre a mesma fórmula, refazendo o conteúdo repetidamente e apresentando como se cada vídeo fosse uma nova perspectiva do absoluto. A base quase sempre se repete: uma imagem granulada gerada por IA que simula um pôster antigo, uma caixa de jogo retrô, um filme dos anos 80, uma paisagem surreal que remete a uma lembrança corrompida, um personagem estático diante de uma imensidão, e, por baixo, a sequência que se tornou quase uma liturgia dessa estética, “Hide (CS01 Version)”, do Dorian Concept, lançada oficialmente como música a partir de uma peça antes apresentada como “Fooling around on Yamaha CS01”. O que se tornou viral não foi apenas uma canção ou uma imagem, mas sim uma fórmula de espanto imediato.
A primeira ação dessa fórmula é restituir à paisagem o protagonismo que lhe é devido. Isso é fundamental. Nos vídeos, a natureza frequentemente domina o personagem. Independentemente de se tratar de um campo dourado, uma montanha púrpura, uma floresta úmida, um castelo envolto em névoa, um abismo, um pântano, uma ruína ou uma muralha medieval açoitada pelo vento; o homem ali não é o senhor do mundo, mas sim seu submisso dominado. Isso ressoa profundamente, pois o homem moderno habita um ambiente artificialmente limitado, rodeado por paredes, telas, algoritmos e pequenos conflitos sociais. Assim, quando surge uma imagem que faz o mundo parecer vasto novamente, a alma começa a relembrar uma sede ancestral. É por isso que um lugar tão real como Mont-Saint-Michel se encaixa tão bem nesse contexto. Não é que necessite de um filtro, mas sua aparência remete a algo que poderia ter saído de um sonho elaborado por um monge, um arquiteto e um apocalíptico simultaneamente: trata-se de um santuário que está vinculado à tradição do sonho de Aubert, ocorrido no ano de 708, o qual, posteriormente, foi transformado em um importante centro beneditino, além de servir como fortaleza, aldeia e representar uma das imagens mais impactantes de toda a cristandade medieval. Quando você observa isso, a estética dark fantasy não cria nada; ela apenas reconhece com atraso o que a realidade já estava fazendo há séculos.
Aí surge a segunda engrenagem, que é inferior, mais ordinária e bastante eficaz: o receio de não participar. Pois esses criadores estão cientes de que a maior parte das pessoas não visita esses locais, não vivencia essas situações, não toca numa pedra daquela muralha, não sente aquele vento, não escuta aquele sino, e não atravessa aquela névoa. Portanto, eles comercializam uma experiência que se aproxima da realidade. O indivíduo posiciona seu próprio rosto, desvia o olhar para o horizonte, como se estivesse diante de uma epifania, mantém essa revelação por alguns segundos e, em seguida, a compartilha como se estivesse distribuindo pequenas porções do paraíso. Não se trata de ingenuidade estética; é, na verdade, engenharia emocional. O vídeo todo é feito para que você sinta que há um mundo vibrante do qual você não faz parte e que a única maneira de reduzir essa sensação de exclusão é permanecer assistindo, salvar, compartilhar, pesquisar sobre o local, consumir mais imagens e, quem sabe, até adquirir algo no processo. É a glamorização em massa da própria carência.
Isso acontece porque o nosso cérebro já está programado para ser seletivo, agitado e implacável em relação ao que considera de pouca relevância. Estudos e popularização científica recentes enfatizam que o ato de esquecer não é uma falha passiva; existem processos que promovem o esquecimento de forma ativa. Mesmo quando algo é esquecido, o cérebro não retorna simplesmente ao estado “ingênuo” anterior, podendo preservar traços reativáveis. Além disso, o tédio está ligado à diminuição da atenção, ao desconforto e à busca de novas fontes de estímulo, e existe uma revisão sistemática que indica uma relação significativa entre o tédio e o uso problemático de mídias digitais. É como se a mente insistisse: “me dê mais coisa, ou eu mesmo vou fabricar coisa.” O experimento de isolamento realizado por Michael Stevens em Mind Field ganhou notoriedade precisamente porque ilustra isso de maneira crua: retirado do fluxo habitual de estímulos e colocado em um ambiente branco, isolado e sem referências, a pessoa não descansa; ela começa a lutar contra o vazio utilizando seu próprio corpo, sua fala, sua memória e, quando isso não é suficiente, com a distorção da percepção.
É nesse ponto que afirmo que o formato de dark fantasy online captura algo extremamente profundo. Ele não oferece apenas belas imagens. Ele captura a ânsia por deslumbramento. Pior ainda, faz isso com uma nostalgia ilusória, ou seja, com uma verdadeira nostalgia por algo que jamais ocorreu. Atualmente, há até um termo para isso, “anemoia”, que é definido como a saudade de um tempo que você nunca viveu. É precisamente isso que esses vídeos provocam em você: eles fazem com que sinta nostalgia por uma cabana na qual nunca viveu, por uma armadura que nunca usou, por um vale que nunca cruzou e por uma fogueira à qual nunca retornou carregando lama, metal e silêncio nas costas. O funcionamento é genial, mas um tanto cruel, pois cria um apetite a partir de uma experiência que não ocorre, em seguida sacia esse apetite com novas superfícies visuais, e o classifica como arte, quando muitas vezes não passa de uma compulsão por imagens acompanhada de uma boa trilha sonora.
Eu compreendo isso de maneira tão profunda precisamente porque, ao contrário de muitas pessoas que estão fascinadas por esse formato, eu não precisava da internet para me mostrar como anseiar por esse mundo. Eu já tinha esse desejo. Além disso, eu já havia tocado em versões autênticas dele. Assim, quando os amigos mais jovens que eu assistiam a essas fantasias dos anos 80 e consideravam tudo lento, estranho, sem sentido ou “chato”, eu os olhava como se estivesse observando uma geração inteira prejudicada pelo excesso de cortes rápidos. Eu tinha amor. Eu adoro. História Sem Fim, Labirinto, O Senhor dos Anéis, Castlevania, Silent Hill, Final Fantasy, Baldur’s Gate, toda essa imaginação densa e aventureira nunca me pareceu como uma perda de tempo; sempre me pareceu como uma atmosfera rica, com um peso significativo, e uma promessa de um mundo vasto. Meus amigos buscavam gratificação instantânea. Eu desejava viver lá. Essa é a distinção entre aqueles que dependem de estímulos externos e aqueles que ainda conseguem viver em um símbolo.
É possível que isso se relacione ao fato de que, embora eu tenha vivido uma infância típica dos anos 80, não sou realmente uma criança da década de 80. Eu joguei um mundo inteiro usando emulador. Joguei tanto o que era permitido quanto o que não era, explorei hackroms, experimentei jogos em japonês que foram traduzidos por pura paixão dos fãs, passei muito mais tempo jogando títulos do passado do que os atuais, pois a minha realidade material não me permitia o privilégio de acompanhar a indústria conforme ela se apresentava. Isso me proporcionou uma compreensão que muitos não possuem: a capa clássica dos videogames não era apenas uma embalagem, mas sim um convite à imaginação. Desde os primeiros anúncios de jogos para consoles, era necessário apresentar este novo meio de comunicação e atrair a atenção rapidamente, muitas vezes direcionando-se a adultos e pais que ainda não compreendiam completamente o que estavam observando. A linguagem visual tinha que prometer mais do que a tecnologia podia entregar. É por isso que muitas obras de arte antigas de caixa parecem excessivas, teatrais, cintilantes e quase falsas. No entanto, essa “mentira” tinha um mérito: ela forçava o jogador a imaginar.
A antiga arte de caixa, muitas vezes, superava a “honesta” arte dos jogos modernos. Preferível não ser mais fiel, mas precisamente por não ser. Ela não te dava o item; ela te oferecia uma centelha. Você via aquela capa e precisava completar o restante. Castlevania, por exemplo, vendia uma atmosfera completa antes mesmo de você perceber o que realmente estava jogando. Para mim, isso representava uma virtude, e não um vício. O jogo contemporâneo frequentemente acredita que a maturidade consiste em revelar de forma explícita o que o jogador irá experimentar, como se a capacidade de imaginar fosse um impedimento para a vivência do jogo, em vez de ser uma parte essencial dessa experiência. De forma alguma. Em certas ocasiões, um excesso de clareza visual pode acabar com a sensação de aventura antes mesmo de ela ter início. A antiga capa ousava ser uma promessa. A nova, muitas vezes, é apenas um catálogo.
É por essa razão que as imagens de fantasia sombria geradas por IA têm tanto impacto, mesmo eu acreditando que, no fundo, são vazias. Elas reproduzem exatamente essa antiga habilidade de insinuar mais do que revelam. Montanhas púrpuras, chalés remotos, corujas ocultas, um vento quase audível, uma armadura que mal tilinta, tábuas antigas que quase rangem tudo isso foi elaborado para que sua mente realize o trabalho árduo. A imagem carece de história, lógica, ontologia e memória real. Ela é apenas uma concha vazia. É precisamente por ser uma casca que ela permite que você preencha seu interior com seu desejo, sua solidão, sua ânsia por deslumbramento e sua nostalgia por um lar que não possui. Não é criação no sentido elevado. Trata-se de uma superfície ampla o bastante para que o espectador a preencha com suas próprias necessidades.
Não obstante, não consigo nutrir um ódio absoluto por esse fenômeno, pois ele revela uma grande verdade acerca do homem moderno: ele anseia por uma conexão com o mundo. Fonte de grandeza. Sede de paisagem. Local do ritual. Sede para retornar. Local de aventura que não se encaixe em uma programação, reunião, redes sociais, currículo ou aplicativo. A questão é que ele busca saciar essa sede com um simulacro. O simulacro pode oferecer um alívio momentâneo, mas não satisfaz completamente. Você assiste ao vídeo, o salva, retorna mais tarde, escuta a música, visualiza a cabana, o vale, o cavaleiro, pensa na volta para casa, e mesmo assim permanece sentado na mesma cadeira, no mesmo quarto, vivendo a mesma vida que não se transformou. É nesse ponto que a internet revela suas limitações: ela é capaz de despertar a fome, mas não consegue fornecer a refeição.
E foi precisamente por essa razão que me dirigi à floresta, ao rio, à trilha, ao rito, à teurgia, ao símbolo experimentado e não apenas observado. Não desejava ter sonhos envolvendo armaduras negras acompanhadas de sons de sintetizadores; o que eu realmente queria era experimentar o frio genuíno, o mato autêntico, a presença verdadeira, o silêncio profundo e o peso do invisível no mundo que é visível. Não me contentava em apenas contemplar uma imagem de uma cabana cercada por montanhas roxas e sentir anseio; eu desejava compreender por que a alma humana é capaz de experimentar saudade até mesmo em relação a algo que nunca vivenciou. A resposta, na minha opinião, permanece inalterada: pois fomos criados para habitar um mundo que é mais denso do que este corredor técnico no qual somos inseridos desde cedo. Uma fantasia sombria online se torna viral, pois, apesar de estar explorada pelo algoritmo, ainda mantém um resquício de autenticidade. O ser humano, em sua essência, intui que o universo deveria ser mais expansivo do que a rotina, mais deslumbrante do que o concreto, mais assustador do que a publicidade, mais sagrado do que a ironia e mais vibrante do que a imagem. O que sobra é a internet tentando recuperar, por meio de vídeos repetitivos, a memória fragmentada de uma grandeza que ela própria contribui para eliminar.
É por isso que essas imagens nos transportam, quase nos permitindo perceber a temperatura do ambiente, a intensidade do vento, o aroma da madeira úmida, o som metálico da armadura, o estalo da cabana e a longevidade da montanha. Possivelmente, o aspecto mais cruel em relação a essas personagens é que, por não existirem de fato, o espectador se entristece pelo que elas são incapazes de vivenciar, ou, mais precisamente, pelo que ele mesmo não pode experimentar por meio delas. Um dark fantasy digital vende uma vida irreal, não porque aquela montanha roxa com uma cabana na base não exista, mas porque, mesmo se existisse, estaria isenta demais dos problemas que caracterizam uma vida verdadeira. Não existe boleto, nem notificação, tampouco uma página de captura, e-mails ou qualquer tipo de burocracia. Também não há algoritmo, muito menos o incômodo som da gestão moderna tentando persuadi-lo de que ser produtivo é o mesmo que ter um propósito. O que se encontra lá é o mais arriscado de todos os produtos: uma nostalgia de simplicidade produzida.
Ao que parece, essa simplicidade geralmente se apresenta com uma medievalidade constante. Não é sem motivo. A escuridão da fantasia ama a espada, o cavalo, a aldeia, a fortaleza, a cabana, a ponte de pedra, o vale, a floresta, o mosteiro, a torre e o dragão, pois cada um desses elementos transmite de forma instantânea algo que o homem moderno já não consegue expressar com sinceridade: eu estou farto da complexidade abstrata de minha era. Não se trata, de fato, de uma saudade genuína do medievo histórico, uma vez que a maioria das pessoas que aprecia esse tipo de representação não aguentaria uma semana vivendo em meio a um inverno medieval, sem antibióticos, sem sistema de saneamento e sem o mínimo de conforto. O que ela quer é algo diferente. Ela quer questões fáceis. Embora não sejam considerados problemas triviais, já que um dragão, a fome e uma guerra certamente não são leves, eles se apresentam de maneira simples. Quando o teu adversário se apresenta na forma de um lobo, um espectro, um exército, uma peste ou uma muralha, você ao menos tem clareza sobre o que está enfrentando. Quando o teu adversário se torna um feed, um mercado de trabalho intangível, uma identidade fluida, uma linha do tempo interminável e uma ansiedade sem um rosto definido, a alma começa a deteriorar de uma forma muito mais vergonhosa.
É por isso que a chamada “estase medieval” da fantasia funciona tão bem. Muitas pessoas veem isso como uma restrição à criatividade, como se o gênero fosse preguiçoso por não deixar de lado espadas e castelos e não se mover em direção a um mundo de inovações acumuladas. Entretanto, a questão nunca foi apenas superficial. Existe uma intuição antropológica bastante sólida. Quanto mais tempo uma civilização existe, e quanto mais prolongada é a vida de seus sábios, magos, reis e especialistas, maior é o perigo de que o fardo do passado comece a sufocar o que é novo. Há estudos na medicina, por exemplo, que mostram que médicos mais velhos, em certas situações, podem ter resultados piores do que seus colegas mais jovens, embora essa relação se inverta quando os médicos mais velhos atendem a muitos pacientes. Isso não demonstra que a velhice seja sinônimo de incapacidade; ao contrário, evidencia que a experiência também pode tornar-se rígida. Pode se transformar em túnel. Pode se transformar em uma repetição respeitável de um erro antigo.
Isso se aplica a muito mais áreas além da medicina. O idoso não se opõe ao novo apenas por sua sabedoria; muitas vezes, essa resistência vem do hábito. Resiste pois o mundo se transformou rapidamente e ele já não controla as regras dessa transformação. O mito da era de ouro é, de fato, muito antigo exatamente por essa razão. A descrição tradicional de Hesíodo em Trabalhos e Dias menciona uma era de ouro em perfeita harmonia, seguida por um declínio gradual através das eras até chegar à idade de ferro, caracterizada pelo cansaço, injustiça, conflito e a perda da ordem. Esse padrão não é apenas uma questão literária; é uma estrutura de pensamento que se estende por séculos. Não precisamos nos apegar à falsa tábua “assíria” ou “suméria” que circula pela internet, a qual afirma que “as crianças não obedecem mais aos pais” e sugere que o mundo está chegando ao fim — uma citação cuja atribuição antiga é altamente questionável e mal documentada. Chega de Hesíodo. É suficiente dizer que a humanidade tem uma longa história de idealizar um passado mais simples e de considerar o presente como um período sem qualquer possibilidade de redenção.
O interessante é que a fantasia sombria transforma essa nostalgia, removendo dela tudo o que é mais claramente carregado de ressentimento. Ela não se limita a afirmar “na minha época era melhor”. Ela retrata um universo onde a maior parte das coisas foi simplificada ao máximo. Uma arma é uma espada. Transporte é sinônimo de cavalo. Uma cidade pode ser comparada a um castelo ou a uma aldeia. Trabalho é questão de vida ou morte. Caminho é caminho, não é interface. Essa simplificação traz consigo uma promessa poderosa: libertar o homem moderno do peso excessivo de abstrações e reintroduzi-lo em um contexto onde o corpo, a coragem e a atenção se tornam critérios imediatos de presença. Isso, sem dúvida, é uma forma de fantasia, mas a fantasia poderosa costuma operar dessa maneira: em vez de criar algo completamente novo, ela aprimora um desejo genuíno até que ele se torne um verdadeiro universo.
É por isso que essa estética se relaciona tão bem com a enfermidade contemporânea causada pelo uso excessivo de telas. A pessoa se imerge por horas em conteúdo curto, rolagem infinita, fragmentos, estímulos, ruídos, piadas, indignações, vídeos de quinze segundos que prometem tudo e não entregam nada, e ainda acredita que o único problema é a falta de disciplina moral. Além disso. Estudos recentes têm estabelecido uma relação entre o comportamento de “pular” vídeos e a troca constante de estímulos com um aumento no tédio, em vez de uma diminuição. Em sete experimentos, os pesquisadores demonstraram que pausar ou avançar vídeos pode aumentar o tédio e reduzir o engajamento, já que a interrupção constante prejudica a imersão. Simultaneamente, pesquisas sobre o uso problemático das redes sociais revelam que o FoMO, a comparação social e a baixa autoestima se interligam de maneira fácil e rápida nesse processo. A internet oferece entretenimento, mas aumenta a fome de forma mais intensa.
Eu afirmo isso como alguém que sempre teve aversão a conteúdos breves. Sempre tive aversão. Jamais fui o tipo de pessoa que se contenta com vídeos resumidos de um minuto. Sempre tive uma preferência por transmissões ao vivo de três a seis horas, vídeos longos, aulas aprofundadas, conversas completas e explorações que não me vejam como uma mosca irritante que precisa ser estimulada a cada oito segundos. Quando eu era garoto, passava horas acompanhando transmissões de Minecraft, completamente fascinado, não porque fosse um dependente da tela, mas porque, naquele contexto, ainda existia permanência, interação, paciência e um verdadeiro mundo. É algo totalmente distinto de como é atualmente, quando a plataforma captura sua atenção pelo colarinho, arrasta para baixo, te despedaça em mil fragmentos e, em seguida, chama essa destruição de entretenimento inteligente.
Talvez seja por isso que sinto um profundo repúdio ao ouvir a conversa pseudoestatística sobre o "cérebro do TikTok", repetida como se fosse um meme de guru digital, com aquele tom de recente descoberta que, na verdade, apenas oculta uma experiência clara: aqueles que saltam de uma coisa para outra perdem a capacidade de realmente habitar um lugar. Não é necessário que eu acredite em cada estatística sem explicação que circula na internet para reconhecer a calamidade. No entanto, o aspecto crucial é este: para muitas pessoas, a vida real se tornou uma forma de escapar dos dispositivos eletrônicos. Isto é o último riso da era digital moderna. Antigamente, a internet representava uma fuga da realidade da vida cotidiana; atualmente, a vida real se tornou uma forma de escapar da internet. Aí surgem esses vídeos de fantasia sombria que funcionam como a segunda melhor droga: você não consegue desgrudar o aparelho, então eles te oferecem, dentro do aparelho, a experiência de se sentir fora dele. O criador registra uma montanha, uma abadia, uma floresta, uma armadura, um vale, e você se imagina desconectado, mas ainda assim permanece rigidamente ligado.
Acho isso tanto brilhante quanto traiçoeiro ao mesmo tempo. Brilhante por reconhecer uma verdadeira necessidade humana. Canalha por causa da exploração. Nessa investigação, até mesmo a autêntica paisagem, como Mont-Saint-Michel, está incluída, uma vez que seu mito de origem associa o local ao sonho de Aubert em 708 e à ordem do arcanjo Miguel para que um santuário fosse construído naquele lugar. A internet transforma um local que já possui uma rica densidade histórica, litúrgica e arquitetônica, em um atrativo que gera medo de ficar de fora, mas de uma forma espiritualizada. O indivíduo não se contenta apenas em conhecer o local; ele deseja fazer parte da situação. Deseja ser parte da revelação. Quer ter a sensação de que não ficou excluído da grandiosidade. É nesse ponto que o criador compreende o jogo de maneira mais aprofundada do que muitas pessoas qualificadas em marketing: não é a sua imagem que realmente importa, mas sim o fato de ele estar diante de algo que você ainda não teve a oportunidade de ver.
Para mim, isso ressoa de maneira ainda mais agridoce, uma vez que cresci em um ambiente onde o mundo real me incentivava a explorar o exterior, enquanto meus pais se esforçavam para me estruturar como se eu fosse um projeto administrativo em forma de gente. Meu pai era excepcional em diversas áreas, mas quando se tratava de ser pai, muitas vezes se mostrava um verdadeiro desastre. Eu desejava ter um 3DS, sonhava com isso, mas acabei sendo persuadido a adquirir um trambolho de escritório inútil porque, de acordo com a mentalidade dele, toda infância precisava se justificar como preparação para o trabalho. Essa era a fé que reinava na casa: não a alegria da descoberta, nem o desenvolvimento do gosto, muito menos a intensa aventura intelectual, mas o educacionismo vazio, essa crença burra de que curso, cursinho, atividade, rotina forçada, gadget “produtivo” e agenda lotada bastam para fabricar um ser humano superior. Não são suficientes. Costumam quebrar com facilidade.
Uma infância esmagada não gera grandeza; gera saturação. Isso que eu percebi tanto em mim quanto em muitas outras pessoas. Pais que não conseguem tolerar ver o filho inativo. Pais que pensam que relaxar é uma perda de tempo. Pais que fazem de cada tarde dedicada à criança um verdadeiro trajeto de van: escola, psicóloga, fonoaudióloga, catequese, esportes, aulas extras, informática, luta, dever de casa, pressão, mais dever de casa, sono arrasado. E, em seguida, a criança passa a mostrar dificuldades de concentração, mudanças de humor, problemas de memória, irritabilidade, dificuldades na aprendizagem, e o mesmo mundo dos adultos que a pressionou tanto se acomoda para diagnosticar os danos, como se estes tivessem surgido do nada. De acordo com a literatura médica, a falta de sono em crianças e adolescentes está ligada a um desempenho cognitivo inferior, diminuição da atenção, aprendizado menos eficaz, maior incidência de problemas emocionais e comportamentais, e consequências que podem durar anos. Não estou afirmando que toda situação complexa pode ser reduzida a isso; o que quero dizer é que privar uma criança de sono e chamar isso de formação é uma maneira de agir com estupidez, disfarçada de pedagogia.
Eu experimentei exatamente essa tolice. Meu pai não aguentava me ver cochilando à tarde, como se um garoto de sete, oito, nove ou dez anos tivesse que se comportar como um adulto que trabalha em um escritório e que já não tem mais o direito de sentir o próprio corpo. Hoje percebo claramente o quanto isso prejudicou meu pensamento em diversas etapas, o quanto sobrecarregou minha memória e o quanto agravou dificuldades que, posteriormente, foram interpretadas de maneira distorcida por profissionais que muitas vezes nem sequer se mostravam dispostos a discutir comigo o que realmente era do meu interesse. Elas desejavam me questionar sobre as trivialidades sociais da vida escolar, sobre a relação formal que eu tinha com meu pai e minha mãe, e sobre a convivência emocionalmente estruturada que eu mantinha, enquanto eu queria discutir filosofia, ciência, metafísica, literatura, símbolos e confrontos intelectuais. Como quase ninguém se aventurava nesse território, eu era interpretado de maneira equivocada. Não da maneira que alguém cuja inteligência já estivesse à procura de um objeto real, mas da maneira de um menino que necessitasse ser classificado em categorias limitadas por adultos de imaginação inferior.
Isso me irrita profundamente até hoje, pois testemunhei outros amigos enfrentarem situações ainda mais difíceis. Garoto adormecendo apenas três horas por noite, pois os pais acreditam que uma criança bem-comportada é aquela que está esgotada. Criança sendo sobrecarregada de atividades para “calar a boca” e facilitar a vida de adulto preguiçoso que quer chegar em casa, ligar a novela ou o celular e não ser incomodado por um filho ainda vivo. Conheço muitos pais e mães desse tipo para acreditar que são uma minoria. Sim, há uma nova superstição contemporânea: a crença de que os pais são heróis por natureza e que qualquer crítica à educação é um ato de ingratidão. De jeito nenhum. Pai e mãe podem amar e mesmo assim cometer erros horríveis. Podem ser excepcionais em uma área e totalmente medíocres em outra. O meu pai conseguia conectar o catolicismo, a cabala e a metafísica de uma maneira que muitos padres não conseguem nos dias de hoje, mas era completamente incapaz de perceber o que uma criança precisava para se desenvolver de forma saudável interiormente. Uma inteligência não consegue salvar a outra.
É por isso que fico extremamente irritado com esse adulto insuportável que constantemente se queixa de que “as crianças não respeitam mais ninguém”, como se o respeito fosse uma taxa obrigatória paga à velhice, à posição social ou à relação de parentesco. As crianças rapidamente percebem quando estão lidando com um idiota. É possível que não expresse isso dessa maneira, mas sente. Quando ela percebe, não se refere àquilo como autoridade, mas sim como um fardo. Há muito se reclama da juventude, e o curioso é que quase sempre isso encobre outra coisa: a incapacidade do adulto de ver que não está mais em forma, nem em presença nem em exemplaridade. Novamente, não necessito da enganosa tábua apocalíptica que a internet tanto gosta de reproduzir; Hesíodo já havia esboçado isso de uma maneira muito mais elegante. O idoso observa o presente e percebe a decadência, não apenas porque o presente realmente se transforma, mas porque seu passado se tornou a referência emocional pela qual tudo o mais será menosprezado.
É nesse ponto que o gênero dark fantasy atua como um analgésico emocional, confortando todas as gerações simultaneamente. O idoso observa o jovem e reflete: aquele lugar representa um mundo que é, de fato, mais simples, mais organizado e mais carregado de significados, livre dessa onda de tecnologia que já não consigo compreender. O jovem o observa e reflete: aquele lugar representa um mundo mais autêntico, mais repleto de aventuras, mais profundo, livre desse fluxo constante que me devora e me expulsa. Um deseja retornar; o outro, fugir. Os dois estão juntos na mesma foto. A fantasia sombria dá, por um lado, passado ao nostálgico e, por outro, refúgio ao saturado. Ela aborda esses desafios de forma a torná-los mais simples: enfrentar o dragão, atravessar a ponte, retornar à cabana, descobrir o caminho, defender a aldeia e repousar antes do amanhecer. Faça uma comparação com a vida contemporânea: criar um site, uma página de captura, um blog, um currículo, desenvolver uma marca pessoal, estabelecer contatos, compreender algoritmos, e o microempreendedorismo pessoal. É evidente que, ao se deparar com essas duas gramáticas, a alma olhará para o dragão e, de maneira sincera, pensará: pelo menos esse eu consigo ver.
Por isso, a questão mais sincera que esse formato pode levantar não é “que lindo seria viver ali?”, mas sim “como deve ser ter problemas cuja forma não mente?”. Como é escutar uma armadura em vez de um teclado? De que forma uma cachoeira poderia substituir a máquina? Como é lidar com uma condenação inevitável proferida por um monstro, em contraste com a incerteza flácida e interminável de que talvez nunca se seja suficiente para alcançar qualquer objetivo, uma vez que toda a sua vida foi desfeita em janelas, abas, notificações e comparações? Como deve ser retornar a uma cabana, em vez de uma interface? Como seria um mundo onde o mal grita do lado de fora, ao invés de sussurrar o dia todo de dentro do seu bolso?
Quem sabe esse seja o motivo pelo qual eu nunca me deixei levar por completo pelo fascínio do celular, do toque, da pequena e reluzente versão, da tela que serve para tudo. Ganhei um Nokia quadrado, o famoso tijolo indestrutível que parecia mais uma ferramenta do que um brinquedo, e, para ser sincero, nunca fui uma pessoa que se empolgava com a ideia de estar sempre conectado. Ainda hoje, eu dou preferência à durabilidade em vez de brevidade, à profundidade em vez de rapidez, à floresta em vez de um feed, a longas conversas em lugar de edições rápidas, e a vídeos que se estendem por horas em vez de aqueles que duram apenas segundos. Não por ser virtuoso nem por nunca ter desperdiçado tempo com futilidades, mas porque minha alma sempre intuiu, antes mesmo da minha razão, que esta vida, curta em estímulos e longa em ruídos, apenas gera pessoas superficiais.
Em última análise, o formato de fantasia sombria atinge seu objetivo porque expõe a vergonha da nossa era. Ele evidencia que estamos fatigados por causa de aparelhos, da sobrecarga de informações, da abstração, de pais que confundem seus filhos com um projeto pessoal, de adultos que confundem a ocupação com a verdadeira formação, e de uma cultura que aniquila o sono das crianças, consome a atenção dos jovens e, em seguida, oferece um desintoxicante pago para solucionar o veneno que ela mesma espalhou. No entanto, uma montanha roxa, uma cabana de madeira, um cavaleiro de preto e um dragão parecem ser mais misericordiosos do que muitas das soluções reais que nos oferecem. Isso é bonito, mas também é uma maldição. Isso indica que o homem moderno tende a escolher uma ficção sombria e coerente em vez de uma realidade nítida, mas ferida. E, para ser honesto, eu realmente compreendo o motivo.
É impossível que a fantasia sombria continue a ser tão popular? Sim, e precisamente porque ela não se baseia nas tendências; ela se origina de uma ferida humana que é muito mais antiga. Quando alguém se questiona sobre a razão pela qual tem uma memória difusa de uma experiência que nunca viveu, ou por que determinados caminhos parecem familiares mesmo sem terem sido trilhados, não se refere apenas à apreciação visual; está falando de anemoia, essa saudade por um tempo ou lugar que nunca existiu em sua vida. O mais intrigante é que isso não precisa ser encarado como uma forma de poesia superficial, uma vez que já existe uma análise profunda sobre o tema: Felipe De Brigard sustenta que a nostalgia não precisa originar-se de uma memória autobiográfica literal, mas pode envolver a simulação mental de eventos que talvez nunca tenham ocorrido no passado da pessoa. Isso é, o cérebro não apenas armazena memórias; ele cria, reorganiza, imagina, combina e, em seguida, apresenta isso à consciência como se fosse uma lembrança. É por isso que a dark fantasy nos atinge de maneira tão profunda: ela não apenas provoca admiração pelo que é estranho, mas também evoca uma nostalgia por aquilo que nunca foi nosso, e ainda assim, nos faz sentir que nos pertence.
A maioria das pessoas ainda se refere à memória como se a mente fosse uma fita cassete, um VHS ou uma câmera antiga: registrou, armazenou, reproduziu. Entretanto, essa é uma forma imatura de compreender a questão. A tradição moderna em torno da memória, da imaginação e do “mental time travel”, iniciada por Endel Tulving e enriquecida por debates subsequentes, direcionou a questão para um âmbito distinto: os atos de recordar o passado, prever o futuro e imaginar cenários hipotéticos envolvem processos que são, de fato, muito mais semelhantes do que a maioria das pessoas supõe. Em termos menos acadêmicos, a mente não se limita a acessar informações; ela recria realidades. Se ela é capaz de recriar mundos, isso significa que também consegue gerar uma sensação de familiaridade com cenários, atmosferas e vivências que nunca experimentamos. É por essa razão que uma praia escura na qual nunca estive, uma cabana que nunca habitei, uma montanha que nunca escalei e uma noite fria que nunca atravessei podem parecer-me mais familiares e íntimas do que muitos aspectos confortáveis da minha própria existência. A dark fantasy não cria apenas imagens; ela penetra nessa oficina interna de simulação e a coloca para operar em prol do medo.
Entretanto, para mim, isso sempre pareceu inadequado como uma explicação conclusiva. Porque a questão vai além do aspecto mecânico. Um videogame também consiste em código, em uma infinidade de zeros e uns, mas ninguém com um mínimo de seriedade afirmaria que a verdadeira experiência de jogar se resume ao circuito elétrico que a suporta. Portanto, posso concordar plenamente com toda a explicação neurocognitiva sobre a anemoia e, ainda assim, afirmar que existe algo além disso. Além disso, esse “algo mais”, no que se refere à fantasia sombria online, acompanha uma contradição amargurada: eu abomino o que a IA simboliza ao roubar o trabalho alheio, detesto a presunção com que ela se apresenta como criação própria quando vive de pilhagem estilística, detesto esse futuro em que as pessoas talvez nem consigam mais distinguir o que foi feito por mão humana do que foi cuspido por máquina. No entanto, não posso negar que algumas dessas imagens realmente me impactam. Eu estou ciente de que se tratam de cascas vazias, mas, de qualquer forma, o seu frio ainda consegue me atingir. Esse é o escândalo: eu sou contra a lógica da coisa e, ainda assim, me atraí pelo resultado. Não devido à alma da máquina, mas sim porque ela conseguiu assimilar a arte de apropriar-se dos traços da alma que foram deixados por outros anteriormente.
Aqui é onde se evidencia a grande distinção entre um visual corporativo elegante e um visual que transmite peso. Um anúncio que seja considerado seguro pode ser repleto de cores, caro, tecnicamente impecável, e mesmo assim não transmitir mais nada além de “compre isto”. Um filme como Labyrinth ainda possui aquela textura peculiar de objeto tangível. E isso não se trata de uma nostalgia sem conteúdo: Jim Henson mesmo anotou que usou as inovações da Digital Productions para realizar a coruja em CGI dos créditos de abertura, mas o filme, na maior parte, se baseava na materialidade, em criaturas construídas, em cenários habitados, em objetos que estavam ali no espaço antes de aparecerem na tela. É por essa razão que aqueles mundos antigos parecem mais densos e pesados: porque, em grande parte, foram construídos como um mundo, e não apenas representados como uma aparência. A estética sombria dos anos 80 não oferecia opções confortáveis. Ela tinha que raciocinar usando as mãos. E quando um cineasta é obrigado a pensar com as mãos, ele quase sempre acaba produzindo uma imagem mais honesta do que a imagem de quem pode pedir qualquer coisa à pós-produção infinita.
Legend surge precisamente nesse ponto, agindo como um manifesto involuntário dessa abundante escassez. Ridley Scott se inspirou em contos de fadas, especialmente no imaginário dos irmãos Grimm, e também em referências visuais da animação clássica da Disney. No entanto, o resultado não foi uma versão infantilizada e domesticada; o que emergiu foi uma fantasia sombria, sensual e ritualística, com uma floresta criada, um castelo ameaçador, ouro doentio, pântano, frio e um verdadeiro senhor das trevas que parece ter escapado de um pesadelo litúrgico. O longa-metragem foi filmado em grandes sets físicos na Pinewood, incluindo a criação de uma enorme floresta em estúdio, e toda essa materialidade é evidente. Você tem a impressão de que a árvore ocupa um espaço, que a parede tem um peso, que a fumaça foi soprada por uma pessoa, e que o figurino pode causar dor se atingir alguém. Esta é a distinção entre um visual que surge de uma limitação genuína e um visual que emerge de uma abundância corporativa: o primeiro precisa inventar um universo com criatividade e habilidade; já o segundo pode se satisfazer em criar uma aparência superficial com recursos financeiros.
Aí você capta porque uma franquia colossal e extremamente supervisionada como A Minecraft Movie consegue faturar fortunas, ter um custo estimado em US$ 150 milhões e ainda parecer, em certos pontos, menos vibrante do que uma curiosa fantasia de épocas passadas. O filme ficou anos em desenvolvimento, ganhou proporções industriais, se tornou um grande evento de estúdio e foi um imenso sucesso de bilheteira, mas nada disso é suficiente para garantir que tenha alma. O dinheiro proporciona segurança, um acabamento de qualidade, um amplo alcance, a proteção da marca, a aprovação de investidores e um acordo que minimiza os riscos. A questão é que o mínimo de risco e a máxima imaginação raramente coexistem em um mesmo lugar. É isso que muitas obras de fantasia dos anos 80 captaram intuitivamente, sem a necessidade de uma teoria elaborada: na ausência de abundância, a escolha se torna essencial. Quando realmente faz uma escolha, isso deixa uma impressão. A aparência se torna uma afirmação. Ele deixa de ser somente design e se transforma em uma forma de afirmar: este mundo possui uma estrutura porque alguém investiu um preço para moldá-lo.
É por isso que eu enfatizo que tudo se inicia antes da política, antes da economia e antes da ação organizada: começa no campo cultural. Ninguém traz à realidade algo que não tenha primeiro imaginado, debatido, praticado, poeticamente explorado ou até mesmo detestado. A prática social surge após o período de incubação simbólica. Dostoiévski reconheceu essa realidade no contexto russo muito antes da Revolução se manifestar como um evento histórico; os franceses passaram décadas envolvidos em clubes, panfletos, interações sociais e provocações intelectuais antes que a guilhotina se tornasse um método. Portanto, ao contemplar a fantasia obscura dos anos 80, não a percebo apenas como uma coleção de filmes visualmente impressionantes. Eu percebo um repositório de símbolos, aflições e anseios relacionados à decadência, à pureza, à sedução, ao mal, à inocência, ao poder, à beleza e ao apocalipse. Essas coisas não ficam no porão da arte. Elas sempre sobem, mais cedo ou mais tarde. E sobem porque alguém primeiro pensou nelas com força suficiente para lhes dar corpo.
No entanto, existe um elemento que essa estética digital reproduz tanto que se tornou quase um princípio inquestionável: o cavaleiro em repouso, o homem de armadura sentado ou reclinado, a figura cansada que não se exibe como um vencedor, mas sim como um sobrevivente. Para mim, isso não é um pormenor. O material oficial de High Isle, em The Elder Scrolls Online, já mencionava uma “shadow conspiracy” liderada por uma ordem de cavaleiros sob o Ascendant Lord, ou seja, o conceito de uma cavalaria encoberta, onde a honra está corrompida, a guerra é anônima e o guerreiro é cercado por forças superiores a ele. Entretanto, o público não costuma se encantar pelo cavaleiro por causa de suas vitórias; eles se apaixonam por ele devido à sua perseverança. Pois combate situações desfavoráveis. Porque ao tocar o chão, não o faz como um mero fardo de carne, mas como um homem que esgotou tudo o que possuía antes de sucumbir.
Berserk atinge esse ponto com uma precisão quase chocante. Guts não é o cavaleiro idealizado, o herói inocente, o santo em armas, a representação perfeita da virtude militar. Ele é o homem esmagado que persiste. E prosseguir, para a maioria dos homens, representa a forma mais tangível de heroísmo que se pode encontrar. Nem todos terão um pai que ensine, um mentor que ofereça suporte, uma comunidade que apoie, ou mesmo uma forma adequada de expressar sua própria dor. Muitas pessoas apenas possuem o corpo, a função, o cansaço e a obrigação silenciosa de suportar. Quando essas imagens retratam um cavaleiro repousando no chão, a cabeça baixa e a espada abandonada ao lado, não estão apenas representando um personagem medieval. Estão ilustrando a representação simbólica de milhões de homens que, ao final do dia, se encontram deitados, com a impressão de que conseguiram sobreviver mais uma vez, sem que ninguém realmente se preocupasse com o preço a ser pago por isso. É por isso que o cavaleiro adormecido nos toca. Ele não é uma vitória. É pausa.
Essa pausa é o coração do apelo da fantasia sombria. Por muito tempo eu mesmo descrevi isso como evasão, mas agora parece que é algo a mais. O que a fantasia obscura oferece de mais significativo não é a evasão da vida; é a garantia de um momento na vida em que a batalha finalmente se concretiza, ganha contornos definidos, se torna um ritual e, em algumas ocasiões, proporciona descanso. A anemoia se faz presente porque esse descanso raramente, ou quase nunca, foi experimentado por nós. O cérebro, então, imagina como seria realmente alcançar esse destino: estabilidade, propósito, aventura, risco evidente, luta respeitável, descanso merecido, infância recuperada sem imaturidade, maravilha sem engano. O estilo dos anos 80 nos cativa, pois ainda transmite uma sensação de autenticidade, em vez de uma aparência excessivamente polida e corporativa. O cavaleiro nos alcança porque, de maneira visível, ele carrega a mesma carga invisível que nós também suportamos. As paisagens nos cativam porque nelas existe um mundo que ainda não foi totalmente convertido em mera utilidade.
No meu caso, tudo isso transcende a estética, pois testemunhei, em minha própria jornada espiritual, manifestações que muitos considerariam como meras fantasias, mas que eu reconheço como uma camada da realidade. Assim, para mim, a aventura que um dia sonhei não é um sonho distante. Não se trata apenas de um consolo visual. Não se trata apenas de uma tela que promete um futuro melhor que nunca virá. Certamente existe uma imaginação que se alimenta de algo. Existe, sim, uma relação entre o símbolo e a estrutura do mundo, mesmo que distorcida, incompleta ou, em alguns casos, manipulada por máquinas, algoritmos e o mercado. O problema não reside em querer esse tipo de universo; o problema está em acreditar que ele pode ser adquirido de forma instantânea em um vídeo de quinze segundos. A questão nunca foi se eu habitaria em um universo de dark fantasy. A verdadeira questão sempre foi diferente: quanto de mim conseguiria resistir à carga de um mundo em que o mistério, a luta, a destruição, o sagrado e o descanso fossem tão reais que não pudessem ser considerados apenas como formas de entretenimento.
É possível que essa seja a razão pela qual eu ainda aceito, com uma mistura de repulsa e fascínio, algumas dessas imagens geradas por IA. Quando a máquina se esforça apenas para ser realista, o resultado muitas vezes resulta em uma sensação de algo que está apodrecido, mas meticulosamente polido. No entanto, quando ela se depara com esse idioma obscuro, áspero, melancólico e revelador, por vezes consegue reativar uma sensação que se assemelha àquela primeira experiência em que um mundo verdadeiramente se desvelou diante de mim — não porque o computador tenha gerado um universo, mas porque ele, de forma acidental, esbarrou em uma antiga e profunda fome humana por mistério, perigo e descoberta. É como experimentar um jogo pela primeira vez e ter a sensação de que existe um vasto universo além da borda visível, repleto de mistérios, ruínas, criaturas, chamas e expectativas. O inconveniente é que, nesse caso, a imagem continua sendo superficial. O nosso trabalho, que é levado a sério, ainda consiste em distinguir o que possui alma do que apenas aprendeu a imitar a aparência da alma.
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