Porcos, a Prostitutas e Loucos: A Anatomia do Colapso Intelectual

Redigi este ensaio pois estava farto de testemunhar a ignorância sendo tratada como opinião, a falta de esforço mental sendo confundida com humildade e o fanatismo gnóstico sendo classificado como convicção. Era necessário que alguém chamasse essas figuras pelo que realmente representam, sem pedir permissão.

Gabriel G. Oliveira

4/26/202636 min read

As três manifestações mais comuns da Gnose Psíquica, os faróis silenciosos que direcionar a alma ao abismo entre a mente o inferno e a loucura

Há um tipo de distúrbio mental que o nosso grupo de estudos há muito se dedica a tratar com uma eficácia que é raramente alcançada pela psiquiatria convencional, uma vez que esta última teme rotular o que observa quando o que observa toca ao político. Nós nos referimos a isso como gnose psíquica, e se você considerar que o termo é excessivamente técnico para mascarar algo que é, na verdade, simples, você está absolutamente correto: é exatamente isso. A gnose psíquica pode ser considerada uma forma de esquizofrenia social. Não se trata de uma metáfora, nem de um exagero retórico, tampouco é uma provocação de bar. É um diagnóstico de funcionamento para uma pessoa que cria na mente um universo que nunca existiu, que jamais poderia existir, e que a realidade nunca acomodou em qualquer uma de suas manifestações ao longo da história, mas que ele defende com uma convicção tão profunda que estaria disposto a morrer por isso. Ele realmente viria. Não como um mártir, mas como um tolo.

Você conhece esse cara. É algo que todos admitem. Ele surge, com mais regularidade, na figura do progressista contemporâneo, que é o exemplo ideal da gnose psíquica em operação. O indivíduo apoia o socialismo e o comunismo, apresenta esses argumentos com uma seriedade que seria digna de admiração, se não fosse pelo fato de que essa seriedade está voltada para um sistema que fracassou em todas as tentativas históricas concretas, em cada experiência real que o mundo proporcionou, sem nenhuma exceção comprovada. Não é viável. Não é possível operar. Não há nenhuma configuração humana viável, considerando a natureza dos seres humanos, que possibilite o funcionamento do comunismo. Não se trata de uma opinião conservadora, mas sim de uma constatação. No entanto, para o progressista identitário e para o esquerdista que vive dentro dessa crença política, a questão da viabilidade não se apresenta como um critério importante, uma vez que o que realmente importa para ele não é a realidade. Para ele, o que importa é a ideia. Na mente dele, a ideia é impecável.

Foi precisamente isso que Eric Voegelin apontou de maneira tão clara que ainda incomoda os leitores mais atentos. Esses movimentos políticos funcionam como religiões. Não se assemelham a religiões, não operam de maneira semelhante às religiões, nem incorporam alguns elementos que pertencem às religiões. Trata-se de religiões. Existem dogmas que são intocáveis, hereges que precisam ser silenciados, a promessa de uma salvação coletiva como ideia central, um messias aguardado no futuro e um paraíso que justifica qualquer sacrifício feito no presente. O ateu que se considera progressista não é realmente ateu. Ele é um crente sem um deus específico, o que, de certa forma, é ainda mais arriscado, pois, ao menos, o crente convencional tem a franqueza de identificar aquilo que admira.

Quando comparado ao Islã, a analogia se torna difícil de passar despercebida. O Islã, em diversas de suas correntes políticas, acredita que um governo adequado estabelecerá as condições necessárias para o retorno do Mahdi, e que a configuração política correta antecipará o evento escatológico que justifica toda a estrutura de poder. É por essa razão que certos governos árabes adotam o socialismo. Não devido a um acaso histórico, nem por uma influência ocidental fortuita, mas sim porque a lógica intrínseca de determinadas interpretações do Alcorão se alinha com a lógica interna do socialismo em um aspecto específico: a convicção de que existe uma condição ideal que pode ser estabelecida por meio do poder político, e que qualquer impedimento a essa condição ideal é considerado um adversário do sagrado. A esquerda possui uma estrutura de pensamento idêntica. O léxico é secular, e o funcionamento é o mesmo. Assim como interrogar um islâmico radical em um local inadequado pode levar a uma execução instantânea, desafiar um esquerdista identitário resulta, de imediato, em acusações de fascismo, nazismo e uma série de outros "ismos" que a esquerda agrupa em um único insulto para evitar a necessidade de refletir. Há uma amarga e deliciosa ironia neste processo: o esquerdista projeta sobre seu interlocutor exatamente o que ele é. Ele chama de autoritarismo aqueles que questionam o autoritarismo de sua religião política. Ele chama de irracional quem o chama de irracional. Ele chama de ódio quem identifica seu próprio ódio. É uma projeção em larga escala, e isso acontece porque a grande maioria das pessoas se sente envergonhada de afirmar o que é evidente em voz alta.

Não estamos nos referindo apenas ao comunismo. As MAPs, um movimento que se infiltrou na agenda LGBT e defende abertamente a liberação da pedofilia, argumentando que isso se trata de uma questão de direitos civis que ainda não foi reconhecida pelo mundo progressista, são de fato alarmantes. Estamos nos referindo à eutanásia como um direito absoluto, ao suicídio assistido acessível a qualquer pessoa que declare estar em sofrimento, a toda uma estrutura de conceitos que não possuem nem uma justificativa lógica nem uma fundamentação ética, mas que, para os adeptos dessa religião política, não é necessário ter tais fundamentações, uma vez que eles se consideram além da lógica. A razão, para eles, é um instrumento do adversário. Em breve, vou detalhar por que isso não pode ser considerado uma coincidência, e por que a negação da lógica é uma característica fundamental e indispensável do sistema gnóstico.

É isso que a gnose provoca na mente. O gnosticismo clássico, inclusive sua forma religiosa, utilizava uma construção do pensamento que demandava a renúncia da lógica para se alcançar uma verdade superior. O gnóstico afirmava que a realidade física é, por sua natureza, má, resultante da criação de um demiurgo malévolo ou incapaz, e por isso as normas que regem essa realidade material, assim como a lógica, são ferramentas de confinamento. É preciso desafiar a lógica para atingir a gnose. É exatamente o que está escrito. O que ocorre quando um sistema de crenças afirma que a lógica é o adversário? Então tudo se torna possível. Que um mesmo objeto pode possuir duas naturezas opostas ao mesmo tempo. Que algo pode ser benéfico para você e, ao mesmo tempo, essencialmente prejudicial para o universo. Aristóteles se referiria a isso como uma transgressão do princípio da não-contradição e não iria além disso. O gnóstico se refere a isso como uma revelação.

O budismo, por sua vez, ao menos é honesto sobre sua verdadeira natureza. Ele sugere a necessidade de se afastar da lógica do mundo material para se conectar a uma lógica mais elevada, e deixa isso bem claro. É possível ter uma opinião divergente ou acreditar que se trata de uma direção incorreta, mas o budismo é honesto em relação aos seus princípios. O gnosticismo clássico é enganador. Ele afirma ter descoberto a verdade, ao mesmo tempo em que aniquila de forma metódica as ferramentas que possibilitariam a confirmação da veracidade dessa verdade. Isso não se trata de espiritualidade; é uma fraude intelectual disfarçada de misticismo.
Contudo, é fundamental que eu seja claro neste ponto, pois o texto requer uma distinção importante. Não toda a tradição apofática se deixa levar por essa armadilha. O catolicismo é parcialmente apofático. Deus Pai, na teologia católica, é apofático, transcendendo todo e qualquer conceito humano. No entanto, o catolicismo supera essa tensão por meio da Encarnação. O Deus que se escondia tornou-se Emmanuel, assumiu a carne, ingressou na história, deixou marcas passíveis de verificação, e se sujeitou ao tempo e à matéria. O que Tomás de Aquino, com a maestria de um relojoeiro, expõe é esse balanço: o catolicismo é tanto teologia positiva quanto teologia negativa, mas inclina-se mais para a positiva. Esse ponto de apoio no real é o que mantém o catolicismo afastado do gnosticismo político. O judaísmo, incluindo as suas correntes que valorizam a razão, como o Talmud que é um exercício lógico rigoroso e a tradição de Maimônides, preserva esse contato com a realidade que age como um antídoto contra o delírio.

É nas linhas apofáticas puras que se apresenta a questão. É nesse contexto que o judaísmo apofático surge como um caso de estudo que eu preciso tratar com a atenção que merece, uma vez que o assunto pede precisão em vez de simplificações.

As várias correntes do judaísmo, místicas e não, foram objeto do estudo mais sério e completo realizado por Gershom Scholem. Se o seu objetivo é compreender o panorama completo dessas tradições, desde a origem da Kabbalah até a relação entre a Ma'aseh Merkavá e o que mais tarde se tornaria o Zohar, assim como as divisões e intersecções das linhas de estudo, Scholem é a referência indispensável. Não há como encarar esse trajeto de forma séria sem antes atravessá-lo. Além de muitos outros aspectos, Scholem registra a evolução dessa vertente apofática no judaísmo, que posiciona Deus em uma separação tão extrema da criação que a conexão entre o divino e o humano se torna quase inviável por meio de caminhos diretos.

A lógica que sustenta essa perspectiva é a seguinte: se Deus é tão completamente além de qualquer classificação humana e tão intensamente transcendente que qualquer qualidade que lhe atribuamos já representa uma deformação da verdadeira realidade divina, então ele não pode intervir na história sem prejudicar o livre-arbítrio humano e sem interferir no curso natural dos eventos. Deus precisa estar longe. Se Deus estiver suficientemente afastado, se Ele não tiver a capacidade ou a intenção de enviar um Messias pessoal conforme a tradição descreve, então a era messiânica não se manifestará de fora para dentro. Será necessário construí-la de dentro para fora, através do esforço humano e de causas que criem as condições necessárias para que esse estado superior se revele. Certas vertentes apofáticas do judaísmo chegam ao ponto de negar a possibilidade de um Messias pessoal, substituindo-o por uma era messiânica impessoal, uma transformação histórica provocada por condições criadas pelo próprio homem.

Abaixo está o cordão umbilical que liga essa teologia ao marxismo.

Karl Marx não apareceu sem um contexto. O pai de Marx era um rabino que praticava a teologia apofática, especificamente um apofatismo cabalista. O que Marx realizou, conforme documentado com atenção no livro "Marx e Satã", foi pegar essa estrutura teológica e secularizá-la, ou aparentemente secularizá-la, porque na prática o que ele produziu foi uma nova religião com o mesmo motor de funcionamento. Marx detestava professar qualquer fé, nutria aversão aos judeus em seus escritos públicos e desprezava a religião como uma forma de discurso. Entretanto, havia testemunhos de pessoas próximas a ele sobre estranhos rituais esotéricos. Se você aplicar a estrutura do pensamento marxista sobre a base do apofatismo judaico que o pai dele praticava, verá que tudo se conecta de uma maneira que não pode ser apenas uma coincidência.

A dialética histórica de Marx é a manifestação messiânica secularizada. A noção de que a história possui uma lógica interna que avança de forma inexorável em direção a um estado final de perfeição coletiva, que as contradições intrínsecas do capitalismo levarão inevitavelmente à sua própria superação, e que o proletariado é o agente histórico responsável por guiar a humanidade rumo a um paraíso terrestre, é, na verdade, uma forma de escatologia expressa com uma terminologia econômica. Quem é o salvador desse processo? O tirano. O dirigente do regime. A figura que personifica a vontade histórica e que deve ser seguida como o responsável pela salvação do grupo. Desafiar o ditador dentro do comunismo é considerado uma heresia em seu sentido mais estrito. Você será tratado como um opositor da salvação, como um agente contrarrevolucionário, como um servo das forças retrógradas. A punição consiste na morte ou no gulag, que, em termos de resultados, são equivalentes, embora variem no tempo que levam para produzir efeito. É o purgatório terrestre para o herege político.

Gramsci chegou posteriormente e amoleceu as pontas sem alterar o funcionamento. O que Gramsci realizou foi tornar o marxismo mais relativo, tornando-o mais aceitável, mais disseminado e mais apto a penetrar em instituições culturais sem causar a imediata reação que o marxismo puro de Marx gerava. Gramsci trouxe uma perspectiva relativa e subjetiva, e ao fazer isso, criou algo que se tornou ainda mais desafiador de combater, pois é também mais difícil de reconhecer. Entretanto, o motor continua sendo o mesmo: a convicção em uma transformação histórica planejada que conduzirá a humanidade a um estado superior, juntamente com a justificativa moral para empregar quaisquer meios necessários para atingir esse objetivo.

Voegelin, que observou isso de fora como o grande cartógrafo intelectual desses movimentos, chamou o fenômeno pelo nome certo: são religiões que se aplicaram ao real de uma maneira econômica. Aplicaram o método teológico e o converteram para termos da economia política. Você observa isso ocorrer com o capitalismo, que é o ponto onde a análise se torna realmente fascinante, pois perturba pessoas de ambos os lados.

O capitalismo, segundo a perspectiva de Adam Smith, é um sistema calvinista. Não se trata de provocação, mas de uma análise histórica. A ideia da mão invisível do mercado, a força reguladora que, sem planejamento ou coordenação intencional, aloca recursos de maneira bastante eficiente, é uma secularização da providência divina. Smith não era tolo a respeito disso. No calvinismo, o êxito financeiro era visto como uma evidência de escolha divina, e o mercado servia como o cenário onde a graça se revelava por meio de resultados tangíveis. A mão invisível representa a ação divina atuando por meio da causalidade econômica. Ao tirar o nome de Deus e deixar a estrutura, o que resta é precisamente a mão invisível de Smith.

Mises, oriundo de uma tradição judaica, fundamenta sua concepção de capitalismo a partir de uma base teológica distinta, mas que acaba se encontrando no mesmo princípio: a convicção de que a realidade econômica possui uma lógica interna que gera os melhores resultados quando não é interferida por ações externas. O judaísmo tradicional e o protestantismo, apesar de suas muitas diferenças, têm em comum uma leitura mais alinhada ao Antigo Testamento, uma ênfase na lei, no pacto, na ordem que resulta da obediência às normas. É por essa razão que ambos chegam a conclusões econômicas parecidas. O protestantismo interpreta o Antigo Testamento de maneira mais semelhante ao judaísmo do que a leitura católica, que é filtrada pela Encarnação e pela síntese aristotélica. Essa interpretação mais judaica do Antigo Testamento gera uma sensibilidade econômica particular que se manifesta tanto em Calvino quanto em Mises, bem como nos economistas da Escola de Viena.

O ateu que deseja o socialismo busca, em essência, algo muito semelhante ao judeu apofático que anseia pela vinda do messias. A distinção reside no fato de que o ateu não possui o léxico teológico necessário para designar o que deseja, e, por isso, recorre à terminologia relacionada ao progresso, à evolução social e aos meios de produção. No entanto, o objetivo final é o mesmo: um estado terreno de perfeição coletiva que é alcançado pelo trabalho conjunto da humanidade, assumindo o papel que, na teologia, era atribuído a Deus. O ateu contemporâneo que apoia o socialismo também não conseguiu se desvincular da religião. Ele mudou de fé sem notar. Deixou o templo pela entrada principal e acessou o subsolo.

Tanto as vertentes pagãs apofáticas quanto algumas correntes islâmicas, além de certos cristãos que se inclinam para um apofatismo extremo, todos parecem convergir para esse mesmo destino. Quando Deus se encontra suficientemente afastado, a ponto de não intervir ativamente nos acontecimentos da história, cabe ao homem assumir o papel que seria de uma divindade. Quando o ser humano toma para si o papel que é de Deus, o resultado é sempre o mesmo: socialismo ou alguma forma de autoritarismo coletivista que promete a salvação por meio do Estado.

Entendo o apofatismo como uma forma de gnose. Isso vai provocar a fúria de certos acadêmicos, mas eu insisto e explicarei o motivo. O apofatismo religioso, quando aplicado à política, gera invariavelmente um gnosticismo político. Sempre. Não encontrei nenhuma exceção histórica a isso. A lógica interna é inexorável: se Deus não tem nenhuma presença na história, se o mundo material é essencialmente falho ou maligno, e se a perfeição só existe em um mundo de ideias que não podemos acessar através da experiência cotidiana, então a única alternativa é trazer esse mundo de ideias para cá. Transformar o mundo real na imagem da perfeição idealizada. Isso é, palavra por palavra, a descrição do projeto político gnóstico que Voegelin reconheceu em todos os grandes totalitarismos do século XX.

A gnose tem um núcleo apofático. A gnose se origina do apofatismo, e por sua vez, o apofatismo gera uma gnose de caráter político. São duas faces da mesma moeda, e essa moeda sempre adquire a mesma coisa: um regime que impõe a completa submissão da realidade ao ideal, considerando como inimigo tudo aquilo que se opõe a essa submissão.

Agora é necessário fazer uma distinção de termos que é mais importante do que aparenta.

A contemporaneidade utiliza o termo radical para designar aquele indivíduo que se mantém inflexível em sua ideologia, o fanático, aquele que não se permite questionar e que agride em nome de uma crença que carece de fundamentação. Trata-se de um erro grave de etimologia que acarreta sérias implicações filosóficas. Radical significa algo que está relacionado à raiz. O homem radical é aquele que se aprofunda nas questões, que não se contenta com as aparências, que investiga até descobrir a base do que está analisando, que indaga até ter plena convicção do que afirma. Ser radical, no sentido certo, é ser exatamente o oposto do que a modernidade considera radical. O filósofo é o radical. O cientista radical é aquele que não aceita o consenso sem questionar. O radical é aquele que se aprofunda na realidade.

O que a modernidade considera radical é, na verdade, o porco.

Utilizamos essa palavra no nosso grupo de estudos, e farei o mesmo aqui, pois ela é precisa de uma maneira que nenhum eufemismo consegue igualar. O porco é aquele personagem que se atolou nos próprios excrementos e não quer sair. Que se alimenta de suas próprias fezes ideológicas, se contamina com elas e chama isso de lar. Um amigo que também contribui com algumas questões do nosso grupo de estudos encontrou esta imagem, que é perfeita: o porco come a ideia, transforma, excreta e, em seguida, habita aquilo. Os seus excrementos ideológicos, os seus excrementos de raciocínio, os seus excrementos religiosos constituem o meio que ele optou por habitar. Para ele, aquela é a realidade. O lixo representa o lar.

A Bíblia já tinha essa sabedoria quando mencionou a prática de lançar pérolas diante dos porcos. O porco não vai considerar a pérola como algo de valor, não a irá preservar e nem a admirar. Vai triturá-la nos dentes e deglutir juntamente com o restante dos detritos. Não é por malícia, mas sim por instinto. Essa é a essência do porco. Você pode apresentar a ele o argumento mais sofisticado, a demonstração lógica mais minuciosa e a evidência histórica mais irrefutável, mas ele reagirá da mesma forma que faz com tudo: irá desmerecer e desprezar.

O que Olavo de Carvalho se referia como "suruba intelectual" consistia na aplicação desse conceito ao meio acadêmico de viés esquerdista: um conjunto de intelectuais que apenas se dedicavam a ler as obras uns dos outros, que nunca se dispunham a consultar os textos do lado oposto, que se citavam mutuamente em círculos cada vez mais restritos e, em seguida, saíam proclamando verdades universais sobre tudo. O inevitável resultado desse ciclo vicioso é o relativismo. Não por uma opção filosófica consciente, mas por uma necessidade prática de manter-se intelectualmente vivo. Quando você apenas lê pessoas que compartilham da mesma opinião que você e nunca coloca suas ideias à prova através de um sério questionamento por parte de quem é contrário, a única maneira de se manter coerente internamente é desconsiderar tudo o que vem de fora. Toda evidência que vai de encontro se transforma em narrativa. Qualquer objeção se transforma em perspectiva. Toda situação incômoda se transforma em construção social.

E assim chegamos ao hexagrama da destruição.

O hexagrama não é uma ornamentação abstrata. É um aparelho de relojoaria que vai moendo a razão a sanha, a sistematicamente, a estrutura, a descrição, a forma como os vícios se articulam para gerar o idiota funcional, esse tipo que reflete excessivamente sobre questões inexistentes, enquanto a realidade aguarda em silêncio para apresentar a fatura.

Há dois triângulos na figura. Um indica para baixo, e lá dentro, três pontos: no vértice da esquerda, o ignorante; no vértice da direita, o prepotente; na base, o burro. O triângulo oposto indica uma direção ascendente: no canto direito, a carne; no canto esquerdo, o mundo; e no ponto mais alto, o diabo. No meio dos dois triângulos, onde todas as linhas se encontram, há um buraco negro. O relativismo. O subjetivismo. A força que tudo devora e nada restitui em um estado reconhecível.

Vamos discutir cada aspecto.

A burrice, no hexagrama, não é falta de inteligência. Não se trata de uma restrição inerente ao nascimento, nem de uma deficiência na capacidade de processamento bruto. A falta de inteligência aqui é, na verdade, teimosia. É o encerramento deliberado da mente em relação à evidência. O burro teimoso é o tipo de burro que bate de frente com a realidade e culpa a realidade pelo porrada. Que prefere afundar com suas crenças a reconhecer que precisa ajustar seu caminho. Que consome toda a sua energia mental não para compreender as situações, mas para criar explicações que evitem a necessidade de mudar suas crenças atuais. É a inteligência aprisionada pelo orgulho, utilizada para sustentar uma falsidade que preserve o ego da necessidade de enfrentar a realidade de que cometeu um erro. Há, sim, um esforço mental, por vezes considerável, mas ele é todo voltado para a autoproteção e não para adquirir conhecimento.

Prepotência é a hybris clássica, a pecaminosidade dos gregos, o orgulho que antecede a queda, segundo a tragédia ática e a tradição bíblica. O arrogante se acha detentor de uma superioridade intelectual que jamais obteve. Ele se posiciona acima da Tradição, do Logos e do entendimento comum que foi construído ao longo de séculos através de uma cuidadosa acumulação de sabedoria testada. Ele acredita que sua intuição passageira é superior a milênios de reflexão cuidadosa. Para ele, a realidade é um incômodo que deve se submeter à sua genialidade proclamada. O que faz com que o prepotente seja incapaz de aprender de verdade é o fato de que aprender implica reconhecer que existe algo que você não sabe, e para o prepotente, admitir a ignorância é uma derrota intolerável. Portanto, ele cessa o aprendizado. Ele não tem a consciência de que está parado.

A ignorância, no canto esquerdo, não é apenas a falta de conhecimento. É desconhecer a própria ignorância e preencher esse vazio com pedaços de informação mal assimilada que geram uma falsa sensação de capacidade. A pessoa que se vale do hexagrama ignora profundamente os conceitos que utiliza como armas retóricas, sem nunca ter realmente compreendido a essência desses conceitos. Ele tem conhecimento suficiente para empregar o vocabulário, mas não o bastante para compreender o que esse vocabulário descreve. Cobra um vácuo profundo com uma camada de sofisticação que disfarça tudo. Na Metafísica, Aristóteles observou que o maior equívoco não reside na falta de conhecimento, mas sim na convicção de que aquilo que se supõe saber é a referência definitiva para tudo que existe. O ignorante do hexagrama não conseguiu nem mesmo obter uma medida incorreta: ele possui uma medida que apenas imaginou e a declarou como sendo a definitiva.

Comecemos pelo triângulo superior.

O diabo, situado na extremidade do triângulo superior, simboliza o poder do engano que persuade o ser humano a acreditar que pode ser um deus por si mesmo e o único responsável por determinar o que é bom ou mau. Quando o diabo é colocado em perspectiva, quando ele deixa de ser o adversário da alma e se transforma em um ícone de rebeldia indispensável ou um agente de estímulo intelectual libertador, o primário pacto gnóstico se concretiza: a substituição da verdade objetiva pela promessa de uma sabedoria oculta que justifica qualquer tendência, por mais reprovável que seja. A partir desse ponto, qualquer coisa pode ser rotulada como espiritualidade, qualquer impulso pode ser denominado gnose e qualquer desejo pode ser elevado ao status de revelação pessoal.

No canto superior esquerdo, o mundo representa a veneração das modas intelectuais, das pautas políticas e do êxito material como os principais padrões de moralidade. A pessoa deixa de procurar a aceitação do Logos e passa a procurar a aprovação da multidão. Troca a ética atemporal pelo reconhecimento momentâneo e pelo lucro instantâneo. No hexagrama, o mundo representa o contexto que recompensa o idiota funcional, desde que ele atue como uma engrenagem submissa no mercado de opiniões sem importância. Não é necessário estar correto, mas sim estar em sintonia. O alinhamento é recompensado, enquanto o desvio resulta em penalização. O funcionamento do sistema está em ordem.

A carne, no canto inferior direito, representa a tirania dos instintos elevada a um dogma. A diminuição do ser humano a meros instintos, com o desejo, seja ele sexual, monetário ou de domínio, sendo considerado indiscutível. Sem a orientação da razão e da lei natural, a carne demanda que a realidade se transforme em um verdadeiro parque de diversões para seus instintos, convertendo o vício em uma marca de identidade e a libertinagem em um ato de libertação. O corpo deixa de ser a morada da alma e passa a ser a cela de um intelecto que renunciou ao seu papel de governante. Quando o intelecto renuncia ao controle, é o desejo que assume o comando. O desejo não se baseia em critérios de verdade, mas apenas em critérios de satisfação.

No meio de toda essa situação, está o buraco negro.

O relativismo atua como um anestésico, impedindo que a pessoa sinta a dor de suas próprias contradições. Ele opera ao afirmar que não há uma verdade objetiva, apenas diferentes pontos de vista, onde cada perspectiva é igualmente válida, o que significa que nenhuma delas pode avaliar a outra. Isso elimina a hierarquia do ser, possibilitando que a ignorância e a arrogância se juntem ao diabo e à carne sem provocar um conflito de consciência. O relativismo é o que sustenta o hexagrama em sua posição ereta. Sem ele, seria impossível conviver com as contradições internas. Com ele, tudo se torna viável, pois nada é realmente considerado errado.

Também presente, como combustível do sistema, está o relativismo: a gnose psicológica: o processo em que a imaginação absoluta substitui o intelecto do indivíduo, criando mundos paralelos para escapar do julgamento da realidade. Ele deixa de questionar a realidade do mundo e passa a indagar sobre como ele acredita que o mundo deveria ser. Cria cultos, crenças e teorias conspiratórias a partir dos seus medos e das suas vaidades. É como se estivesse radiante, mesmo mergulhando nas profundezas da escuridão de sua mente.

A questão que esse mecanismo suscita é: qual é a razão pela qual a falta de inteligência, a arrogância e a ignorância levam inevitavelmente ao relativismo? A explicação é clara e direta: é uma questão de sobrevivência do ego.

O burro obstinado requer o relativismo para que sua teimosia em errar não seja considerada uma anomalia. Se não há um erro definitivo, e cada posição é apenas uma perspectiva entre muitas, então ele não pode ser considerado derrotado na discussão com os fatos. Ele apenas vê as coisas de outra maneira. O relativismo converte uma derrota no plano intelectual em um empate no campo da filosofia, permitindo que o teimoso se mantenha nessa ilusão de igualdade por um tempo indefinido.

O arrogante acredita ser o núcleo do universo. Se Ele é o centro, a verdade não pode ser algo fora dEle que o condene ou o restrinja. Ele emprega o relativismo para afirmar que a verdade é um desdobramento da vontade em si. Se ele afirma que é, então deve ser. O relativismo é a vara com a qual o arrogante controla seu império de fantasias. Sem o relativismo, a realidade se tornaria uma autoridade superior a ele, e essa ideia é intolerável para aqueles que se proclamaram a suprema autoridade.

O leigo que acredita saber não tolera a hierarquia do saber. Para ele, ouvir algo que contraria suas crenças, mesmo que vindo de um especialista ou de uma tradição antiga, é como um ataque pessoal. Ele torna o conhecimento menos absoluto para que todos fiquem em um nível inferior: sua compreensão é apenas uma história, minha perspectiva é outra história, e ambas têm o mesmo valor. O relativismo serve como abrigo para o ignorante que deseja carregar a autoridade de um sábio sem ter se dedicado ao esforço do aprendizado.

Quando esses três vícios se tornam firmes, eles pavimentam o caminho para o triângulo superior. A carne e o mundo proporcionam recompensas rápidas: dinheiro fácil, prazer sem obrigações e a admiração das multidões que veem em seus semelhantes um reflexo de seu próprio conforto intelectual. O diabo apresenta a justificativa metafísica: você tem a liberdade de estabelecer sua própria moral e não precisa responder a nenhuma autoridade superior a você. O relativismo atua como o ponto de fusão, o componente que possibilita ao indivíduo ser tolo, arrogante e desinformado, ao mesmo tempo em que se entrega aos prazeres da carne e do mundo, sem se importar com a gravidade do erro ou do pecado.

O hexagrama é concluído.

Agora o sujeito é prisioneiro de sua própria mente. Nomeia sua cadeia de liberdade e sua inconsciência de iluminação. Não é necessário apresentar justificativas para permanecer na situação atual; é necessária uma intervenção da realidade, que frequentemente se manifesta como um desastre que sua imaginação não consegue mais ocultar. O maior calote. Quando a realidade, que não leu seus manifestos nem participou de seus seminários ideológicos, surge para exigir o que foi acumulado.

O idiota funcional não é uma pessoa incapaz de pensar. É uma pessoa que se preocupa excessivamente com situações que não são reais, enquanto a realidade, de forma tranquila e implacável, aguarda o momento de cobrar. Paulo Freire, um dos teóricos mais renomados dessa forma de pensamento que foi elevada à categoria de método pedagógico, defendia precisamente isso: que não é necessário ter uma base literária, formação acadêmica ou qualquer tipo de conhecimento prévio para formar uma opinião sobre qualquer assunto. Sua experiência é suficiente. A experiência que você tem é o bastante. Você já possui, apenas por existir, o saber suficiente para julgar o mundo.

Isso é um verdadeiro absurdo em termos técnicos. Não se trata de exagero nem de crítica política, mas de um absurdo que vai contra as condições fundamentais para o funcionamento de qualquer epistemologia. Não é possível opinar de forma embasada sobre um assunto que não se conhece. É possível expressar opiniões, e qualquer pessoa pode fazê-lo, mas quando se trata de competência, de estar bem informada ou de ter relevância, isso já não é o caso. Aquele indivíduo que leu apenas um livro sobre um tema e acredita que pode opinar sobre ele eternamente é exatamente esse tipo de tolo. Além de descrever esse idiota, Paulo Freire também o exalta e orienta para que ele se reproduza.

A distinção entre aqueles que pensam e aqueles que deliram reside no fato de que os pensantes empregam o intelecto para controlar a imaginação, enquanto os que deliram utilizam a imaginação para substituir o intelecto. O intelecto examina a realidade e percebe que aquilo é o que é. A imaginação, ao assumir o controle, captura a realidade, a interpreta de maneira criativa e retorna essa interpretação ao intelecto como se fosse um fato objetivo. Um intelecto que é controlado pela imaginação não examina a realidade; ele gera ficção a partir da realidade e a considera como se fosse uma análise. É precisamente isso que Paulo Freire ensina como abordagem pedagógica. Ele não está incorreto em seus detalhes. A estrutura toda é revertida.

A verdade, ao final de toda essa situação, não se estabelece com gritos. Ela apenas existe. O imbecil avança. O êxtase acaba. A fé política vai, o mentor vai, o governo vai, a ideologia vai. A realidade continua. Ela não precisou vencer nenhum debate. Ela apenas teve que esperar.

Há uma tentação analítica bastante comum que deve ser evitada antes de se fazer qualquer distinção: a tentação de generalizar e agrupar tudo. É isso que fazem aqueles que não conseguem pensar com clareza, e é precisamente essa falta de clareza que estamos buscando corrigir neste contexto. O porco, a pessoa que se considera superior por suas próprias ideias e o verdadeiro idiota são três tipos distintos, cada um com seus próprios mecanismos, motivações e consequências. Equivalente a cometer o mesmo engano de rotular de louco qualquer indivíduo que tenha uma opinião divergente, ou de considerar inteligente qualquer pessoa que empregue palavras extensas. A falta de precisão no diagnóstico não é algo que se possa considerar inocente. Ela elabora tratamentos inadequados e, o que é ainda mais grave, isenta de culpa aqueles que deveriam ser responsabilizados.

Comecemos pelo mais elementar, que é o tolo, pois ele representa a base, o alicerce do problema, o personagem cuja presença é essencial para que os outros dois tenham tanto um público quanto a motivação necessária.

O termo idiota, em seu significado grego mais rigoroso, refere-se ao idiotes, que era a palavra utilizada pelos gregos para designar aquele que apenas se ocupava de seus próprios assuntos privados, que não se envolvia na vida pública e que não tinha consciência dos eventos que ocorriam ao seu redor. O idiotes não era, de maneira alguma, tolo no sentido biológico. Ele estava apenas ausente. Fora da pólis, fora da discussão, fora da responsabilidade cívica de refletir. Atualmente, o idiota se transformou em algo um pouco distinto, mas estruturalmente semelhante: é a pessoa que não consegue processar informações. Que não possui malícia suficiente para ser considerado porco, nem a preguiça necessária para se tornar vadia, e que também não se dedica a nenhuma gnose particular. Ele simplesmente não aparece. A cabeça está presente, o crânio existe, mas o residente é ocasional.

O idiota do hexagrama, ou seja, a confluência de tolice, arrogância e ignorância que mencionei anteriormente, representa o idiota plenamente formado, já dotado de suas três dimensões em plena atividade. No entanto, o verdadeiro idiota, o idiota clássico, antes de qualquer tipo de combinação, é bem mais simples do que isso: é aquele indivíduo que testemunhou uma velhinha sendo assaltada e morta na rua e saiu com o argumento que mencionei como exemplo, afirmando que o bandido era um coitadinho faminto, sem se dar ao trabalho de investigar nada ou de verificar que, na verdade, esse criminoso já estava ameaçando toda a vizinhança há meses e que não estava passando fome, mas sim usando drogas. O estúpido não chegou a essa conclusão por uma forte convicção ideológica. Ele veio por ser o trajeto mais rápido. Porque demandou o mínimo de esforço mental possível. Porque alguém que ele respeita minimamente comentou isso em uma ocasião, ou porque leu em algum lugar, e ele assimilou sem questionar, sem contestar, sem fazer o menor esforço para verificar a veracidade. O tolo não é um crente devoto. Trata-se de um repetidor que não tem funcionamento ativo. Ele não apoia a ideia, apenas a ocupa, como alguém que dorme no sofá de outra pessoa sem pagar aluguel e sem fazer nenhuma alteração.

Paulo Freire, a quem já me referi como o teórico dessa tolice que foi elevada à categoria de método educacional, ilustra perfeitamente o que um indivíduo sem discernimento é capaz de gerar quando consegue se tornar parte das instituições. O educador freireano, que é o resultado típico do sistema que Paulo Freire contribuiu para desenvolver, não alcançou suas convicções por meio de um estudo aprofundado, nem através do confronto com a tradição intelectual oposta, ou ainda pela verificação das evidências históricas que demonstram o que ocorre quando essa abordagem pedagógica é aplicada em grande escala. Ele veio por meio da absorção. Esteve imerso em um contexto onde tais ideias eram consideradas verdadeiras e indiscutíveis, onde criticar Freire era visto como uma falta de caráter, onde a experiência vivida era vista como conhecimento suficiente, e simplesmente permitiu que tudo isso fosse absorvido sem qualquer questionamento interno. O idiota freireano não é maligno.

É apenas um vácuo sem oposição intelectual. Ele sustenta suas crenças porque nunca encontrou uma razão convincente para duvidar delas, e não teve essa razão porque nunca se dedicou a considerar o ponto de vista oposto de forma séria, e isso não aconteceu porque o sistema de ensino baseado em Freire não o exige. Requer experiência. Ele possui experiência, assim como qualquer pessoa, mesmo aqueles que nunca leram um livro.

Ser a criadora das suas próprias ideias é algo completamente diferente. E é crucial ser preciso aqui, pois misturar a vadia com o idiota é isentá-la de uma responsabilidade que é evidente que ela possui.

O tolo não reflete. A vagabunda reflete, mas se nega a arcar com o preço do raciocínio. Entre essas duas posições, há uma grande disparidade moral. O idiota se assemelha a alguém que, por nunca ter tido acesso a uma piscina, nunca aprendeu a nadar. Uma vadia é uma pessoa que aprendeu a nadar, está ciente de que possui essa habilidade e, ainda assim, opta por se afogar lentamente, pois nadar requer esforço. É uma opção. Trata-se de uma preguiça ativa, que é um tipo de preguiça mais séria do que a passiva, pois requer a consciência do que está sendo evitado.

A imagem que mais simboliza a vadia é a das antolhas, aquelas proteção colocadas nos cavalos para que eles não consigam olhar para os lados e não se perturbem com o que está ao redor de seu trajeto. A própria criadora de suas ideias se autocoloca antoilhas. Ela não pode deixar de observar o que acontece ao seu redor, mas optou por não fazê-lo, pois isso implicaria em questionar suas crenças, e fazer isso demandaria esforço, algo que, por definição, a preguiça evita a todo custo. Então, ela segue em frente, com a visão lateral intencionalmente obstruída, chamando isso de foco, convicção ou lealdade às próprias ideias, quando, na realidade, trata-se apenas de preguiça disfarçada de boa publicidade.

Observe como isso se manifesta nas teorias da conspiração, que é onde a diferença entre vadia e porco se torna particularmente clara. O caso Epstein, que atualmente possui mais de três milhões de documentos tornados públicos, é uma verdadeira conspiração. Existem provas, investigações, condenações e documentação verificável que evidenciam ligações ilegais entre indivíduos influentes e uma rede de tráfico sexual. Quem se dedicou a isso, quem seguiu a trilha dos documentos, quem leu as investigações, quem confrontou as informações que podem ser verificadas, chegou a uma conclusão sólida. Isso não é loucura, mas sim jornalismo investigativo que traz resultados. Conspirações ocorrem. Há redes de poder ilegítimo. Agências de espionagem já realizaram golpes no passado, e isso já foi registrado na história.

No entanto, a falta de iniciativa em relação às próprias ideias não permite que isso aconteça. Ela não faz acompanhamento, não confere, não compara fontes, não verifica a realidade da suposição. Ela descobre uma teoria que a satisfaz, que se alinha com sua visão de mundo existente, que valida suas suspeitas não confirmadas, e a aceita de braços abertos. Não com a devoção religiosa do porco, nem com a intensidade de fé do militante político. Com a comodidade de quem descobriu um sofá acolhedor e optou por não se mover. A vadia confia na Nova Ordem Mundial satânica dos ocultistas que controlam tudo, não porque tenha feito investigações e encontrado provas concretas, mas sim porque essa noção é ampla o suficiente para abranger tudo, sem a necessidade de que ela se preocupe em pensar em detalhes específicos. É a facilidade da narrativa global que dispensa o esforço do pormenor comprovável.

A distinção entre a conspiração de Epstein e a ideia da Nova Ordem Mundial com rituais satânicos não reside na intensidade, mas sim na natureza. A primeira deixou evidências que podem ser rastreadas. Documentos, depoimentos, ações judiciais, dinheiro monitorado, rotas mapeadas. A segunda não produz qualquer evidência, pois foi elaborada exatamente para isso, o que é excessivamente conveniente para se considerar uma abordagem intelectualmente honesta. Quando uma teoria se torna resistente a qualquer evidência que a refute, e qualquer informação que contraria a teoria pode ser interpretada como parte da conspiração que a teoria descreve, você deixou o domínio do raciocínio e entrou no reino da gnose. A vagabunda reside de forma tranquila nesse território, pois não é necessário passar por nenhuma checagem. No local, o conforto é assegurado.

A vagabunda vende suas idéias à prestações no sentido técnico da metáfora: ela as dá de graça, sem compromisso, sem o preço que custaria se as levasse a sério. Uma prostituta de ideias não precisa se responsabilizar pelas repercussões do que defende, uma vez que nunca investiu o suficiente para ter uma verdadeira responsabilidade. Ela adotou a ideia de outra pessoa, por preguiça de desenvolver uma própria, e agora a compartilha como se fosse algo que não teve nenhum custo. Sem compromissos a longo prazo. Se a proposta se revelar inviável, ela muda. Se aparecer outra que ofereça o mesmo conforto, ela se muda. O que caracteriza a vadia não é a ideia particular que ela apoia, mas a conexão de baixo custo que ela estabelece com qualquer conceito que defenda.

O porco é algo totalmente distinto. Compreender essa distinção é fundamental para entender por que o porco é considerado o mais ameaçador dos três.

O tolo não reflete. A mulher tem uma mentalidade que valoriza pouco. O porco reflete com todo o seu poder, mas apenas a favor de um conhecimento que transcende qualquer forma de verificação. O porco não é indolente. Pelo contrário: é incansável. Ele irá investigar, discutir, elaborar argumentos, referenciar fontes e reunir evidências, mas tudo isso dentro de um sistema fechado que não permite a entrada de nenhuma evidência externa perturbadora de forma efetiva. É semelhante a um reator nuclear que gera uma quantidade imensa de energia, mas que se encontra dentro de um invólucro que não pode ser aberto, pois o que existe em seu interior aniquilariam qualquer tentativa de investigar o núcleo a partir de fora.

O porco representa o progressista identitário que apoia o comunismo não por ter lido um livro a respeito, mas sim por ter lido vinte, todos dentro da mesma perspectiva, todos reforçando a mesma visão de mundo, todos impermeáveis a qualquer contra-argumento devido à definição interna do sistema. O porco representa o islâmico radical que não defende uma ideia por interesse pessoal, mas sim uma estrutura de salvação eterna que justifica a morte, incluindo a sua própria, se necessário, assim como a de qualquer um que se oponha a essa crença. O porco representa o ativista das MAPs que não se contenta em apenas repetir o que ouviu, mas que desenvolveu uma complexa fundamentação filosófica que defende a liberação da pedofilia como uma questão de direitos civis ainda não reconhecidos por uma sociedade que permanece atrasada.

O que caracteriza o porco não é a paixão ardente da defesa, ainda que ela seja sempre intensa. O que caracteriza isso é a base gnóstica do comprometimento. Ele pensa que possui um conhecimento que os outros não percebem, que o mundo físico, como aparece, é uma deformação do mundo ideal que ele apoia, e que qualquer impedimento para a concretização desse mundo ideal é um adversário que precisa ser eliminado. Voegelin captura isso de maneira precisa ao afirmar que essas religiões políticas aplicam na realidade o método teológico, utilizando a estrutura do paraíso e do pecado e adaptando-a ao vocabulário do proletariado e da burguesia, do puro e do contaminado, do despertado e do alienado. O porco não está apoiando uma política. Está promovendo a salvação. Aqueles que apoiam a salvação não fazem concessões.

É por essa razão que o porco chega a perder a vida em defesa de suas crenças, como mencionei no começo deste caminho. Não por bravura, mas porque, para ele, o preço da rendição é permanente, é a traição do que é sagrado, é a perda do paraíso que ele se comprometeu a si mesmo que ocorrerá. O tolo não morre por nada, pois não tem crenças suficientemente profundas. A prostituta não chega a morrer por nenhuma razão, pois as crenças que apoia não custaram o suficiente para justificar o sacrifício máximo. O porco morre pois o sistema de crença em que vive exige esse sacrifício como um símbolo de pureza.

A comparação entre o Islã e o progressismo se alinha de uma maneira que é difícil de ignorar. O grupo islâmico extremista que decapita cristãos em uma certa região do mundo não o faz por falta de esforço ou por não ter pensado sobre isso. Está ocorrendo dentro de uma estrutura teológica e política que oferece uma justificativa total para o ato. O progressista que acusa, anula e arruína a reputação daqueles que desafiam sua proposta identitária não age assim por preguiça ou por falta de capacidade de raciocínio. Está ocorrendo dentro de um sistema de salvação política que oferece uma justificativa total para o linchamento. As maneiras são distintas. O funcionamento interno é o mesmo.
Portanto, para aqueles que estão buscando compreender a distinção prática entre os três, o teste mais ágil é o seguinte: apresente um argumento oposto a cada um deles e veja como reagem.

Perante o tolo, a refutação não provoca grande reação. Ele vai aceitar, desviar o tema ou afirmar que não tem certeza. Não existe uma resistência estruturada, pois não há um sistema de crenças coeso para se opor. O idiota é permeável não porque tenha uma grande inteligência, mas porque não possui conteúdo suficiente para se opor. É como tentar empurrar uma parede de espuma. Não causa dor, não luta, mas também não progride.

Frente à vagabunda, o contra-argumento causa um certo desconforto e, na maioria das vezes, evasão. Ela mudará de tema, minimizará a situação e dirá que são apenas opiniões, que cada pessoa tem a sua, e que não vale a pena debater esses assuntos. O que ela não fará é lidar com o argumento de maneira séria, pois isso demandaria um esforço que a preguiça, por sua natureza, sempre evita. Se o argumento for realmente inquietante, ela pode acabar mudando de opinião, mas provavelmente escolherá outra opção igualmente barata, com a mesma facilidade de quem muda de canal. Não se tratou de um crescimento, mas sim de uma troca de uma conveniência por outra.

Perante o porco, a contrariedade provoca um ataque. Não discuta, ataque. Pois, para o porco, qualquer dúvida em relação à gnose é considerada heresia, e heresia requer uma resposta punitiva. Você critica o socialismo e é rotulado como fascista. Se você critica a agenda identitária, se torna um opressor. Você desafia a narrativa islâmica radical e se torna um infiel. O nome pode ser alterado, mas o funcionamento permanece o mesmo: o porco atribui ao seu interlocutor aquilo que ele próprio é, transfere para o outro a culpa que não consegue reconhecer em si mesmo e utiliza essa acusação para silenciar a discussão antes que a verdade tenha a oportunidade de se manifestar.

Porque, se a realidade se manifestasse com intensidade suficiente, ela aniquilaria o sistema. O sistema não pode ser eliminado, pois ele representa a salvação.

O que faz com que essa diferença seja não só intrigante, mas também necessária, é que misturar os três resulta em respostas incorretas para cada um deles. Tratar o tolo como se fosse um porco é uma abordagem injusta e ineficaz, pois ele não possui o mesmo comprometimento gnóstico que o porco, o que significa que pode ser impactado positivamente com paciência e exposição contínua à realidade. Tratar uma mulher de comportamento promíscuo como se fosse estúpida é, na verdade, isentá-la de uma responsabilidade que possui, uma vez que ela optou pela preguiça, o que representa uma escolha moral distinta da falta de capacidade. Subestimar o problema ao tratar o porco como uma vadia ou um idiota é um erro que pode sair caro, pois o porco não se resolve simplesmente com um argumento bem formulado ou um texto bem elaborado. O porco encontra solução no cataclismo que a realidade, em sua sabedoria, envia para exigir o pagamento daquilo que o sistema gnóstico havia prometido, mas falhou em cumprir.

A distinção entre os três reside, essencialmente, na quantidade de si mesmo que cada um deles dedicou à ilusão. O tolo não fez nenhum investimento. A vagabunda apostou baixo, só no conforto da adesão fácil. O porco apostou tudo, a identidade toda, o sentido de vida inteiro, a estrutura de salvação que confere lógica a cada escolha que fez até agora. É por isso que o imbecil pode ser resgatado pela educação, a pessoa desprezível pode ser salva através do desconforto, e o porco só encontra salvação em meio a uma catástrofe. Ou ele não é salvo, e então você tem uma figura histórica, um mártir da gnose que faleceu acreditando firmemente que a realidade estava equivocada.

A verdade, como já mencionei, não tem consideração. Ela continua. Espera um momento. Cobra.

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