Porque Sentir Deus é Uma Loucura

Havia uma lacuna no conjunto de termos que descrevem os sinais verificáveis que ocorrem quando o humano atua como ponto de manifestação do divino, como teofania, teurgia e sacramento. "Sintomata" surge como esse conceito: a gramática dos sintomas do sagrado no corpo, no símbolo e nos acontecimentos, diferenciando uma experiência espiritual genuína de simples emoção ou insanidade.

Gabriel G. Oliveira

3/29/202622 min read

Por que isso é tão estranho para precisa de um novo termo?

A ideia de que alguém "sentiu Deus" é uma das declarações mais comuns e menos questionadas. É curioso observar que, quanto mais uma pessoa insiste em ter tido essa experiência, menos reflexão parece ter dedicado ao que realmente está afirmando. Se você levar isso minimamente a sério, a afirmação não é trivial: implica que um ser humano, com corpo, sistema nervoso, memória e imaginação, conseguiu perceber diretamente algo que, por definição, não é corpo, não é objeto e não pode ser reduzido a nada que a mente consiga conceber.

É nesse momento que as coisas começam a desmoronar.

A questão não é a experiência em si; as pessoas tremem, choram, entram em êxtase, sentem presença, se arrepiam e perdem o controle do corpo — isso é inegável. O problema está na interpretação apressada que vem a seguir, como se a mudança de sentir algo para declarar “isso é Deus” fosse um passo natural. Na verdade, é um salto cego, cheio de suposições que ninguém se esforça para investigar.

Séculos atrás, Eckhart já havia desconstruído essa ideia com uma declaração que ainda é vista como ofensiva para os fervorosos religiosos: “tudo o que pode ser nomeado, sentido ou imaginado não é Deus, mas apenas uma imagem”. E não há como evitar isso sem fazer malabarismo mental. Se você sentiu, isso passou pelos seus sentidos ou pela sua psique; ao passar por esses filtros, já foi interpretado, processado e moldado, ou seja, não é o que você diz ser, mas o que você consegue suportar.

O corpo não tem órgão para perceber o espiritual; isso não é uma opinião, mas uma estrutura. Você percebe luz, ouve sons, sente pressão, calor, dor e prazer. Nenhum desses canais capta "espírito". Portanto, quando alguém relata ter sentido um anjo, um demônio ou até mesmo Deus, o que está sendo descrito não é um contato direto, mas uma vivência interna que posteriormente recebeu uma denominação religiosa.

E aqui aparece um detalhe que desmantela metade das convicções populares: o nome muda conforme o contexto.

William James fez essa afirmação sem criticar ninguém: “as experiências religiosas são moldadas pela tradição em que ocorrem”. O católico sente a presença do Espírito Santo, o umbandista se liga a um caboclo, o pagão venera uma deusa, e todos estão convencidos de que estão experimentando algo autêntico. Contudo, no sentido literal, não é viável que todos estejam corretos simultaneamente. Logo, o que se mantém constante não é o objeto da sensação, mas a estrutura da experiência.

Dito de outra forma, o fenômeno é humano, porém a interpretação é cultural.

Lévi-Strauss foi ainda mais explícito ao tratar da feitiçaria: o poder não está em uma entidade objetiva que invade o corpo, mas no que ele chamou de eficácia simbólica. A crença molda a experiência, e o corpo responde como se fosse verdadeiro. E, ao se analisar de perto, é precisamente isso que acontece nos rituais de incorporação: ninguém “vê” a entidade entrando; há apenas uma mudança gradual no comportamento, postura, voz e ritmo corporal. O corpo tem um papel, mas é um papel que foi adquirido.

Isso não diminui a intensidade da experiência; pelo contrário, esclarece o motivo de sua persuasão.

No Candomblé, na Umbanda, na Quimbanda e em práticas pagãs, a chamada "descida" não é percebida como um evento físico tangível, como se alguém estivesse atravessando uma porta invisível. Essa mudança no estado do médium segue padrões reconhecíveis, identificáveis e quase coreografados. A pessoa não descreve a entrada como percepção clara; ela passa a agir como se algo tivesse tomado o lugar.

E esse "como se" é fundamental.

Quando a neurociência é citada, a situação se torna ainda mais desconfortável e menos mística. Ao examinar essas vivências, Newberg mostra que estados de "união com o divino" acontecem juntamente com alterações específicas no cérebro, especialmente no lobo temporal e nos circuitos ligados à emoção e recompensa. Não é um detector de Deus; é que certas configurações neurológicas criam a sensação de presença, unidade e transcendência.

A experiência é genuína. O objeto mencionado não necessariamente.

E aqui surge o aspecto que poucos estão prontos para encarar: o cristianismo tradicional nunca assegurou esse tipo de experiência sensorial direta. Pelo contrário, ele sempre desconfiou dela. Isso se deve ao fato de que, se Deus é transcendente, absoluto e não pode ser reduzido ao mundo físico, a ideia de "Deus entrando no corpo" é teologicamente errônea antes mesmo de se tornar uma experiência.

O paganismo aborda isso de forma simples, ao empregar deuses imanentes, que são forças inerentes à natureza e, portanto, podem se manifestar fisicamente. Isso está de acordo com a lógica interna dessas religiões. No entanto, ao tentar aplicar isso ao cristianismo, é como tentar colocar água em um recipiente inadequado; acabará transbordando, distorcendo ou se transformando em algo diferente.

E é exatamente isso que se constata ao examinar alguns movimentos contemporâneos.

O pentecostalismo e o neopentecostalismo empregam essas manifestações de transe, catarse coletiva e incorporação simbólica, utilizando uma linguagem bíblica para revesti-las. Falar em línguas, cair, tremer, gritar, expulsar demônios: nada disso é inédito ou particular. Ao comparar práticas esotéricas ou afro-religiosas, a semelhança é estrutural, não apenas superficial.

O vocabulário muda, mas o mecanismo continua o mesmo.

A glossolalia, por exemplo, não é um fenômeno único; existem paralelos claros em diversos contextos rituais nos quais o transe vocal se manifesta. As "quedas no Espírito" funcionam como uma liberação emocional coletiva, induzida pelo ritmo, expectativa e ambiente. Além disso, quando examinado de maneira objetiva, o exorcismo demonstra padrões encontrados em culturas que nunca tiveram contato com a Bíblia.

Interpretar isso como uma "ação direta de Deus" é, no mínimo, uma explicação conveniente.

Eckhart voltaria com a mesma impaciência de antes: se você sente, não é Deus, é você sentindo algo. E isso não é uma ofensa à fé, mas uma correção de precisão. Misturar o que acontece na mente com o Absoluto não representa uma espiritualidade profunda, mas sim uma ausência de discernimento.

Em última análise, o que as pessoas chamam de "sentir Deus" é uma mistura intensa de emoção, simbolismo, cultura e atividade cerebral altamente intensa. É persuasoso, às vezes transformador, às vezes arriscado, mas não representa uma percepção direta do divino.

Trata-se do corpo simbolizando de maneira dramática o que a mente aprendeu a considerar sagrado.

E talvez a atitude mais sincera que alguém possa adotar não seja negar a experiência, mas parar de falsear o que ela de fato é. Isso ocorre porque, ao passo que a pessoa afirma ter alcançado o absoluto, ela não consegue perceber que, no máximo, está apenas tocando sua própria capacidade de crença.

A questão começa exatamente onde todos pensam que termina: quando alguém diz "eu senti Deus" e acha que isso é o bastante. Não resolve nada, apenas desloca a questão para um lugar mais conveniente, onde ninguém precisa explicar o que está dizendo. Porque todos sentem. A questão é outra. O problema aparece quando o que acontece não se encaixa na palavra sentir, mas também não pode ser simplesmente descartado como uma alucinação sem que a realidade seja alterada para fazê-la parecer falsa.

É nesse ponto que a conversa deixa de ser devocional e passa a ser desconfortável.

Isso porque, ao acompanhar com sinceridade, aparece um fenômeno que não se encaixa nem no sentimentalismo religioso superficial nem na explicação simplista de “é apenas o cérebro”. Não por falta de envolvimento do cérebro ele está, sem dúvida mas porque reduzir tudo a isso parece tão preguiçoso quanto atribuir qualquer arrepio a um milagre.

E o curioso é que isso se apresenta sempre da mesma maneira: não como uma sensação isolada, mas como um conjunto.

Não é somente a pessoa que se transforma. A resposta não se restringe apenas ao corpo. A reorganização vai além da linguagem. A combinação simultânea de todos esses elementos cria uma espécie de coerência estranha, que é difícil de ignorar e ainda mais desafiadora de explicar sem recorrer a extremos. A pessoa não apenas vivencia uma sensação; ela também começa a se comportar de maneira diferente, a se expressar de forma única e a navegar por um campo simbólico que parece ser mais denso do que o normal.

E isso começa a se tornar incômodo porque não se pode chamar de qualquer coisa.

Se fosse só emoção, não teria longevidade. Se fosse apenas imaginação, não deixaria marcas. Se fosse apenas histeria coletiva, não exibiria uma estrutura recorrente além do contexto imediato. No entanto, em algumas situações, o que se manifesta apresenta persistência, padrão e consequência. Não se refere apenas ao "interior" da pessoa. Há algo que transborda.

Nesse momento, a linguagem começa a falhar.

Pois tudo o que possuímos são palavras que capturam partes do fenômeno e fingem ter compreendido o todo. Quando acontece algo mais cerimonial, é denominado incorporação. Quando acontece em um ambiente cristão, torna-se "graça", "unção" ou "ação do Espírito". Quando visto de fora, passa a ser "transe", "dissociação" ou "estado alterado de consciência". Cada nome trata de quem está falando, ao invés de abordar o fenômeno em si.

E, nesse jogo, todos se enganam com elegância.

O religioso acredita que nomeou Deus. O cientista acredita que nomeou o cérebro. O antropólogo acredita que nomeou a cultura. E o fenômeno continua, passando por todos eles, sem se encaixar totalmente em nenhum. Isso deveria servir como um alerta, mas acabou se tornando comum.

O que emerge, portanto, não é uma solução inédita, mas uma nova exigência: parar de tratar tudo como equivalente.

Porque não funciona dessa maneira.

Existe uma diferença considerável entre um indivíduo em catarse coletiva, que reproduz padrões emocionais assimilados, e outro cuja experiência provoca reestruturações que escapam desse padrão. Há uma diferença entre alguém que interpreta qualquer coincidência como um sinal divino e alguém cuja ação começa a gerar resultados que outros também percebem, mesmo sem compartilhar dessa crença.

E essa diferença é bastante sutil para o vocabulário contemporâneo.

É nesse ponto que a situação começa a ficar verdadeiramente tensa. Isso acontece porque, sem um termo para esse meio-termo, a tendência é sempre escolher os dois extremos mais simples: ou tudo é manifestação divina ou tudo é ilusão psicológica. E, no fim das contas, ambos são apenas formas diferentes da mesma preguiça intelectual.

Um exagera, ao passo que o outro minimiza.

Nenhum dos dois observa com calma o que está acontecendo.

E, ao analisar cuidadosamente, emerge um padrão inquietante: certas experiências não podem ser reduzidas ao sentimento, mas também não se apresentam como uma percepção direta de algo transcendente. Elas ocupam um espaço intermediário, onde o humano parece ser o ponto de expressão de algo que não entende completamente, mas que também não pode simplesmente atribuir a um “outro” externo sem gerar distorções.

Trata-se de um ponto de discórdia.

E é nesse conflito que o pensamento começa a exigir precisão.

Pois, sem isso, qualquer análise será rasa. Conforme quem observa, a pessoa que passa por algo mais intenso é prontamente considerada santa ou doente. Em ambos os casos, o fenômeno real é substituído por uma designação tranquilizadora.

A teologia responde que é graça ou tentação. A psiquiatria justifica dizendo que é um transtorno ou surto. A cultura responde dizendo que é uma manifestação simbólica. E ninguém discute a questão central: o que de fato acontece quando esse conjunto de efeitos se manifesta?

Porque envolve mais do que apenas questões internas. Ademais, não se refere apenas a algo externo.

Isso se refere a uma configuração.

Um tipo de ambiente onde corpo, linguagem, símbolo e ação começam a operar em conjunto de maneira mais intensa, organizada ou ousada do que o comum. E o mais frustrante é que não se pode simplesmente ignorar isso como irrelevante sem prejudicar a experiência, mas também não se pode aceitar isso como “Deus em si” sem cair em uma ingenuidade grosseira.

Então, o que resta?

Ainda persiste o desconforto de admitir que falta uma palavra.

E isso pode parecer irrelevante até que você perceba o prejuízo causado pela sua falta. Pois, na ausência de um termo minimamente preciso, tudo tende a se dissolver nas categorias antigas, e o pensamento é conduzido de volta ao mesmo ciclo: emoção, interpretação, exagero, negação.

Trata-se de um circuito fechado.

E talvez o ponto mais sincero seja reconhecer que o equívoco não está apenas na teologia, na psicologia ou na religião popular. O problema está na linguagem que herdamos, que não foi concebida para lidar com esse tipo de fenômeno sem modificar algo no processo.


E enquanto isso não for tratado, a discussão não avançará.

Chamando de “sentir Deus” algo que transcende uma mera sensação e considerando como “ilusão” aquilo que, em certos casos, deixa marcas tão profundas que não podem ser descartadas com tanta facilidade.

É nesse breve, incômodo e inevitável período que o verdadeiro problema começa a se manifestar.

Demorei para perceber que o problema não era só teológico. Foi a era da linguagem. E isso pode parecer um detalhe até o momento em que você tenta descrever algo que tem certeza de estar percebendo, raciocinando e distinguindo, mas simplesmente não consegue encontrar a palavra adequada. A falta de termos não só torna a conversa mais difícil, como também prejudica o raciocínio. Metade dos problemas humanos surge quando tentamos encaixar a experiência em um vocabulário que não foi feito para ela. E foi exatamente isso que aconteceu aqui. Não estava tentando criar um perfume metafísico para impressionar ninguém. Eu estava tentando atribuir um vazio técnico. Uma falha considerável na linguagem.

O ponto de partida era simples, mas explosivo. Afirmar que alguém "sentiu Deus" e dizer que algo se manifestou de maneira tão palpável que a linguagem comum não consegue abarcar são duas coisas bem diferentes. Não estava me referindo a uma emoção genérica, nem a esse sentimentalismo religioso que faz as pessoas confundirem catarse com transcendência. Eu estava tentando isolar algo distinto. Algo mais severo. Mais frio. Mais suscetível à verificação. Não se refere ao sentimento psicológico de consolo, paz, arrepio ou entusiasmo que qualquer propaganda religiosa ou crise nervosa pode simular, mas à questão de quando o humano parece funcionar como um canal para uma operação que o transcende, mas que, ainda assim, deixa marcas no mundo.

A tradição tem mil palavras para as bordas, mas quase nenhuma para o centro. A hierofania é a manifestação do sagrado. A manifestação de Deus é chamada de teofania. O “in persona Christi” se revela quando o sacerdote desempenha seu papel na liturgia. Nas tradições afro-religiosas, o corpo é visto como um cavalo. Na linguagem mística, a pessoa se torna vaso, recipiente ou instrumento. A teurgia emerge no âmbito neoplatônico e hermético, sendo um conceito utilizado para descrever o operador que age em sintonia com o divino, em vez de violar a natureza como um jovem feiticeiro que tenta se fazer passar por demiurgo de bairro. Tudo isso tem um papel importante. Nada disso tem valor.

Não é eficaz, já que cada termo aborda uma parte e ignora o restante. Um faz referência ao evento. Outro do porta-voz. Outro aspecto do ritual. Outro da atividade. Outro aspecto da análise. E eu estava procurando precisamente o que estava entre essas partes, aquela região desconfortável onde a operação divina não pode ser reduzida nem ao rito, nem ao agente, nem ao signo isolado, nem ao simples discurso do observador. Faltava um termo para a marca complexa, simultânea, ambígua e verificável de algo que, mesmo sem ser percebido como fome ou tristeza, afeta o corpo, o gesto, a linguagem e a dinâmica dos eventos.

Foi nesse momento que a conversa começou a girar em torno de diversos nomes que, para ser honesto, são bastante apropriados para contextos específicos. Teóforo é eficiente para o portador. Teurgo é eficiente para o operador. Um signo atua como uma marca para uma realidade invisível. Em um sentido técnico mais profundo, o sacramento funciona como um sinal visível de uma graça que não pode ser vista. O discernimento é valioso para a interpretação externa desses sinais. A infusão é eficaz para transmitir conhecimento sem a necessidade de intermediação discursiva. A deificação, ou theosis, ocorre quando a tradição procura entender uma participação intensa no divino sem que haja uma fusão grosseira. Tudo isso é proveitoso. Contudo, foi precisamente esse excesso de utilidade parcial que destacou a necessidade principal.

Porque, fundamentalmente, o que eu buscava descrever não se restringia à manifestação de Deus, nem ao homem atuando como instrumento, nem ao efeito se revelando na matéria. Eu estava tentando nomear o grupo de sintomas disso. E eu uso "sintomático" de forma intencional, já que o sintoma é uma categoria única para lidar com o que não é explicitamente apresentado, mas que deixa indícios organizados. Um sintoma não é a causa do problema, mas também não é simplesmente uma ilusão. Ele simboliza o instante em que uma causa invisível se manifesta em uma superfície visível. Essa estrutura é muito mais eficiente do que se imagina para lidar com o problema.

Foi por esse motivo que o termo começou a aparecer quase que de forma espontânea, como uma necessidade lógica, e não por vaidade inventiva. Não me coloquei na posição de um alquimista da internet, inventando termos estranhos para parecer profundo. O termo surgiu porque a linguagem existente me conduziu até ele. Sem sintomas. E o que realmente importa para mim não é a aparência da cunhagem, mas o seu propósito. Sintomata é o termo utilizado para descrever o conjunto de sintomas verificáveis, corporais, simbólicos, operativos e reais que indicam que um indivíduo está servindo como ponto de manifestação de uma intervenção divina ou algo considerado sagrado em um contexto teológico específico.

O mais bonito é que ele organiza o que estava bagunçado. O teurgo passa a ser o agente. A teofania, o evento. O signo ou sacramento é a expressão sensível particular. E Sintomata, o campo sintomático integral. Não apenas um sinal, mas a própria lógica dos sinais. Não é apenas uma manifestação, mas o sistema que torna essa manifestação visível no corpo e no mundo. Ele funciona quase como uma gramática do atrito entre a eternidade e o tempo. E eu compreendo que isso pode soar exagerado, mas esse é exatamente o problema: quando a linguagem não retrata o fenômeno, a realidade parece exagerada.

O termo também oferece uma vantagem que considero fundamental: ele desvia a discussão do sentimentalismo superficial. Isso é de suma importância. Isso acontece porque, sempre que alguém fala em "sentir Deus", a cultura contemporânea, marcada pela preguiça e narcisismo, transforma isso imediatamente em uma expressão de emoções subjetivas. Paz interior, calor no peito, consolo, expansão, energia positiva esse zoológico completo de banalidades emocionais que o coach espiritual e o laboratório farmacêutico conseguem proporcionar, cada um a seu modo. No entanto, o que eu estava tentando pensar não se encaixava nisso. O ponto era precisamente o contrário: não poder vivenciar Deus como um objeto emocional comum e, ainda assim, notar no real certos efeitos, coerências, pressões, deslocamentos e indícios que apontam para uma operação além do comum.

Sintomata é útil pois desloca a atenção da fantasia confessional para a questão da manifestação verificável. Não se trata de provar a existência de Deus academicamente, nem de dar à mística um caráter científico apenas para que o positivista se sinta incluído. É necessário reconhecer que algumas tradições, ao longo dos séculos, se depararam com o mesmo desafio: como comunicar algo que não se restringe ao sentimento interno, mas também não se torna abstrato. O que fiz foi tentar dar um nome funcional a esse problema. Um nome que unisse sensação-limite, marca corporal, eficácia prática, reconfiguração simbólica e resultado visível.

Isso é relevante, pois o termo possibilita fazer distinções que, de outro modo, seriam confusas. Uma coisa é a pessoa entrar em um transe que foi socialmente aprendido. Outra questão é o indivíduo ser visto como um veículo ritual. Outra possibilidade é que ocorra um efeito simbólico relevante sem alteração factual. Outra é a propensão da imaginação religiosa de considerar qualquer coincidência como uma intervenção divina. Ademais, existe uma tradição que estabelece certos estados como a manifestação do divino. Sem um vocabulário apropriado, tudo isso acaba sendo confuso. O debate, pelo menos, ganha estrutura com um termo como Sintomata. A pergunta que se coloca é: "Essa pessoa sentiu Deus?" formulação quase ingênua e se torna “existe um campo sintomático específico, reiterável e discernível que a tradição, o corpo e o real identificam como sinal dessa manifestação?”.

E aqui surge uma consequência lógica significativa: se Sintomata é um conceito sólido, então religião, teologia, psiquiatria, antropologia e fenomenologia deixariam de agir como bêbados brigando na calçada. Hoje em dia, cada área se apropria de uma parte do fenômeno e ignora o restante. A psiquiatria utiliza a quebra de referência. A interpretação espiritual é adotada pela teologia. O contexto ritual é objeto de estudo da antropologia. A sociologia trata da função coletiva. Quando não está adormecida em um léxico alemão, a filosofia adota a forma do discurso. O que raramente se considera é a possibilidade de criar uma categoria intermediária, de interface ou de ligação. Sintomata seria útil para esse propósito.

E é precisamente por desempenhar o papel de intermediário que ele também provoca desconforto. Perturba porque afeta a comodidade de ambos os lados. Desestrutura a mente do religioso ingênuo que busca classificar qualquer sentimento intenso como uma manifestação divina. E desorganiza o materialista simplista, que busca rotular qualquer manifestação do sagrado como delírio, neuroquímica ou falta de figura paterna. Ambos vivem de diminuição. Um age como se fosse superior ao outro, que por sua vez se sente inferior. Um acredita que tudo é milagre. O outro pensa que tudo se reduz a circuito cerebral.

Nenhum apoia uma categoria que exija maior esforço intelectual.

A necessidade do termo se torna mais clara, na minha opinião, quando a conversa se aproxima do que, em nossa realidade, seria imediatamente associado à esquizofrenia. E isso não é um detalhe secundário; é uma das razões principais para a necessidade do termo. Isso porque, se existe um campo sintomático de manifestação divina ou teofânica, ele acaba por impactar áreas que a nossa cultura médica contemporânea classifica como surto, delírio, desorganização, hiperassociação e quebra da referência compartilhada. Não era para ser assim, mas acabou sendo. Habitamos uma sociedade em que a clínica, e não a metafísica, é a linguagem predominante para experiências-limite.

Assim, a ligação entre Sintomata e esquizofrenia seria quase inevitável no nosso futuro. Não porque sejam iguais, mas porque, do ponto de vista do observador comum, estão situados em áreas próximas. Ambas podem envolver a sensação de invasão, alteração na percepção, uso intensivo de linguagem simbólica, quebra de filtros habituais, reestruturação subjetiva do mundo, crença em uma entidade superior, e interpretação de sinais e sincronicidades. O ponto é que a psiquiatria moderna, em seu papel, deve proteger o mundo cotidiano de qualquer coisa que possa sugerir uma quebra considerável de referência. Assim, ela tende a classificar como patologia o que não consegue mensurar como operação.

É nesse ponto que Sintomata se reintegra, pois impõe a questão fundamental: a diferença entre uma psicose e um Sintomata não está somente no conteúdo subjetivo da experiência, mas no efeito no real. Essa distinção é fundamental. Na psicose comum, o mundo externo não se reorganiza de maneira compreensível e verificável para o indivíduo; a ruptura, em grande parte, se limita à sua experiência e ao conflito intersubjetivo que ela gera. Se considerássemos o conceito do Sintomata de forma séria, haveria eficácia externa, signo, reconfiguração perceptível e consequência observável, ainda que passível de interpretação. A ponte é destruída pela loucura. Nesse modelo, o Sintomata é sobrecarregado.

Estou consciente de que isso envolve riscos. E é exatamente por ser arriscado que deve ser dito com cuidado. Não, isso não significa romantizar o sofrimento mental. Não se trata de converter a enfermidade em misticismo para satisfazer a vaidade religiosa. Isso seria inadmissível. Isso simplesmente implica reconhecer um desafio conceitual real: nossa linguagem atual tende a classificar qualquer vivência intensa do sagrado como patologia ou qualquer patologia como sagrado, dependendo do fanatismo do intérprete. Em ambos os cenários, uma interpretação superficial faz com que o indivíduo real se torne refém. Sintomata contribuiria, entre outras coisas, para prevenir esse colapso imediato.

Porque o termo exige discernimento, não histeria. Ele não explica a diferença entre santo, médium, sacerdote, louco, charlatão, neurótico e criminoso criativo. No entanto, ele organiza o tabuleiro de forma mais equitativa. Permite indagar: há signo? há eficácia? Há coerência entre tradição, corpo, ação e resultado? há repetição estruturada? Há clareza moral? Há fruto verdadeiro? há efeito externo ou só autoencantamento? Sem esse tipo de ferramenta, todo debate acaba se transformando em moralismo ou deboche, que são as duas formas preferidas da burrice ao tentar parecer corajosa.

Outra consequência lógica: se um conceito como Sintomata fosse levado a sério, seria preciso desenvolver uma nova ciência ou, ao menos, uma perspectiva interdisciplinar mais respeitável do que a existente. Se alguém quisesse adotar um termo provocativo, poderia chamar isso de teofísica. Não para medir Deus, o que seria uma simplificação ingênua, mas para examinar o campo dos efeitos, dos correlatos, das manifestações e das assinaturas visíveis associadas a determinados estados, rituais, operadores e contextos. Isso possibilitaria uma diferenciação mais precisa entre rito eficaz, histeria coletiva, sugestão, performance simbólica, psicopatologia e o que uma tradição reconhece como manifestação legítima.

É evidente que isso soaria absurdo para muitas pessoas. No entanto, é comum para muitas pessoas viver em uma sociedade em que uma planilha estabelece o valor de uma floresta e um algoritmo determina a magnitude de uma mentira. O homem moderno é bastante criterioso em relação ao que considera absurdo, contanto que o absurdo esteja trajado de túnica e não de terno. Para esse tipo de seletividade, eu, honestamente, tenho pouca tolerância. Se aceitamos novas categorias para descrever partículas, traumas, mercados, sistemas, redes, cognição distribuída e todo o circo analítico atual, não há razão para restringir experiências limítrofes do sagrado a termos imprecisos como “energia”, “unção”, “presença” ou “delírio”.

Sintomata, portanto, deveria existir por uma razão muito menos ornamental do que parece. Ele deveria existir porque facilita a compreensão de um problema específico. Nomeia um campo que, no momento, está disperso em termos impróprios. Evita que tudo seja reduzido a uma devoção sentimental ou a uma psicopatologia automática. Permite manifestar o que, apesar de ser impossível como sentimento compartilhado, se torna visível por meio de seus sintomas no corpo, no gesto, no rito, na eficácia e no real. Em outras palavras, ele estrutura o que, até o momento, se manifesta apenas como uma intuição desordenada.

E há uma beleza nisso. Para ser filosoficamente útil, o conceito não precisa provar a existência do fenômeno. Esse é outro ponto que as pessoas esquecem, já que foram alfabetizadas por meio de slogans. Para ser intelectualmente imprescindível, um conceito não precisa ter sua referência empírica limitada. Ele pode aparecer para organizar as opções, melhorar a análise, prevenir mal-entendidos e indicar uma lacuna na linguagem que já está causando erros teóricos. A ideia de algo impossível também pode ser indispensável. Em certas circunstâncias, particularmente nesses casos, ele se torna ainda mais essencial. Pois o que é impossível e sem nome acaba se transformando em superstição, ridicularização ou propaganda. Quando algo recebe um nome, o que antes era impossível torna-se um problema pensável.

E, ao se tornar concebível, ele passa a ter efeitos. Se Sintomata existe, mesmo como hipótese forte, então não dá mais para tratar todas as manifestações religiosas intensas como equivalentes. Não é possível comparar sacramento a surto, teurgia a fantasia, símbolo a metáfora sem vida, rito a teatro, carisma a propaganda ou loucura santa a desorganização qualquer. Não podemos mais deixar de reconhecer que toda linguagem do sagrado é apenas linguagem emocional. Não podemos continuar tratando o corpo como se ele fosse apenas um repositório do que a biologia tradicional já reconheceu e catalogado. O termo requer uma ampliação do mapa.

Ao mesmo tempo, ele exige cautela. E isso é essencial para mim. Isso porque, se uma dessas categorias for mal empregada, rapidamente se torna uma ferramenta de charlatanismo. Bastaria um punhado de messias de condomínio alegando que qualquer desconforto, coincidência ou sensação de perseguição é Sintomata para que a ideia fosse ridicularizada até a exaustão. Portanto, ele só é útil se estiver acompanhado de rigor, discernimento e coragem para eliminar casos falsos. Um conceito que engloba tudo não serve para nada. Se tiver alguma dignidade teórica, a sintomática deve ser empregada para distinguir, não para acomodar delírios.
No cerne da questão, foi isso que fui desenvolvendo aos poucos, quase que forçadamente, durante a própria conversa: a noção de que havia uma palavra ausente para o conjunto dos sintomas do divino como manifestação ativa, e não somente afetiva. Um termo que abrangesse não apenas o nome da presença, o nome do agente, o nome do rito ou o nome da prova, mas também o nome do espaço onde tudo isso está. Sintomata originou-se a partir disso. Não como um luxo lexical, mas como uma necessidade de precisão.

E vejo isso como indicativo por outro motivo. Mostra que, em alguns casos, o pensamento profundo não começa ao encontrar a resposta, mas ao identificar o que ainda não se consegue definir. A maioria das pessoas nunca alcança esse nível, pois se satisfaz rapidamente com respostas prontas. Utiliza expressões como "mística", "êxtase", "energia", "graça", "loucura", "unção", "esquizofrenia", "presença" e acredita que resolveu. Não teve nenhum impacto. Apenas tapou a fissura com um pano. O trabalho intelectual começa quando você resiste à preguiça.

Foi por essa razão que eu insisti tanto. Porque eu sabia que o cerne da questão ainda não tinha sido tratado. E quando surgiu, veio como toda palavra fundamental: não como enfeite, mas como ferramenta. Sintomata não é a solução definitiva para o problema. Está muito longe disso. Contudo, esta é a primeira obra que, de fato, me pareceu capaz de integrar, sem colapso, o corpo, o signo, a manifestação, a eficácia, o discernimento e o risco de confundir com a patologia. E isso já ultrapassa o que a maioria do vocabulário disponível é capaz de realizar.

Amanhã, talvez, eu refine a expressão. Somente a intuição pode ser mantida; talvez eu abandone a forma. É possível que surja uma palavra mais adequada. Isso acontece quando se reflete de verdade, e não quando se ergue um altar para a própria frase. Por enquanto, Sintomata exerce uma função atípica: enfatiza uma ausência. E a ausência iluminada já representa um avanço no pensamento sério.

Porque, no fim das contas, era disso que se tratava o tempo todo. Não é uma questão de dar um nome bonito ao inefável, mas de impedir que o inefável continue sendo um abrigo para a confusão. Sintomata, para mim, tem valor exatamente por esse motivo. Ele denomina a ocasião em que o invisível deixa de ser uma razão e passa a ser um obstáculo. E essa, de fato, é a única forma de mística que ainda merece ser considerada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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