Quais aspectos dos movimentos New Age foram prejudicados ao se apropriarem de filosofias perigosas, como o luciferianismo e o satanismo, adicionando ainda uma pitada de relativismo moral?

O texto analisa de que forma o colapso da verdade objetiva, o crescimento do relativismo e a espiritualidade de bricolagem prepararam o terreno para as cada vez mais radicais manifestações de caos religioso e moral. Desde o New Age até o satanismo contemporâneo, passando pela Ordem dos Nove Ângulos, este texto traça a linhagem de uma cultura que, ao substituir a verdade pelo fascínio, possibilitou a criação de verdadeiros monstros espirituais.

Anônimo

4/4/202617 min read

O'Que Os Movimentos New Age Cagaram Quando Comeram Filosofias Perigosas, Luciferianismo e Satanismo e um Toque de Relativismo Moral

Existem momentos em que o erro não é reconhecido como tal. Ele não aparece como uma caricatura, com dentes pontudos e um sinal brilhante indicando que está lá para mutilar a alma. Ele chega de forma cortês, com uma abordagem terapêutica, sorridente, diversificado, fluido, “aberto”. Ele não afirma: “abandone a verdade”. Diz de uma maneira mais suave, mais sedutora e, por isso, mais arriscada: “monte a sua”. Não afirme: “despreze a tradição”. Sussurre: “aproveite dela apenas o que fizer sentido para você”. Não pede uma renúncia barulhenta e à vista de todos. É suficiente que o homem se habitue a substituir a pergunta “isto é verdadeiro?” ao questionar “isto me serve?”. Uma vez que essa transformação ocorre, a maior parte do restante se torna viável.

A partir desse momento, a narrativa envolvendo o New Age, o satanismo contemporâneo e a Ordem dos Nove Ângulos deixa de ser uma série de curiosidades periféricas e se transforma em um único drama intelectual coeso. Pois o problema não se restringia apenas à presença de cultos bizarros, ocultismos de nicho ou espiritualidades de centro comercial. O cerne da questão é ainda mais profundo e, de certa forma, mais degradante: o homem contemporâneo foi gradualmente ensinado a ver sua própria interioridade como uma fonte autossuficiente de verdade. O texto que você Gabriel compartilhou acerta em cheio nesse ponto ao enfatizar a importância da honestidade intelectual, a lealdade à verdade, a oposição ao relativismo absoluto e a crítica à presunção de conhecimento; ali está, no que diz respeito à moral e à filosofia, o contrapeso necessário para combater o mesmo processo que, em sua manifestação culturalmente mais branda, resulta em um ecletismo espiritual e, em sua forma mais obscura, pode gerar sínteses sectárias e violentas.

Comecemos talvez pelo que está mais distante: o satanismo. Ao longo de séculos, a maior parte do que foi denominado “satanismo” consistiu menos numa religião real e mais numa acusação, numa projeção, num instrumento de perseguição ou pânico moral. A Britannica aponta que, durante a maior parte da história do cristianismo, as alegações de que certas pessoas adoravam intencionalmente o Diabo eram, em sua maioria, infundadas ou sem fundamento. Somente a partir do século XX é que se pode observar de forma mais clara o surgimento de novas religiões que se identificam abertamente como satanistas ou luciferianas. Esse dado, que à primeira vista é meramente histórico, revela-se espiritualmente: a imagem de Satanás não se torna religião de imediato; antes, ela é recontextualizada culturalmente. E foi precisamente isso que o século XIX realizou, ao reintroduzir Satanás, dentro de uma parte da sensibilidade romântica, como símbolo de revolta contra a autoridade arbitrária. Antes mesmo da religião organizada, figuras como Byron, Shelley e Victor Hugo, com todo o seu fervor estético, já haviam preparado a estética da insubordinação luciferina.

No século XX, esse conceito se torna mais claramente definido com a criação da Church of Satan, liderada por Anton LaVey em San Francisco, em 1966, e a posterior publicação de The Satanic Bible em 1969. A Britannica deixa bem claro que o satanismo laveyano era, formalmente, ateísta: Satanás não era um ser a ser venerado, mas um símbolo de autoafirmação, elitismo, rebeldia e celebração da natureza animal do ser humano. Isso é crucial para evitar uma confusão preguiçosa: nem todo satanismo contemporâneo é teísta, nem toda utilização da imagem satânica implica automaticamente em um culto sacrificial, e nem toda provocação contra a religião resulta em uma militância criminosa. No satanismo contemporâneo, existe uma verdadeira diversidade: há escolas que se concentram no simbolismo, outras que se dedicam a rituais, algumas que são progressistas, outras esotéricas e ainda aquelas que adotam uma abordagem claramente sobrenaturalista.

Porém, as diferenças internas não invalidam a genealogia mais ampla. O que importa entender aqui é que a modernidade possibilitou um uso satânico da imagem precisamente no momento em que o símbolo deixou de ser controlado por uma tradição compartilhada. Isto é: só se reaproveitou Satanás como símbolo espiritual quando a cultura ocidental estava habituada a reconfigurar imagens, histórias e arquétipos fora de seu contexto original. Isto é muito semelhante ao funcionamento que encontraremos mais adiante no New Age: a distinção entre tradição e aplicação, entre origem e reutilização, entre verdade e apropriação.

O New Age, por sua vez, simboliza a versão suave, positiva e comercial desse mesmo fenômeno. A Britannica descreve o movimento como algo que se disseminou entre as comunidades ocultistas e metafísicas nas décadas de 1970 e 1980, em expectativa de uma “Nova Era” de amor, luz, paz e transformação, oferecendo um antegozo disso por meio de cura, autotransformação e consciência ampliada. Também o caracteriza como um conjunto altamente variado de crenças e práticas, que mesclou astrologia, comunicação com espíritos, uso de cristais, yoga, meditação, novas modalidades de xamanismo, terapias psicológicas e estados de consciência alterados. A própria enciclopédia observa um dado crucial: muitas dessas práticas passaram a ser vistas como técnicas notáveis, separadas de seus contextos originais, e podem ser aplicadas fora do terreno histórico e metafísico onde foram desenvolvidas. Esse pormenor é ínfimo apenas para aqueles que não estão atentos; em uma perspectiva filosófica, ele representa quase toda a questão.

Uma nova antropologia religiosa surge quando uma prática espiritual é retirada de seu contexto original e colocada em outro. Não é mais conversão, mas seleção. Não se trata mais de se submeter a uma verdade objetiva, mas sim de uma curadoria subjetiva. O homem já não se curva mais perante uma tradição que o corrige; ele consulta tradições como quem consulta prateleiras. Seleciona um símbolo aqui, uma técnica ali, uma forma de expressão acolá, um carinho acolhedor mais adiante, e cria para si uma cosmologia móvel, pessoal, emocionalmente prática e intelectualmente relaxada. Seu arquivo menciona isso de forma quase cirúrgica ao criticar a religião “descartável”, a troca da verdade por conforto, a confiança exagerada nos próprios pensamentos e o risco de substituir o “só sei que nada sei” por uma falsa sensação de conhecimento. Em outra parte, ele afirma que a honestidade intelectual exige exatamente o oposto: admitir limitações, evitar a superficialidade e não compactar a realidade às proporções do próprio ego.

É nesse ponto que o relativismo deixa de ser uma teoria acadêmica e se transforma em uma ferramenta espiritual. No seu significado mais destrutivo, relativismo não é simplesmente o reconhecimento óbvio de que há divergências de opinião entre as pessoas. É a ideia, seja de forma explícita ou implícita, de que não há uma verdade que seja objetiva o suficiente para avaliar as crenças; portanto, o critério definitivo se orienta para o indivíduo. Quando isso ocorre, a religião como um todo transforma sua essência. Deixa de ser um meio de adaptar o eu à realidade e torna-se uma ferramenta para ajustar a realidade ao eu. O texto atinge precisamente esse aspecto ao reprovar o “relativismo camuflado de compaixão” e ao sustentar que, quando a noção de verdade objetiva é desfeita, tudo se torna igualmente disponível e igualmente frágil.

Isto é, o New Age não é, de forma alguma, violento, mas é vital para compreender seitas extremas que vieram depois. Não é que toda espiritualidade eclética acabe em horror, mas sim porque ela estabelece como normal uma mentalidade: a crença de que o sagrado pode ser construído. Uma vez que esse ato ganhou aceitação cultural, a distinção entre uma síntese “inofensiva” e uma síntese monstruosa deixou de ser uma questão de forma e passou a ser uma questão de conteúdo. O método continua o mesmo: cortar, unir, tornar absoluto. O que se altera é o material. Em muitos casos, o conteúdo será emocional, terapêutico, pseudo-oriental e voltado para o comércio. Em outros casos, poderá ser apocalíptico, elitista, anti-judeu, niilista ou de uma transgressão violenta. Aqui é onde a Ordem dos Nove Ângulos se faz presente, não como uma criação direta de cristais e incensos, mas como uma descendente radical do mesmo universo em que a estrutura religiosa se tornou compreensível.

A Ordem dos Nove Ângulos, de acordo com o verbete de Shanon Shah no Critical Dictionary of Apocalyptic and Millenarian Movements, que faz parte do Centre for the Critical Study of Apocalyptic and Millenarian Movements da Universidade de Cambridge, surgiu na Grã-Bretanha na década de 1970, mesclando ocultismo, satanismo e misticismo, e posteriormente se tornou conhecida por suas associações com a violência neonazista e, em alguns casos, com certas formas de militantismo jihadista que foram adaptadas dentro do próprio espectro ideológico. O texto menciona duas questões que são de extrema importância. Primeiro: o grupo ou rede funcionou historicamente em torno da figura enigmática de “Anton Long”, cuja identidade permanece disputada. O segundo ponto é que o corpus do O9A é intencionalmente opaco, misturando teoria, ficção, “guias”, mitologia e linguagem ambígua, o que dificulta a verificação histórica e transforma a névoa em uma fonte de poder.

No GNET/Inform, a Ordem dos Nove Ângulos é descrita como um movimento oculto que mescla ocultismo, satanismo e misticismo, tendo sido associada a atos de violência motivados pela extrema direita e pelo neonazismo. O texto também menciona que, desde 2008, sua presença digital aumentou bastante, facilitando o acesso à sua simbologia e literatura em redes sociais e fóruns. Isto altera tudo. Diferentemente do satanismo modernista de LaVey, que se baseava em sede, espetáculo e performances públicas, o O9A prospera na era em que a transmissão fragmentária via texto, o símbolo em circulação, o PDF que se perde, a célula informal e a autoiniciação digital tornaram-se os modos habituais de comunicação. A fé, neste contexto, não requer um altar central; é suficiente ter uma rede, um fragmento e um receptor disposto.

É na cosmologia da ordem que se observa, de maneira quase didática, o resultado mais extremo da bricolagem espiritual contemporânea. De acordo com Cambridge e GNET, existe uma visão dual que separa o mundo causal, que é governado pelas leis físicas e pela causalidade do dia a dia, do mundo acausal, onde forças e entidades obscuras poderiam ter um impacto na história ao se abrir um “nexion” entre os planos. O grupo é descrito como teísta ou sobrenaturalista: eles não veem Satanás apenas como uma metáfora, mas sim como um ser real, coexistindo com uma variedade de “Dark Gods”. Além disso, divide a narrativa em grandes períodos, os Aeons, e caracteriza o presente como um bloqueio causado por forças “Magian” e “Nazarene”, que se referem a judeus e cristãos, respectivamente. O que se tem é uma cosmologia esotérica que, ao mesmo tempo, é interpretação histórica, doutrina de guerra espiritual e cartografia política do inimigo.

Observe a intervenção espiritual que está ocorrendo aí. A distinção que, em épocas passadas, separava o natural do sobrenatural, a ordem moral da desordem do pecado, e a cidade terrena da cidade de Deus, é agora substituída por um esquema onde a história se transforma em um campo de atuação para forças obscuras que podem ser manipuladas por adeptos iluminados. O mal deixa de ser uma falta e passa a ser uma força. A transgressão deixa de ser um deslize e passa a ser uma forma de iniciação. O adversário não é mais apenas alguém com uma opinião diferente; ele se transforma em um impedimento essencial para a emergência de uma nova humanidade. Aqui a religião não apenas rompe com a tradição cristã; ela se transforma numa anti-metafísica sacramental da ruptura.

É exatamente nesse ponto que o seu documento se revela notavelmente premonitório, mesmo sem abordar diretamente o O9A. Ao mencionar o “estoicismo mutilado”, que se resume a autocontrole sem transcendência, virtude sem propósito e disciplina sem sentido final, ele ilustra o processo pelo qual qualquer tradição, uma vez desvinculada de seu fundamento metafísico, pode ser empregada como uma ferramenta. O mesmo se aplica aqui, em uma escala mais sombria. Elementos do ocultismo do século XIX, resquícios de paganismo, uma estética satânica, uma linguagem relacionada à magia cerimonial, a ideia de uma civilização superior, uma imaginação fascista, e um ressentimento tanto anticristão quanto antijudaico, tudo isso é organizado em um único sistema coerente. Não existe uma organicidade convencional nesse contexto. Está em obras. Montagem necessária. Existe uma engenharia espiritual. Somente uma cultura habituada a desconstruir tradições poderia considerar “plausível” que tal coisa parecesse profundidade.

A adesão às práticas do O9A agrava ainda mais a situação. O GNET descreve o Seven Fold Way como um percurso iniciático que se desenrola em sete etapas, repletas de provas, rituais e desafios projetados para romper com condicionamentos sociais e morais. O grupo também desenvolve a ideia de insight roles: papéis que seguidores desempenham para se integrar a diferentes contextos, até mesmo aqueles que não são compatíveis com sua predisposição original, funcionando como estratégias de aprendizado, infiltração e subversão. Em outras palavras, a transgressão de limites pessoais, éticos e institucionais é considerada uma prática de disciplina espiritual. Middlebury vai mais longe e rotula o O9A, especialmente em algumas de suas vertentes, como Tempel ov Blood, um acelerador radicalizante para a violência, atuando em ambas as direções: atraindo indivíduos do ocultismo para o extremismo e aprofundando os extremistas através de molduras esotéricas que legitimam a violência como o catalisador ideal para a mudança.

É aqui que a filosofia deve deixar de ser tímida. O principal problema não reside na existência de rituais estranhos, símbolos obscuros ou mitologias não convencionais. A questão reside na estrutura ética subjacente. Quando uma filosofia prega que a falta de moralidade é libertadora, que a transgressão tem valor educativo, que romper limites é sinal de grandeza, e que a violência pode ser um meio de acelerar a história, não está apenas apresentando uma alternativa imaginativa. Ela está anestesiando a consciência. Está formando a pessoa para apreciar o que deveria causar repulsa. Está convertendo a crueldade em um teste de amadurecimento. É por essa razão que o documento enfatiza a importância da honestidade intelectual e da integridade moral: pois, na ausência delas, a inteligência pode ser empregada para aprimorar e refinar a decadência.

A conversão do mal em profundidade talvez constitua o verdadeiro ponto de ligação entre o relativismo cultural mais brando e as formas mais violentas de sectarismo. O homem relativista inicia afirmando que toda verdade é relativa. Em seguida, afirma que toda tradição é uma construção. Depois, descobre que qualquer identidade pode ser reconfigurada. Por fim, passa a se habituar à noção de que o impacto, a intensidade e a ruptura são mais valorizados do que a ordem. Nessa altura, já não faz a diferença entre transcendência e vertigem. O que organizações como o O9A proporcionam é exatamente isso: uma sensação de vertigem que se disfarça de transcendência.

O caso de Ethan Melzer ilustra como esse mecanismo é capaz de cruzar a fronteira entre o simbólico e se tornar um fato penal. Em 2020, um soldado do Exército dos EUA foi acusado pelo Departamento de Justiça de repassar informações confidenciais sobre sua unidade a indivíduos associados ao O9A, com a intenção de preparar uma emboscada de alta letalidade contra seus próprios colegas. Em 2022, ele assumiu a culpa e em 2023 foi sentenciado a 45 anos de prisão. Em comunicações oficiais, o DOJ caracterizou o O9A como um grupo supremacista branco, neonazista e pró-jihad, enfatizando que eles incentivam “sinister deeds” e desempenham papéis de “insight” para se infiltrarem em instituições, incluindo as militares. Aqui não se trata mais de uma literatura ambígua ou de uma subcultura exótica: estamos testemunhando a transformação do simbolismo de seita em uma traição que se torna prática.

A resposta do governo mais evidente ocorreu na Nova Zelândia. Em 10 de dezembro de 2025, foi publicada na Gazette da Nova Zelândia a designação do Order of Nine Angles como grupo terrorista, com a decisão datada de 7 de dezembro. O comunicado oficial deixou claro que qualquer indivíduo que interaja com bens, recursos financeiros ou serviços da entidade poderá enfrentar consequências legais, e a Polícia da Nova Zelândia tornou públicos os statements of case que dizem respeito à designação. Não é uma questão burocrática insignificante. É o instante em que um Estado chega à conclusão de que um certo grupo ideológico-religioso não é apenas excêntrico, mas sim ameaçador de uma maneira que é juridicamente significativa.

No entanto, seria um equívoco confortável pensar que tudo isso se resume a um problema que pertence apenas a “deles”, aos obscuros, aos marginais, aos monstruosos. A questão que realmente perturba é: como esse tipo de ideia passou a ser considerado aceitável? A resposta, quando ligamos o documento ao contexto histórico, parece ser a seguinte: passou a ser considerado quando o ser humano deixou de ser disciplinado pela correção imposta pela realidade. O documento se refere a isso como honestidade intelectual na presença da virtude; na ausência desta, chama de presunção e superficialidade. A distinção entre uma civilização que consegue se opor a seitas fanáticas e uma que se encontra cativada por elas não é, em primeiro lugar, uma questão policial; é uma questão metafísica. É a distinção entre uma cultura que ainda sustenta a crença de que o ser possui forma, organização e um propósito, e uma cultura que restringiu o ser a um material para a construção de uma existência.

O New Age é a versão mais amena dessa estrutura. Ele combina técnicas espirituais, símbolos tradicionais e experiências subjetivas, reorganizando-os em torno do conceito de bem-estar, expansão da consciência e autorrealização. Frequentemente, isso é suficiente para causar uma confusão considerável: sentimentalismo de natureza metafísica, mercantilização do sagrado, psicologização do transcendente, terapia que se disfarça de iniciação. A Ordem dos Nove Ângulos encarna a vertente mais severa. Ela aplica a mesma liberdade formal da montagem, mas, em vez de escolher componentes que acalmam, opta por aqueles que agressores. Ao invés de tratar o ego, ele o aumenta. Ao invés de eliminar a disciplina moral em prol da compaixão, elimina-a em nome da superioridade. Ao invés de uma espiritualidade que vise apenas o bem-estar, desenvolve uma espiritualidade que faz com que se sinta escolhido. O funcionamento é semelhante; porém, as consequências são muito mais sérias.

Quem sabe o arquivo não tem razão em colocar no centro a humildade socrática. É a partir do momento em que o homem deixa de afirmar “não sei o suficiente, preciso me curvar ao real” e começa a declarar “sinto intensamente, logo compreendi” que toda a tragédia se inicia. O relativismo não gera apenas opiniões superficiais; ele forma egos sacerdotais. Gera indivíduos que consideram sua própria opinião como uma verdade, seus desejos como padrões e suas incomodações como razões filosóficas. Quando isso se transforma em uma prática comum entre as pessoas, criam-se as circunstâncias ideais para o surgimento de gurus, coaches espirituais, seitas emocionais, cultos relacionados à identidade e organizações obscuras que prometem ao indivíduo algo que sempre o fascinou: não a verdade em si, mas a impressão de estar superior a ela.

Não é de se estranhar, pois, que a solução para o problema não possa ser simplesmente “menos religião” ou “mais vigilância”. Essas respostas são superficiais. A questão não reside na transcedência em excesso; frequentemente, é a transcedência desprovida de verdade. Não se trata de um excesso de símbolos; é, na verdade, símbolos desordenados. Não se trata de uma presença da filosofia; é a filosofia que foi extraída do ser e utilizada como um adereço para satisfazer o desejo. O documento propõe a solução adequada, mesmo que sob uma outra perspectiva: lealdade à verdade, bravura para lidar com a complexidade, rigor intelectual, cautela e a consistência entre o pensamento e a vida. Sem isso, qualquer linguagem espiritual pode ser dominada pelo ego. Um ego religiosamente armado tende a ser mais ameaçador do que um ego meramente vulgar.

No fim das contas, a Ordem dos Nove Ângulos é menos uma curiosidade criminosa e mais uma revelação de um destino possível para uma cultura que trocou a conversão pela curadoria, a metafísica pela terapia, a tradição pela colagem e a verdade pela experiência. O New Age revelou que o homem contemporâneo busca a transcendência sem estar subordinado. O satanismo contemporâneo demonstrou que também buscava a transgressão com um toque ritualístico. O O9A expôs as consequências de uma colisão entre esses impulsos e o ódio político, a mitologia de elite e a atração pela violência. Aquilo que inicialmente parecia ser uma liberdade criativa e espiritual revelou, em seu extremo, a mesma antiga servidão: o ser humano venerando a sua própria vontade até o momento em que esta já não produz nada, apenas consome.

Ou talvez o aspecto mais vergonhoso seja este: criaturas espirituais raramente surgem de um grande “sim” ao mal. Costumam surgir a partir de numerosos pequenos “talvez” que se opõem à verdade. Iniciam quando o ser humano concorda em existir sem base, sem herança, sem orientação, sem padrão, sem modéstia. Iniciam quando ele deixa de desejar uma verdade que o condene, e passa a buscar uma linguagem que o perdoe. Iniciam quando você opta pelo encanto em vez da realidade. Essas situações frequentemente chegam ao fim quando alguém se dá conta de que aquilo que considerava liberdade não passava de uma forma mais elaborada de escravidão, e que a alma que se recusa a aceitar a ordem do ser acaba sempre por encontrar alguma versão distorcida de ordem à qual se submete.

Gráfico O9A
Gráfico O9A

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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⚠️ Para aqueles que desejam se aprofundar nos estudos desta Ordem, recomendo cautela nas pesquisas que realizarem. Vocês poderão encontrar informações que são verdadeiramente horríveis e que qualquer pessoa sensata consideraria abominável. Portanto, concentrem-se apenas nos estudos do grimório que estarão disponíveis no link abaixo, assim como nos outros links que já estão referenciados. É sério, vocês só encontrarão desgraças se decidirem pesquisar sobre vídeos de rituais dessa Ordem, não concordo com muita coisa do podcast principalmente quando diz que o Nazismo é de "Estrema Direita" na verdade o nazismo em seu centro é socialista, mais é interessante do mesmo jeito. ⚠️

Link de uma playlist com o primeiro livro
O Grimorio de Baphomet (O9A)
Link #249 William Ramsey
Order Of Nine Angles