Quando o Poder Esquece o Bem: Maquiavel, a Morte da Virtude e o Labirinto da Consciência Moderna
Da onde surge a burrice na administração moderna, Uma crítica filosófica à ética maquiavélica e à tradição moderna que retira Deus e a virtude do núcleo da existência humana. O texto expõe como o subjetivismo de Maquiavel a Marx converte poder em critério de verdade e destrói a consciência ética do ser humano, entre discussões autênticas, história intelectual e análise moral.
Gabriel. G. Oliveira
3/15/202635 min read


O Maquiavelismo e a burrice humana
O equívoco de Maquiavel não se trata de um erro técnico de gestão. É mais grave. Trata-se de um equívoco de alma, de perspectiva humana e de visão de mundo. Quando o erro atinge esse nível, tudo o mais apodrece junto, pois a técnica nunca resolve uma podridão metafísica; no máximo, a camufla com planilhas, protocolos e aparências de competência. Por essa razão, Maquiavel não deve ser interpretado como um guia prático para qualquer tipo de administrador, seja público, privado, escolar, doméstico ou qualquer outro. Aquele que recorre a Maquiavel para aprender a governar já inicia derrotado, pois aceita a ideia de que o poder pode se legitimar pela eficácia e de que a virtude pode ser reduzida a um mero ornamento para o discurso público. A partir desse ponto, meu amigo, não há administração. Apenas a gestão da degradação existe.
O cerne da questão é simples, apesar de ter sido envolvido em séculos de racionalização pedante. Ao remover Deus do horizonte ético, não resta neutralidade; resta o ser humano assumindo o trono. E quando o homem assume esse trono sem se referir a uma perfeição objetiva, ele não se torna mais livre. Acaba se tornando mais entregue às suas próprias paixões, medos e interesses e, pior ainda, passa a considerar isso como realismo. Essa é a grande fraude. O vício se disfarça de lucidez, a covardia se apresenta como prudência, e a manipulação passa a ser oferecida como inteligência política. É nesse ponto que Deus é morto filosoficamente, não no clamor dramático de Nietzsche, mas muito antes, no momento em que a ética deixa de se concentrar no ser perfeito e começa a girar em torno da conveniência humana.
Por essa razão, discutir Maquiavel não se limita apenas ao âmbito político. Trata-se de uma discussão sobre as consequências da substituição da ideia de perfeição pela de utilidade. Em uma ética objetiva, o ser humano não cria o bem; ele o identifica, mesmo que de forma imperfeita, e busca organizar sua vida em direção a ele. Em uma ética subjetiva, por outro lado, o indivíduo não aceita nada além de si mesmo; ele negocia, renomeia, ajusta, relativiza e, por fim, considera sua própria vontade como critério. Para quem aprecia slogans, pode parecer emancipação, mas na verdade é apenas uma regressão sofisticada. É o homem abandonando a medida pela altura do real e iniciando a mensuração pela largura dos próprios caprichos.
A criança compreende isso antes que qualquer docente universitário comece a citar autores alemães. Ela não elabora em latim, não redige tratados, não consegue diferenciar metafísica de antropologia, mas compreende. Entende que prejudicar um inocente é, por natureza, algo errado. Nota que o furto não é "uma construção social" quando o brinquedo dela desaparece. Nota-se que a maldade existe antes de qualquer doutrina apresentar um verniz teórico para tentar absolver o culpado. É evidente que ela requer educação, prática, orientação, exemplo e referência. Não estou idealizando a criança como um pequeno Buda de fralda. Estou afirmando algo diferente: o ser humano possui uma compreensão real, mesmo que inicial, do bem e do mal. E sem isso, a educação moral não seria viável.
É exatamente por isso que essa discussão absurda sobre bem e mal ser “dualismo” deve ser descartada. Não, distinguir o bem do mal não é uma forma de dualismo gnóstico. O dualismo gnóstico é diferente: é conceber princípios equivalentes e quase simétricos, como se o mal tivesse a mesma densidade ontológica do bem, e ambos necessitassem um do outro para existir. Isso é distorção de pensamento, não metafísica séria. Na tradição clássica e cristã, o mal não é considerado um deus oposto a Deus; é entendido como privação, desordem, parasitismo e ruptura. Quem confunde isso ou leu mal ou não leu nada e está apenas repetindo frase pronta com a autoconfiança dos burros, que sempre foi uma das forças mais estáveis da história.
Quando São Afonso de Ligório enfatiza a formação da consciência e a seriedade do pecado, ele não está criando um teatro moral para dominar os fiéis. Parte da premissa de que o ser humano é capaz de ofuscar sua própria consciência, distorcer seu próprio julgamento e se habituar ao vício a ponto de considerar lama como claridade. Isso é o que a modernidade, apesar de sua aparência libertária, mais realizou. Não isentou o homem do erro; conferiu ao erro uma aparência sofisticada. A subjetivação moral não resultou em uma autonomia sólida. Instituiu licença para racionalização. E o resultado é evidente para quem tem dois olhos e um mínimo de honestidade: indivíduos cada vez mais habilitados a justificar o injustificável, desde que isso lhes traga benefícios, status, prazer ou alívio psicológico.
Tomás de Aquino atua como uma barreira contra esse delírio, pois, em sua filosofia, a razão não é utilizada para criar moral sob demanda, mas para reconhecer a ordem do ser e a finalidade das ações humanas. O bem não surge do meu anseio. O bem não é o que me traz vantagens. O bem não é uma imposição da vontade desprovida de conteúdo. O bem é tudo aquilo que aprimora a natureza de acordo com sua finalidade. Isso não resolve magicamente todas as situações concretas, é claro, pois a vida não se resume a um quadro negro, e a prudência é necessária justamente por causa da complexidade da realidade. Porém, isso evita a grande fraude: a ideia de que, por ser difícil de aplicar, o critério não existe mais. A modernidade cometeu exatamente essa fraude e, em seguida, teve a audácia de se considerar madura.
Quando alguém afirma que Deus está "muito acima" da moral humana de forma que o bem e o mal se tornam indecifráveis, essa pessoa não está expressando transcendência. Gerou arbitrariedade sagrada. E a arbitrariedade sagrada é a via mais rápida para converter Deus em um demiurgo incompreensível, um senhor de caprichos, uma força capaz de tanto glorificar a justiça quanto santificar a crueldade. Aí já era. Nesse caso, não restou teologia, mas sim tirania cósmica. É por isso que esse protestantismo, que diminui o livre-arbítrio e torna a ordem moral de Deus insondável, acaba caindo com facilidade em absurdos. Se não existe uma ordem compreensível do bem e se a vontade divina pode transcender qualquer critério cognoscível, então qualquer atrocidade pode ser justificada como propósito. Nesse estágio, já se está próximo da gnose. Está-se imerso nela, apenas com menos honestidade histórica e mais Bíblia sublinhada.
Aqui, a questão do livre-arbítrio não é um aspecto devocional. Trata-se de uma defesa metafísica que impede a concepção de Deus como o autor positivo do mal. Se o homem não é verdadeiramente livre e se o mal é inerentemente parte da ordem devido a uma vontade absoluta que o define, então o discurso moral se transforma em teatro e Deus se torna uma figura tirânica. E depois ainda exigem que a pessoa aceite isso como se fosse uma demonstração de respeito. Não se trata de reverência. É um caos. Trata-se de uma confusão demoníaca, utilizando a expressão precisa que Olavo de Carvalho empregou no título de um de seus livros a respeito de Maquiavel. Quando a ordem moral se torna opaca, a política rapidamente começa a chamar a violência de zelo e a opressão de dever.
A história está repleta desse tipo de atrocidade cometida sob a máscara da fé religiosa. Governos protestantes que impuseram conversão sob pena de morte não surgiram do nada como um acidente sem origem. Eles resultam de uma lógica em que o acesso humano à ordem moral é fragmentado, e o poder se autoriza a agir violentamente em nome de um bem que ele mesmo controla. Se não posso compreender claramente a ordem do bem, mas posso me ver como parte de um plano superior, então qualquer atrocidade se torna justificável. O pensamento é sempre o mesmo: matei por amor, persegui por pureza, censurei por salvação, destruí para proteger. O inferno aprecia esse tipo de retórica, pois ela possibilita que o carrasco tenha uma boa noite de sono.
É nesse contexto que Maquiavel prospera. Ele não aparece do nada. Ele é uma sequência. Antes de mais nada, é uma continuação do sofista. O sofista havia movido a filosofia do amor à verdade para a destreza de triunfar em argumentos. O essencial deixou de ser ajustar a alma à realidade, mas sim dominar a linguagem para causar impacto, ganhar apoio e obter benefícios. Maquiavel aplica isso ao domínio do poder. O que antes era um sofisma verbal transforma-se em um sofisma de Estado. Não importa se a ação é intrinsecamente baixa; o que importa é que ela contribua para a consolidação do príncipe. Não importa se o ato corrompe a cidade; o que importa é que mantenha a máquina de controle. A verdade moral não é mais a medida do poder. A verdade prática passa a ser medida pelo poder. E essa inversão é prejudicial desde o início.
Por essa razão, é absurdo ouvir um administrador citar Maquiavel como se estivesse tratando de um autor rigoroso, maduro e desencantado, quase um médico da política. Médico coisa nenhuma. Maquiavel é um educador do cinismo. Ele ensina a inteligência a se submeter ao vício, referindo-se a isso como lucidez histórica. Pascal Bernardin, em Maquiavel Pedagogo, compreendeu claramente que a questão é tanto política quanto formativa. Há uma pedagogia completa do rebaixamento presente: habituar o espírito à noção de que a manipulação é comum, de que a mentira é funcional, de que a moral é para os ingênuos e de que o governante competente é aquele que sabe equilibrar violência, imagem e conveniência. Isso não desenvolve líderes. Forma operadores de decadência.
A antiga justificativa de que Maquiavel apenas retratou o mundo como ele é também não passa de uma manobra simples. Essa justificativa é adorada por todo corrupto. "Estou apenas sendo realista." "É assim que as coisas acontecem." "Você é bastante idealista." É curioso como o realismo deles acaba sempre favorecendo a parte mais baixa do ser humano. Nunca é realista reconhecer a demanda da virtude, a rigidez da disciplina interna, a gravidade da justiça, o preço da honestidade. Não. O realismo moderno possui uma peculiar propensão para afirmar que o vício é inescapável, enquanto a virtude é apenas um adorno. Que conveniente acaso. Não se trata de análise. Trata-se de uma capitulação com terminologia técnica.
A distinção entre o rei virtuoso e o príncipe maquiaveliano não é de natureza literária, mas de ordem civilizacional. Existiram reis santos, governantes extremamente justos e estruturas políticas fundamentadas mais na honra, liturgia, dever moral e senso de equilíbrio do que nesse cálculo histérico de controle que muitos hoje em dia confundem com governança. O crescimento econômico em sociedades com uma ética católica não foi resultado de maquiavelismo bem executado. Em muitos casos, resultou de uma ordem moral objetiva, embora imperfeita na prática humana, mas objetiva em seu critério. O problema é que a modernidade gosta de reinterpretações do passado com base em categorias que já são envenenadas.
É nesse ponto que Max Weber erra desde o início. Ao abordar determinadas dinâmicas do capitalismo como se sua superioridade estivesse relacionada ao ethos protestante em oposição ao catolicismo, ele geralmente está analisando estruturas econômicas formadas por pressupostos protestantes e racionalistas, e, em seguida, referindo-se aos seus efeitos como medida comparativa. Isso é confusão de causa, forma e nome. Não se pode afirmar que uma economia é católica apenas porque existem católicos vivendo em uma economia que é filosoficamente protestantizada. A base do assunto é importante. As categorias são relevantes. A essência da ordem é significativa. Se a estrutura já foi reconfigurada de acordo com princípios que eliminam a teleologia moral e submetem a vida ao cálculo, não adianta simplesmente aplicar estatísticas demográficas e fingir que isso resolveu a metafísica.
Em diversos momentos, Adam Smith demonstra essa mudança ao buscar conciliar a liberdade econômica com um contexto moral que não se baseia mais na antiga ordem teleológica clássica, mas em uma sensibilidade influenciada por uma nova antropologia. A questão não se resume apenas ao mercado, como os simplórios costumam afirmar, nem apenas à religião, como outros tentam disfarçar. A questão reside no tipo de homem que mantém a ordem econômica. Se o homem não é mais avaliado pela virtude, a economia se transforma em técnica de desejo; se a política não é mais avaliada pela justiça, torna-se técnica de controle; se a educação não é mais avaliada pela verdade, converte-se em técnica de produção de adesão. Nesse aspecto, Maquiavel não é um autor isolado. Trata-se de um marco.
Ele é um desses indivíduos que pegam uma corrupção latente e a tornam oficial. O vício político já existia antes dele. O homem não se tornou miserável em Florença. Porém, uma coisa é a miséria prática de governantes incompetentes dentro de uma ordem moral que ainda os julga. Além disso, há o problema de transformar essa falha em doutrina, conceder-lhe o status de inteligência e ensiná-la como se fosse uma arte superior de governo. É esse segundo aspecto que Maquiavel aborda. Ele não cria a doença, mas confere a ela método, dignidade verbal e capacidade de ser transmitida culturalmente. A partir desse ponto, o mal ganha um manual, e o manual começa a educar pessoas que se consideram espertas demais para serem boas.
É por essa razão que ele é um sofista em sentido pleno. O sofista busca vencer; o filósofo busca compreender. O sofista busca impacto; o filósofo busca conformidade com o ser. O sofista controla o discurso para influenciar a opinião, enquanto o filósofo refina o discurso para manter a verdade sobre a realidade. Maquiavel é um sofista munido de Estado. Não me importa o quão perturbador isso seja para aqueles que o chamam de gênio pragmático. Às vezes, o gênio de um homem se resume a tornar o erro mais atraente. E é nesse ponto que a modernidade se destaca: pegar antigas corrupções, aperfeiçoá-las conceitualmente e apresentá-las como coragem intelectual.
O impacto desse deslocamento é significativo, pois, quando o homem se torna a medida final, toda a noção de perfeição se deteriora. Não se trata mais de direcionar a alma para aquilo que a supera e a julga. Refere-se a validar paixões, interesses e projetos por meio de uma linguagem moral adaptada. A perfeição se transforma em performance, a virtude em reputação, a prudência em estratégia de imagem, a justiça em ferramenta de facção e a coragem em autorização para brutalidade. O homem não ascende mais ao bem; em vez disso, adapta o bem para que se encaixe nele. É nesse ponto que a desgraça moderna em série tem início.
Porque Maquiavel não se encerra em Maquiavel. Esse é o aspecto que muitas pessoas não percebem. Ele prossegue. Permanece em Descartes, de forma diferente. Prossegue em Kant, de forma diferente. Permanece em Hegel, em Marx, em Gramsci, cada um com sua própria linguagem, seu teatro conceitual e seu tipo específico de dano. Não estou afirmando que todos são iguais, como se a história das ideias fosse uma sequência de dominós idênticos. Afirmo que há um processo constante de subjetivação e deslocamento da ordem moral objetiva. Em Maquiavel, isso se manifesta no poder; em Descartes, no conhecimento e na conexão entre mente e realidade; em Kant, na estrutura da moral; em Hegel, na história; em Marx, na reestruturação completa do ser humano; em Gramsci, na cultura e na educação como instrumentos de transformação molecular.
Por exemplo, muitos professores tratam Descartes como um grande herói da razão, embora ele seja responsável por grande parte da confusão subsequente. Para escapar do ceticismo, o indivíduo decide se refugiar em um método tão artificial que acaba fugindo do mundo e se encerrando em sua própria mente. "Penso, logo existo" se tornou uma medalhinha intelectual para muitas pessoas que nunca entenderam a operação estranha que está por trás disso. Não se trata de que a frase seja falsa enquanto constatação mínima. A questão é a mudança de eixo que ela estabelece ao ser considerada a base do conhecimento. A realidade não é mais o primeiro horizonte, e a consciência começa a atuar como um tribunal preliminar de tudo. A porta do subjetivismo fica escancarada, e depois ninguém entende por que o Ocidente começou a viver cercado de pessoas que acreditam que sentir algo intensamente é suficiente para torná-lo verdade.
A ironia é que esse método, apresentado como um triunfo da clareza, gera uma imensa névoa metafísica. O homem se transforma em um quase fantasma pensante imerso em uma máquina corporal. A ontologia do corpo perde densidade, e a mente é considerada uma substância separada, quase uma entidade desvinculada do mundo. Pronto: estabeleceu-se o dualismo cartesiano, que posteriormente afetaria tudo, desde a política até a psicologia popular, da espiritualidade superficial às teorias identitárias mais absurdas. A distinção entre corpo e essência, entre experiência vivida e autoconceito mental, adquire legitimidade filosófica. Séculos depois, o mundo está repleto de pessoas afirmando com fervor religioso que nasceram no corpo errado, como se toda a metafísica pudesse ser desmontada por um surto subjetivo bem apresentado em uma linguagem terapêutica.
O mais curioso é que Descartes acreditava estar superando o ceticismo, mas, na realidade, contribuiu para a criação de um ambiente propício para novas formas de ceticismo e solipsismo. O homem contemporâneo torna-se prisioneiro de sua própria interioridade e começa a negociar a realidade de acordo com o que sua mente é capaz de aceitar com “clareza e distinção”. Isso é apenas o início da festa. Posteriormente, surgirão os sistemas completos de reestruturação da realidade com base em categorias geradas pela subjetividade. O indivíduo já não deseja conhecer o ser. Deseja assegurar um método que lhe permita reconstruir o mundo a partir de si mesmo. A tentação de Éden, sempre com novas roupagens, persiste: não acatar a ordem, mas estabelecê-la.
Kant, portanto, assume o papel de um burocrata da abstração moral. É surpreendente que ainda haja pessoas que consideram a ética kantiana uma continuação elevada da de Aristóteles. Isso é típico de quem leu os nomes, mas não as estruturas. A moral, segundo Aristóteles, é pensada a partir da finalidade humana, da formação do caráter, da prudência e do justo meio, sempre considerando a concretude da vida e o florescimento da alma. Kant converte a moral em uma máquina formal de universalização, um tribunal do dever despojado da densidade concreta da existência. O resultado pode impressionar um adolescente que aprecia lógica rigorosa, mas na vida real logo revela sua falha grotesca: a incapacidade de lidar com a complexidade moral sem recorrer a absurdos.
Para desmerecer essa pretensão, basta o exemplo clássico. Se você abriga um amigo inocente e um perseguidor aparece perguntando onde ele está, a fórmula kantiana tende a sufocar a situação específica sob uma regra geral. Aristóteles não agiria dessa forma, pois acredita que a prudência não é relativismo, e sim uma inteligência moral que se relaciona com a realidade. A coragem, a justiça, a amizade, a responsabilidade concreta e a finalidade do ato são relevantes. Nesse contexto, mentir não é visto como uma corrosão da ordem moral, mas como uma resposta cautelosa a uma injustiça que está ocorrendo. A vida moral não é um exercício para um bom aluno alemão. Trata-se da luta da alma em meio a situações reais.
Ademais, Kant distorce a moral ao dissociar excessivamente razão e inclinação, como se a compaixão comprometesse a pureza do ato e apenas o dever impessoal pudesse assegurar a integridade ética. Isso representa uma concepção limitada do ser humano. Aristóteles entende que a virtude requer a integração ordenada de razão, hábito, afeto e ação. O homem virtuoso não é um robô legalista que segue regras sem considerar o coração. É uma pessoa cuja alma foi moldada a ponto de amar o bem com discernimento e agir corretamente com prazer apropriado. Kant produz um moralismo rígido, passível de ser institucionalizado e, em essência, extremamente perigoso, pois o indivíduo que aprende a venerar a forma abstrata da norma tende a se tornar cego para a violência real que comete em seu nome.
Essa linha, não por acaso, acaba encontrando espaço em sistemas políticos que demandam a submissão do indivíduo a estruturas racionais consideradas superiores. A ética subjetiva contemporânea possui essa ironia prejudicial: inicia enaltecendo a independência do indivíduo e acaba submetendo-o à abstração do Estado, da História, da Classe, da Vontade Geral, da Razão, do Partido, da Técnica ou do Mercado. O homem acredita estar emancipado, mas acaba mais domesticado do que antes. Sai de Deus e cai na máquina. Deixei a metafísica e entrei na engenharia social. Sai da virtude e entra na gestão de comportamento. Um ótimo negócio, de fato.
Hegel agrava a situação ao conceber a história como um processo absoluto de autodesdobramento, enquanto Marx a traz para o plano material e revolucionário, transformando a estrutura histórica em um campo de redenção imanente. A política deixa de ser cautela em relação à natureza humana e se torna um instrumento para criar um novo ser humano. Quando isso ocorre, não há mais limites sérios. Tudo pode ser deixado de lado em prol do futuro. Em nome da síntese, tudo pode ser reduzido. Toda tradição se torna um obstáculo, toda mediação se transforma em atraso e todo vínculo orgânico é visto como uma opressão a ser superada. E o mais engraçado é que ainda se referem a isso como ciência. A religião antiga prometia o céu; a modernidade ideológica promete um paraíso na terra, gerido por pessoas amarguradas com uma linguagem de laboratório.
Gramsci compreende profundamente esse movimento e, por isso, recorre a Maquiavel com uma naturalidade quase obscena. Ele entende que o poder duradouro não se baseia apenas na coerção, mas também na formação cultural, na linguagem, na educação, nos hábitos mentais e na reconfiguração simbólica da percepção da realidade. Em outras palavras, não é suficiente apenas ordenar; é necessário moldar a maneira como as pessoas percebem o mundo. Isso é maquiavelismo profundo, sofisticado e pedagógico. O príncipe transcende a figura de um governante físico e se dissemina como uma lógica difusa nas instituições, escolas, universidades, imprensa, currículos e na sensibilidade popular. A conquista deixa de ser apenas territorial e torna-se ontológica, pois o propósito não é apenas controlar o comportamento, mas também transformar o que as pessoas consideram normal, justo, possível, desejável e até pensável.
É por isso que muitas ideias do pensamento educacional contemporâneo têm influência de Gramsci, mesmo quando seu nome não é mencionado. A escola deixa de ser um espaço onde se introduz o espírito no mundo real, se realiza uma formação intelectual profunda, se promove o amadurecimento moral e se aprende a linguagem como meio de acesso à verdade. Transforma-se em uma usina de sensibilidades politicamente vantajosas. O aluno não é mais considerado alguém que precisa ser elevado à realidade, mas sim como um material flexível para a construção de uma visão de mundo. E observe a ironia: tudo isso é apresentado com a linguagem da libertação. A pessoa é manipulada para pensar que está sendo libertada. Trata-se de uma modalidade de servidão que aprendeu a empregar camisetas de protesto e linguagem terapêutica.
Paulo Freire, em diversas aplicações de seu trabalho no Brasil, se insere nesse contexto como um componente de uma pedagogia que prioriza a formação da consciência ideológica em vez da inteligência contemplativa. Não estou aqui simplificando ou afirmando que toda educação crítica é automaticamente gramscista. Isso seria desleixo. Afirmo que há um eixo predominante de formação no qual a verdade objetiva perde sua centralidade, e a educação é vista como um meio para o reposicionamento político da subjetividade. Isso mina o espírito do estudante. Ele desaprende a observar e passa a desconfiar de acordo com o roteiro. Desaprende a pensar e aprende a se alinhar. Desaprender a amar o real e aprender a transformar tudo em conflito de narrativas. Depois, isso é chamado de consciência histórica. Eu denomino isso de mutilação intelectual com reconhecimento pedagógico.
O mais preocupante é que essa linha toda não permanece apenas no âmbito das ideias. Ela cria tipos humanos. O maquiavélico, o cartesiano enfeitiçado, o kantiano legalista, o hegeliano historicista, o marxista escatológico, o gramscista cultural são todos, em diferentes graus, manifestações de uma alma distorcida pela mesma sedução: adaptar o real a um modelo que justifique a vontade humana desvinculada da ordem do ser. Alguns fazem isso em prol da eficácia, outros em prol da certeza, outros em prol da razão, outros em prol da história e outros em prol da justiça futura. O nome se altera. A intoxicação persiste. Há sempre o mesmo desejo de trocar a realidade por um mapa mental revestido de autoridade moral.
É nesse ponto que a gnose retorna, e o faz com uma frequência que beira o cômico. Porque sempre que alguém tem aquele estalo interior de "agora eu entendi o código secreto do mundo, agora eu saí da Matrix, agora eu vi o que os outros não veem, agora eu posso reorganizar tudo", pode ter certeza: a temperatura gnóstica subiu. A gnose não se resume apenas a um sistema religioso antigo com denominações estranhas e cosmologias exóticas. Trata-se de uma configuração mental habitual. Trata-se da rejeição do real em prol de uma chave de interpretação supostamente superior, detida por poucos, que justifica uma ruptura completa com a ordem estabelecida. Ela adora se disfarçar de libertação. Na prática, quase sempre acaba ignorando o homem real.
Por essa razão, a ética subjetiva produz gnose com grande facilidade. Quando não há mais uma ordem objetiva do bem à qual a alma deva se ajustar, o indivíduo necessita de uma nova origem de legitimação. E essa fonte se torna a iluminação interior, a consciência histórica, a vontade revolucionária, a autenticidade absoluta, a força criadora do eu, o insight psicológico, o trauma elevado a tribunal moral, ou qualquer outra entidade contemporânea que desempenhe o papel de substituir o ser pela interpretação soberana. Nesse ponto, o homem já não deseja ser ajustado pela realidade. Quer consertá-la. Não deseja ser instruído pela verdade. Deseja criar verdade. Não deseja buscar a qualidade de vida. Deseja permitir a própria deformação e denominar isso de emancipação.
Nesse contexto, Machiavelismo vai além do simples cinismo político. Trata-se de uma fase da gnose moderna. É o ponto em que se conclui que a ordem moral objetiva é insuficiente para as questões do poder e, por isso, precisa ser diminuída. A partir desse ponto, o governante deixa de questionar: "isto é justo?" Indagação: "isto me preserva?" Não questiona: "isto melhora a cidade?" Pergunta: "isto me assegura?" Não questiona: "isto está de acordo com a verdade do homem?" Pergunta: "isto é eficaz?" E acabou. O "funciona" se torna um ídolo. E como todo ídolo, ele requer sacrifício humano.
Nesse ponto, alguns tentam justificar Maquiavel, afirmando que ele apenas distinguiu a moral privada da moral pública. Como se isso fosse uma solução e não um veredicto de morte para a política. Se a moral pública pode agir com base em critérios diferentes da moral humana básica, então o que você está afirmando é que o poder foi autorizado a ser menos virtuoso do que o homem comum. Observe a monstruosidade. O pai de família deve ser honesto, o amigo deve ser leal, o juiz deve ser justo, mas o governante, que é aquele cujas escolhas afetam muitas pessoas, estaria permitido a agir de acordo com um padrão moral inferior? Isso não é requinte. Isso representa a institucionalização do vício. Trata-se de converter a exceção degradante em norma estatal e, em seguida, denominar isso de maturidade política.
É interessante notar que, em diversos momentos, o paganismo antigo possuía intuições mais saudáveis do que isso. Não porque o paganismo, enquanto estrutura, tenha atingido a pureza da teologia cristã. Não obteve sucesso. Frequentemente, os deuses eram retratados de maneira antropomórfica, passional, ambígua e, em algumas ocasiões, até monstruosa. Olavo de Carvalho estava correto ao apontar que muitos desses deuses se assemelhavam mais a demônios ou a entidades intermediárias profundamente instáveis do que ao Deus inteiramente bom da tradição cristã. Mesmo assim, a modernidade, com toda a sua presunção, frequentemente descartou o sincero esforço de objetividade moral de alguns filósofos pagãos.
Os estóicos são um exemplo curioso exatamente por essa razão. Eles, evidentemente, não são cristãos. Sua cosmologia apresenta sérias dificuldades; seu monismo e seu materialismo criam caminhos confusos. Sua concepção de pneuma, de logos permeando a natureza e de divindade imanente ao cosmos se distancia bastante da distinção entre criador e criatura no pensamento cristão. Entretanto, é inegável que existe uma tentativa robusta de conceber uma ordem racional objetiva, uma natureza compreensível e uma vida ética de acordo com o logos. Isso os coloca em um patamar superior em relação a muitos moralistas contemporâneos que se consideram sofisticados por conseguirem citar duas palavras em alemão e três em francês, enquanto se afundam em um subjetivismo elegante.
Também é verdade que o estoicismo, particularmente em sua recepção posterior, teve uma grande influência sobre diversas correntes esotéricas, herméticas e ocultistas. Isso é fácil de notar. O conceito de correspondência entre as coisas, uma lógica ou inteligibilidade simbólica presente na natureza, a noção de que os mitos contêm verdades que demandam uma interpretação mais aprofundada tudo isso contribuiu para o desenvolvimento de tradições posteriores de leitura esotérica do mundo. O interesse intrínseco pela linguagem, pela origem dos nomes e pela relação entre palavra e natureza ecoa de forma clara em diversas correntes mágicas e hermenêuticas subsequentes. Uma coisa é admitir esse parentesco; outra é romantizá-lo.
Isso ocorre porque o estoicismo, ao ser removido de seu contexto filosófico e inserido no mercado atual de autoajuda, transforma-se em um espetáculo. A filosofia que abordava o cosmos, a alma, a ordem racional do mundo, a morte, o destino e a disciplina interior foi reduzida a frases clichês, vídeos com narração robotizada e estátuas musculosas ensinando homens abandonados a fingir que superaram a humilhação amorosa. É uma das coisas mais tristes e engraçadas simultaneamente. Uma tradição filosófica complexa foi reduzida a um suplemento moral para egos feridos. E ainda se referem a isso como o retorno da sabedoria antiga. Não. Isso é a sabedoria ancestral fazendo papel de ridículo no TikTok.
Ainda que se trate do estoicismo, existe uma diferença fundamental em relação a Maquiavel. Apesar de suas limitações, o estoicismo parte da noção de que o ser humano deve se adaptar a uma ordem racional superior à sua vontade individual. Maquiavel faz o oposto: submete a ordem prática ao desejo de poder. O estóico comete erros, frequentemente, por se envolver demais com o cosmos; o maquiaveliano erra por exagerar na vontade estratégica. Um busca preservar a vida interior por meio da conformidade com a ordem, enquanto o outro sacrifica essa ordem em prol da manipulação do exterior. Não é igual. E quem nivela tudo por preguiça comparativa acaba não entendendo nada.
A frase "faz o que tu queres há de ser tudo da Lei", frequentemente relacionada a Aleister Crowley, ilustra de maneira eficaz essa mudança moderna. Sim, em seguida ele adiciona "amor é a lei, amor sob vontade", buscando criar algum tipo de controle interno, contrapeso ou estrutura. No entanto, o dano causado pela primeira fórmula é claro. O desejo se aproxima perigosamente do trono. A pessoa começa a pensar que a autenticidade de seu desejo lhe dá legitimidade ontológica. Isso cria uma condição quase ideal para o satanismo moral, mesmo quando é apresentado com termos como autoconhecimento, destino pessoal ou descoberta do verdadeiro eu. Quando a vontade se transforma em lei para si mesma, o ser humano deixa de buscar o bem e passa a buscar a absolvição de seu próprio impulso.
Em Maquiavel, isso se manifesta de maneira menos cerimonial e mais política, porém a lógica subjacente é similar. No registro do ocultista, não se trata de "faz o que tu queres". No registro do príncipe, é "faz o que preserva teu poder". No entanto, a essência da operação permanece a mesma: a ordem moral objetiva é subordinada a uma estratégia de autoafirmação. O amor ao bem não controla a vontade; a vontade utiliza tudo e, se for possível, até a linguagem do bem. Não é por acaso que regimes, partidos, ideólogos e líderes de todos os tipos falam constantemente sobre justiça, paz, povo, liberdade e bem comum, ao mesmo tempo em que promovem exatamente o oposto. Eles aprenderam a empregar o léxico da virtude sem se submeter a ela. Esse é o autêntico legado de Maquiavel.
A fala de Balduíno IV em Kingdom of Heaven contribui para esclarecer isso de forma mais contundente do que muitos trabalhos acadêmicos. Ao questionar “Que homem é o homem que não torna o mundo melhor?”, ele atinge o cerne da política pré-moderna em sua mais elevada expressão moral. Não é suficiente apenas conservar-se. Não é suficiente apenas durar. Não é suficiente vencer. A autoridade só é válida quando está relacionada ao aprimoramento da ordem, à proteção dos inocentes, à justiça, à paz possível e ao progresso da cidade. Balduíno, o rei leproso de Jerusalém, sofre com a decomposição em seu corpo, porém mantém uma dignidade política muito superior à de muitos governantes saudáveis e bem-apessoados da atualidade. A enfermidade dele é menos degradante do que a saúde espiritual dos cínicos.
A história de Balduíno, de fato, desafia o pragmatismo contemporâneo. Um rei doente, jovem e fisicamente debilitado, rodeado por pressões intensas, consegue representar uma imagem de realeza mais digna do que a maioria dos administradores atuais repletos de MBAs, métricas, slogans de liderança e livros sobre negociação de aeroporto. Porque a ferramenta não é o que faz a diferença. Faz parte da alma. O homem que vê o poder como obrigação perante uma autoridade superior pode até falhar politicamente, mas sua atitude continuará sendo humana, compreensível e passível de avaliação moral. O homem que vê o poder como uma arte de autopreservação tende a apodrecer, mesmo quando "tem sucesso". E, às vezes, funciona por um período, o que é ainda mais problemático, pois o sucesso temporário do vício tende a impressionar os ingênuos.
É nesse ponto que o debate sobre as "cinco vias" de Tomás de Aquino assume uma relevância maior do que se poderia supor. Não porque sejam um tipo de artifício acadêmico para "provar Deus", como se fosse uma equação apresentada no quadro. Não é bem assim. São caminhos lógicos, raciocínios metafísicos que apontam para a necessidade de um fundamento último para o ser, o movimento, a causalidade, a contingência, os graus de perfeição e a ordem finalística. Não substituem a visão beatífica, não esgotam o mistério divino nem convertem Deus em um objeto empírico. Porém, do ponto de vista filosófico, mostram que a realidade não existe de forma autossuficiente e que a compreensão do ser indica algo além do próprio mundo. E isso é suficiente para desmantelar muitas tendências modernas.
A quarta via, particularmente, aborda diretamente o cerne desta discussão, pois lida com os níveis de perfeição. Quando identificamos graus variados de verdade, bondade, nobreza ou perfeição nas coisas, isso remete a um máximo, a uma origem pela qual esses níveis são compreensíveis. A ideia de perfeição não é criada pelo homem do nada. Ele a compreende de forma análoga, pois a própria realidade permite essa hierarquia. E se há um sumo bem, uma plenitude de perfeição, a ética não está desamparada. Ela possui horizonte. Tem dimensão. Possui referência. O homem pode falhar ao utilizá-la, pode distorcê-la, pode rejeitá-la, mas não pode, de forma honesta, pretender que ela não existe apenas porque anseia por um mundo onde suas paixões sejam perdoadas.
Sem isso, a administração se reduz a uma mera técnica de sobrevivência institucional. Uma empresa gerida dessa forma pode até prosperar, um governo pode até se estabilizar, uma organização pode até prosperar por um período, mas tudo isso ocorrerá dentro de uma deterioração de padrões que mais cedo ou mais tarde exigirá seu custo. O líder maquiavélico não cria uma comunidade; ele gera dependência. Não gera lealdade genuína; provoca temor calculado ou adesão por interesse. Não dá o exemplo; ensina os subordinados a mentir de forma mais eficaz. Não estabelece uma ordem justa; gera uma ecologia de cinismo na qual todos compreendem, eventualmente, que a linguagem moral é apenas superficial e que o verdadeiro jogo é outro. Em seguida, surgem as crises de confiança, os colapsos internos, as traições estratégicas e os rompimentos que os cínicos costumam chamar de imprevistos. Não se trata de surpresas. São os frutos envenenados que o solo produziu.
Por isso, acho engraçado quando alguém tenta apresentar Maquiavel aos administradores como se fosse apenas realismo desprovido de sentimentalismo. Não, meu amigo. Trata-se do pior tipo de sentimentalismo: o sentimentalismo de um ego ferido que prefere um mundo manipulável a um mundo autêntico. O maquiaveliano é menos rígido do que aparenta. Ele apenas não aceita depender da virtude, pois esta demanda uma transformação interna, restrição, sacrifício, humildade, paciência e estrutura. E tudo isso menospreza o desejo ansioso de controle. Portanto, ele rotula de ingenuidade aquilo que, de fato, o incrimina. Chama de idealismo o que o avalia. Denomina de moralismo aquilo que reprova. E assim continua, empregando a ironia como uma proteção para evitar reconhecer que trocou a complexidade da virtude pela astúcia do vício.
É nesse aspecto que a psicologia do maquiavelismo moderno contribui para esclarecer muitas questões. As pesquisas atuais sobre características maquiavélicas, incluindo o grupo conhecido como "Dark Triad", revelam pessoas mais propensas à manipulação, instrumentalização dos demais, frieza estratégica e uso deliberado das relações para alcançar benefícios. Não estou convertendo literatura psicológica em evangelho, pois a psicologia descritiva não prevalece sobre a ética. Porém, como ferramenta auxiliar, ela é útil. E o que ela descreve confirma uma intuição moral muito antiga: quando o outro deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser um meio, a alma já começou a se deteriorar. O maquiavélico moderno não é apenas uma pessoa extremamente inteligente. Muitas vezes, é uma pessoa moralmente mutilada que aprendeu a transformar sua própria mutilação em uma habilidade social.
Por isso, a literatura empresarial que exalta a frieza, o desapego emocional total, o cálculo reputacional e a gestão baseada no medo me provoca tédio antes de gerar revolta. Tudo é bastante previsível. A mesma antiga miséria humana, mas com um PowerPoint mais elaborado. A pessoa denomina crueldade como meritocracia, manipulação como leitura de cenário, omissão covarde como inteligência emocional e mentira funcional como comunicação estratégica. E, como sempre ocorre quando o mal ganha crachá, ele se considera sofisticado. O diabo aprecia pessoas que se consideram sofisticadas ao praticar o vulgar. Torna o trabalho dele muito mais fácil.
O ponto crucial ainda é este: virtude e vício não são termos de um catecismo ultrapassado. São categorias concretas da vida humana. Um administrador virtuoso não é um santo de vitral que sorri diante da falência da empresa. É uma pessoa capaz de direcionar recursos para fins verdadeiramente positivos, manter a justiça nas relações, exercer autoridade sem humilhar, corrigir sem crueldade, agir com prudência sem se tornar covarde, resistir à tentação de vantagens mesquinhas e entender que toda decisão administrativa também é uma decisão moral, pois molda pessoas, hábitos e ambientes. O administrador vicioso pode até obter resultados imediatos, mas acaba criando uma cultura interna de deformação. E cultura distorcida cobra juros.
É por essa razão que nenhuma administração respeitável deveria considerar Maquiavel como mestre. Pode ser interpretado como sintoma, evidência de uma degradação ou diagnóstico parcial das técnicas de poder empregadas por homens corruptos. Pode até se dedicar ao seu estudo para identificar o inimigo, assim como se estuda veneno para não ingeri-lo. Porém, considerá-lo como guia é algo diferente. Isso já é rendição. Nesse caso, a pessoa já optou por eficiência sem verdade em vez de ordem com justiça. E quando alguém opta por isso, mais cedo ou mais tarde percebe que a eficiência também o deixa, pois a mentira corrói até os meios que se usa para triunfar.
O mesmo se aplica à sequência moderna que o segue. Descartes não deve ser considerado irrelevante, mas sim abordado com cautela. Kant não deve ser venerado como o ápice moral, mas submetido a um julgamento rigoroso. Hegel deve ser observado como se observa um arquiteto do delírio histórico. Marx deve ser compreendido como a tradução social de uma escatologia sem céu, enquanto Gramsci é o estrategista cultural que reconheceu que a revolução mais eficaz não é aquela que ocupa o palácio, mas a que transforma a alma da sociedade a ponto de o palácio desmoronar por conta própria. Tudo isso é resultado da mesma doença subjacente: a substituição da ordem objetiva do bem por construções humanas que pretendem ser salvíficas.
Em suma, o que Maquiavel propõe é que o homem deixe de ser bom e passe a ser apenas eficaz. Embora possa parecer pouco, trata-se de uma completa mutilação da política, da administração e da dignidade humana. Quando a eficácia passa a ser o critério final em lugar do bem, o ser humano aprende a se admirar por sobreviver, mesmo que isso o torne indigno. Aprende a chamar de maturidade a sua própria deterioração. Aprenda a chamar de visão estratégica o descaso com a consciência. Aprende a rotular a covardia como prudência e a crueldade como coragem. E, além disso, aprende a transmitir esse comportamento para os outros. Uma civilização apodrece não quando abandona o discurso sobre a virtude, mas quando continua a proclamá-la enquanto opta por viver de outra forma.
É por isso que Maquiavel não é um bom exemplo para um mestre de administração. Não por ser "excessivamente polêmico", "excessivamente duro" ou "excessivamente mal compreendido". Não. Ele não é bom porque ensina a habilidade de dissociar inteligência de bondade, poder de justiça e governo de propósito moral. E sempre que essa separação é aceita, o resultado é o mesmo: primeiro, uma eficiência aparente; depois, uma degradação real; primeiro, o fascínio dos fracos; depois, o sofrimento dos inocentes; primeiro, a admiração do cínico; depois, a ruína da casa inteira. O homem que aprende a governar contra a virtude pode até conquistar o mundo por um tempo. Porém, já se perdeu de si mesmo no primeiro movimento.
Aprendi desde cedo que muitas pessoas falam de filosofia administrativa com a mesma confiança com que um papagaio repete palavras difíceis. O som é agradável, a convicção é forte, mas a substância... bem, a substância quase nunca está presente. Uma das primeiras ocasiões em que isso se tornou tão evidente que se tornou cômico ocorreu em uma sala de aula de administração, em uma dessas matérias em que o docente decide abordar liderança, poder e "realismo político". Nesse contexto, alguém acaba mencionando Maquiavel como se fosse um santo padroeiro da gestão eficaz.
Enquanto o professor falava com entusiasmo sobre os “benefícios práticos” da ética maquiavélica para administradores e gestores, eu estava sentado no fundo da sala, ouvindo a palestra. A palavra ética já estava distorcida, mas ele falava com tanta certeza que a maior parte da sala acabava aceitando. Para eles, aquilo parecia sofisticado: política pragmática, liderança firme, visão estratégica, esse tipo de coisa.
Houve um momento em que eu levantei a mão.
— Professor, há uma distinção significativa entre ética objetiva e esse tipo de pensamento maquiavélico.
Ele respondeu com segurança imediata.
— Não, não é tão simples assim.
E então surgiu o exemplo.
Ele começou a explicar que uma empresa poderia firmar um acordo com um órgão ambiental, como o IBAMA ou uma secretaria estadual de meio ambiente, no qual se comprometeria a manter uma área reflorestada, plantar árvores e preservar parte da vegetação, enquanto explorava economicamente outra parte da terra.
De acordo com ele, isso seria um exemplo de ética maquiavélica na administração.
Fiquei observando-o por alguns segundos.
Por dentro, eu já estava rindo.
Não por arrogância desnecessária, mas porque aquilo não tinha sentido filosófico algum.
Ergui a mão novamente.
— Professor, isso não é maquiavelismo.
Ele fez uma expressão de descontentamento.
— O que quer dizer com isso?
— Primeiro, porque maquiavelismo não é propriamente uma ética. É exatamente o oposto. É uma falta de ética. Nesse caso, a lógica não é "agir bem para alcançar um bem", mas sim justificar qualquer meio, desde que preserve ou amplie o poder.
A sala ficou quieta.
Eu prossegui.
— O exemplo que o senhor apresentou é, sem dúvida, um exemplo de ética objetiva. Há um acordo com uma autoridade legítima, um compromisso público e um benefício concreto sendo gerado: reflorestamento, conservação ambiental e uso econômico controlado da terra. Isso não é nada maquiavélico.
Ele tentou responder de forma rápida.
— Não, mas observe que, na prática, as empresas…
Ainda tranquilo, eu interrompi.
— Professor, o maquiavelismo seria algo diferente. Por exemplo, a empresa poderia assinar o acordo, devastar toda a área e, em seguida, falsificar relatórios ambientais afirmando que as árvores ainda estão lá e que o reflorestamento foi realizado. Ou plantar algumas árvores apenas para inspeção e, em seguida, remover tudo para maximizar o lucro imediato.
Alguns estudantes começaram a rir.
Eu prossegui.
— Isso, de fato, seria maquiavelismo. Você causa um dano significativo ao meio ambiente e comete fraude institucional para obter um benefício próprio. A aparência do bem é empregada apenas como ferramenta.
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então tentou alterar o rumo da conversa.
— Mas observe que, na prática administrativa…
Eu disse:
— Professor, o primeiro exemplo que o senhor deu retrata uma colaboração legítima entre interesse financeiro e compromisso ambiental. Isso está completamente alinhado com a ética objetiva. Tomás de Aquino, por exemplo, compreenderia isso facilmente no contexto do bem comum.
Ele iniciou sua fala abordando temas como regulamentação, burocracia e funcionamento de instituições públicas.
Nada daquilo abordava a questão filosófica.
Então eu declarei:
— Professor, o senhor está alterando o raciocínio. Inicialmente, o exemplo era o maquiavelismo. O senhor está se referindo apenas à administração agora.
A sala caiu em um silêncio um tanto desconfortável.
Ele respirou fundo, olhou para o relógio e proferiu a frase típica de todo professor quando a discussão fugiu do controle.
— Bem... vamos deixar a filosofia de lado e voltar à prática da administração.
E trocou de assunto.
A aula continuou.
No entanto, o episódio ficou gravado na minha memória porque revelou algo que eu já havia notado anteriormente e continuaria a notar muitas vezes depois: muitas pessoas falam sobre maquiavelismo sem sequer compreender o que a palavra realmente significa.
Para muitos gestores e empresários, "ser maquiavélico" tornou-se apenas um sinônimo um tanto glamouroso de ser estratégico. Como se fosse uma maneira refinada de inteligência prática.
Porém, o que Maquiavel realmente sugere é algo diferente.
Ele sugere que a fraude moral seja legitimada em prol da eficácia política.
Ele sugere que o governante recorra à mentira, manipulação e crueldade quando necessário para manter o poder.
Isso não representa uma ética alternativa.
Isso representa uma violação da ética.
É interessante observar pessoas que se consideram conservadoras, cristãs ou defensoras da tradição adotando esse discurso maquiavélico sem perceber que estão traindo a base moral que afirmam defender.
É o empresário que prega sobre Deus no domingo e, na segunda-feira, justifica a trapaça estratégica.
Trata-se do gestor que menciona princípios cristãos e, em seguida, elogia a manipulação psicológica de um funcionário.
É o indivíduo que afirma proteger a civilização ocidental, ao mesmo tempo em que reproduz, orgulhosamente, a lógica que a deteriora internamente.
E então, recordo-me daquela aula.
Do silêncio presente na sala.
Da confusão do docente ao tentar evitar a questão.
E noto algo simples.
A questão do maquiavelismo moderno não se resume apenas ao fato de ser moralmente condenável.
Isso ocorre porque muitas vezes as pessoas que o defendem nem sabem o que é.
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