Reflexão a Respeito do Dia dos Namorados: A Infância Não Vai Embora Apenas Aprende a Disfarçar
Dizem que a infância é um aposento trancado à chave quando nos tornamos adultos. É uma mentira dizer. A infância não se deixa encerrar: ela aparece vestida de maneira formal, assina contratos e simula ter poder, mas, por dentro, o menino com a marca roxa ainda continua golpeando a perna do mundo. Este é o testemunho de uma criança que sabia demais, que apanhava por estar certa, que procurou Deus pela única porta ainda não profanada — a da razão.
Gabriel G. Oliveira
7/2/202636 min ler


O Garoto, o Motor Parado e o Observador da Vida
E se a infância fosse o local onde a realidade da vida se oculta? Pergunto com sinceridade, pois foi naquele lugar, antes que qualquer livro me ensinasse a identificar o que eu observava, que a vida me revelou seu lado oposto. Eu era uma criança extremamente solitária — não por falta de pessoas ao meu redor, pois havia muitas, mas pela dificuldade de encontrar, entre todas essas pessoas, alguém com quem realmente valesse a pena ter uma conversa significativa. Eu possuía uma mente distinta, e não afirmo isso por uma vaidade tardia: digo isso porque a diferença era qualitativa, e não apenas quantitativa. Comparar a minha maneira de pensar com a das outras crianças era tão disparatado como comparar uma criança a um macaco. Eu aprecio essa comparação precisamente porque ela é desfavorável para quem a escuta, mas é muito precisa para quem a experienciou: as outras se dedicavam a agir de forma extravagante e boba, enquanto eu, com os pés no chão, rejeitava a companhia delas, pois estar ao lado delas me tornava mais pobre em termos de experiência.
As únicas pessoas com quem eu poderia me relacionar de forma genuína eram os adultos, e foi deles que eu recebi o pior. Bastava eu pronunciar qualquer palavra que fosse ligeiramente superior ao que se esperava para que me encarassem como se eu estivesse demonstrando arrogância. Não se tratava de arrogância; era altura. A altura de uma criança perturba o adulto medíocre, como se fosse uma acusação muda, e o adulto medíocre reage com a única ferramenta que tem: o desdém. Cuspiam na minha cara, de maneira figurada e, em algumas ocasiões, nem tanto, sempre que eu me aproximava. Aquilo despertou em mim uma raiva que era tanto intensa quanto duradoura — uma raiva profunda, enraizada. A injustiça que uma criança sofre não é uma injustiça comum: é a inaugural, e essa primeira ferida é a que instrui o corpo sobre a dor. Isso é chamado tecnicamente de etarismo, que é o preconceito contra alguém devido à sua idade. Frequentemente, no meu caso, tratava-se do preconceito do mais velho em relação ao mais novo, e quase sempre proveniente de quem deveria me oferecer proteção.
Minha mãe, principalmente, me enxergava como um enfermo. Eu possuía uma anomalia cromossômica, uma pequena falha no cromossomo, e, ao tomar conhecimento disso, ela passou a me tratar como se eu estivesse doente em todos os aspectos — e vale mencionar que ela própria vivia em um estado de autismo que era ainda mais elevado do que o meu. Era estranho olhar para aquela mulher e vê-la falar comigo como se eu fosse uma criança de oito anos, sabendo ela, e não havia como não saber, que eu estava em seu mesmo patamar. Eu não conseguia suportar. Quando ela me arrastava os cabelos, eu respondia à altura; quando me tratava com desprezo, como se eu fosse um incapaz, eu reagia com a raiva de quem se sente sufocado. Não relato isso com vaidade, mas com sinceridade: era uma criança sendo oprimida por adultos, e a criança que sofre agressões aprende rapidamente que a submissão é apenas uma forma elegante de se referir à capitulação. Há uma realidade que muitos se recusam a admitir: até uma certa idade, a criança é tratada como se fosse um escravo. Primeiramente, era submissa aos pais. Embora eu não negue que exista algo de necessário nisso, é importante ressaltar que o que é necessário não é necessariamente justo, e a criança percebe essa diferença muito antes de conseguir expressá-la verbalmente.
Teve uma professora — e teve dessas durante toda a escola, mas essa foi a pior — que me ensinou do primeiro ao quinto ano. Foi aproximadamente no terceiro que ela ficou sabendo que meu pai me agredia, e também soube a razão pela qual eu não cumpria as tarefas. Eu não as realizava, em parte devido à dislexia, e em parte por causa do autismo, que, quando eu era criança, se manifestava de forma muito mais intensa do que atualmente, a ponto de eu quase não interagir com as outras crianças — não por falta de habilidade, mas por opção: considerava tudo aquilo tão trivial que preferia ficar em silêncio. A disputa com ela era quase engraçada devido à sua pequenez, e por essa razão, bastante reveladora. Ela formulava uma frase contendo duas perguntas, e eu, uma vez que, na conversação real, não se separa o que converge para o mesmo ponto, respondia ambas com uma única resposta. Era sempre assim que ela escrevia: “errado, errado, errado”. Até o momento em que lhe afirmei, de forma clara e direta, que a falha não estava comigo — que era possível responder a duas perguntas utilizando uma única resposta quando ambas convergem, e que não perceber isso demonstrava uma carência de léxico, uma falta do mínimo necessário para se considerar uma professora de português. Ela ficou muito irritada. Mais tarde, ela perguntou por que eu a tratava daquela maneira, e eu respondi com a única verdade que existia: porque meu pai me agredia por causa dela. Porque ela me indicava com o dedo, ciente de que, em casa, aquele gesto se transformaria em um soco nas minhas costelas.
E eu não recebia poucas surras. Era frequente que ficasse com marcas roxas, quase todos os dias, recebendo socos nas costelas e no rosto, e a questão que ninguém se atrevia a perguntar, mas que era a única que realmente importava, era: de quem era a culpa? Fui castigado, ano após ano, por ter razão. Quando eu contestava um professor, ele me acusava de desrespeito — e, claro, quando se refuta um parasita qualquer em plena aula, ele chama isso de desrespeito, porque não pode se referir a isso como uma derrota. Aquela professora não parava de dizer: “você está em período de alfabetização”. Então, ela e eu nos envolvemos em uma discussão sobre sistemas educacionais que não vou recontar aqui, pois seria pouco esforçado e maçante para quem está lendo; basta mencionar que eu a superei de forma contundente, pois queria que ficasse evidente que, em relação a mim nesse tema, ela era bastante inferior. Então, algo surpreendente ocorreu: ela abriu os olhos. É provável que este garoto tenha alguma inteligência, deve ter refletido. Quem sabe eu devesse parar de agir como se ele fosse inferior aos demais. Foi um pouco, mas já é algo. O que se seguiu foi que eles observavam meu desempenho e, apesar de perceberem que eu possuía muito mais conhecimento e fazia conjecturas de forma mais rápida, ainda assim não conseguiam me tratar como uma pessoa. Eu era apenas uma estatística, assim como o MEC ainda lida com as crianças nos dias de hoje — uma cifra que recebe isso, entrega aquilo, e é isso, ponto final.
Isso gera uma ira que se torna imensa, pois é uma criança acumulando uma injustiça após a outra. Meu pai, mesmo com as surras, me ensinou uma lição que sempre vou lembrar: nunca aceitar qualquer coisa. Não sou, nem nunca fui, o tipo de pessoa que aceita tudo sem questionar. Quando um professor preguiçoso me enchendo de disparates por eu estar correto, minha reação era simplesmente ignorá-lo; se ele insistisse, eu o encaminharia à direção; e se a direção interviesse, eu a direcionaria ao governo. Sempre foi dessa forma comigo, e costumo dizer a todos os meus alunos: um professorzinho preguiçoso que está lecionando é, para mim, muito pior do que um ladrãozinho, pois enquanto o ladrãozinho furta um relógio, o professor incompetente acaba por formar ladrãozinhos. Ele cria o descontentamento em relação à aula, a insatisfação com a própria inteligência do estudante, e faz tudo isso em nome da educação. Por essa razão, sempre procurei tratar essas pessoas com um desdém intencional. Vagabundo, na minha opinião, merece ser repreendido — mesmo que seja apenas de forma verbal, durante um debate, que era a única forma que eu lhes proporcionava. Porque estou exausto de viver como um escravo.
E aqui chega o ponto que poucos compreenderam, pois é necessário ter fé em uma criança. Eu possuía o que é conhecido como savant: não uma inteligência comum, mas uma profunda curiosidade — uma urgência em explorar os meandros de um assunto e, em seguida, reconstruí-lo completamente em sua essência. Quando me ensinavam a metafísica aristotélica, eu não estava interessado na definição; eu queria entender o sistema que existe dentro do sistema, com suas árvores simbólicas, suas correspondências e suas camadas. Havia uma consequência peculiar disso: eu conseguia prever a direção do pensamento antes que ele chegasse lá. Já estava ciente de que Aristóteles chegaria a uma dimensão espiritual e a um Deus singular antes mesmo de ler a Metafísica; quando ele começou a se referir ao motor imóvel e a outros motores, não fiquei surpreso, pois a lógica do homem era clara para mim. Li a Ética a Nicômaco e pensei: a Metafísica vai ser do mesmo jeito. E foi desse jeito. Não por meio de uma adivinhação mística — que sempre abominei, e ainda abomino, com seu misticismo carregado de emoções —, mas porque era capaz de interpretar aquilo de forma lógica, e a lógica, quando é verdadeira, possui um caráter profético. É por isso que eu sempre detestei a comidinha que serviam na escola. Fazer uma criança como eu era ler um estudo sem sentido era tão apropriado quanto oferecer comida para bebês a um adulto de trinta e cinco anos: simplesmente não desce, e é repugnante. Eu buscava profundidade. Desejava um churrasco, não um mingau.
Existiu uma professora de ciências que, em uma ocasião, eu mesmo tive a oportunidade de ensinar — sobre física quântica, abordando temas como a teoria das cordas, os multiversos, o entrelaçamento e refutando suas afirmações com os próprios cálculos da física teórica diante dela. Você tem ideia do que ela fez? Foi até o meu pai e me atribuiu uma nota baixa, acompanhada da frase que sintetiza um sistema inteiro: “o Gabriel sabe muita coisa acima da média, mas não sabe o básico”. Permanecei em silêncio por um minuto, observando-a, em seguida, dirigindo meu olhar para meu pai que estava ao meu lado — era a décima oitava vez, ou algo próximo a isso, que ele era convocado à direção por minha causa — e a raiva subiu pela minha garganta, pois eu estava ciente do que aquela nota representava em nosso lar. A afirmação dela, “sabe o difícil mas não o básico”, representa a mais covarde das justificativas que um medíocre pode inventar para evitar reconhecer que foi superado por um garoto. A simplicidade, naquele contexto, servia como uma justificativa; na realidade, eu possuía informações que ela desconhecia, e isso, em um adulto vaidoso, é algo que não pode ser perdoado.
Eu nutria um profundo desprezo pelos professores durante minha infância, e não era um ódio trivial. Era um ódio profundo, aquele que uma criança humilhada sente por quem a menospreza, apoiado pelo poder do Estado. Cheguei a comentar com um amigo, durante as piadas que, por serem tão verdadeiras, já não eram realmente piadas, coisas que hoje me surpreendem pela intensidade — imaginações nas quais aqueles professores simplesmente deixavam de existir, recebendo, de uma só vez, o pagamento por tudo o que nos faziam. Era a revanche fictícia de quem não possuía uma verdadeira. Não tenho orgulho da ilusão; anoto-a, pois ela indica quão fundo é o poço. Quando um adulto leva uma criança a querer que alguém desapareça, quem está doente não é a criança, mas sim o adulto que a colocou nessa situação.
Portanto, as meninas não me agradavam nem um pouco, e a causa disso era a mesma. Eu era um garoto mais viril, mais impulsivo do que os outros, e o impulsivo é assim porque não consegue ficar em silêncio ao ver o erro acontecer diante de seus olhos. Isso se refere ao professor jumento que afirmava que não existe diferença entre o certo e o errado, e que tudo depende da percepção de cada indivíduo sobre o que é certo e errado — tornando a ética subjetiva, como é feito atualmente em todos os lugares. Eu já tinha consciência, mesmo quando era apenas uma criança, de algo que levei muitos anos para articular de maneira precisa: o conceito de bem e mal só existe dentro dos limites de uma ética objetiva; fora desses limites, não há bem nem mal, apenas diferentes preferências. É por essa razão que o esquerdista sempre questiona, com um semblante astuto, “mas o que determina o que é o bem?”, e se surpreende ao receber de volta a pergunta completa. Ele questiona o que se entende por cidadão de bem, como se a resposta fosse complexa: é o indivíduo que não rouba, não mata, não comete crimes hediondos e que possui uma visão justa do mundo. “Então, o que trai a esposa também é homem de bem?” Não — de forma alguma, e é precisamente neste ponto que o conservador desajeitado se confunde, pois não consegue perceber que a objeção se refuta automaticamente quando se possui um critério. O padrão a ser seguido é a Igreja, que sempre definiu o que é considerado errado. “Ah, então você é um cabritinho da Igreja, obedece à Igreja?” Certamente, é um prazer afirmar que a alternativa à submissão a um critério verdadeiro não é a liberdade, mas sim a servidão a qualquer critério inexistente, o que representa a forma mais intolerável de servidão. O esquerdista não compreende a ética objetiva porque não possui uma compreensão clara do conceito de Deus, e aquilo que ele não entende, ele tende a relativizar. Não vale a pena discutir isso apressadamente: seria necessário explorar as cinco vias de Tomás de Aquino e demonstrar que se passa, da ética subjetiva, inevitavelmente, ao autoritarismo, e, quando ele se agarra ao “Marx foi deturpado”, seria preciso encontrar para ele as incoerências de Marx — que ele defende sem nunca ter lido, porque é uma mula preguiçosa que não abriu um compêndio de O Capital na vida. É por essa razão que, em algumas ocasiões, eu defendo a ideia de remover a filosofia do currículo da escola fundamental, permitindo que ela seja ensinada apenas no ensino médio: introduzir a filosofia desde cedo para um grupo de jovens que ainda não está preparado, e com professores que também não possuem a devida formação, é criar uma oportunidade aberta para que um marxista insira o que quiser nesse espaço. Eu testemunhei isso ocorrer diante dos meus olhos por vários anos.
A única fuga possível era a biblioteca. Era o único local que oferecia algo de interessante e onde eu não precisava falar com um monte de pessoas que não me compreendiam e que, em relação ao que não entendiam, zombavam de mim. As garotas lá fora conversavam sobre maquiagem, bonecas e qual blusinha ficava melhor em cada uma; os rapazes falavam sobre como conquistar uma garota, futebol, pesca e caça — e quanto a essas duas últimas atividades, eu participava, pois o mato ao lado da minha casa era como uma segunda escola para mim, e era para lá que meu pai me enviava, sozinho, armado apenas com uma faca, um arco e uma vara de pescar, dia após dia. Dentro da biblioteca, o mundo se transformava. Foi nesse lugar que, aos nove anos de idade, conheci uma menina um ano mais velha, da turma acima da minha, que estava imersa na leitura de A Tempestade, de Shakespeare — a obra do mago que se encontra exilado em uma ilha, rodeado de criaturas que ele dominava — enquanto eu estava ocupado lendo Schopenhauer. Ela me questionou, com uma expressão de surpresa, se eu realmente lia aquilo, e eu respondi afirmativamente, dizendo que para mim era algo comum. E iniciamos uma conversa, e eu realmente gostei de falar com ela, pois era a primeira vez que a biblioteca me restituía uma criança em vez de um macaco.
No entanto, eu carregava, desde aquele período, uma autoestima bastante reduzida, criada no ambiente familiar, e isso me prejudicava nas questões amorosas. Eu tentei me aproximar de várias meninas, mas só me dei mal. As garotas da escola em que eu estudava eram cruéis de uma maneira particular: não se contentavam apenas em rejeitar o rapaz que demonstrava interesse, elas o humilhavam na frente de todos e depois saíam falando mal dele para todo mundo, sem qualquer pena. Eu observei o que isso causou aos garotos ao meu redor ao longo dos anos. Entre os membros do nosso grupo, após tantas decepções e frustrações desde o primeiro ano, alguns optaram por abrir mão de qualquer tipo de relação. Um deles, anos mais tarde, compartilhou comigo que já não valia a pena — que, dadas as leis atuais, não compensava mais. No entanto, com a garota da biblioteca, eu não expressei meus sentimentos, e isso não foi devido ao receio de ser rejeitado. Foi um cálculo, um cálculo proveniente de uma criança triste: eu preferia manter a ilusão de um futuro em que talvez eu chegasse a ela já superior ao que era, em vez de queimar essa possibilidade no presente, nu como estava. Quando tinha nove anos, acreditava que poderia sabotar a versão futura de mim mesmo se me atirasse agora. É um sentimento de profunda tristeza, e eu o reconheço.
Com o passar do tempo, alguns desses amigos me revelaram algo que eu não esperava: que eles haviam começado a se envolver romanticamente com homens, pois consideravam quase inviável ter um relacionamento com mulheres. Não por preferência, afirmavam, mas por cansaço. Eles afirmam que o homem é capaz de entender o outro, enquanto a mulher não é — é necessário quase que ministrar uma aula sobre o assunto mais simples para que ela consiga compreender, e muitas vezes, mesmo com essa explicação, ela não consegue, pois está presa em um ciclo no qual você já é considerado o culpado. Ela vai recolhendo, ao longo da vida, fragmentos de informações que obteve sobre você sem jamais fazer perguntas diretas, e vai formando suposições em sua mente até chegar a nutrir um ódio por você. Falo com base no que me foi relatado e no que observei; falo de maneira geral, sobre o que a maior parte das mulheres que passaram pela minha vida me revelou, não de todas, pois a generalização aqui não é uma imposição: é a representação de uma vivência. E essa constatação, que inicialmente soava como uma simples amargura de um amigo, eu voltaria a encontrar mais tarde, já com um nome e uma forma definida.
Quando comecei a aprender sobre neurociência, pude constatar o que o meu amigo afirmava, de uma forma um tanto rudimentar: a mulher se sente atraída pelo homem devido àquilo que ele é capaz de criar e ao trabalho que ele realiza, enquanto o homem se apaixona pela mulher apenas por ela existir como ela é. No ser humano, não existe a contagem de recompensas; existe o indivíduo. E isso me conduziu à única definição de amor que considero verdadeiramente digna desse nome. Amar não é querer; amar é ter, pela pessoa, a expectativa do que ela poderá se tornar e a valorização do que ela já é, reconhecendo o potencial que isso carrega. Não se trata de acreditar na pessoa — é ter esperança nela. O homem ama dessa forma, e é por essa razão que seu amor é, nesse aspecto, mais intenso: ele observa não apenas o que ela é, mas também o que ela pode vir a ser, enquanto a análise fria se concentra apenas no que pode ser obtido. Observei isso em todos os meus relacionamentos, tanto com mulheres quanto com homens, enquanto cada um comentava sobre o outro, destacando os aspectos que atraíam de cada lado. Essa assimetria se manifestava com uma regularidade que já não podia ser considerada uma piada.
Quando eu era criança, ao ler algumas ideias que atribuía a Freud, pensei que ele poderia estar correto, pois observava isso na minha mãe todos os dias. Lia, em Freud, ou no que então tomava por Freud, que a mulher gera ideias novas na cabeça mais ou menos até os trinta anos e que depois passa a repetir, num ciclo, o que já tinha, enquanto o homem iria mais longe. Através da minha mãe, que está aprisionada nesse ciclo, observando a vida sempre pela mesma abertura, sem perspectivas renovadas, como se sua existência tivesse congelado em um determinado momento. Alterei essa visão mais adiante, ao me deparar com mulheres mais velhas, mentalmente equilibradas, que possuíam diferentes perspectivas e outros universos — algumas das quais tive relacionamentos já após ter completado vinte e poucos anos. Portanto, cheguei a uma compreensão mais profunda: a mulher que o homem se refere como “maluca” raramente é maluca; em geral é uma pessoa com déficits cognitivos reais, ou alguém que sofre de uma coisa para a qual eu mesmo precisei inventar um nome.
Chamo-lhe gnose penetrante. É o que ocorre com indivíduos que são excessivamente frágeis internamente — não apenas as mulheres, mas qualquer mente que apresente fragilidade — quando começam a criar, em sua própria imaginação, sistemas de conhecimento gnósticos: convicções pessoais, elaboradas sem referência a fontes e sem a confrontação de ideias. A idiotia é a raiz, e o idiota, em seu sentido mais rigoroso, é a combinação de três defeitos: ele é estúpido por ser obstinado, arrogante por se considerar superior aos outros, e ignorante por afirmar que possui conhecimento e acreditar que pode obter de forma independente aquilo que, por sua essência, não pode ser alcançado sem ajuda. O imbecil é, em uma palavra, o indivíduo que se considera totalmente independente — independente até mesmo em sua crença. Quando essa autossuficiência se mantém, a pessoa se torna o que eu chamo de hexagrama da perdição. No núcleo existe um buraco negro, cercado por uma zona de eventos: inicialmente, a relativização — tudo é relativo, todo pensamento é relativo —, em seguida, a subjetivação, na qual o indivíduo começa a criar até mesmo as coisas tangíveis, assim como Descartes fazia com seu “penso, logo existo”, uma metafísica risível que dissolve o mundo na imaginação daquele que o contempla. Quem cai nisso toma qualquer teoria da conspiração por verdade, ou toma as fanfics que cria na cabeça por verdade. Surge a curiosidade investigativa de quem, mesmo sem conseguir entender uma situação, deseja compreendê-la e, por isso, começa a vasculhar tudo ao seu redor para processar essas informações sozinho. Mas eu faço uma distinção correta: nem todos os que estão nesse estado são arrogantes. Tem quem tenha sido traído e, em meio à dor, fique fuçando, investigando, sem perguntar diretamente — esse não é um arrogante em busca de problemas, mas sim um náufrago se segurando em qualquer tábua que flutue, e por isso sinto compaixão. Existe também aquele que, mesmo sem enfrentar nenhum problema, se dedica a procurar dificuldades onde não existem, como alguém que busca por pelos em um ovo: o ovo, por sua natureza, não possui pelos, mas essa pessoa persiste na busca, na esperança de encontrar a possibilidade de que haja algum. Existe o idiota passivo, que afirma “tudo é subjetivo mesmo” e abandona o mundo; e existe o idiota ativo, que, tijolo por tijolo, edifica a gnose que só existe dentro do próprio crânio.
Isto é algo que se observa frequentemente nas mulheres, e reitero que não é responsabilidade delas: resulta da maneira como foram educadas e de como aprenderam a perceber o mundo ao seu redor, especialmente durante a infância, quando eram excessivamente mimadas. O professor Olavo de Carvalho abordava as diferentes camadas da personalidade, e os indivíduos que pertencem à quarta e quinta camada frequentemente agem de maneira infantil, uma vez que foram excessivamente mimados desde cedo e nunca tiveram a necessidade de confrontar suas próprias ideias com a realidade. O que se observa é uma distorção: ela confunde uma versão interna do mundo que ela deseja que seja verdadeira com a realidade e, assim, transforma em realidade, dentro de si mesma, aquilo que apenas explorou de forma superficial. No lugar de questionar seu marido sobre uma possível traição ou procurar evidências, ela opta por investigar por conta própria, e o que vai desenvolvendo não é entendimento — é rancor. Às vezes, tudo se inicia com uma pequena irritação ou uma suposição mal formulada, e essa suposição vai crescendo, acumulando mais e mais elementos, até que a pessoa se dá conta de que já não sente amor por quem está ao seu lado: pelo contrário, sente ódio. Isto é o conhecimento intenso do amante, e isso arrasa quase qualquer relação.
E não acreditem que isso é algo que afeta apenas as mulheres. O homem contemporâneo, na maioria das situações, mantém a mesma inclinação de cabeça para esse lado — apenas disfarça de forma mais eficiente. Convivi com turmas da minha idade em que isso era o padrão: o cara que, quando pegava raiva, saia espalhando para geral o segredo que você havia confiado a ele, uma traição que em qualquer lugar respeitável resultaria em um pagamento e que ali já estava totalmente aceitável. É uma demonstração de caráter duvidoso, uma carência de masculinidade no verdadeiro sentido tradicional da palavra — um verdadeiro homem não age dessa forma; isso é coisa de garoto. Saí de muitos desses grupos, pois uma amizade desse tipo não compensa. Eu abandonei porque sempre fui, talvez devido à minha personalidade, uma pessoa que valoriza o raciocínio e a lógica, e que é contrária a tudo que compõe o hexagrama da ruína; raramente digo algo que não tenha origem em uma lógica rigorosa. Assim, essa pessoa rapidamente chega à conclusão de que eu devo ser terrível com as mulheres. É exatamente o oposto. Eu sou hábil com as mulheres atualmente exatamente porque deixei de ser aquele garotinho impaciente em relação à tolice; e vale a pena recordar que a tolice se faz presente de maneira mais intensa entre os oito e catorze anos, período em que a mente ainda é uma massa amorfa, repleta de conhecimento, mas ainda não devidamente moldada. Foi por essa razão que eu observava as outras crianças e afirmava, de forma indelicada, que eram um grupo de macacos com os quais eu não tinha interesse algum.
Não afirmo isso apenas por desdém. Desde jovem, eu havia criado e aplicado métodos para determinar, em poucos minutos de diálogo, se a pessoa que estava diante de mim era realmente capaz de participar de uma discussão significativa ou se apenas demonstrava teimosia disfarçada de argumentação — por meio de perguntas e cadeias de questionamentos e respostas que revelam a estrutura do pensamento, suas habilidades inatas e o nível em que ele opera. Em apenas dez minutos, eu já tinha uma noção se era vantajoso; após meia hora, tinha certeza absoluta. O que inicialmente parecia ser uma arrogância infantil se transformou, mais tarde, na minha principal ferramenta como educador, uma vez que ensinar de maneira eficaz começa com a avaliação justa de cada indivíduo. Descobri que o jumento, na maioria das vezes, representa aqueles que não conseguem criar cenários em suas próprias mentes: se você lhe solicita que visualize como seria sua vida se possuísse um carro que, na verdade, não tem, ele simplesmente responde que não possui dinheiro para adquirir o carro, que provavelmente nunca terá essa quantia, e, por isso, não fará nenhuma imaginação a respeito. Ele não fantasia, não planeja, não especula; é necessário que ele explore previamente todos os caminhos concretos até chegar àquilo, para que só então possa visualizá-lo, o que, na prática, equivale a não visualizar. E aqueles que não conseguem imaginar, não conseguem amar, pois o amor, como já foi afirmado, é constituído da essência da esperança, e a esperança é uma maneira de imaginar o bem.
No nosso grupo havia uma menininha que me amava desde pequena, e a história dela é a melhor ilustração de tudo isso. Em sua casa, não havia de onde receber amor. A mãe era do tipo que nós chamamos aqui de mãe italiana — não a mãe superprotetora, que mimam os filhos com todos os tipos de favores, mas aquela que encara o próprio filho com um certo desdém, como se fosse um incapaz, e que faz tudo por ele sem qualquer afeto, apenas por obrigação e aversão. Você consegue identificar essa mãe porque eu também tive uma. O pai dela, que era a única fonte de luz naquela existência, faleceu precocemente; ela deixou o lar ainda muito jovem; e, na ausência de qualquer tipo de afeto masculino, foi em busca de quem pudesse oferecer o carinho que lhe era ausente, como Freud descreve: quem não encontra amor em seu lar acaba saindo para procurá-lo onde for possível. Entregava-se por muito pouco — não pelo pouco em si, mas pela falsa promessa de afeto que acompanhava, mesmo que se tratasse do carinho enganador de alguém que dirá qualquer coisa para conseguir o que deseja de uma mulher. O que realmente me importa é o seguinte: nenhum de nós, do grupo, tirou proveito dela, apesar de que qualquer um de nós poderia ter feito isso. Não tiramos proveito dela porque a considerávamos uma pessoa infeliz, conhecíamos toda a sua história e a percebíamos como realmente era — uma jovem ferida, provocadora devido ao seu sofrimento, indecorosa por causa do abandono que sofreu, mas merecedora de compaixão e não de exploração. Eu, especialmente, sempre tratei as mulheres com ternura e afeto, e no grupo, eu assumia um papel que lembrava o de um pai; e era justamente essa figura paterna que ela desejava ter. Ele não desejava apenas um relacionamento: sonhava em se casar, ter filhos e formar uma família ao meu lado.
Eu respondi negativamente. Disse que não, pois ela tinha os sentimentos totalmente bagunçados — não conseguia diferenciar o que deveria proporcionar prazer do que não deveria, o que é correto do que é incorreto, o que é virtuoso do que é vicioso. Quando soube que ela consumia maconha, tive uma discussão intensa com ela sobre a droga. Disse-lhe que, se fosse diferente — não me refiro ao aspecto financeiro, mas sim à sua paz de espírito —, se tivesse uma vida digna, se não tivesse vendido sua alma juntamente com seu corpo, eu me casaria com ela, teria filhos com ela e passaria toda a minha vida ao seu lado, pois ela era uma amiga de quem eu realmente gostava. Embora não fosse possível, afirmar isso no entanto não significava impor uma moral: tratava-se de rejeitar o que era inaceitável. Porque ela prosseguia, oferecendo às suas próprias amigas, jovens com uma vida bem definida, o conselho do demônio — “transa com o fulano, não vai acontecer nada” —, sem ter a mínima noção do impacto que uma escolha equivocada pode ter no futuro de quem a faz, e tudo isso porque ainda possuía uma mentalidade infantil. Ela me acusou de querer ditar minha moral para os outros. Respondi negativamente: uma mente equilibrada apenas faz a distinção, e ser capaz de identificar o certo do errado não é uma forma de tirania, mas sim o mínimo que se pode considerar como caridade. Afinal, permitir que outra pessoa se afunde em seus erros, em nome do respeito à sua liberdade, é a maneira mais covarde de abandoná-la.
Anos se passaram até que o grupo se reunisse novamente, e numa madrugada, após passarmos horas juntos, ficamos apenas nós dois em frente a uma cafeteria ao lado de uma igreja. Ela repetiu sua declaração de amor, prometeu que se transformaria — assim como havia prometido a todos os seus ex —, e novamente eu recusei. Então ela entrou em desespero, cobriu o rosto com as mãos e declarou que me amava, que não podia viver sem mim, que precisava que eu a visse. Eu afirmei novamente que não, pois ela ainda não entendia o que significa o amor entre duas pessoas. Foi nesse momento que ele me fez a questão que fundamenta todo este texto: “então, pelo amor de Deus, me diga ao menos o que significa casamento? Pois, na minha opinião, casamento são duas pessoas que se gostam e se casam.” Assim, eu, em face daquela quarta camada, que apenas sabia sentir sem jamais chegar a uma conclusão, utilizando o corpo da mesma forma que um bebê emprega o choro para conseguir o que deseja, respondi a ele, instruindo-o.
Disse-lhe que o casamento não se resume à celebração, ao documento formal ou mesmo ao amor, uma vez que este último pode mudar, assim como o corpo, a beleza, a riqueza e até mesmo os sonhos. E aquilo que se baseia unicamente na paixão pode perecer ao enfrentar o primeiro inverno da alma. Casamento é escolher ficar. É optar por amar mesmo quando é difícil sentir. É integrar a vida do outro à sua própria, a tal ponto que se pode olhar nos olhos de alguém e afirmar: “eu serei a testemunha da tua existência”. Em meio a bilhões de indivíduos, eu opto por reconhecer cada uma de suas lágrimas, cada temor, cada pequena conquista, cada fio de cabelo branco, cada ruga, e ao final, afirmar: a sua vida não passou desapercebida, pois eu estive presente. É união — dois indivíduos que avançam juntos até o ponto em que não conseguem mais discernir onde um termina e o outro começa, não porque tenham perdido sua identidade, mas porque descobriram como viver uma única narrativa. Assim como duas velas: cada uma permanece como uma vela individual, mas quando as chamas se juntam, não existem uma chama maior e outra menor; há apenas uma única luz. E qual é o papel de Deus nessa situação? No meio, sempre, pois o tempo só arrasa o que não é unido, e é apenas na presença de Deus entre dois que o amor se transforma de emoção em escolha, renúncia e esperança. O mundo comete enganos ao avaliar o valor com base no que é efêmero; Deus faz essa avaliação considerando o que é duradouro. O físico envelhece, o espírito se torna maduro; o desejo se reduz, enquanto o amor autêntico se intensifica. Por essa razão, eu nunca escreveria uma narrativa que se baseasse unicamente no prazer: se algum dia eu estiver com alguém, será para compartilhar a velhice ao seu lado, para segurar sua mão quando estiver fraca, para rezarmos juntos e para que nossos filhos possam compreender que o amor é real porque tiveram a oportunidade de testemunhá-lo em nosso lar. Ela escutou, e seus olhos se encheram de lágrimas, e comentou que talvez, pela primeira vez, estivesse compreendendo o verdadeiro significado de se casar. Então eu disse que a conversa já tinha valido, porque casar não é encontrar alguém para dividir uma casa: é encontrar alguém para caminhar para a eternidade, sendo, enquanto o tempo passa, a prova viva de que Deus pega duas histórias e faz uma só.
Estou redigindo estas palavras em um doze de junho, que é o dia dos namorados, à porta da minha casa, envolto em neblina, solteiro, enquanto os demais saem. E escrevo intencionalmente para aquecer o coração dos solteiros, assim como o meu, pois o amor é valioso e devemos nutrir nos outros a esperança que Deus tem em cada um de nós. Aquela jovem, que antes se contentava com tão pouco, é agora uma médica — uma doutora em uma das especialidades mais desafiadoras da medicina, casada, com filhos e uma pessoa que transformou sua vida de maneira impressionante. Ela se transformou porque, naquela noite, finalmente descobriu o amor que sempre desejou, mas que nunca conseguiu ter: uma pessoa que lhe revelou a verdadeira essência do amor, em vez de dizer o que ela gostaria de ouvir.
Há quem questione por que fui obrigado a lhe proporcionar aquele choque de realidade, e por que insisto que uma lição que não causa dor é irrelevante. Resposta: porque nada se conquista sem renunciar a algo, e aqueles que superam desafios para alcançar seus objetivos adquirem um coração forte como o aço, que não se deixa abalar facilmente. “Mas isso não é extremismo?” Vamos analisar quem realmente é o extremista. Santa Águeda teve os seios cortados; São Maximiliano Maria Kolbe deu a sua vida em troca da de um pai de família em um campo de concentração; São Bartolomeu, um dos doze apóstolos, foi esfolado enquanto ainda estava vivo. Não sou um radical — apenas os santos o são, pois aquele que nos santificou é o verdadeiro Extremista, que, tendo o mundo inteiro à sua disposição, optou pela coroa de espinhos e se tornou um servo por amor. Ser extremista, no único sentido que valorizo, é amar de forma intensa, amar a ponto de parecer ilógico, especialmente quando a superficialidade do mundo ao seu redor começa a te considerar excessivo ou radical.
Se você que está lendo isto se encontra sem nada, com a vida desmoronando ao seu redor e considerando fazer algo contra ela, quero lhe dizer uma única coisa e peço que a leve com a máxima seriedade: você é um filho amado do Deus que criou o universo. Não sucumba a essa sedução; não acabe com a sua vida. Tudo o que você errou, Deus perdoa, pois a salvação é um presente imerecido; minha única solicitação é que você não menospreze o dom da vida, que é aquilo que Ele confiou a você e deseja receber de volta na sua totalidade. Seu dia mais ruim é melhor que o sonho de muitos: para o cego, um dia vendo é sonho de vida; para quem não anda, um passo. Comece a agradecer pelo que é bom na sua vida, pois a falta de gratidão só leva a uma espiral descendente. Busque auxílio — de verdade, de forma profissional, sem qualquer constrangimento. Procure o padre ou pastor mais próximo, compartilhe seus sentimentos, solicite aconselhamento e esteja disposto a ser encaminhado a um médico, para usar medicamentos, ou a qualquer outro recurso que se faça necessário. Não hesite em buscar ajuda; este é o momento de fazê-lo. Você sabe do que estou falando: eu também me encontrei nesse abismo mais de uma vez, e o que me fez retornar foi a consciência de que precisava sustentar minha mãe, que tinha responsabilidades em relação a outras pessoas, que ainda podia ser útil à minha família, à minha comunidade, e que deveria, além disso, agradar a Deus. Reflexione sobre tudo o que você é e ainda pode se tornar. Ore e busque ajuda em seguida. Não subestime a carga que você carrega; se a desconsiderar, ela pode te derrotar e levar tudo o que você possui.
É necessário reconhecer e aceitar a realidade das situações — e, em essência, aceitar essa realidade é acolher Deus, que é a verdade absoluta; aqueles que a rejeitam se tornam consumidos por inveja, medo, ódio e raiva interior. Existem pessoas que passam a vida inteira tentando mover uma árvore de lugar, lutando contra aquilo que não pode ser alterado, e acabam se exaurindo. A sabedoria se inicia quando uma pessoa deixa de insistir em uma árvore e decide mudar para outra. A sua falta de recursos, a sua situação e o seu ponto de partida não devem ser vistos como uma sentença de condenação: são apenas o início de uma jornada, e o que se espera de você é que atue como uma pessoa pobre, mas digna, ou seja, alguém que se empenha no trabalho, consciente das suas responsabilidades. Porque o trabalho não é uma punição nem apenas uma necessidade: é uma obrigação de benevolência — benevolência para com os outros, acima de tudo, pois, se você não se empenha, alguém precisará fazê-lo por você.
Chego, então, a uma desigualdade que ninguém se dispõe a confrontar: afirmam constantemente que os homens não são fiéis e, quando um homem comete uma traição, ele é imediatamente rotulado como o vilão; no entanto, quando uma mulher age da mesma forma, alegam que isso ocorreu porque ela deixou de amar ou porque ele não estava presente. A verdade é mais perturbadora: na maioria das situações, são os homens que tendem a ficar mais tempo em relacionamentos duradouros, mesmo quando estão infelizes, que optam por perdoar e tentam recomeçar — e pouco se discute sobre isso. Enquanto o homem é julgado pelo um por cento em que erra, a mulher é muitas vezes aplaudida por “escolher a si mesma”. Lealdade não é algo que se possa atribuir a um gênero, e, se for para culpar alguém, talvez estejamos olhando na direção errada. Isso se origina de uma compreensão mais profunda, com raízes protestantes, que sustenta que a responsabilidade pelo erro recaiu sobre Adão — como se Eva tivesse feito suas escolhas e agido, mas a culpa fosse unicamente dele. Pior ainda: dessa origem brota a noção de que a mulher não possui verdadeiro livre-arbítrio, e que tudo o que ela faz de errado é, na essência, responsabilidade de todos os homens do mundo, inclusive daquele que nunca teve uma mulher em sua vida. Isso não faz sentido. A ideia de que a mulher é uma criança eternamente irresponsável por suas ações é, sem dúvida, a maior tolice que leva cada vez mais meninas à prostituição, pois aqueles que são tratados como incapazes de fazer escolhas positivas acabam perdendo a motivação para fazê-las.
O professor Olavo de Carvalho elucidava de maneira eficaz essa infantilização do Brasil através da emoção. Dizia ele que, depois de uma palestra, alguém lhe comentara que não havia compreendido nada, mas que havia sentido — ao que ele retrucava que, nesse caso, ele havia alcançado o efeito inverso, uma vez que ele mesmo não sentira nada. Avaliar as situações com base nas emoções, afirmava, é a forma mais egoísta que existe, uma vez que o sentimento é apenas a reação subjetiva que você tem, em relação a uma ordem que provém de fora de você. O ideal seria avaliar o sentimento de acordo com a complexidade e a profundidade da situação; no entanto, o que se faz é simplificar a situação com o sentimento pré-existente que já se possui. Aqueles que adotam essa postura acabam se aprisionando, não evoluem e permanecem como bebês que choram — e existe, entre nós, uma pressão enorme para que se continue dessa forma, uma vez que os bebês ao redor não toleram aqueles que se desenvolveram.
Meu pai foi uma história à parte. Na educação, ele foi um verdadeiro idiota comigo — e isso já mencionei e não irei voltar atrás —, mas em todos os outros aspectos, ele era uma pessoa fascinante. Minha mãe relata que, na cidade onde se desenvolveram, havia uma igreja com um relógio, e as crianças se referiam ao local como a cidade do relógio; além disso, menciona que meu pai era um garoto peculiar, que, de repente, expressava pensamentos estranhos, como se carregasse uma variedade de máscaras, adotando diferentes identidades como uma forma de brincadeira, e que possuía uma aura difícil de definir, quase como a de um santo. Realizava ações que ninguém conseguia compreender como eram possíveis, com um aspecto quase sobrenatural — o que ele realmente exercia, em essência, era teurgia. Era igualmente uma combinação inesperada de estados de espírito, sendo sério em casa e engraçado fora, em um homem alto, de pele muito clara, com olhos azuis e cabelo preto, resultante da mescla de italiano com alemão, originário de uma família de italianos, espanhóis e alemães judeus que se estabeleceu no Brasil. No entanto, a dinâmica entre ele e minha mãe era tão peculiar que ainda me deixa curioso: muitos anos após o falecimento dele, questionei minha mãe sobre qual era o sonho do meu pai, e para minha surpresa, ela afirmou que não sabia. Ignorava o sonho do meu próprio esposo — aquele que me dizia ter o desejo de fundar um asilo e cuidar dos idosos. Existem casamentos em que duas pessoas coexistem, mas nunca realmente se integram, e é justamente em comparação com esses relacionamentos que descobri o que não desejo que o amor represente.
Tudo isso faz parte de um cenário mais amplo que caracteriza o nosso país após a revolução industrial: adultos sem rumo e crianças deixadas à própria sorte. Eu cresci em Primavera nos anos 2000, e aquilo que eu considerava um lar acolhedor, na verdade, era uma creche onde minha mãe me deixava às sete da manhã e me retirava às seis da tarde — ou seja, eu praticamente morava lá. Jamais considerei isso um trauma; para mim, foi um período de quietude, de criatividade e de resistência. É desse espaço que continuo a criar, nas páginas, até os dias de hoje, pois a infância, tanto para mim quanto para aquelas crianças, não foi um período de inocência: foi um tempo de luta e resistência. Ali, onde os mundos dos sonhos e da realidade se entrelaçam, a solidão se torna capaz de se divertir por conta própria, e foi exatamente isso que eu fiz, pois os amigos que eu tinha eram apenas companheiros passageiro, e, no final, eu me sentia sozinho mesmo na companhia deles. Ao retratar uma criança em sofrimento, não consigo determinar quem padece mais — se aquela criança do passado ou eu, que, no presente, sofro por ela para poder escrevê-la. Há uma verdade nisso que é tão verdadeira que se torna feia. Não escrevo para escapar da realidade; escrevo para nos recordar que a beleza ainda reside dentro dela. Por isso descrevo sempre gente comum tentando não se quebrar no tédio e na ansiedade que vêm depois — durante a vida adulta que nos prometeram e que não é o que prometeram: as relações que se desfazem em silêncio, o sucesso que vira prisão, o quanto a gente finge estar bem para não preocupar ninguém, e como chegar ao topo sem virtude é apenas mais uma maneira de cair.
Porque a infância não vai embora; ela apenas aprende a fingir bem. Os adultos são crianças que leram mais páginas e acumularam mais cicatrizes, e que tentam, como podem, fingir que têm autoridade. Em todo o meu trabalho está, no fundo, esse peso de existir e, mesmo assim, continuar lutando — a luta pela vida. Lembro de quando namorava e minha namorada veio passar uns dias aqui, e ficava brava porque, às dez da noite, eu me levantava para escrever. Disse-lhe, e era verdade, que não conseguia dormir, que vinha fazer o que sei fazer — projetar e escrever — porque é preciso que alguém descreva o mundo antes que a destruição chegue, e ela chega. E disse mais: que fazia aquilo para proteger a única coisa sem a qual não consigo viver, que era ela. Foi quando ela me abraçou. Porque o que bloqueia o amor, muitas vezes, é não compreender que o trabalho do outro pode ser uma forma de cuidado.
O nosso é um país de escravos que não se queixam de haver escravidão, mas apenas de serem eles os escravos e os outros, os senhores — de modo que a coisa não se desfaz, só troca de mão. E inventou-se a ideia de que o brasileiro precisa ser lisonjeado, senão fica deprimido, coitado. Que coisa mais frouxa. Quando se ama alguém de verdade, não se o engana enquanto ele caminha para o mal: diz-se a verdade, ainda que doa — estou sofrendo por este caminho, porque você está errando. Não há país que se construa sem sinceridade, e sinceridade é dizer as coisas como você as vê, conforme a informação que tem, e não conforme imagina. O Brasil é recordista mundial de homicídios e amargou os últimos lugares na educação; e, se a estatística diz isso, não é calúnia concluir o que ela conclui. Não há por que lisonjear. Pior são os que pegam a religião como porrete para sair batendo nos outros — sinal de decadência moral —, e os que escrevem páginas inteiras para condenar alguém com quem nunca conversaram, sem jamais lhe perguntar a real intenção: tomam a impressão que a coisa lhes deu e já a chamam de pecado alheio, sem perceber que estão exibindo o próprio. O sujeito que faz isso pensa que é o príncipe dos espertalhões, quando é apenas o rei dos trouxas. E há um tipo de intelectual que não se pode tolerar: o que destruiu o senso comum do país, que falsificou a leitura da realidade, e que precisaria, com a maior urgência, ser tirado da profissão — não por vingança, mas por higiene.
E, no entanto, no meio de tudo isso, há um conselho que eu deixaria gravado: seja estranho, seja o que há de inesperado em você, porque você nunca sabe quem amaria justamente a parte que você esconde. Quase todos temos medo de mostrar quem somos; tentamos caber em padrões, seguir o que esperam de nós, e acabamos sufocando o que há de mais autêntico na alma. Mas não apague a sua estranheza, não tenha vergonha do que em você escapa ao controle, porque o estranho é, muitas vezes, o que nos torna verdadeiros, e o que é espontâneo é o que mostra o coração nu. A vida não é construir uma máscara perfeita, mas deixar transparecer quem se é, porque o que você esconde pode ser exatamente o que alguém precisa enxergar. Talvez exista alguém que ame precisamente aquilo que você oculta; e, se você sufoca a própria singularidade, sufoca também a possibilidade desse encontro. Ousar ser você mesmo é mais do que coragem: é fidelidade à sua existência, e é abertura ao amor mais verdadeiro, o que reconhece e acolhe não a máscara, mas a essência.
E termino onde a minha briga com a escola começou. Não se educa ninguém com textos científicos, e a razão é precisa: o texto científico tem correspondência biunívoca entre signo, significado e referente — vocabulário estabilizado, sentido único, igual para todos. É justamente por isso que a linguagem científica é mais simples que a corrente, e não mais difícil. Quem aprende a ler apenas em livro científico fica analfabeto funcional para sempre, porque nunca treinou o que importa: a sutileza, a multidão de significados conforme o contexto, a ressonância que muda a cada linha. Vá ler Shakespeare, vá ler Balzac, e veja como o sentido das palavras se desloca, como o contexto reescreve cada frase; é nesse treino da variedade de situações e de intenções subjetivas que se aprende, de fato, a ler. A ciência é clara — e, por ser clara, não forma a alma; forma o instrumento. Aprender a ler só na ciência é como aprender a amar lendo um manual de anatomia: você decifra o corpo e fica cego para a pessoa. Os professores que me exigiam a resposta unívoca, que escreviam “errado” sobre a minha lógica, eram eles os analfabetos funcionais da vida real, incapazes de ler o que muda, o que ressoa, o que não cabe em equação. A educação verdadeira integra as duas coisas: a ciência para o instrumento, a literatura e a filosofia densa para a alma. O menino que lia a Metafísica antes da Ética já sabia disso por instinto — ele buscava o motor imóvel atrás das aparências, e não o diagrama.
A infância, no fim, não vai embora — e nem deve. Não se trata de fingi-la sob o terno, mas de integrá-la, de carregar o menino do mato, com a sua vara de pesca e o seu facão, para dentro do homem que escreve de madrugada, para que o mundo não seja apenas destruição. A verdade que a infância esconde não se perde: ela se forja e depois se revela mais forte em quem teve a coragem de viver com substância, com gratidão, com os afetos em ordem. Fui a criança jogada no canto da sala, que comparava os outros a macacos e procurava Deus pela lógica; e descobri que a procura mais honesta de Deus é o estudo, e que a forma mais alta do amor é ser, para alguém, a testemunha da sua existência. Resta-me, então, continuar fazendo as duas coisas ao mesmo tempo: estudar como quem reza e amar como quem promete permanecer. Porque, quando todos esquecerem quem você foi, alguém ainda lembrará — e foi para que esse alguém exista que valeu a pena nascer diferente, apanhar por estar certo e não desistir jamais.
Referências biográficas
Este ensaio é um testemunho autobiográfico. As pessoas privadas nele referidas — familiares, amigos e a mulher que hoje exerce a medicina — são reais, mas têm a identidade preservada por respeito à sua intimidade. Entre as personalidades históricas e públicas mencionadas, encontramos Santa Águeda da Sicília (uma virgem e mártir do século III), São Maximiliano Maria Kolbe (1894-1941), um frade franciscano que foi morto em Auschwitz em vez de um pai de família, São Bartolomeu (um apóstolo que, de acordo com a tradição, foi martirizado por esfolamento) e o pensador Olavo de Carvalho (1947-2022), cujas aulas e reflexões sobre cultura, emoção e idiotice são aqui revisitadas e parafraseadas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Edson Bini. Bauru: Edipro, 2007.
ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Edson Bini. Bauru: Edipro, 2006.
BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa para não ser um idiota. Organização de Felipe Moura Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2013.
DESCARTES, René. Discurso do método. Tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Tradução de Jair Barboza. São Paulo: Editora Unesp, 2005.
SHAKESPEARE, William. A tempestade. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: L&PM, 2002.
TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica. São Paulo: Loyola, 2001-2006. 9 v.


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