Sobre o Luto: Um Exercício de Permanência no Ser e Amor ao Próximo

Aqui nesse texto eu abordo o luto não como um colapso, mas como uma experiência espiritual, moral e metafísica que revela o que realmente sustenta o ser humano, navegando entre a dor da perda e a continuidade do sentido. Ele sugere que apenas sofrer não é suficiente: é necessário entender o motivo para seguir em frente e converter a dor em compromisso com o bem, amor e propósito.

Gabriel G. Oliveira

3/30/202610 min read

A Esperança para Continuar Vivendo

Desde a infância, o luto sempre me pareceu algo mal compreendido. Na infância, eu costumava assistir aos enterros e ficava impressionado com o desespero excessivo, o choro incontrolável e a sensação de aniquilamento absoluto que tomava conta das pessoas. Isso era claro em minha família. De maneira geral, minhas tias enfrentavam a morte de forma mais discreta. Contudo, com o passar do tempo, minha mãe acabou se transformando na pessoa que a família começou a chamar informalmente de “a tia dos enterros”. Não por desejar a morte, mas porque ela estava constantemente presente, trazendo notícias tristes ou envolvendo-se em acontecimentos trágicos. Para ela, a morte quase adquiriu um idioma próprio. Até o momento, sua conversa tem se concentrado na perda, na tragédia e no aspecto negativo. Não por maldade, mas por falta de habilidade em lidar com o luto de maneira organizada.

Esse contraste sempre me incomodou. Antes mesmo de qualquer formulação teológica ou filosófica, eu já tinha a intuição de que a morte não poderia ser apenas um aniquilamento bruto. À medida que minha vida espiritual avançou um percurso longo, confuso e, em diversas situações, arriscado essa intuição passou a assumir formas mais claras. Na minha adolescência, experimentei diversas tradições religiosas e esotéricas, participando de rituais da Wicca, Quimbanda e Umbanda, além de me envolver com práticas cabalísticas, componentes do budismo ritual e outras manifestações da religiosidade pagã. Não me expresso como um curioso superficial, mas como alguém que esteve presente, observou, vivenciou e presenciou fenômenos que, embora possam não ser verdadeiros em sua essência, foram reais no âmbito da experiência subjetiva e simbólica.

Essa jornada me levou a uma conclusão significativa: a realidade transcende o mundo material. A existência de uma dimensão espiritual, seja ela vista como metafísica, simbólica ou ontológica, não foi estabelecida como uma crença transmitida, mas como uma indagação filosófica inevitável. Em The Varieties of Religious Experience, William James já havia enfatizado que a experiência religiosa, mesmo quando examinada criticamente, não pode ser considerada insignificante sem que isso leve a uma compreensão humana empobrecida. A partir desse momento, tornou-se intelectualmente desonesto para mim sustentar uma visão de mundo que, desde o começo, negasse qualquer tipo de transcendência.

Esse processo levou, anos depois, à adesão consciente ao catolicismo. Não como uma fuga emocional, mas como uma síntese lógica e espiritual. Em Tomás de Aquino, descobri o que Aristóteles apenas insinuou e Platão intuiu: uma metafísica do ser que preserva o mistério sem comprometer a razão. Em vez de serem refutadas, as Cinco Vias continuam sendo um tópico de debate significativo na filosofia da religião contemporânea, como demonstram escritores como Edward Feser e Étienne Gilson. No entanto, a fé cristã transcende a simples demonstração da existência de Deus; ela aborda uma pergunta que a razão não consegue responder completamente: quem é esse Deus e qual é sua conexão com o sofrimento humano, a morte e a esperança.

Foi esse entendimento que transformou minha relação com o luto. Ao contrário de outras pessoas, não senti desespero quando meu pai faleceu. É verdade que houve dor, mas não houve desintegração. A despedida foi sincera, mas não duradoura. O mesmo ocorreu com minha avó, tios e outros entes queridos. Não chorei em enterros não por frieza, mas por convicção. Se a vida humana não acaba no túmulo, conforme afirmam o cristianismo, a filosofia clássica e algumas intuições presentes em diversas tradições religiosas, então o luto não pode ser visto como uma negação completa do sentido. C. S. Lewis, que passou por um luto profundo, escreveu em A Grief Observed que a dor não desaparece com explicações, mas se torna suportável quando encontra significado.

É precisamente nesse momento que muitos se confundem. Há uma mistura entre espiritualidade e literalismo extremo ao considerar céu, inferno e purgatório como locais físicos que podem ser localizados no espaço. Contudo, de Agostinho a Tomás, a teologia clássica sempre considerou esses conceitos como estados do ser, planos metafísicos e modos de existência. Tratar essas realidades como se fossem objetos geográficos não reflete fé, mas sim uma diminuição da intelectualidade. A fim de evitar essa simplificação, a tradição cristã sempre se engajou com a metafísica.

Compreender isso altera consideravelmente a forma como se vive o luto. Não se trata de descartar os estágios psicológicos — negação, raiva, barganha, depressão e aceitação — propostos por Elisabeth Kübler-Ross, que continuam sendo significativos no âmbito clínico. Refere-se a algo mais profundo: integrar a dor a uma percepção coerente da realidade. A filosofia, a reflexão, o aprendizado e a vida espiritual oferecem ao indivíduo recursos para não ceder à dor da perda. Sêneca afirmou: “não é porque as coisas são difíceis que não ousamos; é porque não ousamos que elas se tornam difíceis”.

Durante muito tempo, acreditei que a religião servisse apenas como um consolo para aqueles que não conseguiam lidar com a morte. Hoje, percebo que é precisamente o contrário. A fé, quando aliada à razão, não extingue a dor, mas a ordena. Ela ensina que a morte não é o fim e que, embora o luto seja inevitável, ele não precisa se transformar em uma prisão existencial. Enfrentar a perda sem se perder é possível quando se compreende profundamente. Essa pode ser uma das lições mais desafiadoras e fundamentais da vida: somente aqueles que entendem o ser conseguem permanecer íntegros diante da morte.

A resposta de Neo "porque eu escolhi" não possui um caráter romântico, mas sim metafísico. Nesse caso, a escolha não é um capricho, mas uma decisão deliberada com um propósito específico. Aristóteles chamaria isso de prohairesis, enquanto Tomás o denominaria ato humano pleno. Quem escolhe padecer por algo maior do que si mesmo deixa de ser refém do destino. O luto começa a se transformar quando você entende que sua dor não é uma falha do sistema, mas o preço de ter amado algo genuíno.

No livro O Retorno do Rei, de J. R. R. Tolkien entende isso melhor que a maioria dos departamentos de psicologia ao redor do mundo. Após a completa aniquilação de Mordor, Frodo indaga: "Lutar pelo quê?". Sam declara que luta "pelo que ainda é bom neste mundo". Tolkien, um católico devoto, transmitiu essa ideia em uma confissão metafísica disfarçada de fantasia: o bem não é garantido, mas merece ser protegido. E apenas aqueles que amam o bem persistem quando tudo parece estar desmoronando.

O mesmo dilema é apresentado no filme Paulo, Apóstolo de Cristo, que se baseia nos Atos dos Apóstolos. O comandante romano observa que Paulo tem poder, mas não busca reconhecimento; é um líder, mas se define como escravo. Paulo responde com palavras que ecoam a Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 13, onde São Paulo descreve o amor (agápē) não como um sentimento, mas como uma decisão de sacrifício. Amor que sofre, que não se exalta nem busca o próprio benefício. Amor que não eleva a autoestima, mas que leva à crucificação. E é exatamente por isso que dá certo.

A modernidade despreza essa ideia. Prefere a felicidade como um direito e o conforto como uma característica. Quando não é influenciada por nada, a vontade humana tende a querer dormir, comer, aproveitar e reclamar do mundo. Aristóteles chamaria isso de vida vegetativa com diploma universitário. No Evangelho de Mateus, Cristo é enfático: “Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á”. Não é uma ameaça mística, mas um diagnóstico antropológico. O homem não se destrói por se entregar, mas por se conter. Esse é o cerne de toda a ética genuína.

Os santos tomaram isso de forma extremamente literal. Santa Lúcia, que teve seus olhos arrancados; Santa Águeda, que teve seus seios mutilados; São Maximiliano Kolbe, que foi assassinado em Auschwitz ao sacrificar sua vida para salvar um pai de família. Isso não se trata de extremismo político, mas de consistência metafísica. O cristianismo é visto como radical devido à radicalidade de seu fundador: nasceu em uma manjedoura em vez de um palácio; foi recebido com espinhos em vez de ouro. A Encarnação é o escândalo de um Deus que se entrega sem hesitação. Quem acha isso exagerado já escolheu servir a outro senhor.

A história de Ícaro, contada por Ovídio em suas Metamorfoses, é frequentemente utilizada como um alerta contra a audácia. Moralismo absurdo. Ícaro caiu ao voar, após um breve momento de contemplação do mundo sob uma perspectiva divina. O homem medíocre vive em segurança e morre sem nunca ter experimentado a verdadeira vida. O perigo não está em cair; está em nunca decolar.

No ensaio O Mito de Sísifo (1942), Albert Camus admitiu o absurdo da vida, mas errou no diagnóstico final. Ele acreditava que somente a consciência do absurdo era suficiente. Ao aceitar a falta de sentido, Sísifo encontraria felicidade ao empurrar a pedra eternamente. A questão é que, embora Camus descreva a dor de maneira precisa, ele se recusa a questionar o telos. Tomás de Aquino teria sido implacável: aceitar o absurdo sem propósito é apenas uma resignação refinada. Mesmo assim, Camus apresenta uma verdade incômoda: a vida não pode ser compreendida antes de ser vivida.

Curiosamente, Camus morreu em um acidente de carro, carregando no bolso uma passagem de trem que decidiu não usar. Ironia trágica que remete à mitologia grega. No entanto, sua intuição estava correta: a luta em si revela algo sobre o homem. Um erro comum hoje em dia é pensar que a luta é suficiente. Não é adequado. É preciso lutar por algo; do contrário, a pedra apenas se transforma em um fardo, e não em um sacrifício.

Mais eu vejo Sísifo em uma versão mais coerente com a realidade humana como ele contemplando, no cristianismo é chamado de "tornar cada dia em um verso heroico" como você me pergunta, eu vajo assim:

"Assim, Sísifo empurra sua pedra montanha acima, e ela desce novamente, para sempre. Porém, ele não entra em desespero. Não se entrega ao absurdo como um peso insuportável. Antes, via na repetição um ritmo, na jornada um percurso e na pedra um propósito.

Enquanto retorna ao sopé, seus olhos exploram o horizonte. O deserto, imenso e silencioso, convida à reflexão. O sol pintando as areias de dourado, o vento brincando entre as pedras, o céu que se estende sem fim; há beleza na vida, mesmo quando ela se repete. E nessa beleza, existe um toque de transcendência.

Sísifo compreende que não é somente um prisioneiro do destino, mas também um artista do seu próprio fardo. A cada ascensão, ele molda um novo sentido. A cada descida, uma nova visão. Se a vida é um constante recomeço, que também seja uma constante redescoberta."


Dessa forma, o absurdo não o aniquila. Ao contrário, ensina que a busca em si, o próprio percurso, já constitui um ato de resistência e um gesto de criação. Pois, se a existência tem arte e a repetição tem beleza, também há algo sagrado no que parece sem sentido. O verdadeiro heroísmo não consiste em chegar ao auge, mas em fazer de cada passo um verso heroico e de cada esforço uma prece.

No luto, você carrega um fardo que não optou por carregar. A diferença está na decisão de ser um altar ou uma maldição. No capítulo 6 do Evangelho de João, Cristo afirma que veio realizar a vontade do Pai e que nada do que lhe foi confiado será perdido. Isso não é poesia religiosa; é ontologia em ação. Nada do que foi verdadeiramente amado se extingue. O amor verdadeiro cria marcas ontológicas, não memórias emocionais.

O homem está constantemente atado a algo. Aristóteles dizia que quem não controla seus desejos não é livre, mas sim dominado por eles. O homem que busca prazer, aprovação e conforto nunca conquistará respeito, nem por si mesmo. O homem que abdica de si mesmo para manter sua essência é temido, pois não pode ser manipulado. A liberdade começa quando você consegue recusar o que mais deseja.

Se quer superar o luto, não comece tentando se sentir melhor. Comece sendo essencial. Ajude alguém. Não é todo o mundo, mas há quem interprete isso como vaidade messiânica. O dever de devolver a identidade ao homem despedaçado. Tomás de Aquino sustentava que a ação voltada ao bem aperfeiçoa o agente. Em uma tradução direta: agir é mais curativo do que discutir sentimentos indefinidamente.

O luto não acaba quando a dor some; ele chega ao fim quando a dor encontra seu lugar na vida. Você ainda está vivo. Logo, ainda há uma pendência com o mundo. E enquanto houver obrigação, há propósito. Não é a psicologia que salva o ser humano, mas a lógica de sua existência no mundo. Não a lógica impessoal dos esquemas, mas a lógica trágica e bela de quem escolhe persistir não por ser simples, mas por ser verdadeiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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