Teologia da imaginação do Círculo de Estudos Nous Parte 7: A Inauguração do Selo e a Metafísica do Plano Espiritual

do Círculo de Estudos Nous e se aprofunda naquilo que a Escritura revela, embora não explique completamente: o plano espiritual, a administração angélica do universo, a herança que Adão perdeu e a promessa de que um imaginário santificado transformará em nossos os mundos que são possíveis para Deus. Todo este lugar é católico; e aqui, tudo representa a conjectura mística de um indivíduo que reflete em voz alta diante do abismo.

Gabriel G. Oliveira

7/2/202633 min ler

Os Dois Céus, o Sonho que Desce à Terra e a Transmutação de Todas as Coisas

Antes de tudo, é necessário neutralizar a crítica que já consigo perceber se formando na boca daqueles que leem o título. Alguém poderá afirmar: aqui está ele, mesclando a cabala com o catolicismo, combinando aquilo que a Igreja decidiu separar e introduzindo de maneira clandestina o esoterismo judaico na fé. Não, a resposta é negativa e sem qualquer ambiguidade. O que eu realizo aqui é algo diferente, e essa diferença não é um mero detalhe insignificante — é a base de tudo que está por vir. Não estabeleço tradições; eu pego emprestado, de um idioma estrangeiro, algumas palavras que, de maneira aproximada, expressam aquilo que a minha própria língua consegue transmitir com dificuldade. Yesod, Malchut, as camadas, a árvore — nada disso é considerado doutrina. Assim como o cartógrafo adota o nome de um rio de outro país para designar em seu mapa uma correnteza que já existia antes de receber um nome. O território representa a metafísica do catolicismo; os nomes de lugares, quando utilizados de forma emprestada, têm apenas a função de guiar o olhar na busca pelo percurso. Quando a palavra emprestada se opõe à fé, é a fé que prevalece, sempre.

Faço essa observação com a mesma gravidade de quem conhece as consequências em jogo, e não por medo do leitor. Existe um sistema completo, que foi popularizado no ocultismo ocidental do século XX, o qual elabora uma "árvore da morte" com esferas demoníacas nomeadas e hierarquizadas, presididas por figuras como Lilith. Este mapa não se trata da cabala dos rabinos nem de uma tradição católica; é uma criação contemporânea, e eu afirmarei isso de maneira clara e direta no momento adequado. Utilizo-o, assim como se emprega uma ilustração de pesadelo que está pendurada na parede de um escritório: para recordar que o horror possui uma forma, e não para venerar a moldura que a envolve. Aqueles que misturam empréstimo simbólico com adesão doutrinária não compreenderam a primeira frase deste texto e não conseguirão entender a última.

Isto é, vamos direto ao ponto. Quando me refiro ao plano espiritual, não estou falando do andar superior de um edifício de dois andares, com o inferno situado na garagem e o céu no sótão. Esta é a representação da infância que mantém a maioria presa. Refiro-me à metafísica no seu sentido mais profundo e mais clássico — o que qualquer pessoa que possua um mínimo de inteligência e algum conhecimento é capaz de identificar. A palavra tem origem no grego metà tà physiká, "depois da física", e surgiu a partir de um gesto quase trivial: Andrônico de Rodes, por volta do século I a.C., ao organizar os manuscritos de Aristóteles, agrupou os livros que abordavam as questões finais logo após aqueles que se ocupavam da natureza. O acaso encontrado em uma prateleira batizou a mais elevada das investigações. Entretanto, o nome, mesmo que tenha surgido por acaso, revela uma verdade: a metafísica é a investigação do que transcende o que podemos tocar, ver ou quantificar — é o ser em sua essência, a origem e a estrutura do universo, assim como a Causa Primeira que podemos alcançar apenas através da razão.

Existem duas grandes perspectivas que perpassam essa temática, e é importante mantê-las em mente, pois elas influenciam tudo o que vou expor sobre os mundos possíveis. Para Platão, a verdadeira realidade não se encontra no mundo físico, que é transitório e ilusório, mas sim no reino das Formas, onde residem as essências perfeitas e eternas de tudo que existe. Para Aristóteles, a filosofia primeira não está em um mundo separado, mas sim na própria composição da realidade: sua teoria das quatro causas, junto com a distinção entre ato e potência, esclarece como as coisas mudam, se transformam e alcançam seu propósito. A tradição católica, seguindo os ensinamentos de Tomás de Aquino, adotou e consagrou esse realismo, e é nesse contexto que me desenvolvo. Conservo isto, pois, quando eu afirmar que uma possibilidade "existe" no plano espiritual, não estarei afirmando que ela existe apenas como uma fantasia da alma ou unicamente como uma forma lógica: estarei afirmando que existe metafisicamente, o que implica dizer tudo isso simultaneamente, em um único sopro de ser.

Aqui temos o primeiro nó, e é melhor apertá-lo antes que se solte. Não digo, de modo algum, que o homem cria Deus pelo pensamento. Isso, para ser sincero, é uma grande bobagem — e quem acompanhou minhas reflexões nas seções anteriores sabe que não é desse tipo de coisa que eu gosto. O que digo é mais refinado e mais acelerado: a imaginação, quando purificada, brilha em Deus. Não o gesta; espelha-o. O imaginário sagrado não é a origem da luz, mas sim o vitral por onde a luz passa. Se isso parece confuso neste momento, é porque ainda não chegamos ao texto que torna tudo isso quase tangível — o vigésimo primeiro capítulo do Apocalipse, onde João observa o próprio mundo ideal descendo sobre a terra.

Antes de nos aprofundarmos no assunto do vidente, é essencial estabelecer claramente a enorme distinção entre a imaginação humana e a de Deus, pois é nessa diferença que reside o cerne de todo o selo. O ser humano concebe o que poderia existir; Deus, ao conceber, cria a existência no plano metafísico. A filosofia formulou isso de maneira famosa. Leibniz, em sua Monadologia, afirma que a mente divina abrigava, antes da criação, um número infinito de mundos possíveis, e que Deus, em virtude de sua perfeição, decidiu atualizar o melhor desses mundos — sem que os outros deixassem de ser reais no âmbito metafísico da inteligência divina, onde permanecem como potenciais puros. O equívoco do materialismo consiste em acreditar que tudo o que não foi atualizado na física não tem nenhuma forma de existência. A teologia católica confirma isso de uma maneira ainda mais sólida, através de Tomás de Aquino, que na Suma faz a distinção, na ciência divina, entre o que se chama de ciência de simples inteligência — ou seja, o conhecimento pelo qual Deus conhece não apenas as coisas existentes na matéria, mas também todas as essências, geometrias e mundos que Ele pode criar e que nunca existirão neste ciclo temporal. O "imaginário" de Deus é, em essência, o próprio Verbo, o Logos: o depósito vivo de todas as formas e ideias.

Portanto, se isso é verdade, então uma possibilidade nunca é, para Deus, um nada infrutífero. Para Ele, toda possibilidade é considerada uma existência — não necessariamente na forma material, mas no âmbito do ser. Aqui, a expressão "mundos possíveis" adquire a importância que desejo atribuir a ela: os mundos que imaginamos, quando o fazemos de maneira correta, não são meras ilusões da mente. São situações que já estão presentes na mente de Deus, aguardando apenas o momento de se manifestar. Quando o ser humano consegue perceber partes dessas realidades no que eu denomino de boa gnose — o sonhar estruturado —, ele não está criando ilusões; a sua alma, através do intelecto transcendente que os gregos designaram como Nous, está ajustando o rádio para sintonizar os arquivos das possibilidades divinas. Emprego a expressão grega que designa o conhecimento com todas as cautelas possíveis, uma vez que a história contaminou essa noção com o gnosticismo, o qual foi condenado pela Igreja; no entanto, o que desejo expressar é algo simples e ortodoxo — existe um tipo de conhecimento contemplativo, iluminado pela graça, que harmoniza a mente humana com a mente divina, e há também o oposto desse tipo de conhecimento, que é o delírio que se opõe à ordem. Um é salvo por sua obediência; o outro se perde por se isolar em seu próprio mundo.

Chamo Yesod, emprestado, do primeiro céu. No sistema cabalístico, representa a nona esfera, o Fundamento, que é tradicionalmente associada à lua e ao caminho através do qual as realidades superiores se manifestam no mundo. Ela me serve como representação dessa faixa limítrofe onde o mundo físico se encontra com o metafísico — não um espaço elevado acima das nuvens, mas o ponto onde a realidade deixa de ser material e passa a ser espiritual. É nesse lugar, afirmo eu, que habitam os mundos que podem existir, armazenados como em um vasto reservatório etéreo antes de adquirirem forma. É no próprio exercício da imaginação que identifico duas entidades que, embora semelhantes, apresentam características opostas: o ato de sonhar, que representa um conhecimento organizado, e a conjectura que surge quando a razão se harmoniza com a mente divina; por outro lado, temos o pesadelo, que se configura como uma desordem que nega completamente a Deus — não se tratando de conhecimento, mas de um ruído disfarçado de visão. O sonhar de maneira correta é aquele que São José experimentou, quando o anjo se dirigiu a ele durante o sono e ele despertou decidido a proteger o Menino; é a via pela qual a Boa Nova chega sem causar nenhuma perturbação. O pesadelo é o oposto: a alma que imagina o caos, e por isso concebe o inferno.

A própria Escritura realiza essa distinção de forma extremamente precisa. No livro de Números, Deus afirma que aos profetas Ele se revela através de visões e lhes comunica por meio de sonhos — o ato de sonhar é um canal válido para a revelação. Mas Jeremias, ao enfrentar os falsos profetas, delimita com precisão a diferença entre um sonho sem conteúdo e a verdadeira palavra, utilizando uma metáfora que emprego como chave: "O profeta que teve um sonho, conte-o como sonho; mas aquele que recebeu a minha palavra, anuncie fielmente a minha palavra.". O que tem a palha com o trigo?", diz o Senhor. A palha representa a casca vazia — o pesadelo, a falsa gnose; por outro lado, o trigo é o verdadeiro alimento, a boa gnose que alimenta o intelecto. A Teologia do Imaginário inteira reside nessa diferença entre palha e trigo, entre o imaginar obediente e o imaginar rebelde.

Vamos agora analisar o texto, pois nenhuma dessas afirmações se sustenta sem fundamento. Escutemos o profeta de Patmos, na versão católica, e observe-se como a linguagem, em determinados momentos, assume uma qualidade quase onírica, como se a própria realidade se tornasse flexível ao espírito:

Vi então um céu novo e uma terra nova, porque o primeiro céu e a primeira terra tinham passado, e o mar já não existia. Eu testemunhei a descida do céu, vinda da presença de Deus, a Cidade Santa, a nova Jerusalém, adornada como uma noiva preparada para o seu esposo. Ao mesmo tempo, ouvi uma voz poderosa que vinha do trono, proclamando: "Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Ele viverá entre eles, e eles serão seu povo, e Deus estará com eles. Ele enxugará todas as lágrimas de seus olhos, e não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem dor, pois já se superou a primeira condição". (Apocalipse 21:1-4)

Preste atenção ao que está sendo comunicado, pois é bastante significativo. O primeiro céu e a primeira terra não passam por uma reforma — eles simplesmente desaparecem. A velha condição já não existe. O que ocupa seu lugar não é um prêmio remoto, nem uma varanda celestial onde os salvos caminham entediados por toda a eternidade. É a união: a morada de Deus desce e reside entre os homens. O mar, que na simbologia bíblica representa o caos, o abismo e a separação, não existe mais. Toda a desordem que a humanidade sempre enfrentou — a decadência, a dispersão e a morte gradual de todas as coisas — se extingue nesse momento, pois o próprio Apocalipse representa o término da entropia. Não é um exagero literário afirmar que é como se o reino dos sonhos tivesse descido à terra. É a interpretação que mais se alinha ao que está escrito.

Então, a voz que emana do trono proclama o que sela tudo: "Eis que eu renovo todas as coisas", e, além disso, "Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras". Atente-se o leitor para o verbo, pois nele reside um mistério que a alquimia soube designar: não está escrito "faço coisas novas", mas "faço novas todas as coisas". Não se trata de substituição, mas de transformação — as mesmas entidades que estavam presentes, agora transformadas. A seguir, apresento a promessa que sustenta todo o meu raciocínio: "O vencedor herdará tudo isso; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho". Não se menciona que o vencedor fará uma visita, que observará ou que residirá como convidado. Está dito que vai herdar — e vai herdar tudo. A realidade em si é legada a ele como uma herança. Não nos é oferecido um passeio pelas nuvens; somos proclamados herdeiros de toda a criação.

Contudo, o mesmo texto possui um lado oposto e aterrorizante, e é necessário encará-lo com honestidade. Imediatamente após a promessa da herança, é mencionado que os tíbios, infiéis, depravados, homicidas, impuros, maléficos, idólatras e todos os mentirosos terão como destino o lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte. O que é essa segunda morte? Aqui preciso corrigir uma tentação na qual já cedi e fazê-lo com precisão, pois a fé católica é clara e precisa nesse aspecto. A segunda morte não se refere à eliminação da existência, nem ao desaparecimento do ser, mas sim à extinção do núcleo da criatura até o nada. Essa interpretação — por mais que a intuição a procure, acreditando que o que extingue algo do plano metafísico só pode ser o seu cancelamento — vai contra a doutrina. A Igreja afirma que a alma é eterna e que o inferno representa uma punição eterna e consciente: não é o término da existência, mas uma autoexclusão permanente da união com Deus e com os bem-aventurados. A segunda morte representa a morte em sua acepção mais estrita — a separação definitiva daquele que é a Vida — mesmo que a criatura continue a existir. É ainda mais deplorável do que a completa ausência, uma vez que representa a existência mantida em um exílio total do Bem que poderia torná-la completa. O verdadeiro horror não reside na extinção, mas sim na persistência do que se desvinculou de sua origem.

Continua o profeta, e um dos sete anjos que carregavam as sete taças dos últimos castigos o guia em espírito até um grande e elevado monte, a fim de lhe revelar a esposa, a noiva do Cordeiro. Devo fazer uma pausa aqui, pois a identidade desta noiva gera uma antiga confusão. Aqueles que leem de forma apressada acreditam que o catolicismo a associa a Maria e a partir disso levantam objeções. Esse não é o caso. A tradição sempre viu a Nova Jerusalém como o povo de Deus inteiro — toda a humanidade salva, tanto os mortos quanto os vivos, uma vez que o Apocalipse é claro ao afirmar que até os mortos ressuscitam. A cidade representa a Igreja glorificada, a totalidade dos santos em comunhão, que se torna a esposa. Maria é a representação ideal dessa noiva, seu símbolo e sua primícia, mas a noiva abrange o corpo inteiro.

Vamos escutar a descrição da cidade, e é fundamental que leiam com atenção, pois toda a arquitetura mística reside nos números:

Havia uma imensa e elevada muralha com doze portas, todas protegidas por doze anjos. Os nomes das doze tribos dos filhos de Israel estavam entalhados nas portas. Existiam três portas voltadas para o Oriente, três voltadas para o Setentrião, três para o Sul e três para o Ocidente. Os fundamentos da muralha da cidade eram doze, e cada um deles levava o nome de um dos doze apóstolos do Cordeiro. (Ap 21, 12-14)

São doze, e esse número não é apenas decorativo — é a essência da cidade. São doze portas vigiadas por doze anjos, adornadas com os emblemas das doze tribos de Israel, que constituíam o antigo povo; e são doze fundamentos, sustentados pelos doze apóstolos do Cordeiro, que formam o novo povo. A muralha tem uma extensão de cento e quarenta e quatro côvados, que é igual a doze vezes doze — a plenitude do Israel de Deus multiplicada por si mesma. A cidade é um cubo perfeito, com comprimento, largura e altura idênticos, cada um medindo doze mil estádios: um cubo colossal. É aqui que a geometria se expressa em termos teológicos. No Templo de Salomão, o Santo dos Santos — o local que abrigava a Presença e a glória de Deus sobre a Arca — era igualmente um cubo perfeito. Quando a Nova Jerusalém desce como um cubo colossal, afirma-se que toda a criação se transformou no Santo dos Santos: não existe mais um espaço sagrado dentro do mundo, pois o mundo todo passou a ser o espaço onde Deus reside sem qualquer interposição.

Os fundamentos são adornados com doze pedras preciosas dispostas na mais perfeita ordem — jaspe, safira, calcedônia, esmeralda, sardônica, cornalina, crisólito, berilo, topázio, crisópraso, jacinto e ametista — e cada uma das doze portas é feita de uma única pérola, enquanto a rua que atravessa a cidade é composta de ouro puro, tão transparente quanto o cristal. Concentre-se, leitor, nesta última imagem, pois ela representa um mistério que apenas a linguagem da alquimia sagrada é capaz de desvendar. No mundo em que vivemos, o ouro é opaco: um metal denso e pesado. É fisicamente impossível que o ouro seja transparente como vidro. Para que o ouro se torne translúcido sem que seu peso seja alterado, é necessário que a matéria seja completamente permeada pela luz — saturada de tal forma pelo Ser e pela glória divina que não projeta mais sombras. A opacidade representa a marca do vazio; por sua vez, a transparência límpida do ouro na Nova Jerusalém simboliza a matéria completamente impregnada de espírito. Da mesma forma que as pedras preciosas, elas transmitem a mesma mensagem de uma maneira diferente: representam o símbolo supremo da imobilidade, os desejos humanos e as virtudes dos santos, que antes eram efêmeros — meramente pensamentos, meramente preces — e que agora se encontram solidificados na própria essência do novo universo. Os sonhos adquiriram a solidez, a rigidez e a eternidade do diamante. João afirma que não encontrou nela nenhum templo, uma vez que o próprio Deus Soberano é o seu templo, assim como o Cordeiro; e a cidade não necessita de sol nem de lua, pois a glória de Deus a ilumina, e a sua luz é o Cordeiro.

É importante, neste ponto, esclarecer a chave interpretativa que tenho utilizado, pois ela permeia todo o restante. A alquimia — e não a tentativa enganosa de produzir ouro em um cadinho, mas a alquimia espiritual que os místicos cristãos da Idade Média empregaram como uma linguagem simbólica para a transformação da alma — delineia a obra em dois grandes movimentos. Existe a solutio, a dissolução: aquele estado em que tudo se corrompe, se desintegra e deteriora, a rocha que se transforma em areia, o corpo que envelhece, o mundo que está sob a condição que a Escritura designa como vale de lágrimas. Há também a coagulação, a solidificação, o processo em que o que era volátil se torna estável, e aquilo que estava disperso adquire uma forma duradoura. Todo esse mundo que existe está sob o domínio da dissolução. O Apocalipse representa a Grande Coagulação — o momento em que o que é volátil se torna sólido, quando o universo dos sonhos, o metafísico e o invisível, desce e se concretiza na matéria, sem nunca mais sofrer corrupção. É por essa razão que a cidade é retratada com pedra, ouro e cristal: pois, naquele lugar, a matéria foi permanentemente estabelecida. Emprego o termo alquímico em sentido simbólico, repito, e não como ciência; mas o símbolo capta com precisão aquilo que o texto revela — um cosmos que para de escorregar entre os dedos e passa a ter a durabilidade do eterno.

Para compreendermos a herança que nos aguarda, é fundamental, antes de mais nada, entendermos a posição que herdaremos — a dos anjos e seu papel no universo. Este é o ponto que, de maneira geral, as pessoas não conseguem compreender: elas não têm a mínima noção do que realmente é um anjo. Visualiza-o como um garoto alado de cartão natalino, enquanto o anjo representa uma força que rege os limites do universo. Na Escritura, observa-se o príncipe angélico que persevera durante dias no plano espiritual: no livro de Daniel, o mensageiro celestial admite que foi impedido de prosseguir por vinte e um dias pelo príncipe do reino da Pérsia, até que Miguel, um dos principais príncipes, apareceu para ajudá-lo. Este "príncipe da Pérsia" não é um rei de carne; é um principado, uma potestade, uma criatura que preside àquela nação no plano metafísico. Existe uma batalha que ocorre além dos limites da história, e somente quando Miguel triunfa é que aquilo que deveria ser realizado na terra realmente acontece. A política masculina possui, em seu cerne, uma política dos espíritos.

Denomino esses anjos, por falta de um termo mais apropriado e sempre em um sentido simbólico, como demiurgos do cosmos. A palavra grega dēmiourgós, que significa criador, o que molda, o que dá forma — é precisamente isso que estou tentando expressar. Não que habitem as coisas, como pensava o paganismo; eles estão acima das coisas, mas têm poder sobre elas, formando-as a partir do âmbito metafísico. Na Suma, São Tomás de Aquino explica que Deus governa os corpos inferiores por meio dos anjos, ou seja, a criação material não opera de forma automática; cada força da natureza é, na verdade, acompanhada por uma inteligência que a gerencia como causa secundária. Há um provérbio rabínico que captura essa mesma verdade de maneira eloquente: não existe uma única folha de grama aqui embaixo que não tenha, acima dela, um anjo dizendo "cresce". O próprio Apocalipse revela esses servos do cosmos em ação — o anjo com domínio sobre o fogo, os quatro que controlam os quatro ventos e o anjo das águas. Eles formam e sustentam o ambiente em que a criação permanece de pé, enquanto o homem enfrenta sua provação.

Contudo, sinto a necessidade de corrigir a mim mesmo, e o faço de maneira pública, pois a verdade é mais valiosa do que a vaidade de nunca ter cometido um erro. Houve uma época — conforme está documentado em alguns dos meus escritos mais antigos no Círculo — em que eu considerava o anjo como a própria base da existência de um determinado objeto: se o anjo não moldasse continuamente aquele objeto, ele cessaria de existir. Um intelectual a quem devo a correção indicou-me que a tese era, em parte, correta e, em parte, incorreta. Está incorreto em sua base, pois a razão de toda existência é unicamente Deus; se um anjo fosse a causa da existência de algo, isso significaria que cada anjo seria um deus por si só, o que nos levaria a um politeísmo velado. Está certo no molde, mas sem a intervenção angélica, nada seria como conhecemos. A cadeira que está à minha frente existe porque é da vontade de Deus que ela exista; no entanto, é possível que, sem a influência de qualquer ser espiritual, ela não fosse uma cadeira, mas sim gás ou poeira espalhada, caso nenhuma entidade espiritual tivesse formado, a partir do plano metafísico, as conexões que a definem como isso e não outra coisa. Deus é o criador da existência; o anjo, agindo sob a autoridade divina e de acordo com a vontade de Deus, ajuda a moldar essa existência. A diferença entre o que é e o modo como é, distingue a teologia católica de qualquer forma de idolatria à criação.

Tolkien entendeu isso como poucos, e não por acaso sua mitologia esclarece nossa teologia. Na Ainulindalë, que é a página inicial do Silmarillion, os Ainur — que são os anjos desse mundo — dão forma à existência de Arda através da entoação da Música que Ilúvatar, o Único, lhes apresenta. Não inventam; modelam o assunto que receberam do Criador. Entre eles, existe aquele que tentou desafinar, Melkor, o insurgente que desejou entrelaçar suas próprias melodias e inundou a Música com discórdia e caos. Contudo, é na grandiosidade da resposta de Ilúvatar que eu imploro que seja lida em sua forma precisa, pois nela está codificada toda a doutrina da Providência:

E você, Melkor, descobrirá que não há nenhum assunto que possa ser abordado que não tenha em mim sua origem mais profunda, e ninguém é capaz de modificar a música sem a minha autorização. Pois aquele que o tentar fará apenas parte do meu plano na criação de coisas ainda mais extraordinárias, que ele nem sequer consegue imaginar.

Tudo o que você precisa está presente. A mais intensa rebelião não escapa à vontade do Criador; ela é reintegrada, e a partir da própria destruição que o rebelde tenta provocar, surgem as mais belas criações — pois assim desejou Aquele que governa a criação. É a perfeita tradução do que a fé professada diz: que Deus só permite o mal na medida em que dele conseguirá tirar um bem maior. Os demônios, neste contexto, são os Melkores do nosso universo — anjos que deixaram suas funções e abandonaram a tarefa de moldar a criação para se entregarem à busca de sua própria discórdia. Chamo-los, ainda que de forma lúdica, de anjos indolentes: aqueles que abandonaram o reino.

Mas por que abandonaram? De acordo com a Escritura, quando analisada em sua profundidade tradicional, ela revela uma forma de arrogância que é mais terrível do que a soberania habitual. A interpretação dos Padres da Igreja identificou a estrela da manhã que caiu em Isaías, o querubim expulso em Ezequiel e o dragão que foi precipitado no Apocalipse como representações de Lúcifer. É importante observar — e serei sincero em relação à natureza do texto — que, na sua obra histórica, Isaías entoa a canção sobre a queda do rei da Babilônia; foi a interpretação espiritual dos Padres que conseguiu identificar, nesse contexto, a figura do primeiro anjo que caiu. Além disso, a interpretação revela que Lúcifer almejava ocupar a posição do Pai. Foi mais fundo: quis toda a criação para si, e — este é o ponto — quis o lugar de Adão. Porque Adão, antes da queda, já era aquilo que seremos no fim: o herdeiro de tudo, o senhor da criação física, dotado de dons que a própria Escritura insinua, a ponto de conversar com os animais como quem fala entre iguais. Lúcifer olhou para aquele barro coroado e não suportou. A inveja do demônio pelo homem nasce daí: nós herdamos a criação que ele cobiçava.

A tradição islâmica, que trago apenas como espelho comparativo e não como fonte de doutrina, guardou uma cena que ilumina o mesmo abismo. No Alcorão, ao instruir os anjos a se prostrarem diante de Adão, Íblis se recusa, alegando que seu orgulho em relação à matéria da qual foi criado o impede de fazê-lo: ele, formado do fogo, não se submeterá a quem foi moldado do barro. Alguns comentaristas caracterizam esse fogo como o "fogo sem fumaça" de que são feitos os gênios. A situação é diferente, a teologia é distinta, mas a essência permanece a mesma que a tradição cristã identificou: uma criatura espiritual que se nega a aceitar a dignidade conferida ao ser humano feito de barro, e que, ao fazer essa negação, se lança em queda. Lúcifer foi, se me permitem a expressão que circula no Círculo, o primeiro tolo — não no sentido superficial do insulto, mas em seu significado mais profundo: aquele que se isolou em seu próprio eu e rejeitou a harmonia do todo.

É precisamente essa herança que foi perdida que Cristo se compromete a restaurar. Quando Ele afirma que herdaremos tudo, está se referindo a nos tornarmos, de certa forma, novos Adão e nova Eva — não um casal, mas toda a humanidade restaurada à posição da qual caiu, aquela em que o homem estava, de alguma maneira, equiparado aos anjos. O primeiro céu e a primeira terra deixam de existir — o plano do Reino, que a cabala chama Malchut, se consuma — e tudo se mescla em céu. Herdaremos a função que hoje é dos anjos: seremos, também nós e sob Deus, moldadores da criação glorificada, dotados de livre-arbítrio, mas de um livre-arbítrio ordenado, como o dos anjos, que já não sabe querer contra o Bem. Este é o coração da Teologia do Imaginário: o homem santo reassumindo o trono de Adão sobre uma criação que responde ao espírito.

Mas — e este mas é a diferença entre a fé e a heresia — não nos tornamos Deus. Que isto fique gravado a ferro, porque é a fronteira que a Serpente ofereceu a Eva e que todo orgulho reoferece. A doutrina tem nome preciso: chama-se teose, ou divinização, e a formularam os Padres na frase de Atanásio — Deus se fez homem para que o homem se tornasse deus. Mas "tornar-se deus", na boca de Atanásio e da Igreja, não significa tornar-se a Divindade por essência; significa tornar-se, pela graça, consorte da natureza divina, como escreve o apóstolo Pedro. Deus não divide sua essência; Ele derrama sua santidade de tal maneira que o justo se torna um canal puro da força do Criador, sem nunca deixar de ser uma criatura. Há uma distinção entre o ferro incandescente e o fogo: o ferro em brasa queima, brilha e provoca queimaduras como o fogo, mas continua sendo ferro, enquanto o fogo é apenas fogo. Estamos envolvidos com a luz; porém, não nos transformamos na fonte dela. É por essa razão que o Papa Bento XVI, na sua encíclica dedicada à esperança, afirmou que a vida ressuscitada não se trata da simples continuação deste universo físico, mas sim da transição para uma nova dimensão, onde a matéria é finalmente completamente governada pelo Espírito — não eliminada, mas transformada.

A Escritura fundamenta cada nível desse raciocínio, e não os crio do zero. É o próprio Cristo quem se refere ao Salmo — "Eu disse: sois deuses, e todos vós sois filhos do Altíssimo" — ao falar daqueles que acolhem a Palavra de Deus. É o salmista quem canta que o homem foi feito pouco menor que os anjos, coroado de glória e de honra. É Paulo quem pergunta, sem rodeios, se não sabemos que haveremos de julgar os anjos — nós, que hoje lhes somos inferiores, seremos amanhã postos acima deles, porque a Nova Jerusalém desce já pronta e são os justos que nela reinam, enquanto os anjos, que moldaram a física que nos limitava, passam a testemunhar o homem operando diretamente com o Criador. É Isaías quem assegura que toda a população será composta por justos e que, para sempre, herdarão a terra. Além disso, é o próprio Cristo quem promete a mesma herança aos mansos durante o Sermão da Montanha. A inversão é total: a criatura que Lúcifer menosprezou por ser feita de barro é exaltada acima do próprio criador.

Que essa herança traz efeitos físicos reais, a teologia o declara com uma precisão impressionante. Os justos ressuscitam com corpos glorificados, e a escolástica descreve as características desse corpo por meio de quatro dons, que Tomás de Aquino explica. O primeiro é a impassibilidade: a cessação total da dor, da fome, da decomposição e da morte. O segundo aspecto é a delicadeza: a habilidade do espírito de se fundir com a matéria, assim como o Cristo ressuscitado que adentrava o cenáculo, mesmo com as portas fechadas. O terceiro ponto é a rapidez: a eliminação das distâncias, o corpo que se desloca na velocidade do pensamento. O quarto aspecto é a luminosidade: a emanação física da luz interior da alma — não um reflexo externo que incide sobre o corpo e se reflete, mas a própria alma, harmonizada com a mente de Deus, transbordando sua luz através da carne, assim como no rosto de Cristo, transfigurado no Tabor. O corpo do justo deixa de ser apenas um receptor de energia do mundo — oxigênio, alimento, calor — e se torna um emissor de luz. A matéria humana, impregnada de espírito, passa a ser diáfana à glória, tal qual o ouro da cidade.

I isto não é teoria: já houve quem o experimentasse antes do tempo. Os Padres do Deserto — aqueles indivíduos que, enquanto ainda estavam vivos, conseguiram romper o ciclo da dor através do ascetismo — tornaram-se, como era frequentemente mencionado, anjos da terra. Em relação a eles, a terra já se submetia: as bestas ferozes protegiam suas cavernas, a água surgia em abundância onde era escassa, e eles eram capazes de perceber o que ocorria no íntimo dos homens a longas distâncias. Não foi através de magia, mas sim devido ao fato de estarem tão em sintonia com o Rei que o anjo responsável por modelar a natureza ao seu redor não tinha mais a necessidade de impor a eles as duras leis da física. Entre os Apoftegmas dos Padres do Deserto, existe uma narrativa que expressa tudo o que é necessário. O Abba Lot foi visitar o Abba José e relatou: "Pai, na medida das minhas forças guardo a minha pequena regra, o meu pequeno jejum, a minha oração e a minha meditação, e procuro purificar os meus pensamentos. O que mais posso fazer?" O velho então se ergueu, ergueu as mãos em direção ao céu, e seus dedos transformaram-se em dez tochas ardentes, e declarou: "Se quiseres, podes tornar-te todo em chama".

Toda a ensinamento se resume àquele gesto. Quando santificado, o corpo humano aguenta a mesma carga de luz que um anjo — e o aguenta sem se incinerar, tal como a sarça que ardia sem se queimar. Os Padres não realizavam isso por vaidade ou para se colocar no lugar de Deus; eles o faziam ao se despir de seu próprio eu, anulando o egoísmo a ponto de não haver mais nenhuma barreira entre a criatura e a graça, permitindo que a força de Deus fluisse através deles sem qualquer oposição. O que experimentavam nas grutas do Egito era um prévio, uma pequena amostra do que todos os justos viverão no final. Demonstraram, através de suas próprias experiências, que o que parece impossível se torna algo comum quando a justiça e o Criador atuam em perfeita sintonia.

Mas de que é feita, no fundo, a matéria que assim se transfigura? A Escritura responde com uma palavra: o Verbo. "Tudo foi feito por meio d'Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez", escreve João no princípio do seu Evangelho. Deus não criou o mundo com tijolos, mas com a Palavra — e a mística judaica, na sua leitura do Sefer Yetzirah, o Livro da Formação, apanhou essa intuição ao dizer que o cosmos foi arquitetado pelas letras do alfabeto sagrado, tomadas como as forças elementares com que os anjos moldam a realidade. Trago isto como símbolo, e não como física; mas o símbolo é fiel, porque diz o que a fé confessa — que no fundo de tudo o que existe está uma Palavra, uma inteligência, um Logos, e não o acaso cego da matéria. Se atualmente tudo parece denso, opaco e até mesmo letal, é como se as letras da criação estivessem organizadas de uma maneira que impõe limitações; quando Deus afirma "faço novas todas as coisas", é como se Ele pronunciasse a Palavra final e reordenasse tudo, fazendo com que as mesmas letras que anteriormente moldavam a pedra opaca se reorganizassem para dar forma ao ouro transparente e ao jaspe cristalino.

Há um ressoar do Éden aqui que não pode ser ignorado. Antes da queda e da confusão de Babel, acredita-se que a humanidade se comunicava na língua da criação, na qual o nome atribuído a um objeto não era uma convenção aleatória, mas sim o som que refletia sua própria essência. Quando Adão atribuía nomes aos animais, conforme o relato do Gênesis, não se tratava de simplesmente etiquetar: ele estava, de certa forma, discernindo a essência de cada criatura. Essa língua se perdeu, e desde então, passamos a usar palavras somente para nos referir a coisas que já existem. O Apocalipse garante sua recuperação por meio daquela peculiar representação da pedra branca: "Ao vencedor darei do maná escondido, e lhe darei uma pedra branca, e na pedra um nome novo escrito, que ninguém conhece senão aquele que o recebe". O maná oculto representa a nutrição direta do intelecto divino, uma gnose pura, sem intermediários; a pedra branca, na antiguidade, simbolizava o voto de absolvição que o juiz colocava para declarar o réu inocente, e, na terminologia alquímica, refere-se à brancura da alma que finalmente foi purificada; por fim, o novo nome não se trata de um epíteto, mas sim da verdade última daquela alma, a porção do imaginário divino para a qual ela foi exclusivamente criada. Saber o próprio nome verdadeiro é, afinal, ter consciência da própria identidade perante o Criador — e, ao tê-la, harmonizar-se completamente com o Verbo que sustenta todas as coisas.

Mas e quanto ao tempo? No vale de lágrimas, o tempo age como um torturador: destrói nossos sonhos, faz com que nossos corpos envelheçam e leva tudo à sua dissolução. No entanto, o anjo do Apocalipse faz um juramento por Aquele que vive eternamente, afirmando que não haverá mais tempo. Isto não implica uma eternidade imóvel, entediante, sem movimento — a maçada de uma varanda celestial interminável. Anuncia a transição do que os gregos denominavam chronos, o tempo que consome, para o kairos, o tempo pleno, o agora incessante. Todo o que a humanidade justa lamentou, anseou, padeceu e construiu em santidade através dos séculos não se extinguíu no pretérito; está preservado e vivo. A árvore da vida, que o vidente apresenta com doze frutos, um para cada mês, simboliza que a eternidade não é um estado de inatividade, mas sim uma fecundidade incessante: a cada temporada da glória, uma nova manifestação da infinitude de Deus se revela para a contemplação e o deleite dos santos. O texto menciona que as folhas dessa árvore são usadas para curar as nações, simbolizando a eliminação completa de qualquer recordação da dor, onde o trauma acumulado ao longo de milênios é dissolvido e transformado em sabedoria. É o Sábado sem fim: não o ócio, mas o repouso dinâmico, a incessante criação, o descanso que, ao mesmo tempo, é plena vitalidade.

Agora, é necessário enfrentar o lado oposto e fazê-lo com a sinceridade que prometi no início. Assim como existe o primeiro céu, o reino dos sonhos, também há seu reflexo oposto, o reino dos pesadelos. A tradição da cabala luriânica menciona as klipot, que são as cascas — os restos do processo de criação, os invólucros que aprisionam as centelhas de luz. Até agora, isso representa o conceito da verdadeira mística judaica. No entanto, o minucioso mapa que designa esferas demoníacas e transforma uma figura como Gamaliel no oposto infernal de Yesod, sob a presidência de Lilith, isso — e afirmo sem rodeios, para evitar qualquer mal-entendido — não pertence nem à cabala dos rabinos nem à tradição católica. É uma obra que integra a tradição do ocultismo ocidental moderno, que se desenvolveu através da Golden Dawn e de escritores como Dion Fortune e Kenneth Grant, ao longo do século XX. Apresento essa imagem, sempre que a trago, unicamente como um símbolo ilustrativo do que a própria fé já declara de outras maneiras: que há uma ordem que se inverte, um antirreino, uma manifestação de desordem que busca arrastar o mundo para a sua própria autodestruição. O emblema é contemporâneo e tomado de empréstimo; a realidade que ele representa é muito antiga e católica.

Pois a fé sempre esteve ciente de que o pesadelo tem um lar. Quando o Apocalipse dá início à abertura do poço do abismo, o que emerge não se limita apenas a monstros, mas também inclui uma fumaça que obscurece tanto o sol quanto o ar — uma representação de um transbordamento de desespero, terror e ilusão que se espalha sobre a terra. Os santos que tiveram experiências do inferno, como João Bosco em suas memórias e Faustina em seu diário — e menciono-os como revelações privadas, e não como dogmas — descreveram o primeiro nível da condenação exatamente como esse estado de ilusão aterrorizante e de aprisionamento da mente. As tentações mais devastadoras e os desespero mais profundos não têm sua origem na biologia; elas provêm dessa frequência invertida que busca arrastar o mundo para baixo. admitir a existência do reino dos pesadelos é o primeiro passo para identificar a origem dos ataques à alma — e para ter a certeza de que, no final, ele será aniquilado. O livro sagrado afirma: a Morte e o Inferno entregam os seus falecidos e são jogados no lago de fogo, e o próprio abismo é encerrado e selado. O canal que separa a sombra da terra é destruído e queimado. O espelho que inverte se quebra de forma definitiva. Só permanece a luz.

Retorno à imagem que simboliza o sonhar de forma direta, a fim de finalizar o arco. São José representa o ideal do homem que possui um conhecimento profundo e valioso. Não existe nenhuma palavra dele documentada na Escritura; toda a sua interação com o Céu acontece através de sonhos. O anjo se comunica com ele, e ao despertar, ele se dedica a transformar na terra a vontade que recebeu — recebe a revelação no âmbito espiritual e, ao acordar, passa a proteger o Menino Deus em sua forma terrena. Ele é o operador ideal: pega aquilo que veio do alto e o traz à realidade no chão do mundo. Se a tradição associa o Arcanjo Gabriel a essa função relacionada ao sonho e à anunciação, é porque ele é o responsável, na Escritura, por interpretar as visões do fim para Daniel e por trazer a Maria a mais grandiosa de todas as revelações — a transformação do impossível de Deus em carne. É preciso esclarecer, com precisão, que a Escritura não menciona Gabriel nos sonhos de José: ela se refere a um anjo do Senhor, e foi a tradição que fez a conexão entre essa figura e o mensageiro das anunciações. No entanto, o padrão permanece o mesmo: o Céu se une à terra através de um anjo, e uma pessoa justa o recebe.

Se Gabriel representa o mensageiro que desce, Maria simboliza a terra que recebe — e, com isso, o ciclo se completa. Nesta representação simbólica que venho utilizando, Nossa Senhora representa de forma viva e ideal a Malchut, que é o Reino, a esfera que não possui luz própria, mas cuja grandeza reside em acolher toda a luz proveniente do alto e materializá-la. Quando Maria afirma "eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra", ela anula completamente o seu próprio eu e se transforma em um espaço puro, um solo imaculado, preparado para receber a semente divina. É nesse momento que o Céu se encontra com a terra: o mensageiro transmite a luz, e o ventre da Virgem transforma o Verbo em carne, sangue e osso. O que Deus considera impossível se transforma em átomos. Existe, portanto, uma delicadeza que o grego mantém: a expressão que Lucas utiliza para afirmar que o poder do Altíssimo a envolveria com sua sombra é a mesma que o Antigo Testamento usa para descrever a nuvem da glória que se assentava sobre a Arca da Aliança. Maria é a nova Arca — não aquela que preserva as tábuas da Lei, mas aquela que abriga o Legislador encarnado. A tradição considera Maria como a nova Eva, aquela que desata o nó que a primeira mulher fez: enquanto Eva escutou o anjo caído e introduziu a desordem no mundo, Maria ouviu o anjo de Deus e, através de sua obediência, trouxe a Salvação. No lugar onde a primeira terra foi condenada pelo pecado, Maria faz com que a terra retorne ao seu estado de Éden.

O Apocalipse conclui essa representação, e a disposição da imagem revela tudo: "Apareceu no céu uma Mulher revestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça". A Mulher encontra-se acima da lua — e a lua, na simbólica que utilizei, representa Yesod, o reino dos sonhos. Ver a Mulher com a lua sob os pés é ver a matéria santificada superar e herdar o plano espiritual, reinando já com o Rei. Doze estrelas lhe coroam a cabeça — de novo o número da plenitude do povo de Deus. Em Maria, a humanidade justa recebe adiantado o mapa de como vencer a roda da dor: esvaziar-se das ilusões do ego e dos pesadelos, receber a luz pura que desce do alto, e manifestar o Reino dos Céus de modo físico e eterno sobre a terra.

Tudo, no fim, converge para uma única imagem, e é a imagem com que os maiores místicos católicos — um São João da Cruz, uma Santa Teresa de Ávila — descreveram o ápice da vida espiritual: o matrimônio. O que na alma do santo é o casamento místico entre a criatura e Deus, o Apocalipse eleva à escala do cosmos: as bodas do Cordeiro e da sua Esposa, o Céu e a terra unidos para sempre, sem véu e sem divórcio. Assim, a cidade não requer mais a presença do sol ou da lua, uma vez que a separação entre aquilo que emite luz e aquilo que a recebe não existe mais; toda a criação passou a brilhar internamente. É por isso que o vidente consegue escrever a frase que resume tudo: os servos de Deus verão a sua face, e o seu nome estará gravado nas suas frontes. Contemplar a face de Deus representa o término de qualquer exílio; e possuir o Nome inscrito na testa — na região primordial do intelecto, do Nous — constitui o emblema da divinização: a mente humana, por fim, aprimorada pelo sofrimento e pela graça, a ponto de não refletir apenas as imagens de Deus, mas de agir em plena harmonia com Ele.

Isto representa a Teologia do Imaginário, e é com isso que dou início ao seu selo. Não a ilusão de que o homem é capaz de criar Deus, mas a convicção de que o homem, ao se purificar, passa a refletir a divindade a tal ponto que seus anseios se unem harmoniosamente aos de Deus. O primeiro céu estava distante da terra, e por isso o que imaginávamos raramente se manifestava na realidade, e a física insistente nos obrigava a passar pelo ciclo da dor. Mas o Apocalipse prevê o momento em que o véu se rompe, o metafísico permeia o físico, o volátil se solidifica no eterno, e tudo o que foi, o que é e o que poderia ser se manifesta na glória. Naquele dia, o lamaçal que Lúcifer menosprezou estará elevado acima dos anjos, e toda a criação será aquilo que a alma dos justos sempre manteve em sigilo: um reflexo eterno das mais belas possibilidades de Deus. Faremos uma herança de tudo. Finalmente, o sonho ganhará forma.

Então disse Eru Ilúvatar:

E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado que não tenha em mim a sua fonte mais profunda, e ninguém pode alterar a música à minha revelia. Pois aquele que o tentar provará ser apenas meu instrumento na criação de coisas mais maravilhosas, que ele mesmo não imaginou.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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