Tomás de Aquino Vs Immanuel kant
Este debate surge de uma conversa genuína em um bar sobre um tema fundamental da filosofia: se o ser humano compreende a realidade tal como ela é ou se apenas organiza os fenômenos de acordo com a estrutura de sua própria mente. O debate confronta a tradição clássica (Sócrates, Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino) com as teses de Kant a respeito de conhecimento, identidade, causalidade e liberdade.
Gabriel. G. Oliveira
3/16/202620 min read


Um debate com um bom amigo
O que se segue é fruto de um diálogo genuíno, desses que começam por cansaço do ruído humano e terminam tocando em temas que a maioria evita por demandarem mais do que uma opinião superficial. Bruno e eu estávamos em um bar, rodeados pela banalidade, quando a conversa deslizou para um ponto sempre controverso: se a realidade é algo que o intelecto consegue alcançar, mesmo que de forma limitada, ou se aquilo que chamamos de mundo conhecido já chega até nós tão moldado pela mente que nunca experimentamos o real como real. Foi a partir desse ponto que surgiram questões sobre juízos sintéticos a priori, identidade ao longo do tempo, causalidade, evidência, objeto, moral e liberdade.
Assim, o debate não se trata de uma briga gratuita com Kant por diversão no ambiente universitário, nem de uma encenação para exibir erudição em um bar. Ele ocorre porque há um problema mais profundo por trás dessas questões: se o ser humano conhece o ser ou apenas organiza fenômenos; se a verdade depende primeiro da realidade ou da estrutura do sujeito; se a identidade das coisas reside nelas ou é apenas uma construção mental; e se a liberdade humana se concretiza no bem real ou em uma autonomia vazia. Em outras palavras, o diálogo se concentra na própria possibilidade de verdade, mundo e vida moral, que é precisamente o tipo de tema que parece abstrato até o instante em que começa a influenciar tudo.
O bar estava repleto daquele barulho humano que sempre me incomodou um pouco mais do que talvez fosse normal. Copo batendo em madeira úmida, riso alto de mesa vazia por dentro, garçom atravessando o corredor estreito com a cara de quem já perdeu a fé no gênero humano faz tempo, televisão muda num canto despejando imagens de um jogo que ninguém realmente estava vendo. Era o tipo de lugar onde a banalidade parecia querer prevalecer por exaustão. E, mesmo no meio daquele cenário projetado para sufocar qualquer impulso contemplativo, estava Bruno, três anos mais velho, cursando filosofia enquanto eu optava por administração, com uma expressão de quem finalmente descobrira uma justificativa convincente para converter cerveja em metafísica e pose em método.
Ele girou o copo, lançou um meio sorriso de provocação acadêmica, aquele tipo que muitos confundem com inteligência por ainda não saberem diferenciar ironia de profundidade, e disparou a frase como quem lança a isca e já espera o peixe fisgado.
— Ah, porque eu só gosto de diálogos profundos e intelectuais; não aguento conversinha fiada. Certo, então vamos nessa, amigo. Me esclarece uma coisa: como podem existir juízos sintéticos a priori? Vamos lá, pessoal, é só uma pergunta básica de filosofia.
Olhei para ele, depois para o bar e, por fim, de volta para ele, como se estivesse ponderando se é mais valioso resgatar uma alma ou derrubar um sistema. Porque há ocasiões em que a distinção entre as duas coisas é mínima.
— Bruno, o primeiro problema da sua pergunta é que ela já inicia o debate concedendo a Kant um espaço que não estou disposto a ceder tão prontamente. E esse é precisamente o artifício sutil da filosofia moderna quando busca parecer inevitável: ela apresenta a questão de tal forma que a derrota do oponente é vista como um retrocesso histórico. Kant considera a possibilidade dos juízos sintéticos a priori como o ponto central da Crítica, pois busca demonstrar como a universalidade e a necessidade estão presentes na matemática, em determinados princípios da física e nas condições da experiência, evitando tanto o racionalismo dogmático quanto o empirismo cético. Tudo isso é grave. A questão não é trivial. Porém, a resposta aristotélico-tomista começa antes e, por começar antes, vê mais. O intelecto humano compreende o real, não somente a maneira como a mente o estrutura. Conhece o ente como ente, ainda que de forma progressiva, abstrativa, limitada e trabalhosa, sem essa ilusão juvenil de onisciência filosófica. O intelecto não cria o ser; ele o apreende cognitivamente. A inteligência extrai a forma inteligível do objeto sensível. Ela não estabelece a inteligibilidade do nada sobre um caos amorfo, agindo como uma secretária transcendental do universo. Aristóteles elabora uma metafísica baseada em substância, forma, matéria, ato e potência, pois entende que, ao dissolver o real na mente, é possível preservar um sistema, mas o mundo já foi perdido.
Bruno riu com a expressão de quem já estava pronto para responder antes mesmo de ouvir a resposta completa. Isso também é um vício universitário bastante frequente: a pessoa não escuta, apenas aguarda a sua vez de parecer inteligente.
— Contudo, isso ainda não responde. Kant afirma que algumas estruturas não são derivadas da experiência, pois a própria experiência possível depende delas. Espaço e tempo são considerados formas da sensibilidade, enquanto causalidade, substância e unidade são vistas como categorias. Sem isso, não há objeto para nós. Como é possível preservar a necessidade e a universalidade sem a revolução copernicana de Kant?
Eu respondi lentamente, tanto para ser claro quanto para irritá-lo. Existem irritações benéficas.
— Preservando o mundo antes de preservar o conhecimento. Esse é o ponto completo. Kant, ao tentar escapar de Hume, acaba pagando um preço muito alto pela fuga. Ele, de fato, recupera a necessidade, mas a move principalmente para a estrutura do sujeito cognoscente. Em vez de afirmar que o intelecto é proporcional ao ser, sustenta que a experiência já surge configurada por condições transcendentais da subjetividade. O custo é elevado, mesmo que seja apresentado em um alemão respeitável. Você preserva a ciência do fenômeno, mas compromete o acesso intelectual ao ser das coisas enquanto coisas. Para um aristotélico-tomista, isso representa uma amputação desnecessária disfarçada de rigor. Aristóteles não precisou afirmar que a mente legisla a natureza para elucidar a ciência. Ele considera que existem formas, naturezas, princípios e causalidade no real, e que a inteligência, ao abstrair, atinge o universal a partir do singular. Tomás simplesmente eleva isso à maturidade metafísica: a verdade é a conformidade do intelecto com a realidade, e não a conformidade da realidade com as condições transcendentais do sujeito. Essa distinção pode parecer abstrata até o momento em que você percebe que uma das posições ainda confia no real, enquanto a outra o mantém sob controle.
Bruno se inclinou para a frente.
— Tudo bem, mas Hume elimina a necessidade causal no âmbito empírico. Kant responde: a causalidade é uma condição necessária para a possibilidade da experiência. Como você vai responder? Com profundidade? Com formato? Com um termo medieval bonito?
Antes de responder, tomei um gole. Não porque necessitasse de tempo para pensar. Apenas porque algumas respostas exigem calma.
— Com a metafísica, Bruno. O que o século XVIII tentou classificar como superstição acabou por reaprender por outros meios, por vezes mais simples e confusos. Hume só consegue desmantelar a necessidade causal porque previamente já restringiu o conhecimento ao fluxo das impressões e às associações habituais. Ele empobrece antes de destruir. Kant reconhece que isso destrói a ciência e apressa-se para preservar a necessidade, porém a desloca para a estrutura transcendental do conhecimento. Desde o início, o aristotélico rejeita a mutilação humeana. Causalidade não é, antes de tudo, um costume psicológico nem um modo subjetivo de organizar informações. Ela é a estrutura do real que o intelecto capta por meio do movimento, transformação, criação, corrupção, dependência e contingência. O que muda requer princípios compreensíveis. Ato e potência. Conteúdo e forma. Causa material, causa formal, causa eficiente e causa final. Não, isso não é ornamentação escolástica para impressionar calouros. Isso representa uma tentativa séria de explicar por que algo é como é, por que muda e por que permanece. Kant reconstrói a ponte depois de aceitar que a cidade já estava em chamas. Apesar das limitações históricas que enfrentaram, Aristóteles e Tomás não entregaram a cidade aos bárbaros e, em seguida, chamaram o racionamento de lucidez crítica.
Com o entusiasmo de quem acredita que, ao mudar de pergunta rapidamente, a anterior desaparece, ele bateu o dedo na mesa.
— Então, outra. O que mantém a essência de algo ao longo do tempo? Fala pra mim.
— Depende do tipo de coisa, e isso por si só já demonstra a primazia da metafísica clássica em relação ao formalismo moderno. Porque o real não é uma massa uniforme aguardando a classificação adequada. Aristóteles afirmava que as mudanças podem ser acidentais ou substanciais. Uma romã amadurece e altera sua cor: o sujeito se mantém, o acidente se transforma. Uma semente transforma-se em árvore: há evolução de acordo com sua forma e potencialidade. Um animal vivo mantém sua identidade não pela imobilidade de cada partícula material, o que nem biologicamente ocorre, mas pela presença de uma forma substancial que organiza a matéria, caracterizando aquele ser como um tipo específico de ente. A matéria se refere à individuação, enquanto a forma se relaciona com a inteligibilidade do que a coisa é. Tomás esclarece isso de forma ainda mais precisa: a essência é o que define uma coisa como ela é; a existência é o que permite que essa essência se manifeste. Em termos mais simples e sinceros, a identidade não é um artifício mental sofisticado, nem uma etiqueta que a consciência utiliza para organizar fluxos dispersos e evitar o pânico. Identidade está relacionada à estrutura ontológica do ser. O real tem o hábito de não depender da nossa ginástica conceitual para permanecer como é.
Bruno levantou a sobrancelha, como se fosse questionar exatamente o ponto onde acreditava que a linguagem metafísica falharia.
— Portanto, identidade é uma característica do objeto?
— A identidade precede o seu dilema mal estruturado. Antes de eu expressar o juízo "A é A", a coisa já é idêntica a si mesma. A mente identifica, categoriza e avalia. Ela não inventa o princípio de identidade como se o universo estivesse à espera de uma permissão da consciência para não se desintegrar. Esse é um vício moderno comum: por estar presente no intelecto, acredita-se que a inteligibilidade provém do intelecto como fonte essencial para a constituição do ser conhecido. Não aparece. O conceito é uma forma mental de compreensão; a base da verdade do conceito reside na coisa. Caso contrário, toda ciência não passaria de uma arquitetura coerente de aparência. Bonita, elegante, ocasionalmente funcional, mas ainda assim superficial. E então você pode ter método, formalização, aparato crítico, seminário, banca, tudo. Apenas não possui realidade. Porém, o mundo resiste. Ele corrige, refuta, menospreza teorias ruins e castiga fantasias epistemológicas. O real não se submete ao nosso sistema categórico. Quem pensa assim costuma passar tempo demais lendo comentários e tempo de menos observando o que realmente existe.
Uma mesa próxima explodiu em risadas por causa de alguma bobagem que ninguém se lembraria no dia seguinte. O tipo de riso que revela a total falta de necessidade interior. Bruno nem se mexeu.
— Não fuja. Me diga se a identidade é uma característica do objeto ou uma criação da mente. Vamos nessa. Fale.
— Desde o princípio, é uma distinção envenenada. Se você impõe a escolha nesses termos, já distorceu a resposta antes de recebê-la. A apreensão explícita da identidade, na forma de um juízo formulado, é um ato da mente, evidente. Porém, o ente é o fundamento ontológico da identidade. Um cão permanece sendo este cão devido à existência de um sujeito real que persiste sob acidentes variáveis e à presença de uma forma que o define como uma espécie de ser vivo, e não porque minha consciência optou por unir percepções dispersas com uma linha transcendental e, posteriormente, denominar isso de objetividade. Isso era explicado por Aristóteles por meio da distinção entre substância e acidente. A substância é autônoma; o acidente depende de algo externo. Isso não é um brinquedo lógico criado para proporcionar trabalho a comentarista escolástico. É uma descrição do modo de existir. A questão é que a modernidade se encantou tanto com sua própria consciência que passou a encarar o mundo como se fosse um departamento subordinado a ela.
Ele sorriu como um professor que acredita ter finalmente pegado o aluno.
— Além disso: como você demonstra que algo é real antes de apresentar a prova desse algo? Você sabe que isso é possível, certo?
— Sim, e a sua pergunta cai em uma confusão frequente entre demonstração formal e evidência primeira. Nem todo conhecimento se inicia com uma prova discursiva, e apenas quem está excessivamente preso ao método acredita que a realidade precise aguardar a dedução para começar a existir. Há tanto os princípios per se nota, que são conhecidos por si ao menos em algum grau em relação aos seus termos, quanto o dado inicial da experiência sensível e intelectual do ente. Ninguém exibe o princípio da não contradição sem antes empregá-lo. Ninguém expressa o ser em geral sem antes se deparar com entes. Antes de sistematizar, a inteligência se depara com o real. Tomás nunca afirmou que tudo começa com uma dedução flutuando acima do mundo; ao contrário, nosso conhecimento tem início nos sentidos e se eleva por meio da abstração. Toda demonstração se baseia em algo previamente estabelecido: um ente, um princípio, uma evidência ou uma presença originária do real. Kant, ao converter as condições de objetividade em condições transcendentes do sujeito, inclina excessivamente a balança. A atividade do intelecto não é negada pelo tomista. Ele apenas se recusa a venerar essa atividade como se ela fosse essencial para o ser conhecido enquanto ser. Distinguir a mediação cognitiva de transformar a mente em uma espécie de alfândega do universo é uma grande diferença.
Bruno fechou os braços.
— Mas para você, o que é evidência? Isso ocorre porque, para Kant, o objeto conhecido já se encontra sob condições a priori. Você não escapa disso. Tudo o que você me apresenta já chega até mim filtrado.
— Sim, filtrado. Produzido, não. Evidentemente influenciado pela forma humana de conhecer. Por isso, não é reduzido a um mero fenômeno sem inteligibilidade metafísica alcançável. Esse é o exagero kantiano. Ninguém sério nega que adquirimos conhecimento por meio das faculdades humanas. O tomismo nunca foi esse ingenuísmo fotográfico que alguns modernos criam para ridicularizar um espantalho. Abstração é ação. Juízo é ação. Raciocínio é uma operação. Porém, de “há operação cognitiva” não se deduz “o ser conhecido enquanto conhecido é apenas fenômeno constituído”. O intelecto atua ao abstrair a forma inteligível, mas não cria o objeto. E aqui surge a contradição elegante de Kant. Se a inteligência humana estivesse completamente aprisionada em suas formas constitutivas, sem acesso ao ser, o discurso transcendental perderia sua base. Porque a tese de que "só conhecemos fenômenos" não se aplica apenas a um fenômeno pessoal meu. Ela busca ser relevante para a estrutura da relação entre conhecimento e realidade. Bem, isso já constitui uma afirmação metafísica robusta. A modernidade sempre apresenta a mesma peça: expulsa a metafísica pela porta da frente e a traz de volta pelos fundos, disfarçada de crítica e utilizando termos mais recatados para simular modéstia.
Bruno fez uma expressão como se tivesse descoberto um atalho pela lateral.
— E quanto a Platão? Vai me dizer que Platão está de acordo com você contra Kant? Porque Platão não é um realista ingênuo em relação ao mundo sensível. Além disso, se quiser invocar Sócrates, pior ainda: questionamento, ironia, aporia, nada dessa sua certeza de catecismo metafísico.
— Você está confundindo profundidade com instabilidade, o que é um erro bastante contemporâneo e, para ser sincero, um tanto juvenil. Sócrates não é útil para desfazer a verdade; ele serve para abalar a falsa segurança. Ele perturba para purificar, não para comemorar o colapso. Apesar de todos os problemas inerentes à teoria das Formas, Platão mantém uma convicção fundamental: o inteligível é mais real, e não menos. A mente não cria a ordem do ser; ela ascende a ela. Aristóteles rejeita a separação excessiva das Formas proposta por Platão, mas mantém o núcleo do realismo: o inteligível não é uma prisão subjetiva, mas uma dimensão do real que pode ser compreendida pelo intelecto. Tomás cristianiza e purifica tudo isso: a forma não existe em um céu independente, ela dá sentido à substância; o ente criado possui essência e ato de ser recebidos; e a verdade permanece sendo a relação entre o intelecto e o real. Há, sim, correções internas nesse arco inteiro socrático, platônico, aristotélico e tomista. Não há tradição viva sem purificação. No entanto, existe uma unidade clara contra o kantismo: o ser é inteligível, e o intelecto é ordenado ao ser. Não à vaidade transcendental em si.
Ele não soltou.
— E a ciência contemporânea? Você mencionou a utilização da ciência. A ciência não elimina precisamente a metafísica clássica? Não foi esse o aspecto desde a modernidade?
Eu ri, pois essa questão carregava séculos de simplificação preguiçosa.
— Esse é um dos mitos preferidos de quem leu demais sobre teoria e pouco sobre prática. A ciência contemporânea eliminou uma quantidade significativa de física aristotélica mal interpretada, cosmologia antiga, erros empíricos e confiança excessiva em esquemas que necessitavam de correção. Excelente. Ainda bem. Porém, não eliminou a questão metafísica. Na verdade, ele depende dela o tempo todo, mesmo quando finge não depender. A prática científica pressupõe organização, consistência, clareza, invariabilidade, estrutura, permanência nas relações, distinção entre aparência e explicação, e diferença entre modelo e realidade representada. Parte do pressuposto de que existe algo a ser conhecido e que esse algo não é simplesmente um efeito do nosso humor categorial. Até mesmo as abordagens contemporâneas do realismo científico e do estrutural-realismo afirmam que nossas melhores teorias refletem algo verdadeiro sobre a estrutura do mundo, e não apenas sobre a organização interna da experiência. Isso, evidentemente, não restaura a física de Aristóteles, mas avança em uma direção muito mais favorável ao realismo metafísico do que ao confinamento kantiano rigoroso. A ciência respeitável não nos ensinou que tudo se resume a aparência organizada pela mente. Ela nos ensinou anteriormente que o mundo é inteligível o suficiente para ser explorado e resistente o suficiente para desmentir nossas ilusões.
Bruno interrompeu:
— Contudo, o estrutural-realismo não preserva a substância aristotélica.
— Não é necessário preservar todos os aspectos da física aristotélica para me convencer de que o subjetivismo transcendental é excessivo. Esse é o cerne da questão. O progresso científico subsequente não levou a humanidade a concluir que só compreende aparências formadas pela mente. Em vez disso. Muitas correntes da filosofia da ciência argumentam que o sucesso preditivo, a estabilidade matemática, a preservação de estrutura em mudanças teóricas e a resistência experimental indicam a existência de um mundo estruturado e independente de nós, ao qual nossas teorias se adaptam de forma parcial, passível de correção, imperfeita, mas real. Você pode não ter retornado a 1274, e ninguém sensato está exigindo isso. No entanto, não é necessário permanecer em Königsberg como se a história do pensamento tivesse chegado ao fim ali por um decreto acadêmico.
Ele sorriu de lado, como quem tenta desviar o assunto para evitar encarar o cerne da questão.
— Você sabe que Kant não negava a existência do mundo externo, certo?
— É óbvio que sei. Esse espantalho é muito vulgar para ser considerado. O problema é mais sutil e, por isso, mais grave. Kant reconhece a existência da coisa em si, porém a considera incognoscível nesse estado. Resultado: o que conhecemos de forma objetiva é o fenômeno manifestado nas formas da sensibilidade e nas categorias do entendimento. No entanto, a metafísica do ente enquanto ente fica comprometida. O tomista afirma algo diferente: temos um conhecimento limitado, analógico e imperfeito, que se inicia pelos sentidos e se eleva intelectualmente. No entanto, esse conhecimento nos conecta à realidade em si, e não a um teatro fechado de aparências formadas. A limitação humana não requer agnosticismo metafísico. Requer humildade ontológica, rigor intelectual e paciência conceitual. Coisas menos empolgantes do que uma revolução copernicana, eu reconheço. Porém, geralmente mais autênticas.
Um garçom deixou duas cervejas sem pedir autorização. Bruno agradeceu com um gesto automático, mantendo o olhar fixo em mim. Era curioso como a vida real continuava se intrometendo na conversa para nos lembrar de que o mundo não havia interrompido sua existência enquanto estávamos falando dele.
— E a moral da história? Vai me dizer que Kant também se encaixa aqui? Porque quero ver você lidar com autonomia, dignidade e imperativo categórico sem transformar isso em um discurso moral.
— Não preciso pregar porque o problema kantiano na moral é o mesmo da teoria do conhecimento, só que com outra aparência: excessivamente formalista, pouco natural, com menos fim último e menos bem real. A tradição clássica e tomista questiona a essência do homem, sua natureza, seu propósito, o que ativa suas potências e o que o direciona ao bem. Kant defende uma ética baseada na razão prática pura, na autonomia e na universalidade formal da máxima. Isso resulta em uma ética louvável em certos aspectos, especialmente contra sentimentalismos fracos e contra o utilitarismo superficial, porém à custa de um esvaziamento teleológico. No clássico, a ação considerada boa não se limita apenas àquela que segue uma forma universalizável. É a que aprimora a natureza racional de acordo com a verdade do bem. A vontade não se eleva por flutuar acima da natureza como puro auto-legislar. Ela se dignifica ao se conformar com o bem real. A lei moral não surge da vontade como soberania vazia; ela emerge da compreensão do bem, que está incorporada na ordem do ser e na natureza racional. O moderno escuta isso e considera servidão. O problema é que ele já se habituou a considerar liberdade qualquer variação interna que tenha aparência de escolha.
Bruno respondeu prontamente:
— Nesse ponto, você caiu em heteronomia.
— Não. Eu caí na metafísica. Heteronomia seria uma imposição externa que violasse a essência do agente. No entanto, para Tomás, a lei natural é a participação do ser racional na lei eterna. De maneira simples, a razão identifica no ser humano uma disposição objetiva para o bem. Seguir o bem não é servidão, é perfeição. Apenas um indivíduo moderno altamente treinado para conceber a liberdade como indiferença ou autoafirmação vazia é capaz de olhar para a dependência da verdade e interpretar isso como escravidão. Ao contrário. Sem a verdade do ser, a liberdade se torna uma criação sem propósito, uma potência sem ação, uma escolha sem critério e um movimento sem forma. Acaba se tornando, no fundo, aquilo que o homem moderno mais hesita em reconhecer: uma pessoa rodeada de escolhas e ávida por orientação.
Ele me olhou nos olhos, agora sem ironia, como se a conversa tivesse deixado de ser uma exibição de atitude e começado a tocar onde realmente importava.
— Então você está afirmando que Kant é um grande salvador mal interpretado? Um homem brilhante que se esforçou para preservar o saber de Hume, a moral do empirismo e a religião do racionalismo, porém, teria cortado demais?
— Precisamente. E essa é a crítica válida, não a distorcida. Kant é grandioso demais para ser reduzido a um meme da internet e, ao mesmo tempo, é errôneo demais para receber uma reverência automática de um estudante deslumbrado. Ele reconhece o desastre humano, busca preservar a necessidade, a ciência e a moralidade, mas reestrutura tudo com base em uma filosofia transcendental na qual o sujeito legislador tem um papel excessivo. A tradição clássica argumentaria que ele não precisava modificar o acesso ao real dessa forma. Era necessário restabelecer uma metafísica sólida do ser, da causalidade, da substância, da forma, da finalidade e da verdade. Nesse aspecto, Aristóteles e Tomás permanecem mais relevantes do que muitos críticos de Kant gostariam de reconhecer. A continuidade atual das discussões sobre substância, realismo, estrutura, causalidade e natureza indica que o fim da metafísica foi sempre antecipado. A modernidade adora declarar mortos os autores a quem ainda precisa responder.
Por um momento, o bar pareceu retroceder. O barulho, é claro, persistia. Porém distante. Como se, quando o pensamento toca algo realmente sério, ele gerasse um tipo de silêncio interno que nem a mais insuportável música ambiente consegue romper. É incomum. E justamente por ser raro, costuma causar mais incômodo do que convencimento.
Bruno passou a mão pelo rosto.
— Ok. Então, responda-me de forma direta, sem recorrer ao latim ou à escolástica: por que você acredita que Kant está errado?
Antes de falar, terminei o copo, mais por apreciar o gesto do que por uma necessidade dramática.
— Porque ele busca explicar as condições do conhecimento mantendo a objetividade, porém o faz ao custo de mover excessivamente a origem da inteligibilidade para o sujeito; e, ao fazer isso, enfraquece precisamente aquilo que é essencial para a sustentação completa da filosofia e da ciência: a primazia do ser sobre o conhecer.
Ele permaneceu em silêncio. E o silêncio dele, naquela hora, teve mais peso do que qualquer resposta.
Continuei, agora sem pressa, pois o mais importante já havia sido dito; o restante era apenas para que ela processasse.
— Sócrates teria questionado mais, pois entendia que o início da sabedoria é a ruína da falsa segurança. Platão teria elevado sua visão ao mundo inteligível, pois compreendia que o ser humano não se alimenta apenas de superficialidades sensíveis e opiniões estruturadas. Aristóteles teria demandado definição, causa, substância e ato, pois entendia que, sem a estrutura do real, não existe ciência, apenas gerenciamento de fenômenos. Tomás teria diferenciado essência de existência, ressaltando que a inteligência é destinada ao ente, e não para girar sem propósito dentro de si mesma, como um animal aprisionado em uma roda. E a Igreja, em seu corpo intelectual mais elevado, de Agostinho a Tomás, de Boécio aos grandes comentadores posteriores, nunca considerou a razão como prisioneira do real, mas como força direcionada à verdade. A ciência contemporânea, em seu melhor funcionamento, também não nos afirma que o mundo se resume a uma aparência bem estruturada. Em vez disso, ela demonstra que existe uma ordem objetiva, uma estrutura resistente, uma regularidade que não depende da vontade e uma realidade que exige que o homem aprenda com ela, em vez de apenas legislar sobre ela com a pompa de quem descobriu sua própria subjetividade ontem e já deseja transformá-la em tribunal do cosmos.
Bruno sorriu, porém agora com um ar cansado, como se tivesse percebido que a conversa havia deixado o campo superficial e adentrado a área desconfortável onde as ideias começam a exigir responsabilidades.
— Você sabe que isso renderia uma briga de semestre inteiro, né?
— Melhor isso do que morrer afogado em conversa fiada.
A mesa ao lado retomou a risada alta por causa de alguma trivialidade qualquer. O garçom começou a recolher as garrafas vazias. O mundo exterior continuava como sempre, indiferente às tendências filosóficas do século, à vaidade acadêmica, à sofisticação dos sistemas e ao encanto intelectual de qualquer prisão conceitual. E talvez fosse precisamente isso que mais incomodasse os kantianos de bar. O real persiste em sua má tendência de existir antes de nossas condições de possibilidade.
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