Uma travessia pelo Corpus Hermeticum, pelo Discurso Perfeito e pela Tábua de Esmeralda, do Egito helenístico até a mesa dos vivos

Ressaltou-se uma imagem, e é com ela que conclui. O sacerdote mencionado no início deste ensaio encontrou-se, ao entardecer, diante da estátua. Ele está familiarizado com o ritual. Conhece os nomes. Conhece o momento adequado e a disciplina certa. Seguiu todas as instruções do mestre à risca, e a estátua reage, ou ele pensa que ela reage, o que, para o propósito da cena, é praticamente a mesma coisa. Ele conseguiu alcançar isso. Ele tem habilidade. É justamente por ser tão capaz que ele se encontra só: tudo o que ocorreu naquele templo foi resultado de seu esforço. Há vários séculos, do outro lado do Mediterrâneo, algumas mulheres chegam bem cedo pela manhã a um túmulo, trazendo especiarias nas mãos, para realizar a única tarefa que conheciam, que era zelar por um cadáver. Eles não possuíam fórmulas, nomes secretos ou qualquer técnica. Não obtiveram sucesso algum. Descobriram a pedra que rolou e o ato já consumado, sem a presença delas, antes de suas aparições, e com o intuito delas. Uma religião se encerra quando um indivíduo consegue dominar todo o processo. A outra inicia com a pessoa que chegou atrasada, sem estar preparada e com as mãos ocupadas com um perfume que não serve para nada. É a segunda, e não a primeira, que se pode afirmar, sem cometer qualquer acto de blasfémia, que o fogo não precisava de ser roubado dos céus. Ele caiu.

Gabriel G. Oliveira

8/31/202659 min ler

O Nous, a Cratera e a Estátua

Comece pelo local, pois o local é responsável por quase tudo. Visualize um templo do Egito romano, datado do segundo ou terceiro século de nossa era, localizado em uma cidade onde o grego é a língua utilizada no comércio e no exercício do poder, enquanto o egípcio é a língua empregada na liturgia e na recordação. O edifício tem mais de mil anos, é muito antigo. Os muros ainda exibem hieróglifos que poucos conseguem ler por completo. O sacerdócio responsável por sustentar isso perdeu grande parte de sua renda, do prestígio que possuía e quase toda a proteção política, uma vez que Roma não financia o templo egípcio com a mesma generosidade dos faraós ou dos Ptolomeus. Permanece o clero, permanecem os tomos, subsiste a erudição técnica de uma cultura que dominava a arte do embalsamamento, a mensuração do firmamento, o cálculo das inundações, a produção do vidro, o tratamento de enfermidades e, acima de tudo, possuía a habilidade de realizar algo que, nos dias atuais, nos parece meramente ilusório: conseguia conferir voz a uma estátua. E essa é uma questão prática, que realmente incomoda: o que devemos fazer com tudo isso agora que o mundo tem um novo proprietário?

A resposta que uma parte dessas pessoas ofereceu, e aqui já estou me referindo a uma hipótese sustentada por respeitáveis pesquisadores, em vez de um fato comprovado, foi escrever em grego. Não escrever em grego para contentar grego. Escrever em grego para preservar o que era egípcio, convertendo a antiga sabedoria do templo para o léxico filosófico utilizado por todo o Mediterrâneo. É dessa forma, de acordo com essa interpretação, que surgiu a literatura que atualmente conhecemos como Corpus Hermeticum: uma série de tratados sobre filosofia religiosa, que foram atribuídos a um sábio denominado Hermes Trismegisto e escritos por diversos autores no contexto do Egito greco-romano, entre os anos 100 e 300 d.C. Isso é amplamente aceito entre os estudiosos, e é crucial que isso fique claro rapidamente, pois muitas das mal-entendidos sobre o hermetismo surgem de pessoas que ainda acreditam que estão lendo um livro escrito durante a época das pirâmides.

Mas quem foi Hermes Trismegisto? Aqui as coisas se tornam encantadoras. Trismegisto significa três vezes grande, e esse epíteto reflete uma expressão egípcia de intensificação, semelhante à forma de dizer grande, grande, grande, que a língua do Nilo utilizava para formar superlativos. A primeira referência conhecida desse epíteto ocorre em um documento relacionado ao culto do íbis em Hermópolis, datado de 172 a.C. O íbis é a ave associada a Tot. Tot é o deus egípcio que representa a escrita, a matemática, as medições e o julgamento dos mortos, sendo o escriba que registra o resultado da pesagem do coração. Os gregos, com essa inclinação tanto positiva quanto arriscada de identificar seus próprios deuses nos deuses de outras culturas, observaram Tot e afirmaram: esse aí é o nosso Hermes. Da Tot-Hermes, o deus da linguagem e dos números, emerge a figura literária de um sábio ancestral que teria registrado tudo o que é digno de ser conhecido.

Em outras palavras, Hermes Trismegisto não pode ser considerado um autor. É uma referência. Esse nome atua como uma assinatura coletiva, e a literatura produzida sob esse nome é pseudepígrafa no sentido técnico e não controverso do termo, assim como grande parte da antiga literatura sapiencial é. Quem escreve não está criando um documento falso para ludibriar um cartório; está inserindo seu próprio texto em uma tradição. É como distinguir entre falsificar uma assinatura e se matricular em uma escola.

Isso resulta em uma conclusão que raramente é alcançada, mas que irei apresentar agora, pois ela orienta todo o ensaio: não há uma única religião dedicada a Hermes. Há uma família que é hermética. Há diferentes camadas. Há o Corpus Hermeticum grego, os fragmentos que sobreviveram graças a Estobeu, a Korē Kosmou, as Definições de Hermes a Asclépio, que se preservaram em grande parte em armênio, o Asclepius latino, o Asclepius copta de Nag Hammadi, a literatura técnica hermética sobre astrologia e alquimia, o Hermes árabe medieval, a Tábua de Esmeralda, que foi mencionada em documentos séculos mais tarde, o Hermes de Ficino, o Hermes relacionado ao ocultismo do século dezenove e, por fim, o Hermes que aparece em vídeos de usuários de camiseta preta no YouTube. Considerar tudo isso como um único bloco é cometer o mesmo erro que se faz ao tratar a Bíblia, a Suma, o Concílio de Trento, Santo Afonso e um panfleto de paróquia como se fossem todos um único documento elaborado pelo mesmo autor em uma tarde.

Agora, a velhice. Ao longo de todo o Renascimento, foi considerado que Hermes era mais antigo que Moisés. Não se tratava de uma visão periférica: era o impulso de um programa intelectual completo. Marsílio Ficino estava fazendo a tradução de Platão a pedido de Cosimo de Médici quando, vindo da Macedônia, chegou um manuscrito grego do Corpus, o que levou Cosimo a ordenar que a tradução de Platão fosse interrompida e que Hermes fosse traduzido primeiro. Ficino finalizou a tradução em abril de 1463, e uma edição não autorizada foi impressa em Treviso em dezembro de 1471, intitulada Pimander. É a partir desse ponto que surge, ou pelo menos se concretiza, a doutrina da prisca theologia: a concepção de uma teologia original, revelada a um sábio extremamente antigo e transmitida através de uma linhagem de mestres, como Hermes, Orfeu, Pitágoras e Platão, até culminar de forma natural no cristianismo. Se essa cadeia existisse, a filosofia pagã não seria uma competidora da fé; ela seria uma prima pobre e legítima da fé.

A questão é que a cadeia não estava presente. No ano de 1614, Isaac Casaubon, por meio de um argumento filológico, provou que os escritos herméticos pertenciam à era cristã e não eram da antiguidade pré-mosaica. A prova é daquelas que não deixa passar nada: vocabulário, conceitos, referências, nuances da língua. Estudos subsequentes revelaram que, na década de 1560, filólogos já haviam identificado o mesmo problema, de modo que Casaubon não o iniciou, mas coroou um processo já em andamento. No entanto, foi a sua demonstração que se tornou um marco. E aqui está o ponto que desejo enfatizar: a datação tardia não torna os textos inferiores. A única ideia que se revela incorreta é a tese profética. Um tratado do segundo século pode ser filosoficamente profundo, religiosamente autêntico, historicamente valioso e ainda assim não constituir uma revelação que anteceda a Moisés.

Isso já elimina, desde o início, o erro mais frequente do balcão. De tempos em tempos, surge uma pessoa, que hoje em dia é, na maioria das vezes, um protestante com uma leve inclinação para o ocultismo, afirmando que o Corpus Hermeticum revela Cristo de forma antecipada, que aquilo é a verdadeira teologia, e que o Poimandres serve como o prólogo do Evangelho de João, anterior a João. Não é mesmo. Se o texto for contemporâneo ou posterior ao aparecimento do cristianismo, a semelhança de termos pode sugerir um ambiente intelectual compartilhado, pode indicar influência mútua em diversas direções, ou pode representar uma convergência em relação a verdades que são acessíveis à razão natural. O que ela não pode apontar é profecia, uma vez que profecia requer que algo ocorra primeiro, e é exatamente essa precedência que a filologia eliminou da discussão. Já observei mais de uma vez as consequências práticas dessa confusão: a pessoa entra acreditando que encontrou a teologia secreta do cristianismo e, dois anos depois, sai praticando teurgia.

Há uma verdadeira controvérsia entre os estudiosos sobre a origem dos textos, e, por se tratar de uma controvérsia, vou apresentá-la dessa forma. Por um lado, temos a interpretação tradicional de Festugière, que considerava os Hermetica como uma filosofia grega de divulgação, popular no sentido positivo da palavra, enriquecida por um toque oriental que ele chegou a designar como uma miragem: o Egito, nesse contexto, seria apenas um cenário, e não a fonte. Por outro lado, a interpretação que hoje prevalece, elaborada por Mahé, Fowden e, mais recentemente, por Christian Bull, sustenta que existe um genuíno substrato egípcio, e que os autores seriam sacerdotes egípcios helenizados que atuariam em pequenas confrarias de discípulos. A descoberta dos textos herméticos em Nag Hammadi contrariou Festugière em um aspecto específico e verificável, uma vez que ele afirmava que não havia uma verdadeira comunidade hermética, e o achado copta revelou material litúrgico utilizado em um contexto comunitário. Fowden, pode-se dizer, foi mais cauteloso do que os outros em relação à profundidade do substrato egípcio. Também existe o Livro de Tot demótico, editado por Jasnow e Zauzich, que foi sugerido como o correspondente egípcio dos Hermetica: embora haja uma relação, ela acabou se revelando menos evidente do que se imaginava, e Bull prefere se referir a uma reinvenção sacerdotal em vez de usar o termo tradução.

Tenha bem em mente essa distinção, pois ela se aplica a tudo o que está por vir: consenso é uma coisa, tese majoritária é outra e hipótese frágil é ainda outra. Vou assinalar as três ao longo do texto, e não trocarei uma pela outra, mesmo que a bela seja a delicada.

Vamos ao texto, começando pelo início, que é o primeiro tratado do Corpus, o Poimandres. O que está ali, escrito, é exatamente isso que está escrito ali. Um homem em um estado de transe, Nem totalmente adormecido nem desperto, é visitado por um ser colossal que se apresenta como Poimandres, o Nous da Autoridade Suprema. O Nous representa o Intelecto, mas é importante lembrar que Intelecto, neste contexto, não se refere ao raciocínio típico de um exame vestibular; é a capacidade que compreende de maneira direta, é a ligação vital com a inteligibilidade do todo. O visitante questiona o que o homem deseja, e o homem responde que seu objetivo é aprender sobre os seres, entender a sua natureza e conhecer a Deus. É uma resposta ousada, mas é a resposta correta.

É então que a visão se amplia. Tudo se transforma em luz, uma luz tranquila e reconfortante, e o ser humano se apaixona por isso. Então, uma escuridão se abate, torcendo-se em espiral, deslizando como uma serpente, e dessa escuridão emerge um clamor inarticulado, semelhante a um gemido ardente. Da luz emerge um Logos sagrado, uma Palavra, que se estabelece sobre a natureza aquosa, levando à separação dos elementos e ao início da formação do mundo. O Primeiro Nous, que é simultaneamente luz e vida, dá origem a um segundo Nous, que é um demiurgo. Este demiurgo, por sua vez, cria os sete governadores, cuja administração é o que os antigos se referiam como heimarmene, a fatalidade ou o destino. Em seguida, o Pai cria o Anthropos, o Homem arquetípico, à sua própria imagem, e o ama da mesma forma que se ama um filho, concedendo-lhe o domínio sobre tudo o que foi criado.

É aqui que surge a cena mais peculiar e brilhante de todo o texto. O Anthropos, que detinha o domínio sobre tudo, inclina-se para observar a criação por meio da proteção das esferas, e a natureza, por sua vez, contempla o Anthropos. Assim, o Anthropos também observa sua própria imagem refletida na natureza, na água, como alguém que se inclina sobre um lago. E se entrega ao amor. Ele se encanta com seu próprio reflexo, desce e é acolhido pela natureza, que o envolve de forma íntima, e é a partir dessa junção que surge a condição humana: mortal devido ao corpo, imortal em razão de sua origem. Em seguida, surgem sete homens andróginos, e, posteriormente, ocorre a distinção entre os sexos, acompanhada da instrução para que se desenvolvam e se reproduzam.

Se você se identificou com isso, não é apenas sua imaginação. Narciso está presente. Adão está ali, de lado. Além disso, é evidente que o elemento que irá reger toda a soteriologia hermética é o seguinte: a questão que aflige o homem reside em sua paixão pela própria imagem refletida na matéria. Note que o texto não afirma que a matéria é impura nem que o demiurgo é maligno. Isso é relevante, pois muitas pessoas associam hermetismo ao gnosticismo sem sequer se dar ao trabalho de ler. Existem semelhanças concretas entre os dois, como a importância da gnose, a mudança noética, a elevação e a superação da ignorância. Muitos outros escritos herméticos contemplam o cosmos com uma admiração que beira o escândalo, referindo-se ao mundo como belo, um segundo deus e uma imagem da eternidade. Acusar toda a obra de ensinar que a matéria foi criada por um demiurgo maligno é contestar algo que nunca foi afirmado.

No Poimandres, a salvação é retratada como o retorno ao ponto de origem. A alma ascende através das sete esferas, e em cada uma delas restitui a energia que ali assimilou, libertando-se de um vício correspondente em cada porteira. Assim, chega despojada à oitava esfera, a Ogdóada, onde se une em canto com as potências e, por fim, se funde em Deus. Antes disso, o texto exige uma ética, e uma ética bastante concreta: misericórdia, respeito, ausência de inveja, falta de avareza e nada de violência. Ninguém alcança altos lugares se for desonesto.

Essa é a interpretação literal. Vamos à moral, que é o que o texto pede ao leitor.

Em termos morais, o Poimandres serve como uma acusação. Ele afirma que a maior parte dos homens existe em um estado de sono profundo, intoxicados, e que essa intoxicação é chamada de ignorância. E acrescenta, afirmando que essa ignorância não é passiva, mas sim uma queda deliberada, pois o Anthropos não foi forçado, ele se inclinou. É por isso que o quarto tratado, o da cratera, é tão severo. No texto, é narrado que Deus preencheu uma imensa taça de intelecto, enviou-a à Terra e instruiu um arauto a anunciar: aqueles que puderem, que se batizem nesta cratera; aqueles que desejarem, que mergulhem. Aqueles que responderam à convocação e se batizaram no nous receberam o intelecto e se tornaram homens plenos. Aqueles que não responderam tornaram-se meramente racionais, criaturas que falam, mas sem inteligência, capazes de debater, mas incapazes de entender.

Faça uma pausa de cinco segundos nessa diferenciação, pois ela é sutil e é necessária em todo o Brasil. Existem pessoas que pensam de forma muito lógica, mas não conseguem compreender nada. Tem habilidade para articular argumentos, refutar pontos de vista, construir silogismos e vencer debates em mesas de bar, mas não consegue perceber o que está bem diante dela. É o indivíduo que possui raciocínio, mas não intuição. Segundo o hermetismo, essa distinção não é meramente acadêmica, mas sim ontológica, e ela se baseia em um mergulho que a pessoa pode optar por aceitar ou rejeitar. Aqui, o hermetismo se confronta diretamente com uma preguiça típica nossa: a preguiça de acreditar que ter informação é equivalente a realmente compreender. De modo algum. Sempre foi o contrário.

Há livre-arbítrio nesse contexto? Há uma existência, e o texto afirma categoricamente que ela se faz presente. Aqueles que puderem, que se baptizem; aqueles que desejarem, que se mergulhem. Se a escolha não fosse uma opção, o que teríamos seria um sorteio em vez de um batismo. O décimo segundo tratado, então, vai direto ao ponto: tudo que pertence ao corpo está sujeito à fatalidade, mas aquele que tem intelecto e se deixa guiar por ele não é afetado pelo destino da mesma forma que os demais. A formulação é intencionalmente escorregadia e merece ser mencionada pelo impacto que provoca: aquele que possui o verbo não sofrerá por ter cometido adultério, mas sofrerá como se tivesse cometido. Isto é, não se consegue escapar à condição da mudança, do nascimento e da morte, da enfermidade; consegue-se escapar do vício. A matéria é regida pelo acaso, não pela virtude.

Simbolicamente falando, a cratera representa o batismo que precede o Batismo e o cálice que vem antes do Cálice, e é exatamente por essa razão que ela merece uma atenção que os aficionados não costumam dispensar. A ilustração é esplêndida: a inteligência divina descendo como um líquido, enquanto a humanidade se divide entre aqueles que bebem e os que simplesmente ignoram. No âmago da cratera hermética, é o próprio iniciado quem se concede o batismo. Ele se lança na água. Não existe ministro, aliança, instituição ou promessa histórica alguma. O movimento é automático. A distinção gramatical entre batizar-se e ser batizado representa uma diferença de universos, e eu pretendo retornar a esse ponto com toda a intensidade mais adiante.

Canto de bar, mesa de plástico, dois copos gelados. TIÃO realiza serviços de manutenção industrial. ZÉ FILÓSOFO cursou a metade de uma graduação em letras e se certifica de que todos se lembrem disso.

ZÉ FILÓSOFO — O sujeito observa seu reflexo na água, se encanta e se apaixona. Isso é narcisismo, Tião. Puro e simples assim. O texto afirma que a origem da humanidade foi um selfie.

TIÃO — Não é exatamente isso, meu jovem.

ZÉ FILÓSOFO — De que maneira não seria? Ele avistou o reflexo e desceu em seguida.

TIÃO — Ele viu o seu reflexo e pensou que era ele mesmo. Observe a diferença, pois é aí que está o problema. Narcisista é o sujeito que adora a própria aparência, ciente de que se trata apenas de uma aparência. Aquele mencionado no texto é ainda mais problemático, pois gerou confusão. Ele acreditava que o que estava visível lá embaixo era exatamente aquilo.

(Zé Filósofo, com o copo interrompendo o trajeto no meio do caminho.)

ZÉ FILÓSOFO — Puta que pariu.

TIÃO — É verdade. É assim que se faz, veja. Você já testemunhou um homem trocar sua família por um estilo de vida que observou no Instagram?

ZÉ FILÓSOFO — Eu já presenciei meu cunhado fazendo isso.

TIÃO — E ele estava se amando ou se confundindo?

ZÉ FILÓSOFO — Estava me enganando. Ele acreditava que aquela versão dele era a verdadeira e que sua vida aqui era apenas uma máscara.

TIÃO — Pois bem. É isso que o texto está afirmando sobre a humanidade como um todo, e não apenas uma vez, mas todos os dias, durante o almoço, envolvendo você, a mim e ao padre. O homem observa para baixo, enxerga um reflexo atraente de sua vida e desce para segui-lo. Aí tudo se encaixa com a água.

ZÉ FILÓSOFO — E isso é irreversível?

TIÃO — Certamente. No entanto, o texto afirma que retornar é elevar ao devolver. A cada andar, você devolve um item que havia emprestado. Não se trata de chegar ao topo carregado. É chegar ao topo de forma íntegra.

ZÉ FILÓSOFO — Restituindo o que, exatamente?

TIÃO — O ódio, o ciúme, a avareza, a falsidade, a ociosidade. Cada uma possui um andar. Você sobe pagando pedágio com aquilo que mais aprecia.

(Silêncio. Zé Filósofo consome bebidas.

ZÉ FILÓSOFO — Deixa eu te dizer uma coisa, Tião. Isso é mais difícil do que a missa de domingo.

TIÃO — É mais difícil e menos confiável, pois durante a missa, alguém vem até você. No texto, você sobe de forma independente. Mais tarde podemos discutir isso.

Retornemos ao corpus e avancemos em direção ao Bem, pois o hermetismo possui uma doutrina relacionada ao Bem que qualquer tomista lê com um sorriso de familiaridade, seguido por um sobressalto imediato. O sexto tratado afirma de maneira clara que o Bem só existe em Deus e em mais nenhum outro lugar, que Deus é bom não por um título honorífico, mas por sua própria essência, e que o Bem é aquele que concede tudo e não recebe nada em troca. Isso é ótimo. Isso se aproxima bastante de Tomás. O sobressalto ocorre quando o mesmo tratado leva a afirmar que o mundo representa a totalidade do mal, assim como Deus representa a totalidade do bem, e que, entre os homens, o Bem se encontra apenas como um nome.

Observe o movimento. Ele inicia sua argumentação de forma precisa, afirmando que Deus é a origem constante do Bem e que nenhuma criatura possui o Bem de forma intrínseca, mas conclui com um pessimismo cósmico que contraria outros escritos do próprio corpus, os quais descrevem o mundo como belo e como o segundo deus. Não se trata de uma falha de interpretação da minha parte, mas sim de uma característica da coleção: os Hermetica não constituem um catecismo homogêneo, mas sim uma biblioteca repleta de tensões internas ainda não resolvidas. Aqueles que afirmam que o hermetismo ensina X frequentemente estão generalizando com base no tratado que mais apreciam.

O quinto tratado, que na minha opinião é o mais belo de todos, aborda essa questão de uma maneira que nem o pessimismo nem o otimismo conseguem prejudicar. Seu nome é, de certa forma, Deus, que é simultaneamente o menos visível e o mais evidente. A lógica é clara e impactante: tudo que se manifesta foi criado, uma vez que passou a existir em algum momento; por outro lado, o que não se manifesta sempre existe, pois não precisa se mostrar; e é exatamente o que não se manifesta que é responsável por fazer com que todas as coisas apareçam. O texto instrui o discípulo a observar o sol, o movimento da lua e a disposição dos astros, questionando quem é responsável por manter tudo isso em ordem. Ele também pede que se examine o ventre materno e a complexa estrutura do corpo humano, questionando quem delineou o círculo dos olhos, quem perfurou as narinas, quem tensionou os nervos, quem moldou o coração na forma de uma pirâmide e quem ocultou as partes que deveriam ser escondidas. Ele termina com uma frase que exemplifica a teologia natural: ninguém diz que uma escultura ou uma pintura podem existir sem um escultor ou um pintor, e esta obra existiria sem um criador?

Este é um argumento de ordem, um argumento com propósito, é a quinta via que precede a quinta via, e é compreensível pela razão humana sem a necessidade de qualquer revelação. Um cristão pode apoiar integralmente sem alterar nada. É precisamente por isso que, no século IV, Lactâncio recorreu a Hermes de maneira apologética: ele identificou naquele texto um testemunho pagão de verdades que a razão pode descobrir por si mesma. O padrão de verdade que ele utilizava não era Hermes; na verdade, Hermes estava sendo avaliado com base em um critério anterior. Quando Hermes diz que sim, é referenciado. Quando Hermes se refere à astrologia, à magia ou à adoração de poderes, Lactâncio rejeita essas práticas e as considera como fruto de um engano demoníaco. A isso me referiria como assimilação subordinada: uma verdade descoberta em Hermes permanece verdadeira devido à sua veracidade, e não porque Hermes possua uma autoridade reveladora.

É agora que os daimons, que é onde o público brasileiro costuma cair feio no deslize. No mundo antigo, daimon não é equivalente a demônio conforme a definição cristã de anjo que caiu. Daimon atua como o intermediário. É a entidade que se encontra entre o divino e o terrestre, e o âmbito semântico é amplo o bastante para incluir tanto aspectos positivos quanto negativos. Aliás, a palavra Anjo deriva de mensageiro, e ser mensageiro é um papel, não uma característica de personalidade. O nono tratado afirma que o intelecto é responsável por gerar todos os conceitos, sendo que os conceitos positivos surgem quando ele recebe as sementes divinas, enquanto os conceitos opostos ocorrem quando ele é influenciado por um dos seres demoníacos. Além disso, o tratado sustenta que não existe nenhum lugar no mundo que não seja habitado por um daimon. O décimo afirma que o intelecto é o bom daimon, e que é infeliz a alma que está repleta dele, enquanto a que está completamente desprovida desse intelecto é verdadeiramente infortunada.

Em outras palavras, no plano astral, utilizando a terminologia que empregamos atualmente, tudo é daimon. As entidades espirituais são conhecidas como daimons; o ser humano não se enquadra nessa categoria, uma vez que é uma alma que habita um corpo; no entanto, após a morte e após um determinado período, ao deixar este plano, o ser humano também passa a ser chamado de daimon. A mitologia grega também se ocupa dos mortos notáveis. Há também o daimon pessoal, que a sabedoria popular acabou confundindo com o anjo da guarda, mas com uma diferença crucial: o daimon pessoal hermético também tem a função de acusar. É ele quem exige o pagamento no momento da quitação. E quando o personagem é realmente mau, há na literatura a noção de que esse mesmo daimon atua para apressar a queda do infeliz, perturbando sua mente, para que a Terra se livre logo do incômodo.

Os répteis mencionados no décimo tratado estão incluídos aqui. Quando se afirma que a alma viciosa é arrastada para trás e segue de forma inversa o caminho que leva até os répteis, não se está realizando uma análise zoológica. Está empregando um emblema de baixa espiritualidade, e é uma interpretação bastante sensata, creditada ao Círculo e não ao autor ancestral, relacionar esses répteis aos cacodaimons, que são os daimons malignos, os quais na antiga literatura ritual são descritos com características de serpentes, formas vaporosas e, por vezes, com asas. Interpretar isso de forma literal e pensar que o pecador se transforma em lagartixa é uma grande tolice. Aliás, o mesmo corpus corrige aqueles que se atrevem a contradizer: no décimo tratado, está claramente afirmado que a ordem divina proíbe que uma alma humana reencarne em um corpo de animal irracional, uma vez que tal ocorrência seria um ultraje de proporções imensas. Além disso, é considerado um grave erro de julgamento a crença comum de que uma alma que não consegue deixar seu corpo se transforma em uma besta. A angústia da alma perversa é, de fato, a própria impiedade; é como se ela se devorasse a si mesma, manifestando-se através do clamor daquele que exclama: 'Estou em chamas! O que fazer? Não sei!' e, ainda assim, se vê sem qualquer lugar para onde fugir.

A hierarquia das almas, presente no décimo tratado e nos fragmentos, está disposta em camadas, e vale a pena reconstituí-la, pois ela estrutura toda a metafísica. Em cima, Deus. Em seguida, o cosmos é chamado, sem qualquer pudor, de segundo deus. Em seguida, vêm os deuses do céu, que representam as inteligências dos astros. Em seguida, os daimons. Em seguida, o homem. Em seguida, os seres dotados de alma sensitiva. Em seguida, os legumes. E, por último, a matéria que é inerte. O ser humano está situado no centro, e essa posição é preenchida com uma dignidade que o texto enaltece de forma destemida: ele ama o que está abaixo de si e, por sua vez, é amado por aqueles que estão acima. As almas, por sua parte, evoluem: as almas de níveis mais baixos ascendem a formas mais elevadas, enquanto as almas humanas têm a capacidade de se transformar em daimons e, em seguida, podem unir-se ao grupo dos deuses. Cada alma recebe do corpus uma qualidade, um grau particular que lhe é próprio.

É importante observar, e isso é uma análise do Círculo e não do autor antigo, que a classificação das criaturas de intelecto reduzido, que vivem quase totalmente por instinto e possuem apenas uma centelha de memória, se assemelha bastante à maneira como Aristóteles divide as faculdades da alma em vegetativa, sensitiva e racional. O hermetismo não chega a concluir isso a partir de Aristóteles; mas chega a essa ideia por uma outra via, e se aproxima bastante. Convergência não significa dependência, e vou reafirmar isso mais adiante, pois é fundamental para evitar comparações inadequadas.

Chegamos à parte mística do Corpus, que se refere ao décimo terceiro tratado, conhecido como o discurso secreto na montanha, que trata da regeneração e da regra do silêncio. É o mais forte da coleção. A doutrina que faltava, a que fora prometida para quando ele estivesse prestes a tornar-se um estranho no mundo, vem do pai. Hermes responde com uma sequência que é tanto iniciática quanto surpreendente: afirma que a matriz representa a Sabedoria inteligente do silêncio, que a semente simboliza o verdadeiro Bem, que quem semeia é a vontade de Deus, e que o resultado será Deus, filho de Deus, o todo no todo, composto por todas as potências. Tat se opõe e afirma que aquilo é um enigma, não uma conversa entre pai e filho, e Hermes responde com a frase que define tudo: esse tipo de coisa não se ensina; quando deseja, Deus concede.

Em seguida, ocorre a purificação. Hermes menciona doze tormentos, cada um associado a um dos doze signos, e o texto os apresenta com uma precisão documental: ignorância, tristeza, incontinência, concupiscência, injustiça, cupidez, engano, inveja, fraude, cólera, precipitação e maldade. Em relação a esses doze, o corpo acumula outros. Em oposição a eles, descem dez potências divinas, que vão expulsando os tormentos um a um: chegou o conhecimento de Deus e a ignorância foi banida, chegou a alegria e a tristeza escapou, chegou a continência e a incontinência foi expulsa, e assim por diante, até que se chega à justiça, à bondade e aos demais atributos. Por fim, Hermes declara que não é mais como antes, pois foi concebido no intelecto, que já não percebe as cores, nem o toque, nem as dimensões do espaço, e que não pode mais ser visualizado pelos olhos do corpo. Tat fica apavorado e afirma que foi alvejado durante uma fúria insana. Finaliza o tratado com uma ode oculta, um cântico que deve ser entoado duas vezes ao dia, ao amanhecer e ao entardecer.

Esta é a experiência mística hermética, e devemos reconhecer três aspectos dela, nessa ordem. Primeiro: ela leva a coisa a sério. Não se trata de folclore nem de uma performance; é um percurso de purificação com etapas claramente definidas e um resultado narrado em primeira pessoa. Primeiro: é ascética antes de ser extática. Ninguém consegue se renovar sem deixar os doze para trás. Terceira, e é aqui que a situação se transforma: o motor que impulsiona a transformação é a descoberta de um conhecimento superior. A regeneração é um processo noético. Muda-se porque se tem consciência.

Agora preciso acionar o freio de mão, pois é precisamente neste ponto que reside o mais sério dos problemas em todo o sistema, e esse problema não está relacionado a preferências religiosas, mas sim a questões de natureza antropológica.

Saber não cura querer. Esta é a objeção, e irei apresentá-la em sua forma mais robusta, em vez de uma versão mais fraca que poderia ser facilmente refutada com um simples empurrão. O hermetismo está correto ao afirmar que a ignorância leva à degradação, que o ser humano vive de forma alheia à realidade e que é necessário que ele desperte. Isso é verdade, e o cristianismo também reconhece essa verdade. O que ocorre é que a ignorância não é suficiente para justificar todo o mal. Um homem pode ter conhecimento do bem e, mesmo assim, optar pelo mal. Um médico sabe muito bem o que o vício provoca e é viciado. Um teólogo elabora tratados sobre a humildade, mas é arrogante até o último osso. Um bandido compreende a injustiça de suas ações mais do que a vítima, mas age da mesma forma. Na própria demonologia cristã, o demônio não é considerado mau por ignorância sobre a existência de Deus; ele está ciente, e é exatamente esse conhecimento que torna sua situação desesperadora.

Se a questão central da humanidade fosse a ignorância sobre sua própria identidade, a educação seria suficiente. Quando o problema envolve sentimentos feridos, relações quebradas, culpa genuína e até mesmo a morte, simplesmente ter informação não é suficiente, e o conhecimento pode, na verdade, intensificar a culpa em vez de aliviá-la. É algo significativo. É a distinção entre uma antropologia que requer um professor e uma antropologia que necessita de um médico.

Reservo essa faca para mais tarde. Retornemos ao corpus, pois ainda falta a parte mais incendiária, que não se encontra no Corpus Hermeticum grego: ela está no Asclepius, também conhecido como Discurso Perfeito, que sobreviveu na íntegra em latim, transmitido de forma autônoma, com fragmentos gregos preservados por Lactâncio, Estobeu e Cirilo de Alexandria, além de uma porção significativa em copta encontrada no códice sexto de Nag Hammadi. A distribuição em quarenta e uma seções, que as edições utilizam, não está presente nos antigos manuscritos; trata-se de uma convenção editorial moderna. A edição crítica em latim é a de Nock e Festugière, da qual se originam as traduções mais respeitáveis, incluindo a versão inglesa de Clement Salaman, que também se baseia no Bruxellensis do início do século XI, e a de Brian Copenhaver, que é a edição acadêmica padrão em inglês.

O Asclepius inicia com a representação de um mestre e três discípulos em um santuário, onde é exigido que mantenham segredo, e apresenta uma tese que estabelece o tom: ou todas as coisas pertencem a um único ser, ou são uma única entidade. Depois, temos uma das declarações mais impactantes da história ocidental, e ela merece ser proferida em latim, pois foi nesse idioma que se espalhou: magnum miraculum est homo, animal adorandum atque honorandum. O ser humano é um verdadeiro milagre, uma criatura que merece ser venerada e respeitada, e que se transforma na própria essência divina como se fosse Deus. É essa afirmação que permeia a Idade Média, alcança o Renascimento e ressoa na Oração sobre a dignidade do homem de Pico della Mirandola. É, talvez, o maior louvor que a Antiguidade tardia dedicou ao homem.

Alto e arriscado, sendo que o risco não reside no elogio, mas sim na maneira como se apresenta como tal. O texto descreve que o ser humano é composto por duas partes: uma que é singular, conhecida pelos gregos como ousiodes, que representa a beleza da semelhança com o divino, e uma segunda que é quádrupla, chamada hulikon, que é feita de matéria e refere-se ao corpo. E ele esclarece que Deus criou um segundo deus tangível, que é o cosmos, e em seguida criou o ser humano para que pudesse observar e zelar por esse cosmos. Assim, temos duas funções: venerar o divino e gerir o mundano. Ele diz que Deus tem duas imagens, o mundo e o homem, e que o homem conhece o mundo conhecendo-se a si mesmo.

A cosmologia do Asclepius é detalhada e hierárquica, e é importante destacar isso, já que raramente é abordado por outros. Além dos deuses que têm uma presença tangível e que habitam o cosmos, existe, para cada categoria, um líder de essência, um ousiarca, que transcende o cosmos. Júpiter é o ousiarca dos céus e tudo pelo céu vive. A Luz é o ousiarca do Sol. Pantomorphon, o Onimorfo, é o ousiarca entre os trinta e seis decanos, as constelações fixas que moldam os diferentes formatos dos membros de cada espécie, sendo cada decano um terço de um signo. A Fortuna e a Heimarmene são os ousiarcas das sete esferas planetárias, através das quais tudo se transforma de acordo com a lei natural. Júpiter Plutônio rege tanto a terra quanto o mar, sustentando todas as criaturas mortais e tudo que produz frutos. Há uma lacuna manuscrita nesta passagem, e parte da correspondência entre ousiarcas e deuses foi restaurada, então quem apresenta essa lista como se fosse inteiramente clara está ignorando um problema textual real.

Existe também no Asclepius um ensinamento que, embora frequentemente criticado nas divulgações mais recatadas, é fundamental: a bissexualidade divina e o mistério da geração. O texto afirma que Deus possui tanto o masculino quanto o feminino, assim como todos os seres arquetípicos e animados, e refere-se a esse mistério como um dom, que engloba todos os sentimentos de afeto, alegria, desejo e amor que ele proporciona. Caracteriza o ato matrimonial como uma comunhão na qual cada natureza compartilha na outra a sua essência, e nota que ele acontece em sigilo não por pudor, mas para evitar que a ridicularização do povo ignorante venha a profanar o que é considerado sagrado. Para aqueles que cresceram acreditando que as religiões antigas eram, no máximo, uma combinação de orgias e puritanismo, essa informação é um verdadeiro divisor de águas que reconfigura completamente a percepção sobre o assunto.

Então surge o Lamento do Egito, a profecia, a parte que resistiu ao teste do tempo e que provoca calafrios até mesmo em aqueles que não têm fé em nada. Hermes informa a Asclépio que haverá um período em que parecerá que os egípcios adoraram seus deuses sem motivo. Os deuses deixarão a terra e retornarão ao céu. E haverá estrangeiros morando neste país. A religião será ilegal. A terra sagrada, lar dos santuários e templos, estará repleta de sepulcros e mortos. O Nilo transbordará com sangue. Quem escapar será considerado egípcio apenas pela fala, e pelo seu comportamento parecerá pertencente a outra raça. Os homens considerarão mais vantajoso optar pela morte do que pela vida, ninguém olhará para o céu, o homem piedoso será visto como um louco e o ímpio será considerado sábio, enquanto o criminoso será reconhecido como um homem de bem. E, após tudo isso, afirma o texto, o Senhor, em Sua potência, será o primeiro a restaurar o mundo à sua beleza original, e o mundo renascerá, seja através da água ou do fogo.

É um texto que causa dor. É necessário que eu distinga claramente entre essas duas questões, pois a falta de clareza entre elas é responsável por gerar metade do fascínio superficial associado a Hermes. É um fato histórico que os templos do Egito foram realmente deixados de lado, que o culto chegou ao fim, que a língua deixou de ser considerada uma língua sagrada e que o país se tornou repleto de ruínas. É uma afirmação bem mais frágil dizer que Asclepius previu isso profeticamente, visto que o texto foi escrito exatamente quando o processo já estava em andamento, por pessoas que estavam percebendo a instabilidade sob seus pés. Não é profecia simplesmente lamentar o que está acontecendo contigo. O Lamento do Egito é, com muito mais probabilidade, um dos mais tocantes lamentos religiosos da Antiguidade, composto por alguém que presenciou a morte de sua própria casa. Isso não reduz o texto. Só altera-se o gênero: de oráculo passa a ser uma elegia, uma elegia de pessoas que tinham plena consciência do seu próprio tempo.

Durante o julgamento, Asclepius também se pronuncia, e o faz com a autoridade de quem está familiarizado com o Livro dos Mortos. Ao abandonar o corpo, a alma é imediatamente dominada por um espírito extremamente poderoso, que avalia seus méritos e a julga. Aquela que é justa e cheia de fé tem permissão para residir no lar que é destinado a ela. A manchada é precipitada dos céus para as profundezas, exposta às tempestades, ao ar em sua turbulência, ao fogo e à água, sendo eternamente arrastada entre a terra e o céu. A própria eternidade da alma, conforme o texto de maneira cruenta e clara, apenas agrava a situação, uma vez que a condenação é interminável. Quem conhece a famosa cena egípcia da pesagem do coração contra a pena de Maat, com Tot anotando o resultado, identifica o desenho rapidamente.

O Discurso Perfeito conclui com uma oração, acompanhada de uma rubrica litúrgica, instruindo a voltar-se para o poente ao anoitecer e para o nascente ao amanhecer, da mesma forma que o hino do décimo terceiro tratado. A mesma oração pode ser encontrada em um papiro mágico e em uma versão copta de Nag Hammadi, o que evidencia seu uso litúrgico autêntico, em vez de literário. O fecho serve como uma restrição ao sacrifício que envolve sangue: os devotos se afastam para uma refeição pura, isenta de qualquer ser vivo. Não se trata de uma nota de rodapé. É uma declaração religiosa em oposição à economia de sacrifício do paganismo greco-romano, e é uma daquelas características que fazem o hermetismo parecer, por um breve momento, muito mais similar ao que realmente é.

Pois logo depois surge o abismo. Nas partes 37 e 38, o Asclepius relata que os ancestrais, ao cometerem um grave erro em relação aos deuses, criaram uma prática que lhes permitisse gerar deuses. São criadas estátuas, e por meio de rituais sagrados, espíritos são vinculados a essas estátuas, de forma que a estátua se torna, segundo o latim do texto, repleta de significado e de espírito. Estes deuses terrenos agem como pais carinhosos, fazem previsões por meio de sorteios, sinais ou sonhos, e também podem ficar irritados, necessitando ser acalmados. É exatamente esse trecho, e nenhum outro, que transformou Hermes em um caso legal na história do pensamento cristão.

Evite julgar sem entender o contexto, pois fazê-lo sem essa compreensão é uma demonstração de preguiça. Há milênios, o Egito praticava o ritual conhecido como a abertura da boca, uma cerimônia que permitia que uma estátua ou uma múmia pudesse ver, ouvir, e se alimentar. O Mediterrâneo estava repleto de papiros mágicos greco-egípcios contendo métodos de dominação e amarração de espíritos. A teurgia neoplatônica, organizada por Jâmblico como uma refutação a Porfírio, sustentava que os rituais materiais poderiam servir como meios de ação divina, em oposição à ideia de que apenas a contemplação intelectual é capaz de proporcionar a salvação. Havia os Oráculos Caldaicos. Havia cultos órficos e de mistério. O feitiço, em seu sentido mais literal, era uma tecnologia acessível. A lâmpada de Aladim, presente na história oriental, é de fato mágica: abriga uma entidade de outro plano que executa ordens. A palavra encantado, em português, ainda mantém seu significado técnico, que acabamos por esquecer.

Sacristia antiga, aroma de cera. PADRE ALCIDES prepara o altar. GABRIEL aguarda, com um livro sob o braço.

GABRIEL — Pai, estou com uma questão importante e não é para provocar.

PADRE ALCIDES — Converse, meu filho, mas já estou avisando que tenho missa às sete.

GABRIEL — Há um texto antigo que afirma que o homem cria deuses. Crie a estátua e convide um espírito para habitar dentro dela. O texto expressa isso com um sentimento de orgulho, como se estivesse fazendo uma homenagem à espécie.

PADRE ALCIDES — E onde está a incerteza?

GABRIEL — A incerteza é aquela que todos costumam perguntar. Você beija a imagem. Queima imagem. Há pessoas aqui fazendo orações diante de uma imagem de gesso de um santo pintado. O que distingue?

(Padre Alcides coloca o cálice de lado e se vira, com calma.)

PADRE ALCIDES — A distinção reside em quem está realizando uma ação e para quem essa ação é dirigida. Posso te perguntar. A estátua que você mencionou, do texto que leu: ela se torna um deus em função do rito?

GABRIEL — É o que ele afirma.

PADRE ALCIDES — Portanto, o rito é o que gera a divindade. O ser humano age, e a divindade se manifesta. Veja este santo aqui, ó. Esse gesso já foi gesso, é gesso e continuará sendo gesso. Nenhum espírito está aprisionado lá dentro. Se você se quebrar, então você se despedaçou. A honra que oferecemos a ele é direcionada a seu protótipo, à pessoa que ele simboliza. A verdadeira adoração, aquela que é exclusivamente destinada a Deus, nunca será recebida por este aqui.

GABRIEL — E se de fato um espírito decidir habitar uma dessas estátuas? E se der certo?

PADRE ALCIDES — Então isso realmente complica, meu filho. Está cada vez pior.

GABRIEL — Piora?

PADRE ALCIDES — Reflita comigo. Se não houver nada lá, você estará se prendendo a superstições infundadas, desperdiçando tempo e dinheiro. Se houver um ser espiritual que foi formado em seu interior, você possui uma entidade que está sendo venerada e que pertence ao Criador. Se essa criatura aceita participar desse culto, ela já revelou tudo o que você precisava saber sobre seu caráter. Nenhum espírito benevolente concorda em ser venerado. Nenhum. Portanto, o milagre não serve como uma defesa para a sua posição: na verdade, o milagre é um argumento que te incrimina.

(Gabriel permanece em silêncio por um período.)

GABRIEL — Nunca ninguém me explicou desse jeito.

PADRE ALCIDES — Na verdade, a maioria das pessoas apenas afirma que está errado. É simples afirmar que está errado. É trabalhoso demonstrar por que não há uma saída. Venha me ajudar com este castiçal, pois tenho missa às sete horas.

O sacerdote na imagem está, com uma linguagem própria do ambiente sacristão, repetindo um argumento que possui um autor e um destinatário. No oitavo livro da Cidade de Deus, Agostinho dedica capítulos inteiros a essa citação do Asclepius, convertendo Hermes em um testemunha contra a religião egípcia. Ele não precisa afirmar que não há uma dimensão espiritual envolvida; sua crítica é mais severa ao apontar que, mesmo com essa espiritualidade presente, isso não torna o resultado um culto legítimo. Tomás de Aquino recebe o argumento e o deixa filosoficamente claro no tratado da idolatria, na segunda parte da segunda parte da Suma, questão noventa e quatro, artigo primeiro, onde menciona expressamente a opinião de Hermes Trismegisto sobre as imagens que conteriam algo de divino, remetendo precisamente a Agostinho. Para Tomás, mesmo que ocorresse um efeito extraordinário, a presença de uma inteligência espiritual criada nunca tornaria o artefato divino; o culto que lhe fosse prestado continuaria sendo considerado idolatria, e a invocação de poder demoníaco para tais operações seria classificada como superstição.

Vamos falar sobre a Tábua de Esmeralda, e aqui vou ser insistente, pois é o ponto em que a divulgação brasileira costuma distorcer a verdade, quase sempre sem intenção maliciosa, apenas por costume.

A Tábua de Esmeralda não faz parte dos tratados do Corpus Hermeticum. Não foi redigida no Egito helenístico. Não é da mesma época que o Poimandres. Os mais antigos relatos conhecidos pertencem à tradição árabe medieval. No Kitāb sirr al-khalīqa, ou Livro do Segredo da Criação, que é atribuído a Balīnūs, o pseudônimo de Apolônio de Tiana, há um texto que aparece nesse contexto. Na narrativa, que é bastante intrigante, Balīnūs realiza uma descida a uma câmara secreta localizada sob uma estátua de Hermes e, lá, se depara com um ancião que se encontra sentado em um trono de ouro, segurando uma tábua de esmeralda que possui gravações. No Segundo Livro do Elemento da Fundação, que se atribui a Jābir ibn Hayyān, outra versão antiga aparece, identificada pela primeira vez por Eric Holmyard. A Tábua também apareceu no Sirr al-asrār, o Secretum Secretorum pseudo-aristotélico.

No que diz respeito à data, o critério decisivo é a datação do Livro do Segredo da Criação. No estudo de 1926, que ainda é uma obra de referência, Julius Ruska negou a autenticidade verdadeira e posicionou o texto no início do período abássida. No seu trabalho recente, Kevin van Bladel apresenta a datação mais precisa, situando a composição durante o reinado do califa al-Maʾmūn, que ocorreu entre 813 e 833 da nossa era. A crítica edição da obra, feita por Ursula Weisser, também coloca a redação no início da dinastia abássida. Há uma menção a uma data que se situa entre a metade do século sétimo e o ano 650, mas isso é apenas um limite externo especulativo, e não um consenso. Aqueles que afirmam isso como se fosse uma opinião unânime estão apenas forçando a barra.

A Tábua chega ao Ocidente latino principalmente através das traduções do Secretum Secretorum, que foram realizadas por João de Sevilha por volta de 1140 e por Filipe de Trípoli cerca de 1243, além de outras traduções, como a de Hugo de Santalla, que traduziu o próprio Livro do Segredo da Criação. Aquela vulgata latina, a que Chrysogonus Polydorus imprime em Nuremberg, em 1541, na coletânea De alchimia, a qual é baseada na frase quod est superius est sicut quod inferius, é a fonte da qual praticamente tudo o que se lê atualmente deriva. Isaac Newton fez uma tradução manuscrita dela para o inglês.

E aqui está o pormenor filológico que, por si só, desmantela uma grande parte do ocultismo contemporâneo: o árabe original não especifica como. Diz que começa a contar a partir de. A expressão latina, que se traduz como sicut, ou seja, como, estabelece a interpretação de uma identidade estrutural entre os diferentes planos. O famoso "assim em cima como embaixo" é uma paráfrase contemporânea que se destaca na versão em latim, não sendo uma tradução do texto mais antigo que possuímos. Uma palavra que indica a relação entre elementos. A distinção entre afirmar que o que está embaixo provém do que está em cima e afirmar que o que está embaixo é semelhante ao que está em cima é a diferença entre uma doutrina que ensina a dependência causal e uma doutrina que se baseia na correspondência. Todo o sistema mágico depende dessa segunda interpretação.

Após realizar a limpeza histórica, vamos interpretar a Tábua nos quatro sentidos, que é o que ela merece.

Literalmente, o texto diz a verdade em não falso, alto e baixo, origem de tudo no Um, e uma obra: o Sol é o pai, a Lua é a mãe, o vento a concebeu no ventre, a terra é a nutriz. Ordena a separação da terra do fogo, do sutil do denso, de forma suave e com grande habilidade. Diz que o processo eleva o que está na terra para o céu e, em seguida, retorna à terra, assim obtendo a energia das entidades superiores e inferiores. Promete a fama deste mundo e a fuga das trevas. Refere-se a isso como a força suprema de todas as forças, capaz de superar qualquer sutileza e de penetrar em toda matéria sólida. E conclui com a seguinte assinatura: por isso sou conhecido como Hermes Trismegisto, uma vez que detenho as três partes da filosofia de todo o mundo.

Esta camada literal é, sem qualquer mistério, uma fórmula de laboratório codificada. O próprio comentário de Hortulano, o alquimista que se apresenta como jardineiro e cuja verdadeira identidade é desconhecida, é a evidência disso: ele interpreta a Tábua, capítulo por capítulo, como um manual de operações para a pedra filosofal. A pedra se divide em duas partes: a parte superior, que se eleva, e a parte inferior, que permanece no lugar; o Sol é considerado o ouro dos filósofos, enquanto a Lua representa a prata; o vento é equivalente ao ar, que por sua vez é sinônimo de vida, e a vida é identificada com a alma; a terra é associada ao fermento, e o fermento é visto como alimento; separar significa dissolver; sublimar implica em elevar; fixar refere-se a descer. E Hortulano inicia seu comentário com um cântico à Santíssima Trindade e expressa sua gratidão a Deus por tê-lo libertado das ilusórias tentações do mundo, o que já indica que não se pode fazer uma oposição direta e geral entre alquimia e cristianismo.

Em termos morais, a Tábua demanda paciência e um enfoque sistemático. Com delicadeza, como menciona o texto, gradualmente e de forma não agressiva, com grande habilidade. É uma questão de ética antes de ser uma técnica: não existem caminhos rápidos, nem métodos de imposição, e aqueles que apressam o processo de separação comprometem o resultado. A interpretação ascética do texto, que é antiga e válida como metáfora, transforma chumbo em ouro dentro do indivíduo: distinguir o sutil do denso é identificar o que em mim é desejo e o que em mim é vocação, e esse processo não ocorre de forma imediata, mas sim por meio de um trabalho gradual, persistente e incessante, que pode levar muito mais tempo do que conseguimos imaginar. Não é necessário que nenhum católico acredite em uma rede astral secreta para afirmar que a ascese tem o poder de transformar uma pessoa. A transformação do peso do vício em ouro da virtude é uma metáfora que pode ser completamente interpretada à luz do cristianismo, e já foi reinterpretada dessa forma inúmeras vezes.

Em termos simbólicos, a Tábua representa uma doutrina que une a realidade. Tudo se origina do Um; assim, tudo possui uma impressão do Um; por isso, o mundo é compreensível. É neste momento que o cristão não deve entrar em conflito, mas sim buscar a purificação. A criação é organizada. Os efeitos podem revelar algo sobre as causas. O que é visível pode ter uma função simbólica. A beleza que é gerada indica o Criador. O corpo reflete o que há dentro de nós. Os ritos empregam sinais perceptíveis. A metafísica tomista possui um termo técnico, muito valioso, que se refere a isso como analogia: é possível afirmar que Deus é bom e que uma criatura é boa sem que se considere que a bondade tenha o mesmo significado em ambas as situações. O céu e a terra podem manifestar a mesma Sabedoria, pois ambos são obra do mesmo Criador.

O problema surge na leitura intensa, aquela em que o plano inferior replica estruturalmente o superior de tal maneira que, ao conhecer as correspondências ocultas, seria viável agir sobre uma ordem para gerar efeitos na outra. Relação compreensível é o que se chama analogia. A magia simpática afirma a relação de causa e efeito. Equivaler os dois é um salto, e o salto deve ser mostrado, não pressuposto. Sem evidências independentes, a correspondência se transforma em uma máquina geradora de significados retroativos: sete planetas, sete metais, sete cores, sete notas, sete virtudes, sete espíritos. E, uma vez estabelecido que o número é de natureza cósmica, inicia-se a prática de reunir conjuntos de sete e apresentá-los como evidência de uma teia invisível. Foi a correspondência encontrada ou criada? Para ser considerada uma teoria robusta de correspondências, seriam necessárias previsões feitas antes dos resultados, um critério para refutação e um mecanismo que possa ser claramente diferenciado de uma mera coincidência. Sem essa base, qualquer padrão pode validar qualquer afirmação.

Misticamente falando, a Tábua oferece uma única promessa: aquele que realizar a operação será agraciado com a glória de todo o mundo, e as trevas se afastarão dele. É uma promessa de autoridade, e é sincera ao ser assim. Não oferece comunhão, não garante perdão, não assegura filiação, nem promete ressurreição. Promete controle sobre os projetos. Não sou eu quem está fazendo essa acusação, é o texto. A distinção entre uma promessa de domínio e uma promessa de comunhão é equivalente à diferença que existe entre duas religiões distintas, em vez de ser uma variação de estilos dentro de uma única religião.

Um esclarecimento que previne injustiças antes de nos afastarmos da alquimia. Seria um grande equívoco afirmar que toda a alquimia é demoníaca. Historicamente, o que foi chamado assim abrange pesquisa de materiais, metalurgia, destilação, medicina, teoria natural, simbolismo religioso, práticas claramente mágicas e outras, em diversas combinações dependendo do autor e da época. A questão cristã deve ser prática e não se resumir a rótulos. Quando alguém pesquisa substâncias, isso se refere ao estudo da natureza. A transformação dos metais é empregada como uma metáfora para a purificação interna, caracterizando uma literatura simbólica. Apresenta-se uma cosmologia filosófica que pode ser debatida, é uma filosofia da natureza, e é objeto de discussão. Quando se tenta chamar entidades, prever o futuro ou controlar forças espirituais ocultas, é aí que realmente nos encaixamos na categoria que a doutrina católica não aceita. O problema surge quando metáfora, laboratório, cosmologia e intervenção espiritual são mesclados como se fossem uma única ciência.

A comparação entre os paralelos deve ser feita com muito cuidado, pois uma comparação inadequada é mais prejudicial do que a ausência de uma comparação.

A relação entre o platonismo e o neoplatonismo é bastante estreita e bem registrada. O Timeu é a base de toda a cosmologia hermética: o demiurgo que cria a partir de um modelo, a alma do mundo e as proporções harmônicas. O Fedro oferece o léxico relacionado à queda e à iniciação. O mito de Er, presente no décimo livro da República, é semelhante ao julgamento do Asclepius. Plotino apresenta toda a estrutura da emanação, que inclui o Uno, o Nous e a Alma, mas também traz algo que raramente é mencionado nesse contexto: uma crítica direta aos gnósticos, na nona enéada do segundo tratado, onde ele os acusa de arrogância e ingratidão metafísica por desprezarem o cosmos. Jâmblico, em De mysteriis, ao responder a Porfírio sob a alcunha de Abamon, contrapõe a teurgia ao intelectualismo puro e é ele quem oferece a mais sólida justificativa filosófica para as práticas rituais materiais no contexto neoplatônico. Em seus Elementos de Teologia, Proclo resume o triplo movimento que elucida tudo: estase, procissão e retorno.

Com Aristóteles, a questão se torna mais complexa, e é importante evitar a tentação de contrastar Aristóteles com o hermetismo como se fossem completamente opostos. O motor que permanece em repouso no livro Lambda da Metafísica, o qual é o pensamento do pensamento, mostra uma clara relação de parentesco com um Nous que se observa. O intelecto agente, mencionado no terceiro livro do De anima, esclarece como é possível ter conhecimento. Há um aspecto que raramente é discutido: tanto o platonismo quanto o aristotelismo maduro possuem, em sua essência, um monoteísmo subjacente. O Uno platônico, o motor imóvel de Aristóteles, o Bem hermético: todos eles representam esforços da razão humana para alcançar um princípio que seja único, simples, não causado e final. A filosofia grega não era politeísta e a religião veio para corrigir isso; a mais elevada forma da filosofia grega já estava se dirigindo para a mesma conclusão, e tinha plena consciência disso.

Os paralelos com a Cabala judaica são autênticos, assim como as distinções. A doutrina hermética que ensina que todas as almas emanam de uma única alma universal, a qual se divide em partes, reflete a estrutura de emanação de atsilut e das dez sefirot. No imaginário cabalístico, Metatron e Sandalfon desempenham um papel que se assemelha, em termos de funcionalidade, aos grandes daimons ou ousiarcas: são inteligências geradas que sustentam e mantêm diversas ordens da realidade. A transmigração é um conceito que se manifesta em ambas as tradições, sendo que o gilgul e o ibbur da Cabala refletem, de certa forma, as transformações das almas na hermética. Algumas correntes bastante específicas da Cabala vão tão longe a ponto de aceitar a encarnação em corpos inferiores, incluindo minerais, como uma forma de punição. Por outro lado, existem outras correntes que se alinham à visão católica, na qual é possível que exista um anjo naquele contexto, mesmo que a pedra em si não possua uma alma. O tsimtsum luriânico, que consiste na contração divina que cria espaço para o mundo, representa a tentativa do judaísmo de abordar precisamente a questão que o hermetismo não consegue resolver: de que maneira o mundo pode ser diferente de Deus, uma vez que tudo provém Dele.

No entanto, é fundamental mencionar algo que a maioria dos apaixonados não revela. A relação histórica, que pode ser comprovada, entre a Cabala e o hermetismo é, principalmente, um produto do Renascimento, elaborada por Pico, Egídio de Viterbo e os cabalistas cristãos, em vez de uma identidade antiga. Scholem localizou as raízes da Cabala em solo judaico; Idel reexaminou Scholem e debateu precisamente as continuidades e os limites dessa abordagem. Afirmar que o Corpus Hermeticum e o Zohar dizem praticamente a mesma coisa é um exagero; porém, dizer que ambos trabalham com emanação, hierarquias de mundos, a alma que desce e a alma que retorna, e que por essa razão é possível lê-los um ao lado do outro de forma complementar, é uma observação válida. A diferença é significativa, pois a versão mais intensa promove um sincretismo que nenhuma das duas tradições estaria disposta a aceitar.

A relação com o Islã é ainda mais intrigante, e se trata de uma história de transmissão genuína, ao invés de uma simples analogia. Hermes foi associado a Idrīs, e Idrīs foi associado a Enoque. Abū Maʿshar al-Balkhī elaborou, na obra atualmente perdida que se chamava Os Milhares, a teoria dos três Hermes: um antes do dilúvio, um da Babilônia e um do Egito. Van Bladel demonstrou que a representação profética de Hermes no Islã deve muito mais a Abū Maʿshar do que aos sabeus de Harran, esses remanescentes do paganismo helenístico cuja contribuição hermética por escrito não se pode comprovar, ao contrário do que a divulgação insiste em afirmar. Jābir ibn Hayyān eleva a alquimia a um nível técnico. A filosofia islâmica, tanto com al-Fārābī quanto com Avicena, elabora uma cosmologia que descreve a emanação das inteligências a partir do Primeiro Princípio, a qual é visivelmente semelhante ao esquema neoplatônico-hermético. Suhrawardī elabora a filosofia da iluminação em torno da Luz dos lumius. Ibn ʿArabī elabora a ideia da unidade do ser e a teoria do Homem Perfeito, que representa a forma islâmica mais elevada do magnum miraculum est homo. Al-Ghazālī é a crítica que vem de dentro da própria casa.

Observe o que ocorreu diante de seus olhos: a mesma questão, expressa de maneira quase idêntica, surge no Egito do século III, na Pérsia do século XI, na Espanha judaica do século XIII e na Florença do século XV. Ou há uma conspiração de copistas que dura dois mil anos, ou há uma configuração na realidade que a inteligência humana descobre ao buscar de forma adequada. Eu creio na segunda, e o cristianismo sempre creu na segunda, com um nome próprio para isso, que é lei natural e razão participada.

É chegada a hora de dar uma resposta, e responder não significa ofender. A crítica contundente ao hermetismo não se inicia afirmando que tudo o que está presente é falso, vulgarmente pagão ou demoníaco. Primeiramente, ele identifica quatro elementos que a preguiça tende a confundir: a verdade natural, o erro metafísico, a confusão religiosa e a prática ilícita. Os escritos herméticos não constituem um catecismo homogêneo; neles, existem declarações sobre a existência de um Deus único, a inteligência, a ordem do cosmos, a purificação moral, a contemplação, a providência e a transcendência que um cristão reconhece como aproximações parciais de verdades acessíveis à razão. Também existem, ao lado disso, cosmologias que são difíceis de harmonizar entre si, bem como ascensões planetárias, astrologia, correspondências, rituais e a criação de deuses. A refutação deve se concentrar em proposições, e não em uma versão distorcida conhecida como Hermetismo.

O primeiro embate é aquele que se dá entre a criação e a emanação. A perspectiva cristã é fundamentalmente diferente: Deus não é a parte mais elevada do universo, nem a parte mais importante de uma sequência de seres, não é uma mente cósmica mais potente do que as demais, e não é uma substância original que se divide e se transforma em tudo que existe no universo. O mundo foi gerado de maneira livre, por meio da sabedoria e do amor, a partir do nada, e não como uma emanação indispensável da substância divina. Tomás oferece a ferramenta certa: Deus é Ipsum Esse Subsistens, não um ser que possui existência, mas o Ser que existe por si mesmo. Nas criaturas, essência e ato de ser são diferentes; elas têm um ser que é recebido e compartilhado. Em Deus, essa junção não existe.

Esta distinção nos permite afirmar, de maneira concomitante, duas verdades que todo monismo tende a confundir: em primeiro lugar, que tudo o que existe depende diretamente de Deus para a sua existência, e, em segundo lugar, que nenhum ser criado é parte integrante da essência divina. E oferece ao cristianismo uma manifestação divina mais profunda e intensa do que muitas formas de esoterismo, pois essa presença não se dá por proximidade ou por transbordamento: tudo o que existe o faz porque agora depende do ato de criação. No entanto, essa familiaridade casual não equivale a uma identidade ontológica. Se uma faísca é considerada uma consequência do fogo, ainda há uma conexão material entre os dois. Na doutrina cristã, a dependência é mais profunda e, de maneira paradoxal, a distinção também é maior: a criatura não é uma parte separada de Deus; ela é genuinamente diferente como criatura e não pode existir sem o Criador.

Com isso, surge a primeira refutação lógica do monismo hermético forte, que afirma que a alma é, de fato, uma porção da essência divina que Deus cortou, dotou de consciência independente, moldou nos planos metaf físicos e, em seguida, emanou para este plano. Se a alma humana fosse, de fato, uma parte da essência divina, isso implicaria que a essência divina é divisível, o que contradiria a noção de simplicidade, ou, por outro lado, sugeriria que a individualidade humana é apenas uma ilusão. Se, por outro lado, a pessoa é verdadeiramente única e contingente, então sua divindade não pode ser uma identidade essencial; no máximo, poderá ser uma participação, semelhança, representação ou comunhão. Não existem outras opções, e as duas mencionadas são prejudiciais para a tese.

O segundo embate é o Logos. O cristão que lê o Poimandres leva um choque de estranhamento: não há um Deus pessoal, não há um Deus que se importe, não há um Deus que ame, não há um Deus que salve. Ainda que haja semelhança no vocabulário, isso não significa que as doutrinas sejam idênticas. O Logos cristão não é um princípio racional que atua como intermediário entre a Inteligência suprema e a matéria. Niceia refutou precisamente essa ideia: o Filho não é a criatura mais elevada nem uma forma inferior derivada do Pai; Ele é o verdadeiro Deus gerado do verdadeiro Deus, gerado e não criado, da mesma substância que o Pai. Constantinopla amplia a declaração completa da divindade ao Espírito Santo. A Trindade não se configura como uma cadeia cosmológica que se origina do Pai e se estende ao cosmos, passando pelo Intelecto e pela Palavra; ao contrário, são três Pessoas verdadeiramente distintas dentro da única e indivisível natureza divina, e essa relação existe eternamente antes da criação.

Há uma diferença maior do que aparenta. No modelo emanacionista, quanto mais distantes do princípio, os níveis inferiores possuem menor plenitude ontológica. Na crença nicena, o Filho não é menos divino que o Pai. Assim, quando se afirma que Hermes já tinha conhecimento da Trindade, essa comparação deve ser submetida a um exame rigoroso: existem, de fato, três Pessoas que são coeternas, consubstanciais, incriadas e inseparáveis, ou estamos apenas nos referindo a três conceitos cosmológicos que foram posteriormente nomeados como cristãos? A segunda opção não se trata de uma profecia. É uma comparação de termos.

O terceiro embate é a antropologia, e é neste ponto que a preposição é decisiva. O homem cristão é criado à semelhança de Deus; não é constituído da substância de Deus. Uma imagem implica tanto semelhança quanto diferença: uma imagem que fosse exatamente igual ao original não seria considerada uma imagem, mas sim o próprio original. A criatura dotada de razão é capaz de conhecer, amar, criar de maneira analógica, governar, dedicar-se a Deus e também receber a Deus, e nenhuma dessas capacidades implica que ela seja uma parte ontológica do Criador. A antropologia cristã evita que a dignidade se reduza a uma faísca noética, enquanto o corpo se torna uma roupa descartável, uma vez que a natureza humana é única, composta de corpo e alma, e o destino final abrange a ressurreição.

Seja claro: não todo Hermetica afirma que a matéria é má, e fazer essa afirmação seria uma simplificação exagerada. O problema surge quando a salvação é concebida como o retorno à verdadeira identidade espiritual, que se dá através da renúncia gradual das influências corporais e cósmicas. A resposta cristã é breve e distingue entre duas civilizações religiosas: a salvação não se conclui com a libertação do corpo, mas sim com a libertação do corpo da corrupção. Paulo não conclui o décimo quinto capítulo da primeira carta aos Coríntios afirmando que finalmente nos libertaremos do corpo; ele finaliza abordando a transformação do corpo que se corrompe. O Credo conclui com a ressurreição dos mortos, e não com a imortalidade da alma.

O quarto conflito diz respeito à astrologia e ao destino, e ele é resolvido através de um argumento filosófico antes de qualquer consideração religiosa. Não é preciso que o cristianismo negue a influência física dos astros: a lua contribui para as marés, o sol mantém a vida, os ritmos celestes organizam calendários. A situação é diferente quando as posições dos astros se tornam fatores decisivos na escolha moral ou meios confiáveis de se obter um futuro pessoal. Se uma configuração celestial é responsável pela vontade, então a noção de responsabilidade moral se torna irrelevante, e não faria sentido exaltar um santo ou maldizer um assassino devido a consequências inevitáveis da disposição planetária no momento de seu nascimento. Se, para garantir a liberdade, afirmarmos que os astros apenas influenciam, a astrologia perde a base necessária para transformar mapas celestes em previsões pessoais precisas. Se oferecem determinações, eliminam a responsabilidade; se não oferecem, não garantem a certeza que a adivinhação promete. O Catecismo condena a astrologia, os horóscopos e outras práticas de adivinhação que buscam prever o futuro ou controlar forças ocultas, associando essa busca a um desejo desordenado de exercer poder sobre o tempo e a história. No lugar do destino estelar, encontramos a providência que não é fatalista, e essa providência não transforma as criaturas em marionetes: Deus concede às criaturas uma verdadeira causalidade e mantém a livre cooperação delas.

O quinto conflito é intelectualmente o mais interessante, porque se apresenta como uma acusação de hipocrisia, mas, na verdade, trata-se de uma questão de estrutura. Se um cristão reprova a magia, por que os sacramentos não são considerados mágicos? Temos água, azeite, pão, vinho, gestos, palavras, incenso, coisas materiais, efeitos espirituais. Um matrimônio e um feitiço possuem palavras; eles não são idênticos. Uma operação e um sacrifício ancestral têm cortes; não são sinônimos. A categoria que une matéria, rito e espiritualidade é ampla demais para definir uma identidade.

A diferença reside na direção da causa e efeito. A magia busca encontrar uma conexão causal que está escondida, através da qual o operador é capaz de fazer uma força agir: técnica, operação, efeito, do ser humano para a potência. O sacramento proclama que Deus atua de maneira livre, em conformidade com uma aliança e uma instituição que têm sua origem nele mesmo: é um presente, que vai de Deus a Cristo, de Cristo à Igreja, passando pelo sinal sacramental, até a graça. No primeiro caso, o operador procura ter a posse da chave. No segundo, ninguém tem Deus. A água do batismo não tem efeito por causa de sua composição química que carrega a frequência certa; ela funciona dentro de uma economia estabelecida. O operador não encontrou nenhuma vulnerabilidade metafísica. Chegou.

A oração afirma que devemos pedir que a tua vontade seja realizada. A magia, especialmente na sua vertente mais intensa, costuma afirmar que essa vontade deve ser realizada, uma vez que descobri o método apropriado. Uma solicita, a outra executa. Uma acolhe, a outra capacita. Uma pressupõe a existência de um Deus pessoal e soberano, enquanto a outra tende a ver o invisível como um conjunto de forças que podem ser acessadas por meio de técnicas. Mesmo que o operador afirme que atua em consonância com o cosmos, permanecem questões sem respostas: quem estabelece essa harmonia, como ele consegue saber que uma determinada inteligência é benéfica, por que uma experiência extraordinária deveria validar a natureza moral do agente invisível e qual é o teste que não depende dele. Fenômeno, explicação e causa não são a mesma coisa. Um evento raro não valida a cosmologia proposta para explicá-lo. Quando se diz que algo "funcionou", isso é epistemicamente insuficiente: o placebo tem efeito, uma fraude pode ser convincente, uma coincidência pode ocorrer, o autoengano é possível, e, dentro da própria hipótese cristã, até mesmo uma inteligência hostil poderia gerar um fenômeno real. A eficácia que parece existir não é um critério para determinar a verdade de uma religião. A cautela cristã, neste contexto, não se trata de um obscurantismo: é uma epistemologia que envolve altos riscos.

Está ausente o raciocínio que refute a ideia de que há um controle mágico exercido por inteligências superiores, e isso impede o acesso à única possibilidade que restava. Imagine uma inteligência espiritual que é significativamente mais elevada do que a humana. Se ela pode ser forçada por uma fórmula material cuja pronúncia correta a faz agir, então sua superioridade é de maneira estranha limitada, porque o operador humano tem uma lei superior à própria inteligência. Interroga-se: quem estabeleceu essa legislação? Se realmente se tratar de uma ação divina, então essa prática só seria válida se Deus a tivesse permitido. Se não foi Deus quem estabeleceu essa ordem, então ela existe de forma independente, o que compromete a soberania divina. Se o espírito apenas simula uma obrigação e colabora por sua própria vontade, o mago não controla nada: ele interage com um agente cujo objetivo não conhece. Se o fenômeno é psicológico, então a cosmologia é uma ilusão. Se for fraudulent, o mesmo se aplica. Se algo é natural e ainda não entendido, não há necessidade de classificá-lo como sobrenatural. Em todas as opções, a alegação de domínio requer muito mais evidência do que os sistemas mágicos geralmente oferecem.

E os símbolos? Esta é, sem dúvida, a objeção hermética mais astuta que existe, e ela merece uma resposta em vez de um desprezo. O raciocínio seria o seguinte: vocês criticam as estátuas que estão habitadas e, em seguida, beijam ícones, incensam imagens, veneram relíquias e aguardam graças diante de objetos. A divergência é precisamente aquela que o sistema Asclepius atravessa. O ícone cristão não é criado para se transformar em um deus. Não aceita alma humana ou demoníaca para se tornar divina. Não é digno de adoração. Não possui o santo, como se a essência dele estivesse capturada na madeira. O sétimo concílio ecumênico faz a distinção entre a veneração das imagens e a adoração que é devida apenas a Deus, afirmando que a honra concedida ao ícone é transferida para o protótipo. Além disso, fundamenta a própria possibilidade de representar Cristo na Encarnação, uma vez que o invisível assumiu uma forma humana visível. É praticamente o oposto da lógica das estátuas que ganham vida. No rito, a força é invocada para que o artefato ganhe vida; neste contexto, o objeto não precisa existir de forma ontologicamente viva. A madeira permanece como madeira, a tinta permanece como tinta, o santo continua sendo uma criatura, e Cristo continua sendo Deus. O argumento que compara ícone a ídolo só é válido se ignorarmos essas diferenças.

Resta ainda a última objeção, e esta é a mais grave que um hermetista pode levantar contra o cristianismo oriental: vocês me acusam de querer tornar o homem divino, mas Atanásio e a tradição ortodoxa ensinam a theosis. Sim, está certo. O cristianismo oriental não esconde sua admiração pela deificação. A questão é de que maneira ocorre e qual é o seu significado. Na tradição cristã, a deificação é uma consequência da Encarnação; o processo não se inicia com o homem percebendo que já é Deus, mas sim com Deus, que continua a ser Deus, adotando a natureza humana. No conceito palamita, a natureza divina continua a ser incomunicável, enquanto as energias incriadas são realmente compartilhadas, permitindo que a comunhão seja autêntica sem que a criatura se torne idêntica à essência. Tomás chega a um resultado semelhante, utilizando uma terminologia diferente: a graça consiste em uma participação na natureza divina, baseada em uma semelhança que é criada e recebida, e somente Deus é capaz de gerar esse efeito sobrenatural. O hermetismo da identidade afirma: desperte para a divindade que é você. A teologia da deificação cristã afirma: transforme-se pela graça no que você não é por natureza. Uma busca a autodescoberta metafísica; a outra representa o dom. Uma estrutura-se como um começo de saber; a outra organiza-se a partir de Cristo.

Dito, porque é sincero: o ser humano pode ser considerado divino por sua participação, pode se tornar parte da natureza divina, pode receber a graça incriada, conforme a terminologia oriental, pode ser chamado de filho por adoção, segundo a linguagem de Paulo, pode alcançar a visão de Deus e pode ser transfigurado pela glória. Contudo, não se transforma na quarta Pessoa da Trindade, não adquire a qualidade de ser autossuficiente, não se converte no Criador de si mesmo e não passa a ter uma eternidade que não tenha uma origem. A expressão deificação é válida no contexto cristão, mas únicamente após a distinção entre identidade e participação.

É necessário fazer um parêntese que a honestidade exige, pois o dossiê cristão sobre Hermes é mais complexo do que as duas partes geralmente reconhecem. A ideia de que a Igreja eliminou Hermes por representar uma ameaça ao seu poder não justifica a história da sua transmissão. Uma parte significativa do material hermético chegou até nós precisamente por meio de autores cristãos que o mencionaram: Lactâncio utiliza Hermes de forma positiva quando acredita que ele corrobora verdades religiosas; Agostinho não oculta o Asclepius, mas o expõe para tecer críticas a ele; Tomás não ignora a doutrina da animação das estátuas, mas a emprega como objeto de análise; Cirilo de Alexandria preserva fragmentos ao estabelecer comparações entre a sabedoria egípcia e grega e a revelação. A recepção renascentista de Hermes se deu em meio a sociedades profundamente cristãs, onde Ficino realizou a tradução a pedido de um membro da família Médici, e onde um Hermes Trismegisto pode ser encontrado no piso da catedral de Siena, bem como nos aposentos Bórgia do Vaticano. Isso não é uma prova de que instituições cristãs nunca tenham censurado nenhum texto ou autor, o que seria ridículo. Teste apenas o que for necessário: o modelo de supressão total não é suficiente para explicar os dados. A narrativa é mais refinada do que os acontecimentos.

No outro extremo, a alegação de que o cristianismo se inspirou em Hermes também não se sustenta se for feita sem evidências. O fato de duas tradições utilizarem símbolos como luz, palavra, renascimento, intelecto, vida e imagem não é suficiente para comprovar a ideia de cópia; tais conceitos estavam presentes em um vasto ecossistema helenístico. Para estabelecer uma dependência literária, seria necessário evidenciar a cronologia, um contato plausível, paralelos específicos que sejam incomuns o suficiente, a direção da influência e uma explicação mais convincente em relação a fontes alternativas. A datação dos Hermetica permite que ambos coexistam no mesmo contexto cultural, mas não justifica a simplista equivalência entre o prólogo de João e o Poimandres. Mesmo que se pudesse apontar alguma influência terminológica, isso não resolveria a questão da veracidade: a origem de uma palavra não é o que torna uma proposição verdadeira. O cristianismo empregou termos gregos para elaborar sua doutrina, sem se transformar em um culto dedicado a Zeus.

E após toda essa crítica, o que realmente resta de Hermes? Há mais do que os defensores apressados conseguem imaginar, e isso é abundante, mas com uma condição. A noção de que o universo é inteligível ainda persiste. A crença de que o ser humano não se limita ao materialismo persiste. A urgência da conversão interior permanece viva. A prática da atenção e da reflexão ainda persiste. A crença de que a falta de conhecimento espiritual arruína a vida persiste. A interpretação simbólica da natureza ainda persiste. A correspondência persiste, mas apenas como uma analogia. A linguagem alquímica persiste como uma metáfora austera. O microcosmo existe enquanto representar que o homem abrange as dimensões materiais e espirituais da criação, e não que o corpo seja o controle remoto do cosmos. A elevação continua a existir como um aumento na santidade. A divinização continua a existir como theosis através da graça. A luz permanece como um presente do Espírito. O renascimento continua a existir como Batismo e conversão. A unidade do cosmos persiste como a manifestação de uma criação que possui um único Criador. Observe o que ocorreu: o cristianismo não precisou eliminar a fome que nutria Hermes. Foi necessário alterar as respostas.

Pois, no fundo, é isso que realmente importa. Se alguém se sentir atraído por Hermes devido à impressão de que o cristianismo que conheceu era superficial, moralista, burocrático e desprovido de riqueza espiritual, não é necessário renunciar ao cristianismo como resposta. É possível descobrir quanto da própria tradição permaneceu oculto. O cristianismo histórico possui uma metafísica que abrange os conceitos de ato e potência, essência e existência, participação, analogia, causas e formas. Há uma teologia mística. Há uma disciplina que estuda os anjos. Há uma teologia da matéria. Há símbolos, sacramentos, ícones, prática ascética, deificação, uma cosmologia teológica, apofatismo, oração contemplativa, teoria da beleza, doutrina da providência e uma visão escatológica de todo o universo. O que ele não possui, ao se manter leal ao seu centro interior, é a concepção de que a salvação do homem se dá através da obtenção da chave metafísica do cosmos.

Há uma analogia com a teologia do imaginário que o Círculo vem elaborando, e é importante deixá-la clara como uma interpretação do Círculo, e não como uma doutrina do texto antigo. Quando o Corpus instrui o discípulo a igualar-se a Deus, a transformar-se em um aiôn, a imaginar-se simultaneamente na terra, no mar e no céu, ainda não nascido e já presente no ventre da terra, ele está indicando algo que a tradição cristã também reconhece: a mente humana é capaz de atingir mundos possíveis que, antes de tudo, existem no pensamento divino. Tolkien expressou isso a Lewis de maneira diferente, referindo-se à subcriação. Se somos subcriadores, então nossa imaginação não é evasão: é o espaço onde interagimos com realidades que habitam na mente de Deus, e nossas ações fazem com que algumas delas se manifestem no único mundo físico que existe, que é este. Sonho ideal e pesadelo são duas colheitas da mesma capacidade. A distinção em relação a Hermes reside mais uma vez na preposição: somos subcriadores dentro dos limites do possível, e não deuses do possível.

Considerações Finais

O embate entre hermetismo e cristianismo não se trata de uma competição para ver quem possui os símbolos mais antigos. A filologia já resolveu essa questão, e o fez de forma contrária a Hermes: os tratados pertencem à Antiguidade tardia, a Tábua é de origem árabe medieval, e a cronologia anterior a Moisés foi refutada por Casaubon em 1614 e desde então não foi mais reestabelecida. A verdadeira controvérsia diz respeito à própria estrutura do real, e pode ser sintetizada em uma questão: ao se deparar com o invisível, quem ocupa a posição central?

Se a resposta for eu conheço as correspondências, eu possuo os nomes, eu domino as forças, eu aprendi o caminho da ascensão, eu reconheci minha verdadeira divindade, a estrutura é de autoiniciação, e o sábio aparece como possuidor de uma chave. Se a resposta for recebi existência, recebi revelação, recebi graça, fui chamado à conversão, respondo livremente e sou elevado por Aquele que não posso possuir, a estrutura é sacramental e o santo surge como uma pessoa que vai abrindo mão de tentar ter Deus. Essa disparidade moral pode ser mais significativa do que a metafísica, pois é ela que é vivenciada por aqueles que têm contato com ambos.

Hermes questiona de que maneira o homem pode ascender. O Evangelho inicia afirmando que Deus veio para baixo. Hermes busca a sabedoria secreta que leva o ser humano de volta à sua fonte; o cristianismo oferece uma Pessoa que se envolve na história. Hermes reflete sobre a liberação das imposições do universo; o cristianismo oferece a promessa de uma ressurreição da carne. Hermes busca analogias entre o que é elevado e o que é baixo; o cristianismo estabelece a Encarnação como a ponte entre o alto e o baixo. Hermes tem o poder de dar vida a uma estátua; Niceia, por sua vez, argumenta que a santidade de uma imagem não se baseia em aprisionar um espírito nela, mas sim na relação com o protótipo e, em última análise, na realidade da Encarnação. Hermes confere ao homem um status divino; o cristianismo, por sua vez, avança ainda mais e demanda uma distinção que é infinitamente mais rigorosa, uma vez que o homem é elevado à divindade por participação, e nunca por uma identidade de essência.

Uma técnica pode ser adquirida; a graça não. Uma técnica separa os que sabem dos que não sabem; a graça chega a uma criança. Uma técnica bem realizada deve gerar o resultado esperado, pois controla uma regularidade; por outro lado, uma oração cristã pode ser ideal e ainda assim não alcançar o resultado desejado no tempo, uma vez que Deus não é um mecanismo. Isso desagrada a mente encantada, e é precisamente isso que mantém intacta a personalidade de Deus. Um deus que pode ser completamente controlado por rituais não é o Senhor. É uma questão de tecnologia.

O cristianismo não precisa repudiar todas as visões de Hermes. É imprescindível afirmar que aquilo que ele observou de genuíno era a criatura apontando para o Criador; que é necessário fazer uma distinção entre o que confunde a criatura com o Criador; que o que converteu o símbolo em poder precisa passar por um processo de purificação; que o que transformou o conhecimento em salvação deve ser subordinado à graça; que o que fez dos espíritos deuses precisa ser rejeitado; e que aquilo que encarou o corpo como uma fase a ser superada deve ser confrontado com a Ressurreição. A síntese só ocorre quando Cristo emite um juízo sobre Hermes, e jamais quando é Hermes quem julga Cristo.

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