Voltando as Origens Uma Memória Sobre Oque é ser Criança

Este ensaio filosófico representa uma confrontação com a amnésia intencional dos adultos, aqueles que se esqueceram do que é ser criança, delegaram a responsabilidade pela alma de seus filhos ao Estado, desmantelaram a moral com suas próprias mãos e ainda exigem respeito com palavras. O que você está prestes a ler não se trata de conselhos, não é um guia de autoajuda e não é um manifesto: é um diagnóstico, realizado com precisão e sem rodeios.

Gabriel G. Oliveira

5/2/202637 min ler

A Criança que os Adultos Esqueceram de Ser

Os adultos se esqueceram como é ser criança. Não é uma questão de esquecer. É uma amnésia deliberada, cultivada com cuidado, porque lembrar machuca e requer atitudes. Quem de fato recorda a infância entende que a viveu na condição de um sobrevivente e não de um visitante, e admitir isso exigiria que o adulto que é hoje enfrentasse suas ações ou omissões em relação à infância que agora se apresenta diante dele. Aí ele perde a lembrança. É mais prático. O esquecimento, transformado em política, ensino, lei e ideologia, produz exatamente a geração que está aí: jovens adultos que nasceram entre 2015 e 2020 e que, diante de uma criança, não enxergam nada, como se estivessem diante de um ser de outro mundo, cuja língua é completamente incompreensível. Não devemos culpar as crianças por isso. É por essa razão que esses adultos apagaram o arquivo.

Pessoalmente, não sou muito fã de crianças. Deixo claro isso porque ser sincero vale mais do que ser agradavelmente simpático. Como estão os bebês? Crianças muito pequenas, sem complicações. Os jovens também. O verdadeiro desafio reside em uma fase específica da vida, uma idade maldita que se estende aproximadamente dos oito aos onze anos. Nesse intervalo, parece que Deus determina um período de pausa, permitindo que a criança explore o mundo sem qualquer supervisão divina. Ao perceber a falta de orientação moral, a criança preenche esse vácuo com um instinto totalmente destrutivo.

Converte-se numa portadora do caos. Quebra o que é, por natureza, pleno. Faz bagunça com um toque de estilo. Conflitos gerados por causas que qualquer pensador medieval não conseguiria ordenar de maneira racional. O que me irrita, e que considero cruel, é que ela não faz isso por falta de informação. Ela se comporta assim porque quer. A consciência está presente e funcionando a todo vapor, escolhendo a autodestruição com a mesma determinação de um general napoleônico. Jean Piaget, o epistemólogo suíço que dedicou sua vida a estudar como as crianças desenvolvem suas capacidades cognitivas, descreveu as operações concretas como a fase que se estende dos sete aos onze anos. É nesse período que a criança começa a executar operações lógicas envolvendo objetos físicos, embora Piaget estivesse mais interessado na lógica do que na maldade. A lógica existe, está perfeita. O problema está na maneira como ela é utilizada. Dois ou três anos nos quais a criança se transforma, como diriam os medievais, em uma tentação personificada, e eu a chamo de demônio da casa. Mais tarde, isso vai se resolver. Mais para frente, passa a ser interessante de novo. Porém, eu não consigo fazer isso naquela janela. O barulho, a destruição intencional, o sorriso de prazer ao reduzir algo precioso a pedaços. Paciência não é o meu forte com criança birrenta e sacana.

Posto isso e só isso, porque o que mais virá à frente pressupõe o reconhecimento do meu conhecimento prático em contrapartida ao teórico adquirido em torre acadêmica sobre crianças, mantenho que os pais devem conversar com seus filhos. Eu falo de forma séria. Não se trata da conversa pelo WhatsApp, nem das imposições como "faz o dever de casa" e "não mexe no celular", nem do controle moral que acontece nos finais de semana. Conversa genuína, cara a cara, que dura e que produz frutos. Conheci esse modelo por meio da falta. Meus pais sabiam, quem sabe, vinte por cento da minha vida real quando era criança e adolescente. O que restava, eu contornava sozinho, desde cedo, numa autoaprendizagem forçada que, às vezes, me deixou mais forte do que o necessário e, noutras, mais solitário do que o desejável. Não é um trauma atuado. A vida, com todas as suas complexidades e nuances, é um tema que desperta curiosidade e reflexão. Cada indivíduo vive experiências únicas, mas há certos aspectos universais que todos nós compartilhamos. Desde o nascimento até a morte, passamos por diversas fases, enfrentando desafios e celebrando conquistas. A vida nos ensina, molda nosso caráter e nos proporciona momentos de alegria e tristeza. É um constante aprendizado, onde cada dia pode trazer novas lições e oportunidades. Este dado evidencia o grande erro do pai atual: delegar ao Estado a responsabilidade sobre seu filho, encarando isso como um presente, quando na verdade é uma demissão.

Pai atual delega responsabilidades. É o termo certo e a sua feiura é indispensável. Ele desembolsa uma quantia considerável em uma escola particular brasileira que possui o mesmo DNA ideológico de qualquer escola pública, uma vez que o problema não reside no CNPJ da instituição, mas sim na forma como a pedagogia que a atravessa acredita que tudo está resolvido.

De maneira alguma. O que ele conseguiu foi uma ilusão de que havia cumprido sua obrigação. O pedagogo brasileiro mais citado e um dos mais mencionados no mundo, Paulo Freire, tem servido de alicerce para a educação de viés esquerdista no Brasil desde os anos 60. A Pedagogia do Oprimido, publicada em 1968, transformou o ato de educar em uma autêntica batalha de classes a cada aula. O aluno virou um oprimido, o saber constituído virou instrumento de opressão, e o professor passou a ser um mediador da conscientização política. O resultado, cinco décadas depois, é uma geração de professores que aprendeu a questionar o conteúdo e a valorizar o processo. No Brasil, isso ocorre em pouquíssimas instituições de ensino. Elas são extremamente raras. Quando um pai inscreve seu filho em uma dessas escolas e parte para o trabalho com a consciência tranquila, ele não está, de fato, educando o filho. Está transferindo sua essência para um Estado que já possui planos estabelecidos para ela.

A intenção do Estado é evidente: moldar um cidadão que seja útil e submisso. Nem um filósofo. Ele não é um rebelde com causa. Um cidadão informado, consumidor do conteúdo produzido, contribuidor de impostos, seguidor da narrativa, sem questionar, sem se opor. A educação no Brasil e, em grande parte, a educação ocidental contemporânea, funciona como uma espécie de liturgia secular, como disse o sociólogo Ivan Illich em seu livro Sociedade sem Escolas, de 1971. Essa liturgia equipara o comparecimento às aulas com o aprendizado real, a conformidade com as regras com a inteligência e a conquista de um diploma com a sabedoria. A criança sai de lá com um certificado, mas sem cultura. Sabe persuadida de que tem conhecimento sobre aquilo que desconhece e desinformada em relação ao que não sabe que não possui conhecimento. É o analfabetismo de ostentação: a pessoa assina, lê as capas, mas não entende as consequências.

Nessa estrutura, o cientificismo aparece como uma crença substituta. A questão se torna interessante neste ponto, já que o cientificismo e a ciência não são a mesma coisa. É a crença de que apenas aquilo que pode ser verificado através da experiência é real e relevante. É uma estratégia que se diz metodológica, mas que, na essência, é uma declaração filosófica, uma metafísica que não admite ser o que é. Já no século XIX, o positivismo de Auguste Comte se adiantava a essa proposta: Comte apresentou uma escada do conhecimento, com a ciência positiva no cume da evolução intelectual da humanidade, superando as etapas teológica e metafísica. Belíssimo no papel. É isso que faz com que o profissional de exatas rejeite qualquer coisa que não possa ser representada por uma equação. Em noventa por cento dos casos, os cientistas brasileiros, especialmente os que trabalham nas principais universidades federais, têm uma inclinação política para a esquerda, o que é algo que qualquer um que frequente uma pós-graduação em todo o Brasil pode perceber, sem precisar de uma pesquisa formal, mas que também é confirmado por estudos internacionais. Uma pesquisa de 2009 do Pew Research Center, que se tornou um estudo de referência sobre o tema, revelou que 52% dos cientistas americanos se viam como liberais, enquanto apenas 9% se identificavam como conservadores. No Brasil, onde o marxismo acadêmico está mais consolidado do que nos EUA, as diferenças são ainda mais acentuadas. Não é mera coincidência. É de caráter estrutural.

O problema não é o cientista. É um meio-cientista e existem muitos assim no Brasil. A pessoa que se formou em engenharia e que abraçou o positivismo como a única verdade, sem nunca ter lido nada sobre filosofia além do que precisou decorar para passar na prova. Essa pessoa passa a ser um binarista cognitivo. Para ele, é tudo ou nada. Ou está presente, ou não está presente. Comunismo ou Capitalismo. Está correto ou errado? Ou é preto, ou é branco. Eu já vi o suficiente, tanto de perto quanto na minha própria família, para não ter dúvidas sobre isso. Minha mãe possui um diploma na área de exatas. Ela é bastante inteligente e competente em sua especialidade, mas quando o assunto muda para temas das humanidades, ela cai, sem querer, num materialismo de fachada. Não é porque é tola que não é. É por isso que nunca te deram os instrumentos que precisavas para entender o mundo pulsante de cores. A realidade é cheia de vida. Não é cinza, nem preto e branco, nem a gama sem cor do binário pulsante, no sentido de que é complexa, tensa, contraditória e possui uma hierarquia de valores que não se resolvem em uma equação. Existe uma quantidade significativamente maior do que se supõe, em relação à filosofia medíocre que se ajusta aos padrões rigorosos de quem apenas aprendeu a calcular.

Essa é a versão erudita do que fazem os pais contemporâneos quando incutem na criança o medo do fracasso. Na edição doméstica, a coisa ganha contornos mais reais e trágicos: transformaram a infância em uma linha de montagem fordista. Henry Ford desenvolveu a linha de montagem em 1913, com o objetivo de transformar o automóvel em um produto convencional. O Estado brasileiro concebeu algo similar com o objetivo de homogeneizar o cidadão, e o pai atual se inscreveu de maneira voluntária como fornecedor de matéria-prima. Essa criança vai para o berçário, depois para o pré-escolar, para o fundamental, passa pelo médio e vai para a faculdade e, em cada etapa, ela vai recebendo a ideologia que o sistema quer que ela absorva. Pela manhã, o pai se despede e, à noite, volta para ver se ele cumpriu a tarefa de casa. Se você tiver uma visão bastante otimista, no máximo quatro horas por dia.

A formação restante é de responsabilidade do Estado. Em média, de acordo com a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2019, as crianças brasileiras passam de quatro a seis horas por dia na escola, sem contar o tempo de deslocamento e as atividades extracurriculares que os pais acabam incluindo, já que ter uma babá é caro e estar presente fisicamente custa ainda mais. O resultado é uma criança que se desenvolve em um contexto institucional, onde seus desejos, valores e visões de futuro são influenciados por indivíduos que não a amam e, frequentemente, têm apenas uma tolerância média em relação à profissão.

Porque o educador, e digo isso com precisão, sem cultivar um ódio desmedido à pessoa, mas com uma crítica severa à função como ela é exercida atualmente, o educador não tem uma relação de afeto com aquela criança. Ele não é o seu filho. Ele dá aulas para turmas de vinte, vinte e cinco, até trinta alunos, ganha um salário que o envergonha, enfrenta uma burocracia que o sufoca, e carrega uma ideologia de berço que, na maior parte das vezes, o levou a optar por essa profissão não tanto pelo amor ao ensino, mas pela paixão pela militância. Quando esse professor se depara com um estudante que possui grandes aspirações, a resposta imediata não é oferecer apoio. Transformar algo em algo comum. É trazê-lo de volta à terra.

"Quero ser astronauta." Resposta: "Dê prioridade ao ENEM primeiro." "Quero escrever teoria filosófica." Resposta: "Qual teoria? Você nem sequer leu os clássicos." O sonho não é destruído por uma crueldade evidente. É destruído pelo peso da mediocridade indiferente, que se revela muito mais eficiente. No seu livro seminal História Social da Criança e da Família, publicado em 1960, Philippe Ariès demonstrou que a ideia de que a infância é uma fase distinta e protegida da vida humana é bastante recente, ganhando destaque apenas a partir do século XVIII. No passado, as crianças eram vistas como pequenos adultos e eram rapidamente introduzidas ao trabalho e às obrigações, sem qualquer preparação. O que Ariès não pôde prever — o que seria impossível — é que o século XXI inverteria essa tendência: a criança passou a ser entendida novamente como um pequeno adulto, mas, desta vez, esse adulto é um consumidor ideologicamente formado e cujo trabalho é absorver narrativas prontas.

Consegui me desfazer disso em certa medida. Joguei RPG com os amigos. Eu leio gibis. Desde a juventude, dediquei-me ao estudo da filosofia. Eu tive tias católicas extremamente devotas que, de forma involuntária, contribuíram para que eu me afastasse temporariamente do catolicismo. Isso ocorreu porque a maneira como elas praticavam o cristianismo era tão restrita, tão oposta à lógica e tão imersa em superstições administrativas, que o ateísmo parecia ser a única opção intelectualmente honesta naquela época. Para essas tias, a filosofia era um convite ao demônio. Ritual diabólico da época dos RPGs.

Experimentar uma religião distinta era uma maneira de se afastar do rumo certo. Esse catolicismo raso que não tem nada a ver com Agostinho, Aquino e com a tradição filosófica que sustenta a Igreja é uma espécie de protestante disfarçado de católico. Esse equívoco é importante, porque desvenda um dos maiores erros de interpretação ainda existentes: a crença de que os filhos devem obedecer a seus pais sem questionar, porque "honra teu pai e tua mãe." A Bíblia diz isso mas logo na mesma carta que faz essa afirmação logo vem o complemento que todo pai autoritário tende a ignorar: "Pais, não provoqueis vossos filhos à ira." Paulo afirma, na Carta aos Efésios e que também é repetido na Carta aos Colossenses, que essa é uma relação mútua. Os filhos não devem obedecer sem questionar.

Um pai que emprega o mandamento como um meio de exercer um controle absoluto está, de fato, fazendo exatamente o que o mandamento proíbe. Ao longo da História, a Igreja Católica foi a única instituição religiosa da Antiguidade e da Idade Média a oferecer uma defesa legal da criança contra o poder absoluto do pater familias romano, que tinha o direito legal de decidir sobre a vida ou a morte de seus filhos. O Catecismo não serve como um manual de escravidão para os filhos. Mas o protestantismo, especialmente nas suas vertentes mais rígidas do século XVI e XVII, encarava o filho como uma propriedade moral do pai, ideia essa que permeou o catolicismo popular brasileiro e ainda se propaga nos dias atuais.

O pai moderno, por sua vez, não impõe essa autoridade com o intuito de ensinar. Usa para se livrar de responsabilidades. Há uma enorme diferença entre o pai autoritário, que exige obediência para controlar, e o pai ausente, que busca a paz de um solteiro sem abrir mão do título de pai. O pai de hoje é, portanto, o segundo tipo. Ele anseia pela tranquilidade que uma pessoa sem filhos possui, enquanto sua vida é marcada pela narrativa de quem tem filhos. Sobrecarregar a agenda da criança com atividades — aula de inglês, catequese, natação, tutoría escolar — não porque se acredita no desenvolvimento delas, mas sim porque uma agenda lotada funciona como uma babá gratuita. O menino chega em casa, apenas dez anos de idade, às dez horas da noite. A babá é tão cara que não dá nem para tirar uma soneca à tarde. Não pode ficar em casa sozinho, pois precisa de cuidados. Portanto, transita de uma instituição para outra. Descobre, nesse vai-e-vem sem fim, que a vida não passa de uma seqüência de obrigações sem sentido. O pai, então, o observa surpreso quando esse mesmo garoto, já crescido, pergunta qual é o seu propósito. Surpreendido pelos efeitos de uma demissão que ele mesmo determinou.

De acordo com os dados do IBGE de 2022, existem cerca de 49 milhões de crianças e adolescentes de zero a quatorze anos no Brasil. A pesquisa também mostrou que 18,4% das famílias eram monoparentais, a maior parte delas chefiada por mães. Isso significa que uma enorme quantidade de meninos e meninas cresce sem a presença de um pai que ofereça suporte. Mesmo quando o pai está presente, os dados sobre a presença efetiva não são nada animadores: em média, de acordo com um estudo da OECD de 2020, os pais passam menos de uma hora por dia com seus filhos, enquanto as mães passam cerca de uma hora e meia. O Brasil fica abaixo dessas médias. Afinal, não se pode afirmar que os pais brasileiros tenham um caráter inferior ao dos noruegueses. O sistema econômico, com a cultura que o sustenta, tornou a presença dos pais excessivamente dispendiosa para a maioria das famílias. Em vez de reconhecer o problema estrutural e procurar soluções eficazes, os pais repassam o que resta para o Estado e acreditam que estão cumprindo seu papel.

Vivemos em um mundo que não é dividido em nações. De forma alguma, a não ser que se considere os números sobre abandono paterno no Brasil, que são alarmantes: segundo o Conselho Federal de Justiça, em 2021, havia mais de 5,5 milhões de ações de pensão alimentícia em trâmite, ou seja, quantos pais precisam ser obrigados judicialmente a sustentar seus próprios filhos. Além do abandono oficial, há também o abandono de presença. O pai está em casa. É fim de semana. Ele está na imagem da família. Ele não está presente em nenhuma fonte importante. Não está incluído na conversa difícil. Não é essa a explicação que a criança precisava às três horas de uma quarta-feira. Não é no erro moral do filho que ele precisa de um castigador ou alguém que o faça de conta que não viu, mas de alguém que o ajude a pensar. O pai ausente é o mais comum e o mais sutilmente prejudicial.

Quando uma criança cresce sem esse alicerce, ela acaba procurando esse apoio em outros lugares. Em certas ocasiões, na filosofia, passei pela mesma experiência. Às vezes, nas calçadas. Às vezes, nas convicções que lhe asseguram um espaço e um oponente bem delineado, reside a combinação mais sedutora que pode existir para alguém que se desenvolveu sem uma fundação estável. É natural que os movimentos radicais, independentemente de sua orientação, atraiam em sua maioria jovens de lares onde a ausência dos pais foi a norma. A proposta de lutar por algo maior do que o eu pessoal preenche com exatidão o vazio deixado pelo pai ausente. Não estamos falando de uma análise psicológica da automedicação, mas de um padrão histórico que se repete há séculos. Em 1958, Hannah Arendt, em A Crise na Educação, conseguiu captar com clareza o paradoxo da educação moderna: ao buscar libertar a criança da figura da autoridade, o progressismo educacional a deixou vulnerável à tirania do grupo de iguais, que é, por sua natureza, a mais implacável das tiranias. A turma não demonstra compaixão. O professor que abdica de sua autoridade em favor da "horizontalidade" não emancipa ninguém: apenas transfere o poder para quem possui mais brutalidade social na sala de aula. O agressor agradece.

No entanto, se o pai cometeu um erro ao não agir, uma geração inteira errou ativamente, e essa geração possui um nome. Os baby boomers, que vieram ao mundo entre 1946 e 1964, amadureceram durante um dos períodos de maior prosperidade econômica da história recente. O mundo ocidental experimentou, ao longo dos Trentes Glorieuses — os trinta anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, de 1945 a 1975, período que recebeu esse nome na França — um crescimento econômico constante, uma expansão do Estado de bem-estar social, aumentos salariais reais e uma verdadeira mobilidade social. Um jovem de vinte anos, em 1960, tinha razões para acreditar que poderia comprar uma casa, constituir uma família e se aposentar com dignidade. Um jovem de vinte anos em 2024 dificilmente terá acesso a qualquer uma dessas opções, a não ser que haja situações excepcionais. No Brasil, essa disparidade é chocante: em 1980, o preço médio de uma casa residencial era equivalente a cerca de quatro anos de salário médio. Em 2023, com o FipeZap e levantamentos do mercado imobiliário, esse mesmo imóvel custa hoje mais de doze salários médios do trabalhador — nas cidades médias. Em São Paulo ou no Rio, são mais de vinte anos. Quem viveu o período de ouro da ascensão econômica e agora diz aos jovens para se esforçarem é, em lógica, quem comete a falácia da generalização apressada, que é quando se toma uma exceção particular — a própria — como regra geral. No entanto, essa situação em particular tinha a economia global a seu lado.

Os mesmos membros da geração baby boomer, e aqui inicio o uso desse termo com a precisão de quem se refere a um fenômeno histórico, em vez de utilizá-lo como um insulto direcionado a indivíduos específicos, foram os jovens revolucionários das décadas de 60 e 70. Eles foram aqueles que discordaram de seus pais, que levaram o feminismo da segunda onda para fora dos círculos acadêmicos e o integraram nas leis, que deram origem ao progressismo enquanto uma ideologia acessível a todos, e que aceitaram o relativismo moral como uma reação à inflexibilidade de seus próprios pais. A ironia é característica de Shakespeare: eles desafiaram a autoridade na juventude e, na idade avançada, tornaram-se a autoridade mais inflexível e resistente à mudança. O desejo de poder é um vício que nunca se sacia, nem mesmo para os inativos há tempos. Joe Biden, para citar um caso que se sobressaiu, governou os Estados Unidos aos 80 anos, com o olhar perdido, sem conseguir completar frases em entrevistas e dialogando com o nada em eventos públicos. O simples fato de o governo Biden ter sido tão considerado um fracasso a ponto de retornar a Trump, que é quase o símbolo de tudo o que um americano pode odiar em termos políticos, ilustra o quanto um governo inepto pode criar um nível de descontentamento impressionante. Não se trata de zombar da senilidade. É uma reprovação à insistente recusa dos mais velhos em ceder seu espaço. O Congresso dos Estados Unidos é um dos mais antigos da história democrática do país. O mesmo vale para o Senado brasileiro. Enquanto isso, o talentoso e energético rapaz de 30 anos, com um amplo repertório, aguarda sua vez.

O que esses indivíduos mais velhos fizeram ao mundo ultrapassa a mera acumulação de poder.

Isso se refere à questão do legado ético. Foram eles que determinaram a dissolução. Não foi algo súbito nem uma declaração de guerra, mas sim um processo gradual que começou nos círculos intelectuais do século XIX, se intensificou nos anos 20 do século XX, atingiu seu auge nas décadas de 60 e 70 e agora está sendo colhido como ruínas. Esse relativismo moral, que atualmente permeia todos os aspectos, a ideia de que não existem valores universais, que cada indivíduo tem sua própria verdade e que fazer julgamentos é uma forma de agressão, não surgiu do nada. Existe uma linhagem. A morte de Deus, proclamada por Friedrich Nietzsche em 1882, foi apresentada como um diagnóstico, e não como uma celebração, mas seus leitores desatentos a interpretaram dessa forma. Jean-Paul Sartre disse que a existência precede a essência e, portanto, o homem é um projeto, mas não tem uma natureza prévia e, por isso, não possui um critério de avaliação moral que não seja a sua própria escolha. Simone de Beauvoir foi além disso: em 1949, no livro O Segundo Sexo, lançou as bases intelectuais para sustentar a afirmação de que o gênero é uma construção social. Além disso, em 1977, junto a Sartre e outros intelectuais esquerdistas da época, ela apoiou uma petição ao Parlamento francês pedindo a descriminalização da pedofilia. Isto não se trata de calúnia. Isso é um fato documentado, divulgado pelo Le Monde e pelo Libération. Teodor Adorno, um intelectual da Escola de Frankfurt que formulou a Teoria Crítica com a intenção de romper com os valores burgueses do Ocidente, tinha uma relação com a sexualidade infantil que seus biógrafos tratam com muito cuidado. No movimento francês dos anos 70 em favor dos direitos da infância, havia uma ala que, de maneira bastante evidente, combinava a noção de libertação sexual com a aceitação da pedofilia. O intelectual Michel Foucault, que é outra figura de destaque do pensamento pós-moderno no meio acadêmico brasileiro, também produziu manifestos semelhantes nesse mesmo período. Isso não diminui o valor das obras de nenhum deles; suas contribuições continuam a existir e devem ser apreciadas de maneira crítica. Isso destrói por completo a posição de paladinos da moralidade que seus sucessores intelectuais assumem ao tentar silenciar qualquer crítica rotulando como "fascista".

O que o movimento progressista atual faz com os jovens é exatamente isso: declara seu amor por eles com a mão esquerda, mas os vê como um empecilho com a mão direita. Considere a questão do aborto. Um professor que defende o aborto livre de restrições está, na verdade, sugerindo que qualquer uma das crianças à sua frente poderia não existir. O parceiro que poderia ter sido seu, a pessoa capaz de mudar sua vida, o ser humano que viria ao mundo para fazer a diferença, mas que foi eliminado ainda antes de inspirar o primeiro ar, pois a mãe não queria ter aborrecimentos.

Não estou falando de casos extremos, como estupro ou quando a vida da mãe está em perigo; estou me referindo ao aborto como uma opção de estilo de vida, promovido pela esquerda como um marco da libertação feminina. O fundo de tudo isso é um aversão às crianças camuflado de progressismo. A aversão à infância se concretiza de outras formas palpáveis: a Rede Globo, maior canal de TV do Brasil, foi retirando aos poucos, durante os anos 2000 e 2010, sua programação infantil. Programas que incentivavam a criatividade foram substituídos por reality shows e por jornalismo de entretenimento. A criança deixou de ser uma audiência para se transformar em um assunto de discursos de proteção que a defendem de tudo, exceto do verdadeiro abandono que enfrenta.

A Lei Felca, que se refere à legislação brasileira destinada à prevenção e ao combate da exploração sexual de crianças e adolescentes, possui objetivos que ninguém em seu juízo perfeito teria a audácia de questionar. Contudo, a maneira como foi implementado e utilizado, assim como sua extensão, resultou em efeitos colaterais indesejados que aqueles que o apoiaram ou que os ignoram ou que esperam não notar. Um deles aborda a pornografia e um jovem de catorze anos. Aqui é onde a honestidade clínica deve ser colocada à prova, porque a alternativa é a hipocrisia. Um menino de catorze anos tem picos de testosterona que, segundo a fisiologia endócrina elementar, podem ser até trinta vezes mais elevados do que os de um homem adulto esse hormônio atinge seu auge na puberdade masculina, que ocorre entre os doze e os quinze anos, e só se estabiliza no final da adolescência. Esse garoto costuma ser meio desengonçado. Tem espinhas. Não tem o corpo, nem a confiança que terá mais tarde.

É complicado encontrar alguém da sua idade para se relacionar por causa das pressões que a sociedade moderna impõe. Quando se trata do mercado do afeto e do sexo, ele é um produto que raramente enfrenta concorrência, como qualquer pessoa que já passou pela adolescência sabe, dispensando a necessidade de pesquisas. Proíba por lei a pornografia desse garoto, como se isso resolvesse a questão biológica que a lei não pode abolir, e você não elimina o desejo. Você remove a válvula de escape mais inofensiva e revela a suscetibilidade a ameaças muito mais graves. Existem mulheres adultas em posições de autoridade, como professoras, vizinhas e conhecidas, e a pedofilia feminina é frequentemente subnotificada. De acordo com um estudo de 2019 publicado no periódico Sexual Abuse, as mulheres são responsáveis por 20 a 25% dos casos de abuso sexual contra meninos, mas as denúncias são bem menos frequentes, pois a cultura não reconhece facilmente a mulher como uma abusadora. A lei que se apresenta como uma defensora da infância pode, na realidade, estar aumentando a exposição dos meninos ao risco que diz buscar prevenir.

Ao mesmo tempo, as MAPs — Minor Attracted Persons, um termo que certos setores da esquerda progressista dos Estados Unidos começaram a utilizar em referência a pedófilos — foram objeto de defesa em círculos acadêmicos e em relatórios de ONGs de direitos humanos, caracterizadas como uma "orientação sexual" que precisaria de "compreensão" ao invés de punição. Isto não se trata de uma conspiração. Estão publicadas as atas. Atas de reunião. Artigos acadêmicos existem. Há uma profunda hipocrisia em um movimento que, diante da opinião pública, impõe uma lei com o objetivo de proteger as crianças, mas que, nos bastidores, durante seus congressos e em sua produção intelectual, propõe a descriminalização de atos que a legislação atual ainda pune.

A esquerda atual se tornou o novo puritano. É uma afirmação que, à primeira vista, pode soar como um paradoxo, mas que é possível de ser confirmada de maneira irrefutável. A tia católica extremamente severa que eu conheci na minha infância, aquela que bania RPG, filosofia, música "pesada" e qualquer forma de contato com o que fosse diferente, pois acreditava que tudo isso era porta do demônio, era bastante moralista. Era limitada. Estava maçante. Entretanto, ela era intelectualmente honesta consigo mesma: tinha uma teologia, dizia que era a sua e fazia julgamentos com base nela. O progressista atual faz isso, mas sem a sinceridade de reconhecer que é uma teologia. Ele tem uma série de transgressões, como dizer "viado" como piada, questionar o feminismo, criticar o movimento negro, discordar de qualquer ponto da agenda LGBT, e qualquer desvio em relação a essa lista é visto como uma heresia. "Fascista" é o seu verdadeiro inferno. Excomunhão significa anulação. O Twitter é um tribunal inquisitorial. A diferença entre a tia carola e o progressista é que a tia carola não buscava ser uma livre-pensadora. O progressista se apresenta como a encarnação do pensamento livre, enquanto exerce o controle mais rigoroso sobre a narrativa no mercado de ideias contemporâneo.

Eu não fiz isso como um experimento científico formal, mas como observador direto, de forma empírica. No Threads, que nada mais é do que a tentativa do Instagram de imitar o Twitter, mas conseguindo ser o pior dos dois publiquei uma mensagem em que me caracterizava como a personificação do ódio progressista: ruivo, de origem judaica, branco como papel, católico, distributista e monarquista. A resposta foi exatamente como a teoria previa: uma torrente de argumentos rasos, uma ofensa de pronto ao primeiro que não estivesse de acordo, e uma lamentação de "empatia" quando o interlocutor se deu conta de que não tinha nada a oferecer além de slogans.

Não há prazer mais sublime que aniquilar um escravizador de almas em uma discussão da qual ele já se julgava vitorioso antes mesmo de começar.

Embora seja pouco conhecido, o distributismo é a proposta econômica que surgiu da Doutrina Social da Igreja Católica, elaborada entre Leão XIII e Pio XI, no final do século XIX e no início do XX. Rejeita tanto o capitalismo monopolista quanto o socialismo estatal. Defende a ampla disseminação da propriedade dos meios de produção, não como uma socialização, mas promovendo a existência de vários proprietários. Chesterton e Belloc foram os mais proeminentes defensores desse movimento na língua inglesa. No Brasil, isso é quase enigmático, uma vez que a narrativa educacional nos ensinou a acreditar que só existem essas duas alternativas, que os fãs das ciências exatas adoram: capitalismo ou comunismo. A existência de mais de duas opções econômicas foi ocultada, não por uma conspiração, mas pela falta de iniciativa intelectual de um sistema que ignora aquilo que não foi ensinado. Ser monarquista, diferentemente do que se pode imaginar, não é uma simples nostalgia oriunda de romances de folhetins, mas sim uma escolha política que se fundamenta em uma análise cuidadosa da evolução histórica das diferentes formas de governo, assim como da Doutrina Política clássica, que se estende desde os tempos de Aristóteles. Este, em sua obra intitulada Política, já estabelecia uma distinção entre os regimes que são benéficos e aqueles que estão corrompidos, levando em conta quem exerce o governo e para quem ele governa. A verdadeira monarquia, segundo a visão aristotélico-tomista, consiste na gestão dos mais competentes em favor do bem comum. O que se observa, em grande parte do mundo, não é uma democracia verdadeira, mas sim uma oligarquia eletiva que se disfarça de democracia.

Tomás de Aquino representa a culminação de tudo isso. É surpreendente que aqui seja tão pouco conhecido, considerando que o Brasil é um país onde a maior parte da população se declara católica. Entre 1265 e 1274, Santo Tomás de Aquino escreveu a Suma Teológica, a mais ousada tentativa de harmonização entre razão e fé da tradição ocidental. Tomou Aquino como modelo Aristóteles, cujas obras, em sua maior parte traduzidas para o latim medieval a partir de versões árabes, por Averróis, sobre as quais ele erigiu uma edificação filosófica que articula, sem contradições, ontologia, epistemologia, ética, política e teologia natural. Quando me perguntam qual seria a síntese mais ampla do pensamento socrático, platônico e Aristotélico, a minha resposta é Aquino e a tradição católica que o acompanha. Não se trata de uma opinião servil. É uma constatação histórico-filosófica que se pode constatar. O daimon socrático, a voz que fala com ele, o gênio que o orienta, é quase o mesmo que o catolicismo chama de anjo da guarda. Na Grécia, os agathodaimons desempenham um papel que se assemelha ao dos anjos. Os kakodaimons desempenham o mesmo papel que os demônios. Os semideuses exercem uma função semelhante à dos santos e beatos. A língua grega e a teologia cristã se cruzam de uma forma tão exata que não se pode dizer que é uma mera coincidência, pois os primeiros teólogos cristãos foram formados na filosofia grega e fizeram essa mediação de maneira intencional. Quando Pedro e Paulo estiveram em Atenas e encontraram o monumento dedicado ao Deus desconhecido, eles disseram: esse é o Deus da Bíblia. Não era uma questão de proselitismo inoportuno. Era a descoberta de um padrão de pensamento que, antes, havia chegado longe demais para ser apenas uma coincidência.

A juventude está se reencontrando. Isso é dado, não impresso. Um relatório do Pew Research Center, publicado em 2023, sugere que a Geração Z nos Estados Unidos está surpreendendo no que diz respeito à participação religiosa e à adesão a valores tradicionais, em comparação com as previsões baseadas na trajetória dos millennials. Na Europa, países que pareciam estar completamente secularizados, como a Hungria e a Polônia, estão testemunhando um aumento na prática religiosa entre os jovens. No Brasil, as igrejas evangélicas se expandem enormemente, apesar dos numerosos problemas teológicos que possuem, mas também se vê um crescimento discreto e constante de jovens que estão voltando a um catolicismo mais intelectual, ao catolicismo de Santo Tomás de Aquino e de G.K. Chesterton, e não aquele catolicismo ligado a padres cheios de carisma e à novela das sete. A dissolução chegou ao seu auge. Quando tudo se mescla—todas as crenças, todos os princípios éticos, todas as identidades, todos os gêneros, todos os valores—o resultado não é uma nova síntese. É uma desgraça. Quando se mistura tudo em uma tigela, o resultado é algo que ninguém quer. O perfume já chegou. A juventude está vivenciando. A resposta automática de quem vive na imundície é buscar algo com forma, estrutura, resultados e um odor característico.

Os mais velhos se irritam com isso e chamam de fascismo. O fascismo, em sua verdadeira natureza - aquele que Mussolini nomeou e Hitler implementou - era, entre muitas outras características, um projeto de Estado totalitário que controlava a educação, os meios de comunicação, as artes e a narrativa histórica. Pergunta sincera: quem está colocando isso em prática agora? Quem decide o que será ensinado nas escolas públicas? Quem é responsável pelas editoriais da grande mídia? Quem toma as decisões sobre quais projetos de pesquisa receberão financiamento nas universidades? Quem descredencia quem não está de acordo? A resposta não se encontra no jovem que leu as obras de Tomás de Aquino e decidiu se posicionar como distributista e monarquista. A própria ironia ficaria envergonhada de ser o que é, se soubesse disso.

Geração Z derrubou chefes de autoridade. Em 2022, a juventude da Sri Lanka tomou o palácio presidencial e depôs Gotabaya Rajapaksa, em um movimento contra décadas de corrupção entranhada no sistema. No Bangladesh de 2024, estudantes estão à frente de uma resistência que levou à derrubada de Sheikh Hasina, que governava há quinze anos com um regime cada vez mais autoritário. Em vários países africanos, a juventude se opôs a governos que sustentavam a pobreza enquanto as elites se enriqueciam. A direita brasileira, que não consegue lidar com a complexidade, rejeita esses movimentos porque alguns deles apoiam causas de esquerda e se prende a questões menores, ao invés de perceber a totalidade. Qualquer outro sistema de governo é melhor do que um ditador. Qualquer coisa que você precisar. O tirano é o princípio de toda ação humana. A minha família, que faz parte da minha linha de sangue, tem experiência em se esquivar de quem tem o controle absoluto. Não é uma abstração teórica. É uma memória do corpo.

Os quadrinhos me ensinaram isso muito antes de qualquer educador tentar. O Superman, criado em 1938 pelos jovens judeus de Cleveland, Jerry Siegel e Joe Shuster, que testemunharam o avanço do nazismo na Europa, vai muito além de um homem capaz de voar. É a resposta americana para a pergunta: o que acontece quando alguém tem poder total e decide ser bom? O Batman de Frank Miller, do icônico O Cavaleiro das Trevas, de 1986, investiga o que acontece quando a justiça é feita por alguém que aceitou que o sistema não tomará as medidas necessárias. Monstro do Pântano, de Alan Moore, toca em questões como identidade, memória e o que sobra de humano quando tudo que você pensou ser você é tirado. O Doom Patrol de Grant Morrison é a equipe mais surpreendente de pessoas quebradas percebendo que a divisão não é o fim da história. Esses quadrinhos não são um passatempo de nicho. São tidos como mitos contemporâneos. Assim como a tragédia grega moldava o caráter dos atenienses através do simbolismo e do embate moral representado,

O geek entendeu isso. O nerd explorou as profundezas. Liu a HQ e perguntou o que aquilo dizia sobre a natureza humana, sobre o que é o bem, sobre o poder e seus limites. O geek tomou para si a estética, mas sem o conteúdo que a acompanha. Comprou a imagem sem conhecer a narrativa. Quando a cultura progressista resolveu entrar na seara nerd, que era o território dos excluídos, dos diferentes, dos que não se encaixavam nos padrões sociais, foi o geek quem recebeu de braços abertos. Não o fã de tecnologia. O nerd se posicionou, pois tinha bons argumentos para se defender. O nerd se rendeu porque ele não tinha nada além de uma falsa aparência de pertencimento. Daí nasce a atual batalha cultural em meio à cultura pop, onde qualquer personagem masculino que possua características heroicas é considerado "problemático", onde a diversidade na representação se tornou um critério que se sobrepõe à coerência da narrativa, e onde o Superman pode ser retratado como fraco, enquanto um vilão pode ser moralmente ambíguo, desde que a mensagem política esteja alinhada. O jovem que, nos anos 90, fazia bullying na escola e ria do nerd, que se importava apenas com sexo e status, ressurgiu como o ativista cultural dos anos 2020. A mesma ânsia de domínio, uma nova falsa percepção de engano.

O amor ao próximo, conceito que a esquerda usurpou para seus fins e esvaziou de conteúdo, tem uma arquitetura que o sequestro destruiu. No círculo intelectual em que atuo, temos uma visão que o senso comum raramente articula, mas que é filosoficamente sólida: amar o próximo é, antes de tudo, amar a si mesmo. De maneira diferente do que o individualismo narcisista contemporâneo sugere, não é "se cuide antes de cuidar de alguém." Isso se deve ao fato de que você não pode dar o que não tem, e o eu do futuro é tão verdadeiro quanto qualquer outra pessoa que também merece receber compaixão. O Gabriel de treze anos era um indivíduo completamente diferente de quem sou hoje. Se eu não tivesse, em algum momento, sentido uma leve pitada de compaixão por aquele ser que se esforçava para se firmar em um mundo que pouco se importava com suas carências, não teria feito o que fiz para chegar até aqui. A afeição pelo outro que não inclui a si mesmo é uma espécie de masoquismo disfarçado de amor. A criança que cresce sem que ninguém lhe mostre que ela é digna de ser amada tanto por si mesma quanto pelos outros, cresce com suas expectativas minadas, que é a melhor forma de perpetuar a mediocridade.

Sei disso porque vi, de perto, adultos geniais que nunca publicaram nada. Homens de vinte e cinco, trinta anos que possuíam teorias inovadoras, ideias que precisavam ser documentadas e observações que mereciam um debate, mas que acabaram desistindo de tudo porque, na escola, alguém riu deles, porque em casa o pai perguntou "para que isso", e porque o professor deu uma nota baixa para tudo que era diferente do usual. O Einstein de que estou falando não é um ícone de autoajuda que aparece em livros. Einstein teve que esperar bastante até que seus estudos fossem aceitos por periódicos científicos respeitados. Quando Einstein publicou a relatividade especial em 1905, ele tinha apenas vinte e seis anos e trabalhava como examinador de patentes em Berna, uma vez que nenhuma universidade havia lhe oferecido um cargo. Foi recebido com ceticismo e desdém por uma boa parte da comunidade científica tradicional, já estabelecida há muitos anos. Em 1915, a Teoria da Relatividade Geral foi proposta, mas apenas durante o eclipse solar de 1919 ela foi validada através de experimentos, e seu reconhecimento completo como uma teoria crucial levou ainda mais tempo. Newton, a quem Einstein questionou em relação à física clássica, era um pensador que se inclinava mais para a alquimia e a teologia do que os fãs positivistas de Newton estariam dispostos a admitir. Newton dedicou muito mais tempo à teologia e ao Templo de Salomão do que à física. O seu mundo mecânico era, para ele, a prova de um Deus relojoeiro. A ciência que os cientificistas usam para combater a religião foi criada por pessoas que não acreditavam nessa separação absoluta entre ciência e fé. Esses indivíduos foram, na sua maioria, os mais inovadores, aqueles que iam além dos limites do conhecimento aceito e que se opuseram às instituições até serem reconhecidos como figuras ilustres.

A instituição que prepara para o ENEM é o anti-Einstein. É antagônico a Newton. É um sistema que determina o formato da resposta antes mesmo de saber qual é a pergunta, e que pune quem chega a respostas corretas, mas diferentes, porque a abordagem utilizada não estava prevista no gabarito. Odeio com todas as minhas forças e uso a palavra odeio, pois um eufemismo seria desonesto a escola que diz "somos focados no ENEM". O professor que ouve isso transforma sua aula em um momento de pura decoreba. O aluno que questiona a doutrina oficial com uma boa argumentação recebe notas baixas por não ter repetido o esperado. Isso não é como se deve comportar. É uma questão de treinamento. O treinamento produz pets, mas não produz seres humanos livres.

Por outro lado, o método socrático é completamente distinto disso. Sócrates não dava respostas. Ele indagava. Fazia perguntas até que o interlocutor chegasse a um ponto em que o que havia dito anteriormente não se sustentasse mais, forçando-o a reconhecer a própria ignorância ou a criar uma explicação melhor. Isto causa dor. É irritante. É exatamente por isso que Sócrates foi condenado à morte por Atenas. Não por ele ser um revolucionário de maneira panfletária, mas sim porque ele tornava impossível a reconfortante certeza da ignorância complacente. Paulo Freire tomou para si esse conceito de educação dialógica e o deformou: transformou o diálogo em instrumento de conscientização política com respostas já determinadas. O aluno "descobre" a opressão de classe não porque chegou lá por raciocínio livre, mas porque o mediador freiriano conduz a discussão rumo a esse desfecho com a precisão de um roteiro. É a investigação disfarçada de conversa. O que eu faço como professor, como escritor, como debatedor é um Sócrates não político: eu questiono, eu instigo, eu deixo o aluno chegar à própria síntese.

Se ele chegar a uma opinião diferente da minha, discutimos. Se o pensamento dele for mais elevado, eu mudo de opinião. Isso já aconteceu antes. Não é motivo de constrangimento. Isso mostra que a conversa realmente ocorreu.

A criança que conseguir sobreviver a tudo isso - à ausência dos pais, ao condicionamento imposto pelo Estado, ao ódio progressista camuflado de cuidado, à deterioração moral promovida pelos mais velhos e agora lamentada de maneira hipócrita - essa criança irá precisar de algo que nenhuma escola pública fornecerá e que nenhuma lei irá exigir: ela precisará relembrar o que é ser criança. Não estamos falando da criança que passou por trauma e negligência. A criança que ainda não percebeu que sonhar é uma atividade infantil. Aqueles que ainda têm a ideia de que ser astronauta é uma possibilidade, antes que um adulto qualquer venha com uma pitada de realismo. A que ainda tem a brutalidade de dizer o que pensa, sem se importar com o que a honestidade pode custar socialmente. Crescer não significa se livrar dessa criança. É deixá-la mais cortante. É aproveitar toda aquela imensa capacidade de maravilhamento e desejo e moldá-la com a razão, a moral e o autocontrole, não para dominar o espanto, mas sim para torná-lo útil. Um adulto que não se recorda da infância não chegou a crescer. Ele simplesmente amadureceu. Existem enormes diferenças entre as duas situações, que a maior parte das pessoas nunca se deu ao trabalho de perceber, porque isso significaria reconhecer o quanto se rebaixaram ao longo dos anos.

Os velhos que provocaram a dissolução agora exigem que os jovens paguem a conta — com uma velhice atenta, com um respeito automático que nunca tiveram e com uma gratidão filial que nunca mostraram.

Essa conta não será paga por mim. Eu cuido de quem realmente merece. Vejo todos os idosos da mesma forma, sem considerá-los nem superiores nem como fontes automáticas de sabedoria apenas por terem setenta anos e por terem visto mais televisão do que eu. Não há nada mais perigoso do que a visão de mundo de alguém que vive dentro de uma história encerrada há trinta anos e que ainda acredita que ela vale alguma coisa, porque se apresenta com uma autoridade não requisitada e sem ter que explicar nada. A velha tradição, aquela de dois séculos passados, voltada para a leitura e discussão, com uma biblioteca à disposição, conhecedora de Aristóteles sem precisar passar pela universidade, dado que a cultura geral ainda circulava por aí, essa velha tradição merecia o respeito que a herança cultural lhe conferia. Um idoso que tem conhecimento do que foi exibido pelo Jornal Nacional, da trama das oito e do que o BBB revelou sobre a natureza humana, não merece o mesmo respeito. Deve ser tratado da mesma forma que qualquer ser humano, com o respeito que se deve a todo ser humano, ou seja, com a dignidade fundamental, somente isso. A idade não é sinônimo de sabedoria. É fruto do que foi construído com qualidade ao longo do tempo. Se o que se acumulou foi somente amargura, mediocridade e clichês, o calendário não conseguirá salvar.

O mundo está se levantando novamente. Não devemos olhar para o passado, pois ele nunca voltará, e tentar replicá-lo exatamente é uma forma de não entendê-lo. Volta a interrogar o que o passado tratava com mais competência do que o presente: O que é realmente o bem? O que quer dizer ser justo? O que realmente justifica ficar? O que precisa ser destruído? A criança que passa a se questionar assim, não como um exercício de escola, mas como uma atitude diante da vida, tem algo que vale mais do que qualquer diploma. Existe uma bússola. No mundo da desintegração, onde tudo se tornou uma massa indistinta, sem formas definidas ou propósitos, uma bússola é, sem dúvida, o bem mais raro e valioso que existe. Os adultos que já se desligaram da infância também já se esqueceram de como fazer a pergunta certa. Estão indecisos, mas têm convicção sem direção. As crianças que deveriam estar sob sua supervisão muitas vezes conseguem se orientar melhor do que os adultos, não por serem mais inteligentes, mas porque ainda não aprenderam a fingir que o mapa que têm se refere à realidade do território que estão explorando. A inocência infantil é ignorante e não muda. Essa característica que os adultos chamam de ingenuidade e tentam corrigir, muitas vezes é o único laço que permanece com a realidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

ARENDT, Hannah. A crise na educação. In: ______. Entre o Passado e o Futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa. 8. ed. São Paulo: Perspectiva, 2016. cap. 5, p. 221–247.

ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Tradução de Dora Flaksman. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de António de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009.

ARISTÓTELES. Política. Tradução de Mário da Gama Kury. 3. ed. Brasília: Editora UnB, 1997.

AVERRÓIS (IBN RUSHD). A Incoerência da Incoerência. Tradução e introdução de Catarina Belo. Lisboa: Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 2005.

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Tradução de Sérgio Milliet. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. 2 v.

BELLOC, Hilaire. O Estado Servil. Tradução de Leandro Augusto dos Santos Lima. São Paulo: É Realizações, 2010.

CHESTERTON, Gilbert Keith. The Outline of Sanity. London: Methuen, 1926.

CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodoxia. Tradução de Almiro Pisetta. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

COMTE, Auguste. Curso de Filosofia Positiva. Tradução de José Arthur Giannotti e Miguel Lemos. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os Pensadores).

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Relatório Justiça em Números 2021. Brasília: CNJ, 2021. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justica-em-numeros. Acesso em: 2 maio 2026.

FIPEZAP. Relatório FipeZap de Venda Residencial 2023. São Paulo: Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, 2023. Disponível em: https://www.fipe.org.br. Acesso em: 2 maio 2026.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 4. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2017.

FOURASTIÉ, Jean. Les Trente Glorieuses, ou la révolution invisible de 1946 à 1975. Paris: Fayard, 1979.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 50. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2022: resultados preliminares do universo — características da população e dos domicílios. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.

IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua — PNAD Contínua 2019: educação. Rio de Janeiro: IBGE, 2020.

ILLICH, Ivan. Sociedade sem Escolas. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1985.

LEÃO XIII. Rerum Novarum: sobre a condição dos operários. Carta Encíclica de 15 de maio de 1891. São Paulo: Paulinas, 2002.

MILLER, Frank. Batman: o cavaleiro das trevas. Tradução de Jotapê Martins. São Paulo: Panini Books, 2013.

MOORE, Alan; BISSETTE, Stephen; TOTLEBEN, John. Monstro do Pântano: a coisa que o pântano sabia. São Paulo: Panini Books, 2010.

MORRISON, Grant. Doom Patrol: carne estranha. São Paulo: Panini Books, 2017.

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

OECD — ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. How's Life? 2020: measuring well-being. Paris: OECD Publishing, 2020.

PEW RESEARCH CENTER. Scientists and Belief. Washington: Pew Research Center, 2009. Disponível em: https://www.pewresearch.org. Acesso em: 2 maio 2026.

PEW RESEARCH CENTER. Religion Among Gen Z: faith practices and beliefs. Washington: Pew Research Center, 2023. Disponível em: https://www.pewresearch.org. Acesso em: 2 maio 2026.

PIAGET, Jean. A Psicologia da Inteligência. Tradução de Egléa de Abreu. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

PIAGET, Jean. O Desenvolvimento do Raciocínio na Criança. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Record, 1967.

PIO XI. Quadragesimo Anno: sobre a restauração e aperfeiçoamento da ordem social em conformidade com a lei evangélica. Carta Encíclica de 15 de maio de 1931. São Paulo: Paulinas, 2004.

PLATÃO. A República. Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério. Lisboa: Edições 70, 2008.

PLATÃO. Fédon. Tradução de Maria Teresa Schiappa de Azevedo. Lisboa: Edições 70, 2009.

SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. Tradução de João Batista Kreuch. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 23. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.

SIEGEL, Jerry; SHUSTER, Joe. Superman: os primeiros anos — edição histórica. São Paulo: Panini Books, 2013.

TERRY, Karen J. et al. Female-perpetrated sexual abuse: prevalence, characteristics, and the underreporting problem. Sexual Abuse: A Journal of Research and Treatment, Thousand Oaks, v. 31, n. 7, p. 853–875, 2019.

TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Direção de Carlos-Josaphat Pinto de Oliveira. São Paulo: Loyola, 2001–2006. 9 v.

Uma musica de esquerda que agora a satiriza😉: