Teologia da Imaginação do Círculo de Estudos Nous Parte 10: o campo dos possíveis na mente de Deus, o arauto do nada nós somos a esperança que Deus sonhou
"No dia mais claro, na noite mais densa, O mal sucumbirá ante a sagrada presença. Todo aquele que venera o mal há de penar, Quando o poder dos santos do sonhar tiver que enfrentar!
Gabriel G. Oliveira
9/9/202633 min ler


E SE... TODOS OS NOSSOS SONHOS FOSSEM... VERDADE!
Chega um momento, na vida de alguém que refletiu bastante, em que se nota que a questão se alterou sem avisar. A Teologia do Imaginário, ao longo de nove capítulos, explorou a questão de como Deus se revela através da matéria: de que maneira Ele se manifesta na arte, no herói, na verdadeira gnose e na luta espiritual; de que forma o inimigo cria um demiurgo sintético para bloquear os caminhos de contaminação pelos quais a luz teimava em fluir; e como os reinos demoníacos servem como uma paródia de uma corte que, por não receber, acaba não tendo nada a oferecer. Chegamos, na nona porta, ao fim — às peles, à árvore da morte, ao sopro oco dos ossos. Hoje eu opto por realizar outra atividade. Hoje não me deixo cair no abismo: ergo os olhos.
Pois, se a nona parte funcionou como um guia dos locais a evitar, esta décima é a planta de uma residência. Uma residência composta por mil portas, onde cada porta leva a um universo já existente — não com suas delimitações e características geográficas, mas com o tipo de existência que é, de todas, a mais autêntica antes de se tornar a mais tangível. Vou afirmar, e o farei com o realismo tomista que sempre caracterizou este Círculo, uma frase que pode parecer um exagero, mas que é apenas uma consequência lógica: todos os desejos e anseios da humanidade se tornarão viáveis, uma vez que toda a ficção, no âmbito do que é possível, é uma realidade. Não uma verdade criada pela alma. Uma realidade que foi concebida por Deus muito antes que qualquer alma a imaginasse.
Conserve a advertência que inicia e conclui tudo, idêntica àquela da sétima parte, pois sem ela o restante se transforma em heresia: não estabeleço tradições, eu tomo emprestado. Cada termo estrangeiro que surgir neste contexto — Yesod, Malchut, as cascas, a árvore — é a designação que um cartógrafo obtém de um rio de uma nação estrangeira para identificar em seu mapa um curso d'água que já existia e fluía antes de receber qualquer nome. O território representa a metafísica da Igreja Católica. Os nomes de lugares são empréstimos. Quando o empréstimo se confronta com a fé, é sempre a fé que prevalece. Se alguém misturar isso com sincretismo, é porque não compreendeu a primeira frase e não conseguirá entender a última.
Antes de abrir a casa, preciso me lembrar de quem é responsável por trancar as portas. O demiurgo sintético que mencionei na oitava parte, que é o tecnocrático aparato do mundo — finanças, mídia, burocracia internacional, filantropia dirigida, indústria cultural, uma religiosidade de fachada — age, com a coerência de uma única vontade, contra uma única coisa: a sua santificação. Num primeiro instante, ele não deseja sua alma. Pede-lhe que se santifique. Deseja que você se torne uma extensão de si mesmo, associado ao prazer da mesma forma que um dispositivo conectado à tomada, sem conseguir identificar o que é realmente bom, pois foi persuadido de que o conceito de bem é meramente uma opinião — e, em seguida, convencido de que essa opinião lhe pertence.
Isto não é um tratado abstrato. É o aspecto mais evidente de nossa era. Observe como se dá a repressão aos colégios católicos, a imposição de que tudo siga a linha freiriana, quase como se fosse uma metodologia estatal: se você não adota a pedagogia predominante, a consequência é a lei, seguida da pressão e do esforço sistemático para eliminar qualquer referência que se atreva a ensinar com base em uma ordem objetiva. O funcionamento é sempre o mesmo. A cultura que louva a Deus através da imaginação não desmorona por meio de um decreto; ela desmorona quando se começa a relativizar o que é bom e o que é mau, até o ponto em que cada pessoa se torna o juiz das suas próprias definições. Algumas coisas são como flechas cravadas na alma — a lógica, a ética objetiva que dela decorre — e não alteram a direção: o que muda é que a massa começa a girar, atordoada e suscetível à manipulação.
Qual é a força espiritual que impulsiona essa dissolução? É o que a oitava parte designou: a in-gnose, a captura da grande solução, orbitando em torno do eixo do hexagrama da destruição. Duas voltas de chave. Começa a relativizar — nada é definitivo, tudo depende de circunstâncias; e, quando você já se encontra em uma situação de desespero, torna tudo subjetivo — o que é considerado certo se transforma no que você experimenta emocionalmente. Movimentar para liberar; tornar subjetivo para reposicionar o eu no trono desocupado. A alma se enclausura internamente. Este motor pertence a alguém, que a tradição nomeou como Coronzon, o demônio da gnose — a serpente do Éden que John Dee identificou por escrito, o habitante da fenda que se abre no centro da árvore dos ocultistas. Ele não é uma pessoa, mas sim um vazio que abriga todas as formas imagináveis, cada uma delas igualmente insignificante, todas suplicando para se tornar a única. Redescubra a definição da oitava parte com a perspectiva atual e você perceberá que o demiurgo sintético é exatamente essa mesma entidade em uma dimensão global: uma segunda realidade desprovida de sentido, implorando para se tornar a única.
Aqui, no entanto, essa décima parte precisa ajustar um parafuso que a oitava apenas deixava entrever. De que maneira, exatamente, Coronzon impede que a alma perceba a realidade? Não se trata de ele abandonar o raciocínio. É mais delicado e mais severo do que isso: ele muda a perspectiva. Aquele que está tomado pela gnose negativa não observa a realidade com o intelecto direcionado para a própria realidade. Ela observa a realidade com base nas suposições que faz sobre ela. Usa a sua própria fantasia a respeito da realidade como se fosse a própria realidade — e não o entendimento em contato com a realidade, mas a imaginação que ela elaborou sobre a realidade, como um vidro fosco que separa os olhos do mundo. É a narrativa fictícia levantada onde antes havia metafísica. É a pessoa que, ao se deparar com uma questão ideológica, não se questiona mais sobre a natureza daquilo; apenas se questiona se aquilo se encaixa na narrativa que ela já estabeleceu previamente.
Observe a malignidade da operação, pois é ela que cria o hexagrama. A imaginação foi criada para apoiar a razão: inicialmente, algo é observado, em seguida, é imaginado e, por fim, é entendido. O demônio da gnose reverte a ordem. Ele coloca a imaginação em primeiro lugar, dominando todo o resto — a lente antes do olho, o mapa antes do território, a opinião antes do fato. É por isso que o Círculo se opõe a esse tipo de mecanismo na maior parte dos textos que elabora, muitas vezes de forma discreta: evite criar narrativas na sua mente, especialmente sobre os assuntos que mais te impactam. Quando a sua visão imaginativa da realidade se torna mais valiosa do que a própria realidade, você deixou de explorar o mundo e começou a memorizar um reflexo.
Existe uma versão mais tranquila e submissa desse mesmo engano, que é a mais frequente de todas: aquilo que eu costumava denominar, de maneira divertida, mas também com uma pitada de seriedade, de ceticismo católico. É o catolicismo que se transformou em um quase niilismo de sacristia. Deus está bem distante; ocasionalmente, Ele intervém em favor de um pequeno detalhe ou solicitação; no entanto, no fundo, você se encontra livre para navegar pelo mundo. Uma mesa nada mais é do que uma mesa. Uma coisa é, de fato, uma coisa. O anjo da guarda está presente apenas para situações de emergência raras, enquanto a vida do católico minimalista se esvai nesse terreno superficial. Trata-se do irmão do ateu que falece e se transforma em nada — porém, este último morre, vai para o céu, e acredita que ficará entediado lá. Observe a magnitude do erro: o ser humano criou para si um paraíso tão diminuto quanto a monotonia de uma tarde de domingo, uma vez que jamais conseguiu entender o que realmente representa o Sumo Bem.
Aqueles que conseguem atravessar até esta décima porta merecem receber a frase completa, sem qualquer suavização: você não enxerga mais o mundo da mesma forma que antes. Você começou a perceber que Deus está presente em tudo. Não apenas pequenas coisas ou favores insignificantes — tudo. O termo "tudo" abrange até mesmo aquilo que você considerava a mais etérea das irrealidades: o sonho. Deus também faz parte do seu sonho. De uma maneira que preciso esclarecer agora, Ele representa o seu sonho. E é aqui que se inicia a metafísica desta seção, a qual se refere à metafísica dos mundos possíveis.
Vamos retornar ao terreno sólido da sétima parte. A imaginação do homem cria o que pode vir a ser; a imaginação de Deus, ao criar, traz à existência no âmbito metafísico. Segundo Leibniz, na Monadologia, a mente de Deus continha, antes da criação, um número ilimitado de mundos possíveis, e Deus escolheu atualizar o mais excelente desses mundos, sem que os demais deixassem de existir de forma real no plano da inteligência divina, onde continuam a existir como potências puras. Tomás de Aquino expressa essa ideia de maneira mais enfática: no âmbito da ciência da inteligência pura, Deus tem conhecimento não apenas do que está presente na matéria, mas também de todas as essências, das geometrias e dos mundos que Ele é capaz de criar, os quais, porventura, nunca venham a existir durante este ciclo temporal. O "imaginário" de Deus é o próprio Verbo, o Logos: o depósito vivo de todas as formas. Portanto, aos olhos de Deus, uma possibilidade jamais é um vazio infrutífero. Para Ele, toda potencialidade é uma forma de existência — não obrigatoriamente física, mas existencial.
Esta é a chave que desejo entregar. Os universos que concebemos, quando o fazemos de maneira justa, não são meras ilusões da mente. Essas situações já estão contempladas por Deus, aguardando o momento apropriado. Quando o ser humano, em uma gnose adequada — nesse sonho bem estruturado —, se dá conta de fragmentos dessas realidades, ele não cria nada: a sua alma, através do intelecto transcendente que os gregos denominavam de Nous, calibra o rádio e sintoniza os arquivos das possibilidades divinas. Referi-me, de forma emprestada, a esse primeiro céu de Yesod — a faixa-limite onde o físico se encontra com o metafísico, a lua que não emite luz própria, mas através da qual a luz superior desce. É nesse lugar, afirmo, que residem os mundos que podem existir, preservados como em um imenso reservatório etéreo, antes de assumirem uma forma concreta. É lá que reside a nossa imaginação.
Agora eu escuto a questão. Sempre aparece um bom samaritano de má vontade que me corta. Deixarei que ele se manifeste, pois a questão que ele levanta é precisamente a que deve ser feita.
Uma varanda ao cair da noite. Dois amigos, xícara de café gelada sobre a mesa. O primeiro é um cético aguçado; o segundo sou eu.
— Amigo, deixa eu ver se captei corretamente. Você está afirmando que aqueles sonhos que representam as experiências mais sublimes, que elevam o herói ao bom, ao verdadeiro e ao belo — e que por essa razão são considerados sonhos, uma vez que, caso contrário, seriam pesadelos — realmente existem?
— Sim, estou. E você mesmo mencionou a diferença: se fosse realmente vicioso, seria um pesadelo. Sonhar de forma clara é uma coisa; ter um pesadelo é a alma que visualiza o caos e, por essa razão, cria o inferno.
— Então, fale diretamente. O Hulk, o Homem de Ferro, o Batman, o Superman, o Papa-Léguas, o Coyote, o Mickey, a Alice no País das Maravilhas, as princesas da Disney — e até mesmo os monstros de Lovecraft, que emergem dos pesadelos — será que tudo isso existe em um plano metafísico?
— Claro. É exatamente isso. O universo é tão abundante quanto, e ainda mais: todos esses mundos infinitos que poderiam existir estão localizados no reino celestial que, por comparação, se assemelha à mente de Deus. Ali estão todos. Este é o primeiro céu.
— Isso não seria um multiverso, Gabriel? Você não se deixou levar pela física dos ocultistas?
— Não, e essa distinção é crucial para a validade do argumento. A Kabbalah menciona a existência de multiversos, com universos físicos sobrepostos. Eu não faço isso. Na metafísica da Igreja Católica não existe a noção de multiverso: existem planos metafísicos, situações no intelecto divino. Aquele que substitui uma coisa por outra torna-se herege. Não estou acumulando universos de matéria. Estou afirmando que toda possibilidade que pode ser compreendida está, de maneira vibrante, sob o conhecimento de Deus.
Que se registre, pois a censura indolente tentará eliminar isso de sua posição: não digo que Batman seja um ser real residindo em um bairro celestial. Reafirmo o que já foi evidenciado na sétima parte — que o que é possível, para Deus, possui a mesma dignidade que o ser; que a virtude, quando concentrada em um herói, participa, por analogia, do Bem que Deus representa; e que a imaginação elevada não cria a luz, mas funciona como o vitral através do qual a luz transita. O mistério precisa aumentar, e não a confusão. Ao afirmar que "tudo isso existe", quero dizer que existe da mesma forma que as possibilidades existem na mente de quem as considera sem qualquer vestígio de esquecimento — e Deus não se esquece de nada, nem mesmo do menor dos seus possíveis.
E evite o conceito que, à primeira vista, parece inteligente e erudito: a noção de que cada indivíduo teria um mundo possível bom e um mundo possível mau, com metade de luz e metade de escuridão, como se a alma fosse um yin-yang do cosmos. Isso não é teologia da imaginação; é maniqueísmo com elementos de fantasia. Mas nesse caso você teria que reconhecer a existência de um deus benevolente e de um deus maligno, o que o levaria novamente à gnose, aos textos de Nag Hammadi e a toda a confusão que este Círculo tem lutado contra desde o segundo estudo. De maneira alguma. Cada ser tem um único mundo possível, e o que determina seu destino não é uma dualidade de origem, mas sim a direção que toma. Ou o mundo permanece orientado para a Fonte, vivendo em um estado celestial; ou se distancia dela, transformando-se em um verdadeiro inferno.
O inferno não está além da criação; ele é aquilo que se dirige para os limites da criação, aquela borda final, quase fora dela, onde poucas coisas conseguem chegar. O céu faz parte da obra de Deus — obra colossal, quase infinita, por participar tão de perto do seu Autor. Os mundos corrompidos e profanos, habitados por demônios, situam-se na área mais remota que se possa imaginar, nos limites, sempre em direção ao exterior, mas jamais realmente fora. Se estivessem fora, não estariam presentes. Os demônios em si ainda estão ligados a Deus — não são seres autônomos, caso contrário, lhes faltaria a própria existência. Já não são a criatura que conhecemos; são muito menos que isso, na borda da borda. É o que a própria Igreja afirma ao colocar o inferno como a perdição que ocorre nos limites, a autoexclusão levada ao seu ponto mais extremo.
É necessário, então, corrigir uma ideia que a linguagem costuma perpetuar: a de que essa distância é imensa, como se fosse uma região remota do nosso universo físico. De modo algum. O inferno não se mede em anos-luz de distância. É uma distância que causa falta. A antiga metafísica, representada por Agostinho e Tomás, ensina que o mal não é uma substância: não existe uma matéria-prima do terror, um anti-Deus produzindo maldade em uma oficina própria. Existe o ser e a falta do ser onde ele deveria existir. O demônio não é o oposto simétrico do anjo; é um anjo cuja natureza não foi alterada, mas cuja ordem se corrompeu — e, por essa razão, o estrago que ele é capaz de provocar continua sendo extraordinário, assim como um exército que mantém toda a sua artilharia, mas trocou seu objetivo por um delírio. Estar "longe" de Deus, portanto, é estar esvaziado d'Ele, não geograficamente afastado. O distanciamento é de natureza ontológica. Quanto mais um ser se afasta da Fonte, mais profundamente ele se direciona para o nada — e o "fundo" do inferno é a proximidade do nada, aquele congelamento que René Guénon, lendo o esoterismo de Dante, situa no ponto onde o diabo está preso: o frio absoluto de quem beira a inexistência.
Emprego essas imagens — a árvore da morte da cultura judaica, as cascas, os mundos que vão descendo até o nada — da mesma maneira que se utiliza um quadro de pesadelo pendurado na parede de um escritório: para ter presente que o horror possui uma forma, e não para adorar a moldura que o envolve. Não posso deixar de afirmar, de maneira direta, o que já mencionei na sétima parte: o minucioso esquema que identifica esferas demoníacas e estabelece uma hierarquia em uma "árvore da morte" sob a presidência de Lilith não é a Kabbalah dos rabinos nem a tradição católica. Originou-se no ocultismo ocidental do século XX, passando pela Golden Dawn até escritores como Dion Fortune e Kenneth Grant. Apresento a imagem apenas como um símbolo daquilo que a própria fé já proclama de maneira diferente: que há uma ordem que se inverte, um antirreino e uma desordem que deseja levar o mundo à autodestruição. O símbolo é contemporâneo e tirado de empréstimo; a realidade que ele indica é antiga e católica.
A intuição — força ilimitada, chama que gera e destrói — é equitativa; a elaboração. Deus é potência absoluta: segundo a metafísica tomista, Ele é Actus Purus, Ato Puro, desprovido de qualquer potência passiva, o Ipsum Esse Subsistens, o Ser que subsiste por si mesmo. Afirmar que Deus é "pura potência" implica dizer que, em Deus, Ele representa a plenitude concretizada de todo ser dentro dessa teologia. Quando a Escritura se refere a O como fogo — "o Senhor, teu Deus, é um fogo devorador" (Dt 4,24), que é reiterado em Hebreus como "o nosso Deus é um fogo consumidor" (Hb 12,29) —, isso indica que, na Sua presença, nenhuma impureza pode permanecer, pois a Sua glória incinera toda a impureza. É por isso que os limites ardem: não porque exista um forno geográfico no subsolo do cosmos, mas porque, quanto mais uma criatura se aproxima da fronteira do nada, tentando escapar do Ato Puro, mais ela experimenta, como uma chama, a distância em relação àquilo que a tornaria completa. As chamas do inferno representam a expressão do que realmente significa perder, de forma consciente e para sempre, o Fogo que é a Vida.
É precisamente por isso que necessito desenvolver uma ideia aqui, a qual já inclinei anteriormente e que começou a ser ajustada na sétima parte. É sedutor afirmar que, no final dos tempos, quando Cristo lançar Satanás no lago de fogo, o diabo e todos os ímpios simplesmente deixarão de existir — que Deus reabsorveria toda a essência de volta em Si e a consciência dos condenados seria anulada. A intuição que reside aí é sagrada: a vitória do bem sobre o mal é total, o mal não possui nada, o mal não conquista uma eternidade para si, e, no final, apenas os justos herdarão a criação. No entanto, a maneira está incorreta, e a crença é evidente nesse aspecto. O Apocalipse não significa o fim da existência. A Igreja ensina que a alma é eterna e que a condenação é consciente e eterna: não um fim de existência, mas uma autoexclusão eterna da comunhão com Deus. A segunda morte refere-se à morte em seu significado mais literal — a separação final d'Aquele que é a Vida — mesmo que a criatura ainda exista. É ainda pior do que não existir, pois não é superior: trata-se da vida que permanece em um exílio absoluto do Bem que a tornaria plena. O medo não reside na eliminação; ele reside na continuidade do que se afastou de sua verdadeira origem.
O que realmente se extingue, no final das contas? Extingue-se a força do mal, mas não a existência do condenado. O espelho que inverte é quebrado, o abismo é selado, e a Morte juntamente com o Inferno entregam os seus mortos, sendo ambos lançados no lago de fogo (Ap 20,13-14). O mal perde seu domínio, seu futuro e qualquer parte da herança que poderia ter — e essa é a sua real destruição: não cessar de existir, mas permanecer para sempre desprovido de tudo, enquanto os justos recebem tudo. A vitória de Deus é completa exatamente porque não é necessário destruir ninguém para que essa completude exista. Ela triunfa ao deixar o mal exatamente no lugar onde ele desejava estar: nos confins, ao lado do nada que ele optou, eternamente impossibilitado de influenciar a glorificada criação dos filhos.
Chego ao clímax mais vertiginoso e solicito que ninguém o leia rapidamente. Se toda criatura que possui livre-arbítrio é capaz de pensar, e para que haja pensamento é necessário ter um mundo possível, então é correto afirmarar que cada ser racional possui o seu próprio mundo possível — um microcosmos, o universo mental que Deus criou dentro do mundo possível, que é a criação em sua totalidade. O que uma pessoa cria ao longo de sua vida, assim como a orientação que confere à sua alma, molda os eventos de seu mundo interior. Nesse contexto, e apenas nesse, atrevo-me a reiterar as palavras do próprio Cristo: "Eu disse: sois deuses, e todos vós sois filhos do Altíssimo" (Sl 82,6; Jo 10,34). O homem será, por assim dizer, o divino em seu próprio universo — no microcosmo, no mundo da mente.
Que esta frase não seja lida da mesma forma que a serpente leu. A diferença é o limite que separa a crença da heresia, e a sétima parte já o estabeleceu com clareza: não nos tornamos Deus. A doutrina é conhecida como teose ou divinização, e Atanásio a sintetizou da seguinte forma — "Deus se fez homem para que o homem se tornasse deus". Nos ensinamentos dos Padres, tornar-se deus significa, através da graça, tornar-se um companheiro da natureza divina (2Pd 1,4), mas nunca a Divindade em sua essência. O ferro incandescente queima e brilha como o fogo, mas permanece ferro; o fogo é apenas fogo. Ser "o deus do próprio mundo" significa retomar, por meio da participação, o domínio que Adão exercia sobre a criação antes da queda — a herança que a humanidade perdeu e que Cristo se propõe a restituir. É controle sobre a imagem, como um subcriador e um governante coroado. Não se trata de uma divindade. Aqueles que eliminam essa distinção não estão se elevando a Deus; estão reproduzindo o ato de roubo do Éden.
Então, por que Deus confiaria esses mundos às pessoas? Devido ao livre-arbítrio, este é um dos argumentos mais contundentes encontrados em toda a Teologia do Imaginário. Se Deus controlasse minuciosamente todos os aspectos desses mundos, ninguém realmente teria livre-arbítrio — e, consequentemente, as teses mais rigorosas do protestantismo estariam corretas, e o mundo não seria cristão, mas sim gnóstico. Se há um Deus que nega o livre-arbítrio e, por controlar tudo, produz ativamente todo o mal, esse Deus contraria a metafísica de Tomás de Aquino, que descreve o mal como uma privação e não como uma ação positiva do Criador. Um Deus que causasse o mal precisaria, além de si mesmo, de um Deus superior que fosse verdadeiramente bom — e assim retornaríamos à gnose, ao papiro de Nag Hammadi, mergulhando em toda essa confusão. A opção católica é clara: Deus oferece a possibilidade de existência a esses mundos e permite que a criatura, exercendo sua verdadeira liberdade, escolha mantê-los unidos ao bem ou deixá-los se distanciar da Fonte. O mundo possível é um laboratório submetido ao livre-arbítrio. É a partir dessa interconexão entre o macrocosmo — idealizado e sustentado por Deus — e o microcosmo — que a criatura orienta — que emergem as ações humanas: as obras, as decisões e, sem dúvida, até mesmo os milagres, incluindo aqueles relacionados à própria santidade, quando a alma se dispõe de tal forma que a potência divina a permeia sem oferecer qualquer resistência.
É a partir dessa perspectiva que encontramos a resposta para uma questão que provoca sofrimento: por que um homem é condenado ao inferno no juízo? Não se pode afirmar que Deus o condene por mero capricho ou pela aparência que ele apresenta. Aquele homem, enquanto estava vivo, transformou seu próprio mundo interior em um verdadeiro inferno. Esse pequeno mundo já representava o seu próprio inferno — e continua a fazê-lo mesmo após a morte. A responsabilidade pelo afastamento é dele. O réu, em sua essência, não se considera merecedor do paraíso, ou, quando se revela verdadeiramente maligno, chega a afirmar de forma enfática: nega a existência de Deus. "Porque és morno, e não és frio nem quente, vou vomitar-te da minha boca" (Ap 3,16) — esta imagem é bastante severa e refere-se àqueles que são afastados do calor da boa criação, sendo lançados para o vazio que a própria indiferença optou por escolher. À medida que uma alma se deteriora, seu mundo possível se distancia de Deus; e quando essa distância se torna excessiva, ela cai. Aquele mundo que poderia existir se transforma em um verdadeiro inferno — e é para lá que, ao falecer, a alma se dirige: não para flutuar no vazio, mas para habitar aquele mundo interconectado, aquele aglomerado de mundos possíveis, caóticos e devastados, que outras almas também permitiram que caíssem, onde os anjos decaídos, que são as criaturas metafísicas por excelência, transitam livremente.
É exatamente sobre a liberdade que eu preciso estabelecer uma distinção cuidadosa que a pressa frequentemente ignora. Evite afirmar apenas que "no inferno não existe mais livre-arbítrio". A vontade, como capacidade do ser racional, persiste — nenhum ser deixa de possuir vontade. O que se determina de forma irrevogável após a morte é a direção: o condenado não pode mais direcionar-se para o bem, não há mérito, não há mais como elevar a alma, pois a condição tornou-se permanente. Nesse sentido específico — e apenas nesse sentido — ele realmente não tem outra opção. Os demônios, por sua vez, mantêm a agilidade que sua essência angelical lhes confere: são capazes de deixar aquele reino, perambular por qualquer lugar metafísico e tentar os vivos, assim como o próprio diabo, que na narrativa da corte celestial do livro de Jó dialoga com Deus — é importante lembrar que estamos diante de um gênero literário, de uma representação da corte, e não de um projeto arquitetônico do Céu. O demônio representa o poder angélico; a alma humana, nesse contexto, é uma alma diminuta. Esta é a face aterradora da perdição: você permanece aprisionado no mundo possível que se transformou em seu inferno, incapaz de escapar porque Deus não o permite, enquanto uma entidade infinitamente mais poderosa do que você circula livremente por aquele cenário devastado. Lúcifer, Samael em uma linguagem emprestada que neste contexto é meramente um símbolo, é considerado o governante desses mundos corrompidos — não porque a doutrina católica lhe conceda tal título, mas porque a desordem escolhe como seu líder aquele que mais se afundou.
É necessário desfazer mais uma imagem apressada, e eu o faço com as distinções que a sétima parte já solicitava. Cheguei a afirmar que, ao falecer, você mantém o mesmo corpo que possui atualmente. É fundamental organizar isso de acordo com a antropologia cristã, caso contrário, será um caos. Existe a morte do corpo; existe a alma em separação; existe o juízo particular; existe o estado intermediário; existe a ressurreição dos mortos; existe o juízo final; existe a nova criação. No estado intermediário, o que continua a existir não é o corpo físico — que permanece na terra —, mas sim a pessoa, com sua forma, consciência e identidade: um corpo, se preferirmos, da categoria imaginativa, como a alma se manifesta em seu próprio mundo. É verdade que no nada você não boia; mas o corpo glorioso, aquele com o qual herdaremos a criação, é um dom da ressurreição, e a escolástica o caracteriza através de quatro perfeições que Tomás lista — a impassibilidade, que elimina a dor e a morte; a sutileza, o espírito que permeia a matéria assim como o Cristo ressuscitado adentrando por portas fechadas; a agilidade, um corpo que se move tão rapidamente quanto o pensamento; e a claridade, a alma que, em harmonia com Deus, irradia luz através da carne, assim como o rosto transfigurado no Tabor. É este corpo que anseia pelo triunfador — não a simples perpetuação do corpo atual, mas a sua transformação.
Não se deve utilizar os santos apenas como decoração: quando me refiro a esses mundos, estou falando daquilo que os videntes descreveram, e os apresento como uma revelação privada, e não como um dogma. Nos sonhos de Dom Bosco, ele é guiado em passeios por mundos alternativos, passando pelo céu e depois pelo inferno, antes de retornar; por sua vez, Faustina, em seu diário, retrata o primeiro nível da condenação como um estado de ilusão aterrorizante que aprisiona a mente. A cultura secular, de forma inconsciente, explora a mesma temática: os universos fragmentados, alienados e distorcidos das criaturas de Lovecraft, bem como a atmosfera do horror analógico contemporâneo, representam a estética precisa de um mundo desordenado que poderia existir, um microcosmo que caiu dos limites para o vazio. A boa notícia é exatamente o oposto: quando alguém leva uma vida virtuosa e atinge o céu, os aspectos negativos de seu mundo possível são eliminados, purgados, e deixam de existir — não porque a alma seja destruída, mas porque ela se torna equilibrada diante de Deus, e aquilo que nela era impureza se dissolve no fogo purificador.
De que maneira podemos conceber tudo isso sem nos limitar à representação simplista de um edifício de dois andares, onde o inferno se encontra na garagem e o céu no sótão? Recorro, e presumo que o faça, a uma paródia do Castelo Interior de Teresa de Ávila. Visualize uma cebola. No núcleo, no coração, encontra-se Deus. Os céus surgem de dentro para fora; e em uma das camadas intermediárias se encontra o plano terreno, que eu me permito chamar de Malchut, o Reino. Ao se afastar dessa camada, inicia-se uma jornada em direção aos infernos. Antes deles, após nós, existe o purgatório. E, nas camadas externas, encontramos os próprios infernos, até que se alcance a borda onde praticamente nada existe. Observe, contudo, o elemento que impede que essa imagem seja reduzida a simples geometria: a cebola possui, por assim dizer, um tubo que se estende até o núcleo — é através dele que Deus, o próprio infinito, desce ao centro; por essa razão, o miolo é o local onde Ele habita. Teresa menciona o palmito, especialmente a parte central, onde reside a santidade. É a mesma foto. O percurso em direção à santidade é, na verdade, uma jornada para o interior, em direção ao cerne — pois é nesse centro da criação que reside Deus, e a entrada para esse lugar é a própria alma. Aqueles que "sobe" fugindo do próprio interior não ascendem: apenas se distanciam.
Um comentário sobre o purgatório, a fim de que não fique mal caracterizado. Embora sua origem histórica tenha se baseado na concepção judaica de infernos temporários, não se trata de um "inferno temporário". O termo é impróprio, uma vez que não se impõe uma condenação nesse local: lá, a alma passa por um processo de purgação e purificação, antes de seguir para o céu. Você falece, atravessa o purgatório e chega ao céu. É a purificação daqueles que falecem na graça de Deus, mas que ainda necessitam de um lavar — a comunhão dos santos intercedendo pelos mortos, e o fogo, que simboliza tudo aquilo que queima para curar e não para consumir.
E os anjos estão nesta casa? Aqui trago de volta, com correção a mim mesmo, o que já foi ensinado na sétima parte. Convidei os anjos, como emprestados, criadores do universo — dēmiourgós, aquele que molda. Eles são, utilizando a terminologia que Aristóteles deixou e que Tomás denominou, algo semelhante aos motores de menor porte: inteligências que governam as forças da criação. Deus é o autor da existência; o anjo, atuando sob a vontade de Deus, auxilia na definição da forma dessa existência. A cadeira existe porque Deus deseja que ela exista; no entanto, sem a intervenção angélica que mantém as formas a partir do plano metafísico, talvez ela não fosse uma cadeira — poderia ser poeira ou gás. Deus concede a existência; o anjo, como servo, proporciona a forma. É a disparidade entre a essência de algo e a maneira como se apresenta, e é essa mesma diferença que distingue a teologia católica de qualquer forma de adoração à criação. Um provérbio rabínico resume tudo: não existe uma única folha de grama aqui na Terra que não tenha, acima dela, um anjo dizendo "cresce".
Tolkien compreendeu isso como poucos. No início do Silmarillion, em Ainulindalë, os Ainur — os anjos daquele universo — dão forma à realidade de Arda através da entoação da Música que Ilúvatar lhes apresenta; eles não criam do zero, mas sim moldam o tema que receberam do Criador. Entre eles, Melkor tenta desafinar, sobrepor suas próprias melodias, inundar a Música de desarmonia. A resposta de Ilúvatar representa toda a doutrina da Providência: nenhum assunto pode ser abordado sem que tenha nele a sua origem mais profunda, e aquele que tentar mudá-lo irá descobrir que é apenas um instrumento de coisas ainda mais maravilhosas, que ele mesmo nunca poderia ter imaginado. Os demônios são os Melkores de nosso mundo — anjos que abandonaram sua tarefa de moldar a criação para buscar a discórdia em si mesmos. Chamo-los, entre o sério e o brincalhão, de anjos preguiçosos: aqueles que deixaram o reino. Os mundos possíveis assemelham-se a um cacho de uvas; aquelas que apodrecem e caem no chão, distantes do cacho, são destinadas ao inferno — e a causa de sua queda foi o vício, que leva Deus, conforme expressado nas Escrituras, a expulsar da Sua boca a tibieza, permitindo que esta se dirija ao vazio que ela própria escolheu.
Então, aonde vai tudo isso? Apresse-se para o dia em que toda a casa passa a um novo estado. A alquimia espiritual — não a de criar ouro em um caldeirão, mas aquela que os místicos cristãos utilizaram como metáfora para a transformação da alma — retrata a obra em dois atos. Existe a solutio, a dissolução, onde tudo se decompõe, envelhece e se transforma em areia: é o mundo visto como um vale de lágrimas. Há também a coagulação, onde o volátil se transforma em algo sólido e estável, e o disperso adquire uma forma que permanece. Todo esse universo está em processo de dissolução. O Apocalipse representa a Grande Coagulação. João observa um novo céu e uma nova terra, pois o céu original e a terra inicial já não existem mais, e o mar — que representa o caos — não está mais presente (Ap 21,1). O ouro da Cidade é tão claro quanto o vidro (Ap 21,21): é uma matéria tão impregnada de espírito que já não projeta sombras. Os desejos humanos e as virtudes dos santos constituem as pedras preciosas que adornam os fundamentos — antes efêmeros, apenas pensamentos e preces — agora firmemente estabelecidos na essência do novo universo. Os sonhos adquiriram a rigidez e a atemporalidade do diamante. A Cidade é um cubo ideal, semelhante ao Santo dos Santos do Templo: indicando que toda a criação se tornou o local da Presença. Não existe mais um local sagrado no mundo, uma vez que todo o mundo se tornou o lugar onde Deus reside sem qualquer obstáculo.
Aqui é o ponto onde as duas metades da casa se cruzam. O interlocutor retorna, e desta vez sua questão é a mais importante e definitiva: quando Cristo se manifestar e quando a Cidade celestial descer, teremos um contato direto e real com essas entidades dos mundos possíveis? O Hulk, o Iron Man, o Batman, o Pernalonga, o Patolino, o Mickey, o Super Mario — tudo isso vai se materializar, tudo isso vai se tornar real? Responder-te-ei com a única honestidade que me permanece diante do abismo, a mesma que a sétima parte jurou: eu não sei. Não vou substituir esse "não sei" por três páginas de falsa segurança para parecer impressionante, porque um "não sei" honesto é mais forte do que uma certeza inventada.
Vou oferecer uma expectativa, uma expectativa positiva e sensata. No final, esses mundos possíveis não se separam para seus próprios espaços distintos. Isto seria um equívoco. No fim dos tempos, todos os mundos que possam existir se unirãono um só, no real. Tudo será incorporado, ou seja, tudo se tornará tangível, pois todas as leis do universo serão transformadas — um novo céu e uma nova terra, por toda a eternidade, com os seres humanos herdando a criação. Não se trata de que, ao falecer, você se dirija ao seu céu individual e permaneça lá; o que existe, no estado que se segue à morte, é um descanso no seio de Deus, que é o primeiro céu, esse mundo possível no qual a alma possui consciência e aguarda. A consumação representa uma comunhão, não uma solidão: todos os desejos humanos positivos e direcionados, que se encontram em todos esses mundos, se unem, pois Cristo é a solução para todos esses anseios. Cristo é tudo. Cristo representa a perfeição. "Eis que faço novas todas as coisas" (Ap 21,5). O vencedor receberá em herança todas essas coisas, e Deus será o seu Deus, e ele será o seu filho (Ap 21,7). Não faça visitas. Não flutuo entre as nuvens. Legado. A totalidade da realidade que pertence aos justos.
Aqui é preciso fixar um ponto, ou o leitor que não tiver paciência acaba confundindo esperança com heresia. Nada disso justifica a criação de um paraíso na terra por meio da força humana, da política ou de intervenções sociais planejadas. A Igreja condena veementemente o messianismo secular, e é precisamente por essa razão que este ensaio se alinha com o pensamento de Eric Voegelin, que reconheceu nas principais ideologias assassinas da modernidade a mesma patologia espiritual: a tentativa gnóstica de imanentizar o escaton, ou seja, de trazer o fim dos tempos para a história, de fazer acontecer por meio de um decreto aquilo que somente Deus pode realizar em sua plenitude. O Reino não se estabelece através de uma conquista histórica; ele se forma a partir da vitória de Deus sobre a última libertação do mal, e ninguém conhece o dia ou a hora dessa ocorrência (Mt 24,36). Quando menciono a ideia de herdar a criação, refiro-me a um dom escatológico, resultado da obra daquele que está por vir, e não a um plano para o futuro próximo. O santo recebe o céu em seu interior e o emana; o gnóstico deseja estabelecer o céu externamente e, por fim, cria infernos controlados. Não misture os dois conceitos.
A herança, de fato, produz efeitos concretos, e a fé a proclama: os justos ressuscitam com corpos gloriosos, e a matéria, conforme afirma Bento XVI na Spe Salvi, não é eliminada, mas levada a uma nova dimensão, finalmente totalmente guiada pelo Espírito. Os Padres do Deserto viveram essa experiência antecipadamente — indivíduos tão harmoniosos com o Rei que a terra já se submetia a eles. Quando um deles foi questionado sobre o que mais poderia fazer além da regra e do jejum, levantou as mãos, e seus dedos se transformaram em dez tochas ardentes, afirmando: se assim desejas, podes converter-te completamente em chama. É a planta que queima sem se incinerar. É a evidência palpável de que o que parece impossível se torna comum quando a criatura e o Criador colaboram sem resistências. É isso que nos aguarda: não um céu monótono de um católico minimalista, mas um Sábado eterno que é, ao mesmo tempo, descanso e criação, a árvore da vida produzindo doze frutos, uma nova expressão da infinidade de Deus a cada temporada da glória.
Há ainda a mencionar quem, na essência, é o adversário de tudo isso — e qual a razão de seu profundo ódio, mais do que qualquer outra coisa, pela esperança. Se toda a criação é o transbordar do sonho de Deus, então o diabo é, de fato, o mensageiro do nada. Ele não proclama um reino diferente; ele proclama a falta de qualquer reino. Em vez de apresentar um sonho concorrente, propõe a cessação do próprio sonho. Todo o que foi edificado pela Teologia do Imaginário através de dez portas se resume, quando se trata do lado obscuro, a esta única tarefa: fazer com que você deixe de acreditar no sonho, remover de você a esperança, extinguir a pequena chama que ainda brilha — e, uma vez que essa chama seja extinta, provocar a morte. Um indivíduo que não nutre esperança por nada já não possui algo a que se prender, e para o homem que não espera mais nada, a única opção que resta é a morte. É nesse vazio que o adversário busca dominá-lo.
Observe o raciocínio do oponente, que é o mesmo que o acusador no livro de Jó. Ele deseja conduzir a alma ao vazio, a fim de poder testemunhar diante de Deus que, de certa forma, obteve a vitória — que a criatura, abandonada a si mesma e despojada de qualquer esperança, optou pelo nada em vez de se voltar para o Criador. Não formule isto como se fosse uma afirmação sobre a essência da alma; trata-se da aposta do acusador, e não da verdade do ser humano. A alma foi criada para Deus, é capaz de se conectar com Deus, e mesmo em sua condição caída, seu verdadeiro objetivo continua sendo Ele. O que o diabo manipula não é a verdadeira natureza da alma, mas sim a sua ferida, a tendência corrompida que ele incita até que pareça um destino inevitável. A sua tese é uma difamação. Mas é uma difamação que ele passa a eternidade tentando demonstrar, uma alma de cada vez.
É por isso que o desespero é, em termos espirituais, a totalidade da ruína — pois ataca a essência. Eu afirmei, e continuo a defender como a noção mais profunda de toda esta obra, que a origem de toda virtude é a esperança. Sem ela, de onde surgiria a bravura, se nada puder ser aprimorado? Como pode haver temperança se não existe um amanhã para se preservar? De onde surge qualquer início, qualquer crença, qualquer afeto? Remova a esperança, e as virtudes cairão como um lustre sem suporte. O demiurgo está ciente disso e, por essa razão, deseja que você observe sua própria vida e declare "a minha vida não vale a pena", para que, no vazio gerado por essa frase, você possa celebrar a única liturgia que ele disponibiliza: adquirir mais uma trinket e, em seguida, outra, em um dízimo eterno pago ao deus de plástico. E Coronzon está ciente disso e, por esse motivo, preenche a mente com distrações até que a pessoa, confusa em seu próprio labirinto, chegue à conclusão de que não há como escapar.
Aqui preciso caminhar com cautela, levando em consideração a seriedade do tema, pois estou lidando com a dor mais profunda que um ser humano pode suportar. Quando alguém comete suicídio, o que o leva a isso, antes mesmo da morte, é o desespero — a certeza, alimentada e reforçada, de que não há possibilidade de esperança. A doutrina católica considera esse ato como uma questão séria, uma vez que a vida é um presente que não temos o direito de dispor como quisermos. No entanto, é importante enfatizar que essa mesma doutrina ensina que a responsabilidade de uma pessoa pode ser significativamente reduzida em situações de sofrimento, angústia, transtorno ou terror que a impedem de ver claramente. A Igreja não afirma que nenhuma dessas pessoas que faleceram tenha sido condenada. Ela ora por essas almas, entrega-as à misericórdia de Deus e não perde a esperança em sua salvação, pois, por meios que somente Ele conhece, Deus pode proporcionar a oportunidade de um arrependimento benéfico. O que o adversário deseja converter em uma porta fechada, a misericórdia de Deus protege como um mistério que não nos cabe restringir. Esta obra foi integralmente escrita como uma oposição ao desespero — e não ao indivíduo que se encontra em desespero: a reação ao mensageiro do nada é a esperança, e a esperança pertence a alguém, e esse alguém triunfou sobre a morte.
Porque, afinal, a imagem do diabo é a de um niilista. Ele enfrenta Deus e O censura por ter sonhos — menospreza o sonho, zombando da esperança, considera a fantasia uma tolice — sem notar a ironia que o caracteriza: ele próprio é um sonho de Deus. Lúcifer foi, como já foi mencionado, o primeiro tolo, na acepção mais profunda do termo: aquele que se enclausurou em seu próprio eu e repudiou a sinfonia do conjunto. Ele veio a existir porque Deus o imaginou, e utiliza a vida que recebeu como presente para repudiar o Doador. É a criatura acusando o Criador de produzir. É a mensagem que aponta que a Música está cantando.
Esta é a síntese de toda a Teologia do Imaginário, a expressão para a qual as dez portas estavam se dirigindo. Tudo neste lugar é uma criação divina. Todo o universo, o herói e a criança, o mártir e a flor, assim como você e eu — tudo isso é um sonho que Deus teve e amou tanto que decidiu trazê-lo à existência. Entre todas as suas possibilidades, Ele nos concedeu um presente que nos deixa em reverência: a capacidade de sonhar também nos foi dada. Somos sonhos que conseguem sonhar. Somos os anseios de um Deus cheio de misericórdia — e, por conseguinte, somos também a expectativa de um Deus bondoso. O mensageiro do vácuo pretende persuadi-lo de que você é um evento fortuito em direção ao abismo. A realidade é precisamente o oposto: você é um sonho que Deus decidiu continuar sonhando. Enquanto Ele dorme, o vazio não é quem decide tudo.
Referências
Sagrada Escritura
BÍBLIA SAGRADA. Tradução dos originais mediante a versão dos Monges de Maredsous (Bélgica) pelo Centro Bíblico Católico. Edição Claretiana (Bíblia Ave-Maria). São Paulo: Editora Ave-Maria, 2011.
Magistério da Igreja
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Edição típica vaticana. São Paulo: Loyola; Petrópolis: Vozes, 2000.
BENTO XVI. Carta encíclica Spe Salvi: sobre a esperança cristã. São Paulo: Paulinas, 2007.
Patrística, Doutores e mística católica
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2001-2006.
ATANÁSIO DE ALEXANDRIA. A Encarnação do Verbo (De Incarnatione Verbi Dei). São Paulo: Paulus, 2003.
ÁVILA, Teresa de. Castelo Interior ou Moradas. Petrópolis: Vozes, 2010.
Filosofia
CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Tradução de Almiro Pisetta. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.
LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. A Monadologia e outros textos. São Paulo: Hedra, 2009.
VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política. Tradução de José Viegas Filho. 2. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982.
Tradição judaica e esoterismo (examinados crítica e simbolicamente)
GUÉNON, René. L'ésotérisme de Dante. Paris: Gallimard, 1957.
SCHOLEM, Gershom. As Grandes Correntes da Mística Judaica. São Paulo: Perspectiva, 1972.
Literatura
DANTE ALIGHIERI. A Divina Comédia. Tradução de Italo Eugenio Mauro. São Paulo: Editora 34, 1998.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2008.
TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion. Tradução de Ronald Eduard Kyrmse. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2019.
Corpus anterior do Círculo de Estudos Nous
OLIVEIRA, Gabriel Godoi de. Teologia da Imaginação do Círculo de Estudos Nous Parte 4: A Boa Gnose. Círculo de Estudos Nous, 2026. Disponível em: https://www.circulodeestudosnous.com/teologia-da-imaginacao-do-circulo-de-estudos-nous-parte-4-a-boa-gnose. Acesso em: 9 set. 2026.
OLIVEIRA, Gabriel Godoi de. Teologia da Imaginação do Círculo de Estudos Nous Parte 6: E se o Céu for um Sonho que Viesse ao Mundo? Círculo de Estudos Nous, 2026. Disponível em: https://www.circulodeestudosnous.com/teologia-da-imaginacao-do-circulo-de-estudos-nous-parte-6-e-se-o-ceu-for-um-sonho-que-viesse-ao-mundo. Acesso em: 9 set. 2026.
OLIVEIRA, Gabriel Godoi de. Teologia da imaginação do Círculo de Estudos Nous Parte 7: A Inauguração do Selo e a Metafísica do Plano Espiritual. Círculo de Estudos Nous, 2026. Disponível em: https://www.circulodeestudosnous.com/teologia-da-imaginacao-do-circulo-de-estudos-nous-parte-7-a-inauguracao-do-selo-e-a-metafisica-do-plano-espiritual. Acesso em: 9 set. 2026.
OLIVEIRA, Gabriel Godoi de. Demiurgo Sintético Contra os Santos do Sonhar: Teologia da Imaginação do Círculo de Estudos Nous Parte 8. Círculo de Estudos Nous, 2026. Disponível em: https://www.circulodeestudosnous.com/demiurgo-sintetico-contra-os-santos-do-sonhar-teologia-da-imaginacao-do-circulo-de-estudos-nous-parte-8. Acesso em: 9 set. 2026.
OLIVEIRA, Gabriel Godoi de. Teologia da Imaginação do Círculo de Estudos Nous Parte 9: Os Reinos Demoníacos. Círculo de Estudos Nous, 2026. Disponível em: https://www.circulodeestudosnous.com/teologia-da-imaginacao-do-circulo-de-estudos-nous-parte-9-os-reinos-demoniacos. Acesso em: 9 set. 2026.
OLIVEIRA, Gabriel Godoi de. O Ladrão do Amanhã. Círculo de Estudos Nous, 2026. Disponível em: https://www.circulodeestudosnous.com/o-ladrao-do-amanha. Acesso em: 9 set. 2026.



Círculo de Estudos Nous
Explore o site e converse conosco no Instagram, YouTube e facebook:
Contato
Boletim informativo
@ nous_pva
© 2026. Círculo de Estudos Nous. Todos os direitos reservados.
